quarta-feira, 23 de abril de 2014

O DOX, A LINGUAGEM GESTUAL E NÓS

O Dox von Coburg Land (1946-1965), um CPA de origem alemã que foi adestrado como cão-polícia em Turim (Itália), é um ícone e a maior referência entre os Pastores Alemães, apesar da sua história ser desconhecida por muitos dos actuais apaixonados e criadores da raça, não obstante ter sido eleito 13 vezes como melhor cão policial do mundo, resolvido 171 processos penais, capturado e denunciado 153 bandidos, ladrões e assassinos, encontrado 136 pessoas idosas e crianças, operado 46 salvamentos, ter sido ferido 7 vezes e ter ganho 11 medalhas de ouro e 27 de prata, números confirmados oficialmente e depois lavrados na sua estátua para a posteridade. Pelo que foi e pelo que fez, vale a pena relembrá-lo, decorridos quase 50 após a sua morte e diante do fraco préstimo da maioria dos pastores actuais, cuja selecção, ao descurar o impulso ao conhecimento, traiu os propósitos da raça, comprometeu a sua capacidade de aprendizagem e tornou dispensável o seu uso.
Não se pode falar do Dox sem se mencionar a figura do seu treinador, porque se o cão foi excelente, a sua utilidade ficou a dever-se ao aproveitamento e aperfeiçoamento das suas qualidades pelo seu líder, também ele excelente e primeiro responsável pelo destaque binomial, o então Sargento Giovanni Maimone, que terminaria a sua carreira militar no posto de Brigadeiro. De outra forma como poderia “il Gigante” (nome pelo qual o Dox era conhecido pelos mafiosos e demais criminosos), desarmar armas, desmontá-las, remover carregadores e destruir cartuchos, para além de conseguir manter sozinho 12 homens perigosos dentro de um quarto, enquanto o seu companheiro solicitava reforços? É importante referir que naquele tempo não havia a divisão hoje existente entre cães de beleza e trabalho, sendo todos julgados em função dele, contrariamente ao que agora se vê, onde se impingem cães de beleza pró trabalho e se abastardam outros para esse fim. Por onde andarão os descendentes directos das linhas de Deininghauser e de Coburgo, em que mãos estarão e o que fizeram deles? Afortunadamente nós tivemos alguns!
Foi o conhecimento da história do Dox que nos levou a adoptar também a linguagem gestual no nosso método de ensino, o que veio a acontecer nos finais da década de 80 e que se mantém até aos dias de hoje, muito antes do estudo e contributo dos peritos em comunicação não verbal ter chegado até nós, dos quais destacamos o Prof. Albert Mehrabian, um iraniano radicado nos Estados Unidos e hoje professor emérito na Faculdade da Califórnia, que através da célebre equação com o seu nome, concluiu que numa conversa frente a frente, apenas 7% do impacto da mensagem se deve às palavras, 38% às matizes empregues, ao tom de voz e a outros sons e que 55% resultam apenas de gestos e posturas. Acontece que o Dox foi também ensinado assim, mediante a linguagem gestual, porque o seu dono comprou-o e levou-o sem autorização para o quartel da polícia, escondendo-o dentro do seu quarto, passando o cão a maior parte do dia sozinho e comunicando com ele através de gestos, para não serem denunciados. À noite saíam, mas nunca para dentro do campo de treino. Depois de descobertos, Maimone recebeu autorização para ficar com o Dox e pode treiná-lo como cão-polícia, entrando ambos para o serviço e destacando-se como o seu melhor binómio, apesar de penalizado nas provas por falta de “ Hörlaut” (comando verbal). E isto aconteceu 24 anos antes da primeira publicação de Mehrabian! Também recebemos uma dica nas nossas andanças pelas línguas clássicas, ao depararmos com Flávio Josefo (מתתיהו בן יוסף), um judeu historiador e latinista da antiguidade (Sec.I), que a certo ponto escreveu: “ quando os animais deixaram de falar, foi o gesto que permitiu aos homens falar com eles”.
O uso que temos feito da linguagem gestual no adestramento não nos tem isentado do recurso à linguagem verbal, uma vez que as usamos em simultâneo para a celeridade das acções e figuras, já que o mundo do cão é feito de sons e odores. Para além dos aspectos ligados à prontidão das ordens, usamos a linguagem gestual para evitar a tensão de quem ordena e o stress de quem obedece, quando é necessário reforçar a liderança para que o movimento humano atinja a resposta animal pela sincronia entre o gesto e a acção (cumplicidade), transformando a disciplina corporal na arte de ensinar cães, já que qualquer olhar, postura ou tom de voz, alcança mais do que o mais elaborado dos discursos. E porque estamos a falar de capacitação dos condutores, importa que melhorem a fala e que adquiram gestos que não interfiram no normal desenvolvimento pedagógico dos seus cães, condições quase omitidas nos actuais métodos de ensino, prontos a culpabilizar os cães e a descuidar a formação dos seus mestres, em particular quando os resultados ficam aquém das expectativas, como se os animais fossem uns pobres coitados e os donos houvessem sido bafejados pelo infortúnio. Pergunta-se agora: porque é que no passado recente todos os cães aprendiam, hoje o insucesso escolar canino é tão alto e sujeito a delongas?
Tratar da comunicação interespécies, que é disso que também trata o adestramento, é estender aos cães uma linguagem que lhes seja automaticamente perceptível e essa terá que ser a emocional, comunicação que se espraia na mímica, nos gestos e num conjunto de rituais, o que implica em dizer que um treinador de cães, mediante a sua postura corporal, vai adquirindo posturas e mímicas próximas à dos animais que ensina, adquirindo comportamentos que desnudam a sua actividade laboral. Uma vez desenvolvida esta habilidade, ele irá conseguir libertar sentimentos perceptíveis e apreensíveis junto dos animais que educa, acontecendo exactamente o mesmo com os etólogos que intentam comunicar com os lobos, o que não implica no abandono peremptório da linguagem verbal, já que ela é um precioso subsídio educacional quando usada correctamente, desejando-se inclusive que todos os condutores sejam portadores de uma voz poderosa, clara e modelada. Mas como nem todos conseguem alcançá-la, por entraves genéticos, ambientais ou traumáticos, é comum que se deixem vencer pela tensão corporal, advinda do esforço que leva a uma postura contraída e que não esconde as dificuldades da sua inaptidão. Nestas situações, a linguagem gestual tende a consertar aquilo que a voz destrói, surgindo o gesto como complemento da ordem, colocando-a perceptível e de fácil assimilação para os cães.
Através da mímica conseguimos recriar nalguns cães a naturalidade, a calma e o bem-estar que a selecção rácica lhes roubou, incapacidades que hoje muitos lamentam (criadores e proprietários), já que com o gesto estamos a reinventar o rito da comunicação interespécies. Nos cães agressivos a linguagem gestual opera a confusão que leva ao travamento, com o travamento vem a curiosidade e com ela opera-se o desenvolvimento do impulso ao conhecimento. Nos cães medrosos o recurso à mímica gera um sentimento de cumplicidade que carrega alento e os liberta do stress, fazendo-lhes despertar o gosto por aprender.
Ao longo de décadas ensinámos um número considerável de cães surdos, maioritariamente Dálmatas e Dogues Argentinos e nenhum deles ficou por ensinar, muito embora a tarefa não se tenha revelado fácil. Tal só foi possível graças à linguagem gestual. De que outra maneira lhes poderíamos valer nas curtas e médias distâncias? Esganando-os com as correntes dos enforcadores ou transformando-os em comilões inveterados? Importa alertar os condutores caninos para a condução à trela, que deve ser suave e atenta, pois há uma diferença significativa entre a mão que se estende em ajuda e aquela que estrangula, uma vez que não irão laçar lagartixas ou esganar jacarés. Não é fácil ensinar linguagem gestual, já que a sua aquisição não é automática, particularmente quando a maioria das pessoas perdeu há muito a capacidade de comunicar com os animais.
Mas se existe alguma transcendência operativa no adestramento, capaz de melhor aproveitar todo manancial que os cães têm para oferecer, ela resultará certamente da adaptação individual dos condutores, que desafiados para a prática da linguagem gestual, conseguirão melhor comunicar com os seus animais. È importante relembrar que as chaves da conquista amorosa residem nos gestos e nas atitudes, sendo exemplo disso o ritual de acasalamento entre os cães, havendo cadelas que detestam de imediato os cães que lhe são apresentados e cães que se desinteressam das cadelas que lhe são oferecidas para copular, o que vem dar razão a Josefo, Maimone e Mehrabian, e a nós também! Dificilmente sem a linguagem gestual será possível encetar manobras de surpresa bem sucedidas, quando a nossa vida e a do nosso companheiro possam estar em risco.
Foram muitos os binómios que entre nós se destacaram no exercício da linguagem gestual, por isso só manifestaremos alguns, pedindo desde já desculpas àqueles que não mencionámos: A.Crava/Sam, Beatriz/Warrior, G.Gamboa/Cherockee, Isabel/Orca, J.Gabriel/Master, Joana/Flikke, Jorge/Brownie, Maria D./Afonso, Mónica Madeira/Tarzan, Paulo/Alfa, Rui/Red e Sofia F./Zazou. Estes binómios como tantos outros provaram que é possível ensinar um cão em silêncio e desenvolver-lhe aptidões, assim como já havia acontecido entre o Brigadeiro Maimone e o Dox. Muitos deles realizaram façanhas que dificilmente veremos repetidas, factos que nos levam para diante e que dificilmente esqueceremos, agradecendo-lhes desde já a jornada que trilharam connosco. Regressando ao Dox, queremos divulgar uma foto de dum exercício deveras difícil que se tornou fácil para ele e que publicamos a seguir, para matar saudades e para homenagear este excelente cão.
Quantos Dox’s ainda veremos? Dificilmente voltaremos a ver mais algum, como não veremos outros iguais aos nossos: “ Afonso”, “Bibos”, “Brutus”, “Faruk”, “Francês”, “Juby”, “Ken”, “Roger” e “Warrior”, amigos fiéis que suavizaram as nossas vidas e que nos dedicaram as suas, companheiros incondicionais que nos fizeram crescer e de quem sentimos falta. Que pena não se poder ter um cão para toda a vida!

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim escalonado:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
2º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado 05/06/2010
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIFERENTES LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
4º _ O MELHOR E O PIOR DO PASTOR SUIÇO: ANÁLISE TÉCNICO-FUNCIONAL, editado em 21/06/2011
5º _ PRAXES UNIVERSITÁRIAS: A RECRUTA DA PORNOCHACHADA?, editado em 07/02/2014

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim ordenado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º Moçambique, 6º Reino Unido, 7º China, 8º Espanha, 9º França e 10º Coreia do Sul.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

AMIGO, ASSIM NÃO!

Um amigo nosso de longa data, pessoa que apreciamos e amante de cães, farto do peso hierárquico e da mediocridade que ele encobre, decidiu trocar o uniforme por uma vida menos visível e mais sedenta de arte e paixão, a bem da sua realização, enquanto homem, equitador e artista. Como não podia deixar de ser, porque essa é a sua inclinação, vive rodeado de animais, apego que divide com a sua nova companheira. Recentemente adquiriu uma cachorra pastora alemã, reconhecidamente valente, astuta e muito promissora como parceira e guardiã, que apesar da sua tenra idade, tenta impor-se aos dois cães adultos que com ela convivem, num amatilhamento heterogéneo idêntico ao das matilhas de caça grossa do finado El-Rei D. Carlos nos finais do Sec. XIX e alvores do Sec.XX. Um dos cães não lhe oferece resistência, porque é toy, está velho, “traz uma pata às costas”, vive um pouco à parte e foi acometido de leishemaniose. O mesmo não se passa com o outro, um bracóide activo, pujante e com marcas visíveis de amatilhamentos anteriores, que amiudadas vezes a “põe na ordem”, quando esta o incomoda ou intenta liderar as acções, enquanto o nosso amigo trabalha, monta, disserta sobre a energia cósmica, faz os seus esboços ou empreende as suas pinturas.
A submissão imposta pelo braco, facilitada pela diferença de sexo, idade, experiência, peso e robustez, acabará por submeter definitivamente a jovem pastora, operando a sua despromoção social e condicionando todo o seu potencial, já que obrigada a respeitar a dominância do cão mais velho, mais dado à “cavaqueira” do que ao ofício guardião, um excelente anfitrião para quem visita aquela casa, porque se encosta a quem chega e recebe carícias de quem lhas dá. Quando a cachorra atingir a maturidade sexual, se entretanto não for protegida das arremetidas do seu opositor, que por menos dolosas que forem deixam marcas, porque são lições de vida, será finalmente subjugada pela lei natural que sobre eles governa, dificultando ainda mais a sua recuperação e ascensão.
Se o objectivo do nosso amigo, companheiro franco, leal, esforçado, bom ouvinte e interessado, for o de constituir uma matilha animal para seu gozo e para gáudio de quem o visita, então não deverá intervir e deixar as coisas como estão, porque sem grande esforço da sua parte isso acontecerá, já que o braco isso fará sem maiores delongas. Mas se o seu objectivo for o contrário, o de formar uma matilha funcional que lhe guarde a casa, então será obrigado a intervir rapidamente e antes que seja tarde demais, para que a hierarquia animal não comprometa ou obste ao seu desejo. E dissemos isto porque a cachorra tem 3 meses e meio de idade e por norma aos 6 o escalonamento hierárquico já se encontra consolidado (aceite). Assim, deverá dar mais atenção à cachorra, chamá-la mais para si e dedicar-lhe mais tempo, consolidar a relação binomial1, adestrá-la e exercitá-la para o efeito, respeitando as regras relativas à boa instalação doméstica2 e capacitando-a de acordo com o “Quadro de Crescimento Funcional”3. Ela deverá ter um espaço próprio e ser ensinada em separado. Não obstante, deverá brincar com os outros cães para que se sociabilize, ainda que debaixo da supervisão do dono para se evitarem os abusos do cão mais velho. Depois de devidamente aproveitada e capacitada, capaz de se defender, madura e robusta, a cachorra irá ainda ajudar-nos, pelo exemplo, na recuperação do cão mais velho, transformando a outrora matilha animal em funcional.

1. RELAÇÃO CUMPLICE QUE O TRABALHO OFERECE, ADVINDA DE “BINÓMIO”, TERMO ATRIBUÍDO NA CINOTECNIA AO CONJUNTO HOMEM-CÃO. 2. SUMULA DE PROCEDIMENTOS QUE VISA A RECUPERAÇÃO OU POTENCIAÇÃO DO SENTIMENTO TERRITORIAL CANINO. 3. QUADRO DE ATRIBUIÇÕES LABORAIS DE ACORDO COM A IDADE DOS CACHORROS QUE COMPREENDE, PARA ALÉM DA GINÁSTICA, AS 3 DISCIPLINAS CLÁSSICAS DO ADESTRAMENTO (OBEDIÊNCIA PISTAGEM E GUARDA).

RESISTIR ATÉ PARTIR OU CAIR PARA NÃO SOFRER?

No treino de matilhas funcionais constituídas por três ou mais de cães, na ocasião dos seus ataques, os figurantes carecem de frieza ao invés de se deixarem surpreender pela emoção ou pela adrenalina, em abono da sua integridade física e melhor capacitação dos animais. Caso contrário, poderão sair dali seriamente lesionados, o que a ninguém aproveita. Mais vale cair de bruços do que do resistir continuadamente ao ataque de dois ou mais cães sobre o mesmo flanco, particularmente se as arremetidas visaram a mesma perna. Nos casos em que os ataques se distribuem equilibrados sobre os dois flancos e não há como rechaçá-los, depois de oferecer alguma resistência, os figurantes deverão efectuar a usual “queda na máscara”, isto se os seus braços se encontrarem libertos. Sempre que um figurante se encontre exausto, indisposto, em risco ou ferido deve solicitar a cessação dos ataques.
Dentro do mesmo raciocínio e visando a protecção destes auxiliares, exige-se particular atenção a quem comanda as acções ofensivas, já que a capacitação dos animais não justifica o dolo nem a incapacidade temporária ou permanente dos homens transformados em cobaias. Como os figurantes experimentados sabem aproveitar os derrotes provocados pelos cães para as projecções ao solo (para se deixarem cair), é de todo conveniente que os figurantes eventuais sejam nisso instruídos e habilitados.

O DIOGO E A MEL NA PISTA TÁCTICA

O Diogo, proprietário da Mel, uma cachorra Labrador chocolate com seis meses de idade, decidiu iniciá-la nas pistas tácticas, acompanhando-nos numa deslocação ao exterior, onde a introduziu a várias obstáculos elevadores (passerelle, paliçada e bidons), desafios próprios para a sua idade, que a cachorra aceitou de bom grado e que prontamente resolveu com alegria, denotando especial predilecção pela passerelle.
Para além desses obstáculos, a Mel foi ainda convidada para o Extensor de Solo, um aparelho corrector que usamos nas pistas tácticas no aquecimento, para a correcção de aprumos, para a recuperações de lesões ou traumatismos ligeiros e também para avivar a marcha dos cães. Aparelho que veio mesmo a calhar, já que ela sofreu recentemente uma luxação no ombro esquerdo. Bom seria que lá voltasse e que melhor usufruísse dos seus benefícios. De princípio a tarefa não foi fácil, porque a Mel é muito curta de mãos e desloca-se tendencialmente de cabeça baixa mas após algumas repetições lá evoluiu confiante e conforme o desejado.
Os Bidons, porque obrigam a três transposições consecutivas, obrigaram-na a um esforço complementar, tanto pela novidade como pelas suas características, mas que em simultâneo a robusteceram dos pontos de vista psicológico, cognitivo e físico. Com a prática destes obstáculos também se robusteceu a liderança e o quadro experimental deste binómio, tornando-o mais pronto e apto para novos desafios.
A Mel, como muitos cães, não sabia nadar, chapinhando apenas de mãos e entrando em exaustão. Como houve oportunidade, acabámos também por ensiná-la a nadar, tarefa em que fomos ajudados pelo macho-alfa da matilha funcional ali residente, tirando também partido de uma piscina à disposição e de um excelente dia de sol. Feitas as contas, um dia cheio de agradáveis novidades para este binómio!
O Diogo acabou também por contribuir para uma melhor prestação da matilha funcional ao seu redor, prontificando-se como figurante para as suas capturas, tarefa que voluntariamente abraçou e bem cumpriu, o que muito lhe agradecemos. Passam os dias e cresce a saudade, havemos de lá voltar, outros desafios esperam-nos e há muito que aprender!

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ PRAXES UNIVERSITÁRIAS: A RECRUTA DA PORNOCHACHADA?, editado em 07/02/2014
2º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
3º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
4º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado em 05/06/2010
5º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país deu o seguinte resultado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º Canadá, 6º Reino Unido, 7º China, 8º França, 9º Bélgica e 10º Suíça

sábado, 5 de abril de 2014

O GUARDA DAS GALINHAS

Apesar de serem considerados perigosos à luz da lei e de se encontrarem sujeitos às suas penas, ainda continuamos a ouvir relatos sobre cães que atacam toda a sorte de animais (ovelhas, cabras, gatos, coelhos, galinhas, patos, cisnes, aves de ornamentação e daí por diante). E vamos continuar a ouvir se não tivermos o cuidado de os sociabilizar com essas espécies. Se desprezarmos o momento certo para o fazer, a tarefa revelar-se-á mais difícil e poderá não dispensar o castigo que induz à inibição ou a paciente troca de alvos que não dispensa a recompensa, isto se os cães em questão não se encontrarem devidamente treinados. É curioso reparar, por ser caricato e não deixar de ser estranho, que muitos desses ataques são efectuados por cães cuja primeira vocação é o pastoreio, transformando-se assim em pilha-galinhas ou em lobos devoradores. Quando averiguados, descobrimos tratar-se de cães que nunca se familiarizaram com outros animais, por se encontrarem presos ou porque nunca lhes foram apresentados.
A altura certa para se familiarizar um cão com o gado ou com outro tipo de animal doméstico, porque a sociabilização sem o contributo da familiarizarão é forçada, é logo em cachorro, depois de desmamado e autónomo, antes dos 4 meses e pelo convívio diário (quando tal for possível e daí não lhe resulte qualquer risco), altura em que melhor aceita as diferenças pela sua fragilidade e necessidade de integração, vindo posteriormente a considerar esse animais como membros do seu grupo familiar e por consequência a protegê-los. E dizemos antes dos 4 meses porquê, uma vez que os cachorros só a partir daí começam a seguir o seu bando, a segui-lo e a escalonar-se dentro dele? Se o cão for de raça pequena essa familiarização poderá acontecer até aos 6 meses de idade (antes da sua maturidade sexual), mas se for um Serra da Estrela, um Pastor Alemão ou um cão de igual tamanho ou maior, enfrentaremos as dificuldades advindas do seu tamanho e porte, factores que poderão levá-lo a medir forças com os animais ao seu redor e a identificá-los como presas.
É óbvio que o perfil psicológico do cão deve ser considerado. Por vezes, devido ao distanciamento, rotulamos os pastores de ignorantes e rudes, quando na verdade deveríamos aprender com eles e tirar lições da sua experiência, porque bem cedo instalam os seus cães no curral, prendendo com uma corda à cinta os maiores que não criaram e que mais tarde utilizarão, familiarizando-os primeiro e adestrando-os depois, contrariamente ao que acontece nas cidades, onde muitos cães chegam ao treino sem qualquer tipo de sociabilização.
Como se depreende, a familiarização e posterior sociabilização dos cachorros com os outros animais não será automática, porque todos precisam de se habituar uns aos outros, o que não os livrará de algumas pequenas bicadas, marradas ou arranhadelas, lições que aprenderão para a vida e que os farão respeitar e não abusar das outras espécies com quem coabitarão. Mesmo assim e considerando a salvaguarda dos cachorros, no início desse processo pedagógico, a sociabilização a haver não dispensará quer a presença quer a arbitragem dos donos.
Os cachorros destinados a guardar capoeiras ou viveiros de aves, jamais deverão ser alojados dentro desses habitáculos, considerando os riscos para a sua saúde, devendo por isso ser instalados no seu exterior e nas áreas destinadas ao exercício e robustecimento desses animais. Para além dos aspectos ligados á saúde dos cachorros, há que considerar a ocorrência de ovos e pintos, menus muito apreciados pelos cães, que alertados pelo cantar das galinhas e pelo piar dos pintos, bem depressa os deglutirão. Também porque as aves entram em choco e mudam o seu comportamento, tornando-se mais frágeis e apegadas ao ninho, o que as torna mais vulneráveis e apetecíveis, convém deixá-las separadas dos cães, para que não abandonem o ninho e acabem mortas (estraçalhadas).
Inicialmente, a habituação dos cachorros às galinhas deverá acontecer com elas fechadas dentro da capoeira e só depois com elas em liberdade. Quando as aves se encontram à solta não convém ter ração no prato dos cachorros, porque elas tendem a comê-la, atitude que desagrada aos cães e que poderá levar à luta pela sua posse ou protecção, o que desnecessariamente comprometeria de sobremaneira a sociabilização procurada. Os cães guardam as capoeiras por quase dos assaltos perpetrados pelas raposas nas zonas rurais do interior e não por causa dos comuns larápios, mas se o cinto continuar a apertar, o regresso dos “pilha-galinhas” pode acontecer. Se pretende construir uma capoeira e está em Portugal, vamos alertá-lo para um perigo: o popular “saca-rabos”, um mangusto introduzido na Península pelos árabes, cujo nome científico é “Herpestes ichneumon”, que por mão humana saiu do Sul e do Sudoeste e invade agora todo o País, muito embora as doninhas tenham a mesma preferência e produzam idêntico estrago.
O “saca-rabos” é um predador diurno que ao encontrar comida fácil e na ausência de coelhos bravos, está a alterar os seus hábitos de predador, caçando agora também durante a noite. Quando consegue entrar numa capoeira, porque caça em grupo, a “limpeza é geral” e raramente algum coelho ou ave se escapa. O seu número tem vindo a aumentar porque o seu predador natural, o “lince” (Lynx pardinus), se encontra em vias de extinção. Devido à sua morfologia, o “saca-rabos é capaz de entrar pelas malhas das redes mais comuns e passar por debaixo das portas das capoeiras, o mesmo acontecendo com as doninhas (Mustela nivalis), que também caçam à noite e que são ainda mais cilíndricas e mais pequenas (ver foto abaixo).
Diante destes invasores, os cães deverão encontrar-se soltos para lhes dar caça. Por precaução, as capoeiras deverão ter fundações com uma profundidade mínima de 50cm, o seu piso constituído em placa de betão com uma espessura mínima de 25cm, portas metálicas inseridas em caixilho e redes rígidas de quadrados com 1cm de lado. As áreas descobertas das capoeiras deverão também levar rede, para impedir os ataques das aves de rapina (águias, milhares, corvos, mochos e corujas). Para dificultar ainda mais a acção dos pequenos mamíferos predadores, a área circundante à capoeira deverá ser iluminada à noite. Também à noite, nas áreas mais isoladas ou rodeadas de matagais, para reforço da segurança, as redes da capoeira poderão ser protegidas com cercas eléctricas, das vulgarmente usadas para delimitar as áreas do gado bovino, podendo ainda haver lugar à colocação de armadilhas próprias nos acessos à capoeira, que sendo específicas para esses animais, não acarretam qualquer risco para os guardiões.
Nas áreas onde existem gatos é possível que algum caia nas armadilhas, porque eles são caçadores, apanham pássaros, caçam coelhos, matam pintos e também vão aos ovos das galinhas quando têm fome. Como as armadilhas são simples gaiolas de captura, não lhes causam nenhum dano, basta soltá-los e deixá-los ir à sua vida. E se houver algum risco, esse será para quem os irá soltar, porque embravecidos pelo cativeiro forçado e na ânsia de se libertarem, não hesitarão em morder ou arranhar qualquer mão desprevenida, de atacar os olhos ou a cara, causando escoriações incómodas e difíceis de sarar. Os cuidados a haver com os gatos são os mesmos para o saca-rabos e para a doninha. Caso seja vítima do ataque de algum deles, não hesite, dirija-se ao centro de enfermagem mais próximo e solicite a aplicação duma injecção de soro anti-tetânico, caso a sua vacinação contra o tétano não se encontre em dia.
Depois de sociabilizar os cães, há que facilitar e optimizar o seu desempenho. Eis em síntese como melhor sociabilizar um cão de pastoreio, como formar um guarda de capoeiras, quais os invasores que terá pela frente e como ajudá-lo na tarefa. Para proteger um rebanho dos lobos não há nada melhor que um molosso, para guardar capoeiras qualquer bracóide ou vulpino servirá, desde que activo, caçador e convenientemente sociabilizado. Se os ladrões de galinhas retornarem e os javalis incomodarem, então os bracóides terão que ceder lugar aos lupinos ou aos molossos, ainda que os lupinos sejam mais difíceis de sociabilizar com os animais em cativeiro e os molossos sejam mais lentos a escorraçar intrusos, apesar de mais temidos pelos javalis.

DORMIR COM ELES

Os cães dos pastores não se limitam a sair à rua com os donos ou a ir ao treino 3 vezes por semana, porque passam todos os dias com eles, de manhã à noite, sábados e domingos inclusive, e nisso são uns privilegiados quando comparados com os cães urbanos, que apesar de dividirem o mesmo espaço com donos, raramente os vêem e passam os dias entregues a si próprios, porque os seus líderes saem à pressa, precisam de trabalhar e chegam a casa já estafados, necessitando por isso de dormir e descansar, azáfama que os afasta e retarda a cumplicidade entre eles, condenando os animais ao subaproveitamento pelo peso das rotinas e ausência de novos desafios. E como se isto não bastasse, chegadas as férias, a separação ainda é maior, porque alguns cães são recambiados para hotéis feitos “à sua medida”, longe dos donos e entregues a gente que desconhecem, que raramente vêem ou que vêem quando não deveriam, substitutos contratados de quem poderão agradar-se ou não.
Todos sabemos que muitos cães sobrevivem nas cidades debaixo de restrição, tanto em casa como na rua, num regime de imposição que desconsidera o seu viver social e necessidade afectiva, o que por norma contribui para a alteração do seu comportamento e para a aquisição de um sem número de taras, motivadas pelo isolamento, insatisfação, inactividade, ansiedade e stress, implicando também estes numa série de problemas físicos que atentam contra o seu bem-estar e que induzirão ao encurtamento dos seus dias. Com isto, os cães cada vez mais se afastam dos donos, tornam-se para eles desconhecidos e transformam-se num fardo: “lá tenho eu que levar, mais uma vez, este marreta à rua, já me cansa andar a reboque!”. Casa roubada, trancas na porta, quando não dados ou abandonados, alguns destes cães virão pró treino, rotulados de bestas, feras ou de anjos demoníacos, quando na verdade são apenas reflexo das acções e inacções dos seus donos, motivadas pelo desprezo, despreparo, ignorância e indisponibilidade que neles grassam, o que nos leva perguntar: para que quererá tal gente cães?
Os três motivos que mais alunos trazem às escolas caninas são: o andar à trela sem puxar, o deixar de fazer as necessidades em casa e a formação de cães de guarda, geralmente reclamados por donos que não saem à rua com os seus cães, que não os põem a fazer as necessidades depois de comer e que pouco contacto têm com eles, desconhecendo que os cães necessitam da excursão diária, que são naturalmente asseados e que revertem em protecção o carinho que recebem, defendendo o seu grupo porque se identificam com ele e se sentem bem integrados.
Contrariamente aos cães dos pastores, que dividem o tempo útil com eles, os cães citadinos irão obrigar os seus donos à repartição dos seus tempos de lazer e descanso, até porque outros não lhe sobram e por sinal são mais curtos, o que irá implicar numa coabitação mais próxima, porque doutro modo dificilmente se reforçará a liderança, se atingirá a cumplicidade, a autonomia dos animais, a divisão de tarefas e a complementaridade canina. Nenhum cão nasceu para estar só, nem mesmo no tempo em que foi lobo! E se algum ficou só, é porque os outros o obrigaram a isso, sendo escorraçado contra vontade e por meios violentos, a mesma violência que hoje vimos sobre os cães enjaulados em boxes, pendurados à janela, esquecidos em garagens, encerrados nas cozinhas e desterrados para as varandas.
Não precisamos de cair no exagero de dormirmos no chão e o cão dentro da cama ou da dividirmos com ele, mas podemos deixar a sua cama perto do nosso quarto, deixá-lo acompanhar-nos por todas as divisões da casa e seguir os nossos passos, para que sinta que a casa também é sua e que lhe cabe defendê-la, ainda que para isso tenhamos que lhe estabelecer regras para que entenda os seus limites. Esta relação de proximidade que os cães exigem, é o preço que teremos de pagar para os termos e que irá alterar a vida de toda a família, obrigando todos a abdicar de algo a que estavam acostumados, alteração nem sempre considerada na hora de adquirir um cão e que levará alguns a maldizer da sua sorte.
Uma coisa é certa e muitos podem testemunhá-lo: os cães que vivem ou dormem mais perto dos donos são os primeiros a defendê-los! E se isto é verdade, o inverso não deixará de sê-lo. Os nós de corda, os trapos, os churros, as mangas, os fatos de ataque, as protecções ocultas e os figurantes podem ensinar um cão a atacar, mas só apego ao dono o levará a defendê-lo, ainda que por provocação o consigamos, tarefa desnecessária diante da afeição que liga homens e cães. Todo e qualquer cão cresce, robustece-se e desperta para o serviço no calor do aconchego doméstico, mercê do bem-estar social que lhe transmite segurança e lhe permite a ousadia.

O PEQUENO GRANDE SPUTNIK

O Sputnik é o cão do Óscar, um octogenário viúvo, autónomo, amigo, bem disposto e com mão para o petisco, um alentejano de raiz que passou várias décadas em África (Moçambique) e que tem uma predilecção especial por Pastores Alemães. A morte da sua esposa deixou-o tão abalado que por pouco não marchou atrás dela (ainda hoje se emociona quando a relembra). O Sputnik foi-lhe oferecido por um empregado de café que trabalha perto da sua residência, um pequeno rafeiro lobeiro-negro que não excede os 9kg, um companheiro alegre, obediente, brincalhão e veloz como poucos. Foi através deste cãozinho que conhecemos o Óscar, que esquecendo-se do peso dos anos, decidiu treiná-lo entre nós. O bicho herdou o nome do cão que o antecedeu, um Pastor Alemão que o seu dono não esquece e que deixou saudades. Adestrado no meio de Pastores Alemães, o Sputnik veio a revelar-se uma estrela, aprendendo tudo sem dificuldades e com muita alegria, o que mereceu o carinho e a admiração de todos nós.
Actualmente o Óscar não pode treiná-lo, porque foi recentemente operado à coluna, mas continua a aparecer nas aulas acompanhado pelo seu fiel amigo, que sempre acaba conduzido por alguém. Nas redondezas toda a gente conhece o Sputnik e muitos param para o acariciar, porque não faz mal a ninguém, é meigo para as crianças, é pequeno, vivo e alegre, dado à brincadeira com outros cães e exímio a perseguir laranjas (quando lhas jogam).
Graças a ele, o Óscar tem vindo a recuperar a alegria, a melhorar a sua vida social e a fazer novas amizades por todo o lado, o que torna grande este pequeno cão. Felicidades, cumplicidade e longa vida para ambos, são os nossos votos.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim escalonado:
1º _ PRAXES UNIVERSITÁRIAS: A RECRUTA DA PORNOCHACHADA?, editado em 07/02/2014
2º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
3º _ A CASOTA DO CÃO, editado em 29/12/2009
4º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado em 05/06/2010
5º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIFERENTES LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O Top 10 semanal de leitores por país ficou assim ordenado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Canadá, 5º Alemanha, 6º Holanda, 7º Angola, 8º Japão, 9º Moçambique e 10º França

terça-feira, 1 de abril de 2014

FEITOS PARA NÃO SEREM VISTOS

Os Pastores Alemães bicolores foram feitos para não serem vistos, para se camuflarem mais facilmente nos ecossistemas circundantes. A variedade lobeira, que é rica em tons intermédios, disso é exemplo. Os cães lobeiros devido a esse particular, são próprios para as rondas diurnas, para os locais mais claros e são praticamente invisíveis ao lusco-fusco e à noite, para além de mudarem de pelagem de acordo com o relógio biológico, sintonizando a sua cor com as estações do ano. A fotografia acima prova o que acabámos de dizer. Não fora o realce das trelas, o Gigas e a Brownie seriam difíceis de detectar.

OS CACHORROS AZUIS DA PATRÍCIA: FOTOS REVELADORAS

A Patrícia Moreira, uma leitora do nosso Blog, enviou-nos duas fotos relativas a uma ninhada de Pastores Alemães da sua criação, produto da sua pastora negra com um cão preto-afogueado. Dos oito cachorros nascidos, dois nasceram cinzentos (azuis), o que muito a espantou e obrigou a procurar informação, já que desconhecida a existência desta variedade cromática nos Pastores Alemães e por causa disso nos contactou. Durante uma dezena de anos produzimos cães azuis, unicolores e bicolores, chegando a eles pelos beneficiamentos entre negros e lobeiros, ao contrário doutros menos sérios, que se valeram de cães brancos para os alcançar, mesmo em países onde a variedade branca se encontra catalogada como Pastor Suíço. No caso dos cachorros da Patrícia, onde a marosca não entrou, os cães azuis são bicolores e depois da maturidade sexual serão de cor sensivelmente igual aos dos comuns lobeiros, diferindo deles apenas no tom de cinzento sobre o dorso, podendo gerar depois cães totalmente azuis quando beneficiados com negros recessivos em lobeiro. Estes cachorrinhos, que têm agora os olhos azuis ou verdes, por volta dos 4 meses mudarão a sua cor para castanho claro ou a castanho esverdeado. Ainda que não esperasse e não soubesse, a Patrícia acabou por descobrir aquilo que os livros dizem, que a raça evoluiu das variedades unicolores para as bicolores. E porque importa educar a vista para melhor compreender, iremos servir-nos das fotos enviadas, porque são reveladoras, para descobrir alguns segredos relativos à genética e ao futuro dos cachorros, que normalmente escapam aos menos conhecedores.
Comecemos pelas cabeças. Os “stops” não são homogéneos (a angulação entre o focinho e o crânio), havendo cachorros com maior angulação do que outros, que virão a ter uma cabeça maior e mais ossatura em adultos, o que prova a divergência de linhas dos seus progenitores e o peso da variedade negra. Dum modo geral a implantação das orelhas dos cachorrinhos é alta, porque a sua base se situa acima da linha da pálpebra superior, o que facilitará a erecção das orelhas sem maior problema. A sua máscara manter-se-á por mais tempo do que a visível nos pastores actuais (muitos deles perdem-na antes dos dois anos de idade). Se o preto lhes garante a perpetuação da máscara, o preto-afogueado que lhes serviu de progenitor fará com que a cor afogueada cresça rapidamente, facto por demais visível na coloração dos peitos. Pelo que nos é dado a observar, pela configuração dos focinhos, que não dispensa a certificação, não se evidenciam prognatismos. Todos os exemplares apresentam, como é desejável, o chanfro nasal abatido. A existência de dois tons de afogueado na ninhada denuncia a presença de lobeiro nos dois progenitores, já que essa variedade cromática tende a diluir todas as cores, exceptuando a red sable. Pela altura dos metacarpos antevêem-se indivíduos médio-grandes e alguns francamente grandes, considerando o tamanho e a idade dos cachorros. As suas mãos são de um “pé de lebre” pouco pronunciado, porque os dois dedos centrais são pouco destacados em relação aos laterais, o que indicia a presença de membranas interdigitais redondas e mais chegadas à frente, anatomia ligada à proto-selecção e que os capacitará para iguais prestações em diferentes tipos de piso. A presença de riscos negros sobre os dedos, que neste caso acabarão por desaparecer, demonstra a sua ascendência na variedade negra, que como se sabe é recessiva. A ninhada da Patrícia juntou o antigo ao moderno. Oxalá essa lufada de saúde se estenda às articulações dos cachorros, porque seguros são eles e se o são, serão fáceis de ensinar, porque doutro modo jamais ficariam todos sossegados em cima do armário.

PAU PARA TODA A COLHER

Portugal encontra-se nos três primeiros lugares na prevalência de doenças mentais a nível mundial, sendo o país que mais consome anti-depressivos na UE. À primeira vista dir-se-ia que tal se deve à grave crise que atravessamos, o que de todo não é verdade, ainda que a austeridade forçada possa vir a aumentar o número de casos. Mais do que a razão económica, pesa o montante de idosos que temos, muitos deles a braços com a distimia, mercê de causas genéticas ou sociais ou da sua combinação. A política de reformas antecipadas também não tem ajudado e a falta de parâmetros familiares muito menos. No adestramento cresce o número de indivíduos ansiosos, depressivos, esquizofrénicos, bipolares e obsessivos compulsivos, alguns com ataques de pânico e outros a braços com a paramnésia, patologias que não respeitam sexo, idade, condição social ou estado civil. E, como se costuma dizer, quando a mente não está bem o corpo é que paga, sobrando daí obesidade, bulimia, ausência de vigor, fadiga, apatia e todo um conjunto de incapacidades que obstam ao prazer de ensinar um cão, o que obrigará a um maior cuidado com os indivíduos para a formação colectiva das classes, porquanto se encontram doentes e importa recuperá-los.
Hoje como nunca, pedagogos, sociólogos, psicólogos e psiquiatras aconselham a cinoterapia para o equilíbrio emocional e social de jovens, adultos e idosos, levando-os à aquisição de um cão ou a tomar contacto com um ou mais em sessões com esse propósito, o que irá obrigar à coabitação de diferentes metas e objectivos binomiais dentro das mesmas classes, considerando quer o proveito quer o rendimento dos cães, o que não sendo uma tarefa fácil é inescusável, diante dos propósitos das diferentes lideranças, já que a sua separação menos serviria aos indivíduos carenciados da cinoterapia, pela ausência do exemplo que incentiva e serve de estímulo. Pondo de parte os “condutores-pacientes” e olhando com mais cuidado para os comuns, sem grande dificuldade, ainda que com menor intensidade, deparamos com as mesmas necessidades, muitas vezes inconfessas mas nem por isso menos visíveis. Para além desta “automedicação”, que neste caso é saudável e não acarreta graves contra-indicações, somos também obrigados a considerar os propósitos de alguns pais, que vendo os seus filhos na puberdade e temendo pelo adiantamento da sua maturidade sexual em relação à emocional, optam por regrá-los e integrá-los nas classes de adestramento. Tudo isto somado, chega-se à conclusão que o treino canino cada vez mais se afasta do seu fim útil (o adestramento dos cães) e melhor serve a recuperação e o bem-estar dos donos, sobrepondo-se a terapia ao trabalho objectivo.
Não podemos dizer que se trata de uma novidade, porque sempre assim aconteceu, muito embora o seu peso tenha sido substancialmente menor nas décadas anteriores. O que terá contribuído para a mudança, para a transformação do trabalho em terapia no adestramento? Que diferença prestativa haverá, se a há, entre os jovens nascidos nas décadas de 60 e 70 e os das décadas seguintes? Como é óbvio não se pode dissociar desta análise as profundas alterações políticas e sociais produzidas pela “Revolução dos Cravos”, que ao instalar a democracia revolucionou o modo de estar da maioria dos portugueses, revogando conceitos e instalando novos ideais. Os jovens nascidos nas décadas de 60 e 70, foram ainda criados e ensinados debaixo do estigma do “Deus, Pátria e Autoridade”, valores transmitidos pelos seus pais, advindos de uma sociedade maioritariamente rural, pretensamente beata e ordeira, que divinizava o trabalho, abstinha-se de opinião e que induzia os indivíduos à perca dos seus direitos individuais em função do esforço colectivo. Já os nascidos depois delas, poupados que foram aos esforços de outrora, tornados citadinos pela migração do interior para o litoral, foram criados e educados de modo diferente, debaixo de abastança, melhor protegidos, com outros direitos, mais regalias e outras oportunidades, ao abrigo do direito à diferença e mais ciosos de si próprios, o que levou alguns ao abandono de Deus, à desconsideração da Pátria, ao desrespeito pela autoridade, a uma emancipação tardia e em certos casos ao desprezo pelo trabalho.
Entre outras mudanças, esta divergência ou antagonismo de parâmetros, que alguns tratam como “ausência”, levaram-nos a alterar os planos de aula. As aulas para os alunos da década de 90 eram essencialmente práticas e as das décadas posteriores obrigaram a um reforço teórico, porque estes indivíduos haviam perdido o contacto mais próximo com os animais, tinham menor disponibilidade física e exigiam maiores explicações, o que apesar de trabalhoso não deixou de ser positivo diante dos resultados obtidos e nem escondeu a chegada avassaladora de condutores femininos. O incremento à prática da cinoterapia deve tanto à fortuna quanto à miséria, porque acontece nas sociedades mais ricas, onde o reconfortante contacto com a natureza e com os animais é cada vez mais difícil. As camadas mais jovens da nossa sociedade, enclausuradas nas cidades, acabam por reflectir as mazelas do seu viver social, fortemente impessoal, drasticamente isolado, inibidor dos seus afectos e fomentador de um sem número de taras, impropriedades que acabarão também por se revelar no adestramento e que convém suavizar, porque doutro modo o treino canino mais agravará à sua alienação. Há que ter esse cuidado!
O aumento inesperado da cinoterapia entre nós tem resultado de condicionantes políticas e sociais que atentam contra a família, cada vez mais acossada, fragilizada, desmembrada e adulterada, quase incapaz de dialogar, funcionar e de valer aos seus, enquanto suporte nuclear da sociedade. Ainda que subsistam desequilíbrios de origem genética ou traumática, é da instabilidade familiar que provém o seu maior número. À falta de melhor, valha-nos o cão, que desconhecendo ser terapeuta, “é pau para toda a colher”!