terça-feira, 1 de abril de 2014

RESPOSTA À ESPERANÇA DE TORGA NOS ALICERCES

"Como um clínico que assiste impotente à agonia de um moribundo, a sentir-lhe o pulso apagar-se lentamente debaixo do polegar aflito, assim eu acompanho há anos a progressiva degradação desta terra, que preservou séculos a fio, inalteráveis, sacrossantos valores humanos e sociais, e hoje quase só pode garantir, a quem a visita, a pureza e autenticidade do ar que respira e da água que bebe. Tudo o mais se abastardou. O carácter das construções e dos trajes, a sobriedade da alimentação, o tipismo das falas, as práticas agro-pastoris. Foi aqui, em Vilarinho da Furna e em Rio de Onor que vi pela primeira vez ao natural criaturas de Deus na sua plenitude livre e solidária. E – já que Vilarinho da Furna desapareceu do mapa, engolida por uma albufeira – é em Rio de Onor e Castro Laboreiro que o meu comunitarismo impenitente mergulha as raízes. Teimo, portanto, nestas visitas, mesmo que de progressivo desencanto. Tenho como verdade de fé que o homem há-de acabar por reagir contra a massificação planetária em que vai embarcado. A razão e o instinto hão-de acabar por dizer-lhe que todas as flores artificiais do mundo plástico não valem um lírio dos campos, que todas as químicas laboratoriais não valem a fermentação de um carro de estrume, que todos os apitos imperativos do progresso não valem o som cordial de um chocalho. Nessa hora redentora, que não deve tardar – e, quanto mais tardar, pior -, estes santuários serão redescobertos, reconstruídos e dignificados. De aí que eu sofra mas não desanime a vê-los desmoronar. A minha esperança está nos alicerces…” (Miguel Torga in Diários XIII, Castro Laboreiro, Julho 1976)
Depois de reler este trecho de Miguel Torga, tocado pelos sentimentos que desperta, decidi responder-lhe, afronta louca perante a grandeza desse vulto, a quem em vida seria incapaz de dirigir palavra, por me sentir ignorante, pequeno e insignificante. Não obstante aqui vai:
Amigo, de Castro Laboreiro só sobra o silvo do vento pelas encostas rumo às velhas muralhas tombadas, escasso povo envelhecido, casas modernas fechadas e os cães, hoje bem diferentes daqueles que o padre por lá criava. Os lobos nem sempre aparecem. Rio de Onor, menos frio e sempre à sombra da serra, está a dar as últimas, a cair como algumas casas no centro da aldeia, já não há noivos a quem fazer casa, força para atrelar o gado e até a “vara da justiça”1 desapareceu (dizem que foi vendida para Lisboa). O Rio Onor de Castilla (da Contensa para nós), apesar de correr como sempre, já não tem peixes, as ovelhas não mudaram, continuam magras e nas lojas, não tão magras como as suas septuagenárias proprietárias, cuja pele enrugada lembra xisto quebradiço após um nevão. Praticamente não se vêem crianças nem moços, tanto no lugar de acima como no de abaixo, a aldeia lembra um cemitério maior do que ela tem. A velha igreja continua lá e o Café Preto ainda resiste, perto da ponte, de assentos austeros e com meio dúzia de lugares cativos, onde ocasionalmente e entre os dentes, ainda se ouve o rionorês2. Com a comunidade moribunda, Rio de Onor é uma lembrança para os seu filhos e um fascínio para os turistas, uns sabem como foi e os outros imaginam como seria, após a preservação de que foi alvo.
Na Primavera e no Outono, já ninguém sobe a serra de saca às costas na procura de plantas, raízes e bagas para chás, nem tampouco dos míscaros3 e da torga4, porque a serra exige pernas e não se compadece dos fracos. O contrabando acabou, a emigração separou e a solidão baixou sobre os habitantes que ficaram, porque a maioria dos filhos não voltou e os netos não dão notícia, transformando esta última e esvaziada comunidade serrana num reduto “hamish”5 ou numa “Shangri-la”6 para os forasteiros, urbe exausta que procura gente franca, identidade, fraternidade, comunhão, hábitos simples, ingenuidade e pureza, valores e referências que há muito subestimou e dos quais agora sente falta. Pelo Caminho de Sanábria e daí por diante, direito a Bragança e daí para o Sul, os transmontanos do “al lugar”7 partiram para o Mundo e espalharam-se por toda a parte, tornaram-se louros e ganharam olhos azuis, adquiriram cor e cabelo encrespado, levando consigo, ontem como hoje, a única bandeira que desfraldam: a da fraternidade, porque são avessos a diferenças, nacionalidades e fronteiras.
Desculpe-me Sr. Dr., se me está a ouvir do alto lugar onde julgo que esteja, mas mais do que nos alicerces, eu acredito nos rebentos destes serranos, herança dispersa de gente livre que a montanha algures temperou, plebe capaz de procurar, lutar e viver pela igualdade entre os homens. Rio de Onor não se confina a um espaço geográfico (41º 56’ 00’’ N, 62º 37’ 00’’W), porque no coração de cada um há lugar para uma terra assim. A aldeia poderá quedar-se num museu mas continuará para sempre viva na alma dos seus descendentes, mesmo daqueles que nunca a viram e nem sonham que dela vieram, o que não é o meu caso. Para que servirão os alicerces se em cima deles nada se construir? Porque tanto se fala de Afonso Henriques e quase ninguém de D. Garcia8, 1º Rei de Portugal e da Galiza? Não faltarão outras “Rio de Onor” e quiçá alcançaremos uma maior e bem melhor no dia em que todos os homens se considerarem iguais. A actual, enquanto genuína aldeia comunitária, mostrou essa possibilidade, outros a perpetuarão e a farão universal. Ela não nasceu para santuário, só a saudade a verá assim e se tem algo de sacrossanto, é porque a mão de Deus ali assentou, permitindo aos seus filhos viverem em liberdade, singeleza e comunhão de vida, beneplácitos que estende a todos os homens em qualquer lugar. Considerações à parte, vale a pena ir a Rio de Onor, mergulhar no Portugal profundo e redescobrir as nossas origens, porque naquele lugar intemporal de casas de pedra, ombreiras de castanho bravo e telhados de xisto sentimo-nos de volta a casa, retemperamos as forças e confiantes seguimos para diante. Longa vida para Rio de Onor e para as suas congéneres espalhadas pelo mundo fora, quer se situem nos Alpes, nos Andes, no Tibete ou junto ao Kilimanjaro9.

1 – CAJADO QUE MANDATAVA UM ANCIÃO PARA O JUIZO DAS QUERELAS POPULARES. 2 – DIALETO DE RIO DE ONOR DE ORIGEM ASTURO-LEONESA, LIGEIRAMENTE DIFERENTE DO MIRANDÊS. 3 – COGUMELOS. 4 – NOME ATRIBUÍDO À URZE PELOS TRANSMONTANOS. 5 – COMUNIDADES SEPARATISTAS, ANABAPTISTAS E PURITANAS NORTE-AMERICANAS, DE VIVER SIMPLES E REGRAS AUSTERAS. 6 – HIPOTÉTICO LUGAR PARADISÍACO RESULTANTE DA CRIAÇÃO LITERÁRIA DO INGLÊS JAMES HILTON EM 1925. 7 - NOME QUE OS HABITANTES DE RIO DE ONOR ATRIBUEM À SUA ALDEIA. 8 - FILHO DE FERNANDO MAGNO DE LEÃO E CASTELA, A QUEM POR HERANÇA FOI DADO O TERRITÓRIO DA GALIZA ATÉ LISBOA. APRISIONADO PELO SEU IRMÃO SANCHO, MORREU SEM DEIXAR DESCENDÊNCIA. 9 – MONTE TANZANIANO QUE É O PONTO MAIS ALTO DE ÁFRICA.

RESPUESTA A LA ESPERANZA DE TORGA EN LOS CIMIENTOS (ALICERCES)

“Como un clínico que asiste impotente a la agonía de un moribundo, al sentirle apagarse el pulso lentamente debajo de su pulgar, así acompaño hace años la progresiva degradación de esta tierra, que preservó durante muchos siglos, inalterables, sacrosantos valores humanos y sociales, y hoy casi solo puede garantizar, a quien la visita, la pureza y autenticidad del aire que respira y del agua que bebe. Todo lo demás ha sido bastardeado. El carácter de las construcciones y de los trajes, la sobriedad de la alimentación, el tipismo de las lenguas, las prácticas agro-pastorales. Ha sido aquí, en Vilarinho da Furna y en Rio de Onor que he visto por primera vez al natural criaturas de Dios en su plenitud libre y solidaria. Y –ya que Vilarinho da Furna desapareció del mapa, tragado por una albufera (laguna)- es en Rio de Onor y Castro Laboreiro que mi comunitario impenitente sumerge las raíces. Mi temor, entonces,  en estas visitas, incluso un progresivo desencanto. Tengo como verdad de fe que el hombre acabará por reaccionar contra la masificación del planeta en el que está embarcado. La razón y el instinto terminaran diciéndole  que todas las flores artificiales del mundo plástico no valen un lirio de los campos, que todas las químicas de laboratorio no valen la fermentación de un carruaje de estiércol, que todos los silbidos imperativos del progreso no valen el sonido cordial de un cencerro. En esa hora redentora, que no debe tardar – y, cuanto más tardar peor -, estos santuarios se volverán a descubrir, reconstruidos y dignificados. De ahí que sufra pero no desanime al verlos desplomarse. Mi esperanza está en sus cimientos…” (Miguel Torga in Diários XIII, Castro Laboreiro, Julio 1976)
Después de volver a leer este fragmento de Miguel Torga, influenciado por los sentimientos que despierta, he decidido responderle, enfrentamiento loco ante tal grandeza, a quien en vida sería incapaz de dirigir palabra, por sentirme ignorante, pequeño e insignificante, Sin embargo, aquí va:
Amigo, de Castro Laboreiro solamente queda el silbido del viento por las laderas rumbo a las viejas murallas caídas, escaso pueblo envejecido, casas modernas cerradas y los perros, actualmente distintos de aquellos que el sacerdote por allí criaba. Los lobos ni siempre aparecen. Rio de Onor, menos frio y siempre a la sombra de la sierra, está en las últimas, decaída como algunas casas en el centro de la aldea, ya no hay novios para quienes construir casas, fuerza para sujetar el ganado y hasta la vara da justiça[1] ha desaparecido (se comenta que ha sido vendida a Lisboa). Rio Onor de Castilla (Contensa para nosotros), aunque discurre como siempre, ya no tiene peces, las ovejas no han cambiado, siguen delgadas y en las tiendas, no tan delgadas como sus septuagenarias propietarias, cuya piel arrugada hace recordar a la pizarra quebradiza después de una gran nevada. Prácticamente no se ven niños ni jóvenes, ni en el sitio de arriba ni en el de abajo, la aldea recuerda a un cementerio mayor que el que ya tiene. La vieja iglesia sigue allí y el Café Preto todavía resiste, cerca del puente, todavía podemos escuchar el rionorês[2]. Con su comunidad moribunda, Rio de Onor es un recuerdo para sus hijos y una atracción para los turistas, unos saben cómo fue y los otros se imaginan como sería, después de la preservación llevada a cabo.


[1] Bastón que acreditaba un anciano para juzgar querellas populares.
[2] Dialecto de Rio de Onor de origen asturleonés, un poco diferente del mirandés.
En primavera y en otoño, ya nadie sube la sierra de saco a la espalda buscando plantas, raíces y bayas para té, ni tampoco de míscaros[1] y torga[2], ya que la sierra exige piernas y no se compadece de los más débiles. El contrabando terminó, la emigración distanció y la soledad bajo sobre los habitantes que se quedaron, porque la mayoría de los hijos no regresó y los nietos no dan noticias, transformando esta última y evacuada comunidad serrana en un reducto hamish[3] o en una Shangri-la[4] para los forasteros, urbe exhausta que busca gente franca, identidad, fraternidad, comunión, hábitos sencillos, ingenuidad y pureza, valores que antes despreció y ahora siente falta. Por el camino de Sanabria, siguiendo por Bragança y hacia el sur, los transmontanos de al lugar[5] se hicieron al mundo y se extendieron por todas partes, convirtiéndose en rubios y ganando ojos azules, adquirieron color y pelo rizado, llevando consigo, ayer como hoy, la única bandera que dejan: la de la fraternidad, porque se oponen a diferencias, nacionalidades y fronteras.


[1] Champiñón.
[2] Nombre atribuido al brezal por los transmontanos.
[3] Comunidades separatistas, anabaptistas y puritanas norteamericanas, de vida sencilla y reglas austeras.
[4] Hipotético lugar paradisiaco que resulta de la creación literaria del inglés James Hilton en 1925.
[5] Nombre que los habitantes de Rio de Onor atribuyen a su aldea.
Discúlpeme Sr. Dr., si me está escuchando del alto lugar donde pienso que esté, pero más que en sus cimientos, yo creo en los retoños de estos serranos, herencia extendida de gente libre que la montaña los hizo así, plebe capaz de buscar, luchar y vivir por la igualdad entre los hombres. Rio de Onor no se limita a un espacio geográfico (41º 56’ 00’’ N, 62º 37’ 00’’W), ya que en el corazón de cada uno hay sitio para una tierra así. La aldea podrá quedarse en un museo pero seguirá viva para siempre en el alma de sus descendientes, incluso de aquellos que nunca la han visto y ni se imaginan que proceden de allí, lo que no es mi caso. ¿De qué sirven los cimientos si encima no se construye nada? ¿Por qué se habla tanto de D. Afonso Henriques y casi nadie de D.Garcia[1], 1º Rey de Portugal y de Galicia? No faltarán otras “Rio de Onor” y quizá consigamos una mayor y mejor el día que todos los hombres se consideren iguales. La actual, en cuanto genuina aldea comunitaria, mostró esa posibilidad, otros la perpetuaran y la harán universal. No nació para santuario, solo la nostalgia la verá así y si tiene algo de sacrosanto, es porque la mano de Dios así lo decidió, permitiendo a sus hijos vivir en libertad, simplicidad y comunión de vida, beneplácitos que extiende a todos los hombres en cualquier sitio. Consideraciones aparte, merece la pena ir a Rio de Onor, sumergirse en el Portugal profundo y volver a descubrir nuestros orígenes, porque en aquel lugar intemporal de casas de piedra, componemos fuerzas y con confianza seguimos adelante. Larga vida para Rio de Onor y para sus congéneres dispersos por todo el mundo, bien se encuentren  en los Alpes, en los Andes, en el Tibet o junto al Kilimanjaro[2].


[1] Hijo de Fernando I (el Magno) de León y Castilla, a quien por herencia recibió  el territorio de Galicia hasta Lisboa. Murió prisionero de su hermano Sancho, sin dejar descendencia.
[2] Montaña más alta de África, situada en Tanzania.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS


O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ PRAXES UNIVERSITÁRIAS: A RECRUTA DA PORNOCHACHADA?, editado em 07/02/2014
2º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
3º _ ROTTWEILER E SERRA DA ESTRELA (AQUILO QUE OS UNE E SEPARA), editado em 07/01/2010
4º _ O CÃO JOVEM (DOS 7 AOS 18 MESES): DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 05/06/2010
5º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado em 05/06/2010

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país deu o seguinte resultado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Canadá, 5º Alemanha, 6º França, 7º Índia, 8º Holanda, 9º Espanha e 10º Reino Unido.

segunda-feira, 24 de março de 2014

DRAMAS CANINOS: O CÃO DOS ENTEADOS

Um cavalheiro e uma senhora, ambos com um filho menor de um casamento anterior, decidiram “juntar os trapinhos” e constituir família, vindo alguns anos depois a adquirir um Pastor Alemão, mais por insistência dos miúdos do que por vontade da senhora, que se sempre se manifestou reticente a tal desejo, já que até ali nunca tinha tido qualquer experiência com cães dentro de casa, pormenor que recambiou o cachorro para uma barraca na varanda, por sinal inadequada para o seu tamanho e porte, vindo a ser gradualmente desprezada pelo animal, que preferia suportar o calor, o frio e a chuva intensos do que entrar para dentro dela. Como o cachorro se transformou num matulão em poucos meses, transbordando força e vitalidade, a senhora, fazendo uso do seu bom senso, optou por treiná-lo, uma vez que era ela quem mais cuidava do animal, decisão desde logo contrariada, apesar de certa, pelo restante agregado familiar, todo ele interessado em liderar o pobre animal.
O cavalheiro alvitra para si o direito histórico, arvorado em “cabeça de casal” e porque sempre teve pastores alemães, a sua filha quer seguir o seu exemplo e o enteado também reclama para si essa tarefa. Apesar da competitividade, nenhum deles tem tempo para a levar a cabo sistematicamente, o primeiro porque trabalha no estrangeiro e só vem a casa de oito em oito dias, e os outros porque se encontram encharcados em actividades extra-curriculares, para além de aos fins de semana rumarem, respectivamente, à mãe e ao pai que não vivem com eles, comprometendo assim a carga horária necessária ao condicionamento do cão. Enquanto a senhora andou com ele, facto que se verificou no início do treino, o animal evoluiu a olhos vistos, alcançando sem dificuldade a condução em liberdade, facto a que não foi alheio o apego que nutre pela sua companheira. Há medida que o tempo foi avançando e a liderança acabou repartida pelos quatro, justificadamente, o cão regrediu, apresentando-se confuso, desinteressado, nervoso e inconformado no treino, resistindo agora em andar à trela alinhado por quem o conduz. Porque se comportará assim?
O desencanto do animal prende-se com o número dos líderes impostos, que ao exigirem maior submissão, despromovem-no socialmente, levando-o a ocupar um lugar cada vez mais baixo na hierarquia, naturalmente reservado para os cães mais débeis e submissos, situação que o desagrada e induz à resistência, por atentar em simultâneo contra as suas características individuais e forte sentimento territorial, não vendo com bons olhos a troca sistemática de condutores por obstar aos seus afectos e que o obriga a obedecer a quem pouco ou nada lhe diz, o que aponta claramente para a perca do seu bem-estar, resultando daí a sua insatisfação. A manter-se a situação, a que poderá levar à submissão forçada e a resistência à despromoção social?
Obviamente à manha! Que como toda a gente sabe não tem origem genética e que resulta do estudo e posterior chantagem dos donos por parte dos cães, particularmente dos mais mimados e objecto de cuidados excessivos, no intuito de invalidar as ordens, desgraçar a liderança e de fazer gorar os seus intentos, habilidade presente tanto nos submissos como nos dominantes, ainda que nos últimos a resistência seja mais visível, porque procuram o desespero dos donos pela exaustão, aproveitando-se das suas fraquezas, pouco equilíbrio psicológico e menos valias técnicas para perpetuar vícios de difícil eliminação, minando passo a passo o processo pedagógico, o que não irá livrar alguns da reeducação. No caso específico deste cão, é natural que se ensurdeça diante dos condutores mais tolerantes e que se jogue no chão quando conduzido por outros mais autoritários, acabando de uma forma ou de outra por mandar bugiar todos, ainda que no meio disto tudo seja o menos responsável, porque age por reacção e obrigado pela sua salvaguarda!
Agregados familiares como o aqui retratado, porque a aquisição de um cão é um projecto familiar e importa que todos saiam satisfeitos, cão inclusive, deverão escolher um animal menos territorial e mais sociável, meigo e brincalhão, com fracos impulsos à defesa, à luta e ao poder, mais fácil de encontrar entre os bracos, em particular nos retrievers e também nos humildes rafeiros, animais por norma comunitários e gratos a todos os que lhe querem bem, porque nem todas as raças caninas se prestam a ser de todos e algumas, quando obrigadas a isso, acabarão por fornecer indivíduos que não virão a ser de ninguém, por terem sido seleccionados com outro propósito (antagónico). Agora, o que fazer com o lupino aqui descrito? Somente aconselhar os donos e serenar os miúdos, dizendo-lhes que deixem a educação do cão ao cuidado da senhora, porque após a instalação e assimilação dos comandos, que acontecerá dentro da brevidade possível, qualquer um deles conseguirá conduzir o animal de modo satisfatório, o que já fizemos e voltaremos a fazer, por respeito ao cão e pela felicidade de todos. Oxalá nos oiçam e a dita senhora mantenha o mesmo empenho.

SE O TEME, NÃO O DEIXE EMPINAR

Se tem medo do seu cão ou não confia nele, não o deixe empinar, porque poderá atacá-lo, mercê da posição que lhe dá vantagem ao senti-lo vulnerável, pois é comum gente medrosa procurar cães valentes. E se há coisas que os cães detectam facilmente, o medo é uma delas! O empinar dos cães sobre os donos só não é abuso quando ordenado e transforma-se num acto de loucura quando consentido. Assim como sabemos que existem cães que não fazem mal nenhum, também temos conhecimento de alguns que espreitam oportunidade para o perpetrar. Nalgumas raças sobressaem indivíduos que atacam naturalmente à jugular, sendo considerados por muitos como assassinos. Baixar os braços e entregar a cara a um cão desconhecido pode ser fatal, até porque alguns adoram mordê-la e outros são capazes de decapitar indivíduos post mortem. Fica o aviso!

MÚSICA, SOCIABILIZAÇÃO E RENDIMENTO

Se entendermos a música como uma arte de representação que combina ritmos, harmonias melodias, sons e silêncios, e que se presta a um sem número de utilidades, incluindo os usos pedagógico e terapêutico, mercê dos sentimentos e emoções que desperta, capazes de produzir alteração no humor dos seus ouvintes, então somos obrigados a reconhecê-la como uma forma sublime de linguagem, tal como disseram Beethoven: “ A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia” e também Nietzsche: “A música oferece às paixões o meio para se obter prazer delas”. Mas será essa linguagem apenas perceptível, válida e benéfica para os homens? Sabemos que não, pois todos já vimos aves e mamíferos reagirem a pequenos trechos musicais, servindo-se deles como estímulo ou aviso para o despoletar de determinadas reacções, tanto condicionadas como instintivas, emitidos por instrumentos, por fenómenos naturais, pela voz humana ou por outros animais, o que prova que a linguagem sonora é também perceptível e activa entre os animais. Exemplos disso, entre tantos, são o apito na columbofilia, o apito de ultra-sons, o clicker e os comandos verbais no adestramento. Que benefícios trará a música, enquanto linguagem sonora, para o ensino canino? É disso que iremos tratar a seguir.
Ainda que pouco visto entre nós, é de todo conveniente que a música acompanhe as sessões de adestramento, principalmente quando trabalham em simultâneo diferentes classes e interessa que todas contribuam para o rendimento global escolar, porque ela tende a acalmar os cães mais agressivos e a relaxar os mais submissos e inibidos, para além de desenvolver a memória afectiva de todos eles mal aconteça a sua apresentação, o que de sobremaneira ajuda na socialização exigível e facilita a concentração dos animais. E como se isto não bastasse, ela irá ainda contribuir para a habituação aos disparos e acostumar os cães aos sons mais estridentes e agudos que os levam a uivar. Este condicionamento musical, pois é disso que se trata, porque se constitui em estímulo, pode estender-se ao uso de diferentes melodias para o despoletar de diversas acções caninas, tais como: operar travamento, convidar para a brincadeira, suscitar alerta, indicar trajectos e ordenar acções defensivas e ofensivas, dispensando assim outro tipo de ordem expressa. Os benefícios do concurso à música não se restringem exclusivamente aos cães, já que predispõem os seus condutores para uma liderança mais objectiva e sintonizada, ajudando aqueles mais inibidos, dados à distracção e portadores de uma voz menos clara e modelada (a maioria dos gagos não gagueja quando canta).
Há muito que nos valemos dos músicos de rua com o mesmo propósito, quando as classes em excursão são constituídas por cães muito jovens ou por binómios recém-chegados ou quando importa familiarizá-los com o buliço urbano, o que fizemos há pouquíssimo tempo.
Para além dos benefícios relativos á sociabilização, a adição da música tende a aumentar o rendimento individual canino, tanto na obediência como no desempenho sobre obstáculos. A melhoria é também visível nas acções relativas à protecção dos donos e do seu património, independentemente se usar o sinal do alarme ou outro tipo de melodia, mercê do aviso que carrega o ânimo e despoleta a emoção, o que torna essas acções mais fiáveis e duradouras, qualidades que a mecanicidade só por si tende a minorar por desinteresse ou saturação, o que realça o papel da música para o engrandecimento e uso da memória afectiva canina.
Do ponto de vista cognitivo, diferentes notas ou combinações musicais, quando usadas entre o 4º e o 6º mês de vida dos cachorros, podem contribuir para o aumento da sua capacidade de aprendizagem, se as usarmos para a procura e na identificação de diferentes objectos, um jogo que vale a pena experimentar e cujos resultados serão surpreendentes.
Todos estamos lembrados da “velha técnica” de deixar um rádio ligado junto a um cachorro recém-chegado a casa para que não se sinta só e se acalme, o que seria difícil de acontecer não fora o mundo dos cães ser constituído por sons e odores. A terapia da música ou a musicoterapia tem sido responsável pela recuperação de muitos fiéis amigos com problemas de stress, ansiedade, medo ou agressividade desmedida, de origem genética, ambiental ou traumática, facilitando a constituição binomial e a futura inserção social desses indivíduos, que de outra forma dificilmente as alcançariam, quando encharcados somente em químicos fartos em contra-indicações, nocivos, de desmame prolongado e por vezes capazes de potenciar o indesejável efeito contrário. Para que a música surta efeito, donos e cães deverão sintonizar-se com ela, porque nenhuma terapia subsiste sem um bom terapeuta, que a experimenta, distribui e doseia segundo o conhecimento que tem do indivíduo a recuperar, estudo e prática facilitados pela transcendência da linguagem musical. Dificilmente um cão ficará impávido e sereno no meio de uma algazarra, mas já vimos muitos deitados junto a um rádio ou televisor, a dormitar descansados, alheios ao mundo ao seu redor e também a adormecerem com as cantilenas dos seus donos. Se a música faz bem aos cães, então há que usá-la!

COISAS DA MINHA JOANA!

Serve este artigo de justa homenagem à Joana Melo, uma jovem engenheira florestal que um dia decidiu adquirir um Pastor Alemão: o Radar, optando por treiná-lo entre nós. Com o decorrer do tempo a Joana tornou-se numa excelente colaboradora, rebocando as classes e levando-as para diante, demonstrando rara fraternidade e companheirismo, sentido de responsabilidade, muita curiosidade e gosto de aprender. Connosco fez o Curso de Monitores, tem dado aulas, editou o Blog, assumiu reportagens fotográficas, tem vindo a participar em todas as nossas actividades, chefiou alguns acampamentos e continua a ajudar e a ”puxar” pelos alunos recém-chegados, tarefa que aceita apesar de não ser fácil. Invariavelmente fila-guia das nossas classes, ela tem sido uma referência para todos, uma amiga sempre presente e um exemplo a seguir, graças à tenacidade e à disponibilidade que dispensa ao adestramento. Mercê da sua extraordinária capacidade atlética (força, resistência e elasticidade), ganhou entre nós o cognome de “o rapaz”, até porque poucos homens foram e são capazes de igual desempenho.
O Radar é um matulão de 70cm e 40kg, oriundo do canil Von Haus Mores, um preto-afogueado de meia-linha bem vermelho que “vai a todas”, veloz e por vezes um pouco tresloucado, capaz do melhor e do pior que não pára de surpreender. Porque tem vontade própria e sabe o quanto a dona lhe quer, há momentos em que a goza deliberadamente, sendo hábil em chantageá-la psicologicamente, habilidade que ela não tolera e que a leva a “metê-lo na linha” ou… a tentar fazê-lo! Briosa e competitiva, a Joana zanga-se consigo própria quando erra e não gosta de ver o seu “menino” para trás de ninguém. E quando isso acontece fica furibunda, os olhos parecem crescer-lhe e o seu mimetismo extravasa-se, “coisas da minha Joana”, como costumamos dizer. Breve irá deixar-nos e viver para a “Velha Albion” com o João Carreiras, seu companheiro e nosso amigo. A sua ausência irá ser muito sentida porque é uma amiga que parte e que deixa uma vaga difícil de preencher. Lá vão mais dois forçados pelos maus ventos da crise, numa torrente de milhares que este País desprezou e vai continuar a desprezar. Não tememos pela sorte da Joana porque conhecemos a sua têmpera e sabemos do seu valor, irá triunfar certamente! Obrigado Joana e toma tuas as palavras de um dos nossos slogans: “o céu é o nosso limite!” 

JOSEFA CONDE: QUANDO IMPORTA O CASTELHANO

Quando importa traduzir algum dos nossos textos para castelhano nada melhor do que convidar uma espanhola para o fazer e a sorte tem calhado à Sr.ª Josefa Conde, casada com um português, a viver e a trabalhar em Portugal há décadas, que domina as duas línguas peninsulares e a sua gramática. As versões castelhanas dos textos “ Afonso: O anão que se fez gigante” e “ Cobri de Cobrita: A Amiga de Maria Del” são da sua autoria e não poderiam ter sido melhor traduzidas. Queremos agradecer-lhe a simpatia, a disponibilidade, a prontidão e o empenho que nos tem dispensado, prometendo-lhe em simultâneo não a incomodar amiúde. Gratos, desejamos-lhe votos sinceros de saúde, felicidade, prosperidade e longevidade. Afinal “de España también vienen buenos vientos y buenos matrimónios”, contrariamente ao que por aqui se diz. Mas se assim não for e a Josefa for excepção, o seu marido teve muita sorte e ainda alguma nos calhou! Obrigado mãe da Carlota!

ESTARIA HOWARD ZINN CERTO? SE NÃO ESTÁ, PARECE!

Por causa da crise que a todos assola, recebemos esta semana um email procedente de um amigo nosso sobre Howard Zinn, um historiador, cientista político, activista e dramaturgo norte-americano, de origem judia (askhenazi), autoproclamado anarquista, que se tornou célebre como autor do livro “A People's History of the United States” e que vendeu mais de um milhão de cópias após o seu lançamento em 1980. Nasceu em 24 de Agosto de 1922 em Brooklyn, New York e faleceu em 27 de Janeiro de 2010 em Santa Mónica, Califórnia, quando visitava aquela cidade. Parece actual o que então escreveu em “Disobedience and Democracy: Nine Falacies on Law and Order” (South End Press, 1988):
"A desobediência civil não é o nosso problema. O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é que as pessoas por todo o mundo têm obedecido às ordens de líderes e milhões têm morrido por causa dessa obediência. O nosso problema é que as pessoas são obedientes por todo o mundo face à pobreza, fome, estupidez, guerra e crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes enquanto as cadeias se enchem de pequenos ladrões e os grandes ladrões governam o país. É esse o nosso problema."
Não sabemos, porque nunca experimentámos, se uma nova ordem tirada a partir da desobediência não produziria maiores injustiças sociais e se a desordem dela resultante não nos condenaria ainda mais, comprometendo ao mesmo tempo a marcha da civilização e o avanço da humanidade, mercê da ruptura com o passado e da novidade de parâmetros a que obrigaria, fruto do livre arbítrio individual que tende a desconsiderar o bem-estar colectivo. A revolução anárquica, obrigatoriamente transitória, não exigiria depois uma contra-revolução? E no meio desse processo não sobraria fome, estupidez, guerra, crueldade, injustiça e não voltariam os mesmos para a prisão? A leitura de Zinn não nos parece correcta, apesar de notoriamente actual, já que os efeitos da desobediência seriam sensivelmente os mesmos e quiçá até mais dolosos? Como é óbvio, discordamos da solução apontada. Se o Homem conseguir desobedecer à sua tendência fratricida talvez consiga fazer um mundo melhor, doutro modo sempre fará uso de meios mais sofisticados para disfarçar o seu velho hedonismo, quer enveredando pelo “politicamente correcto” quer aproveitando-se das aspirações gerais para benefício próprio. Conseguirá o Homem libertar-se daquilo que o condena? Apesar de ter vindo a melhorar, até hoje não o conseguiu completamente. A verdadeira revolução, aquela levará a uma sociedade mais justa e que todos ambicionamos, deverá acontecer dentro de cada um de nós.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim escalonado:
1º_ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
2º_ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIFERENTES LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
3º_ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
4º_ JOÃO DA VILA VELHA: O ARQUITECTO DOS MENÚS, editado em 01/02/2010
5º_ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado em 05/06/2010

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim ordenado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Canadá, 5º Alemanha, 6º Suíça, 7º China, 8º Reino Unido, 9º Índia e 10º México.

sábado, 15 de março de 2014

A TENTAÇÃO PELOS CÃES ORIENTAIS E O THAI RIDGEBACK

É natural para quem já criou 10 raças caninas estrangeiras, 6 nacionais e treinou mais de 60 diferentes, interessar-se pelos cães orientais, pelos selvagens e pela hibridação, nem que seja pelo sonho de trazer novos cães ao mundo, de mais saber e de melhor servir, especialmente quando farto da excessiva manipulação que continua a vitimar os cães ocidentais, cada vez mais dependentes, frágeis e carregados de vários achaques hereditários, lobinhos a dormir no sofá que se divertem atrás de bolas saltitonas, sensíveis às intempéries, incapazes de procurar sustento, carentes de veterinário, muito exigentes e dados a amuos. Adormecemos a pensar na rusticidade, somos tentados pelo regresso ao atavismo e acabamos por sonhar com coiotes, hienas, Lobos da Etiópia e também com dingos, lobos-guará e mabecos, por vezes até com alguma variedade de raposa em particular. Mas como um projecto destes sairia muito caro, bem para além das nossas posses, necessitaria de maior quadro técnico-científico e não dispensaria qualquer tipo de mecenato, apesar de não nos darmos por vencidos, baixamos dos “castelos no ar”, viramo-nos para o outro lado e aterramos na almofada. Todavia, porque a ideia não nos sai da cabeça e há mais gente como nós, vamos falar hoje sobre o Thai Ridgeback, um cão do tipo primitivo, domesticável, raro e valente, pouco conhecido e nato da Tailândia.
O Thai Ridgeback, também conhecido como Mah Thai Lang Ahn, é uma das 3 raças caninas que apresenta uma lista de pelo virado ao contrário no cimo do dorso, muito embora alguns filhotes possam nascer sem essa característica. As outras são o Phu Quoc Ridgeback e o conhecidíssimo Leão da Rodésia (Rhodesian Ridgeback). O Thai Ridgeback é um cão médio, resistente, musculado e extremamente ágil, com um sentido protector muito desenvolvido e que exige, para além de ser sociabilizado em pequeno, uma liderança forte, experimentada e calma, já que possui um impulso ao poder muito forte, capaz de o tentar ao domínio dos donos.
A sua cabeça é em forma de cunha e apresenta rugas, a sua mordedura é do tipo tesoura, a língua pode ser negra ou apresentar manchas negras e tem baixa implantação de orelhas, geralmente apontadas para fora. Os seus olhos podem ser de cor de amêndoa, castanhos ou âmbar, sendo esta última típica dos cães azuis. Os exemplares castanhos ou vermelhos podem ter a cabeça negra. O Thai Ridgeback é um cão quadrado, de dorso paralelo ao solo e a sua garupa é recta de angulação. A sua pelagem, que não tem subpêlo, é dura e curta, perde pouco ou nenhum pelo, ocasionalmente duas vezes ao ano.
As cores aceites pelo estalão da raça são: azul, castanho, preto e vermelho, muito embora possam surgir nas ninhadas cachorros tigrados e brancos, cores que o mesmo estalão não contempla. A diversidade de cores deste cão, visando a sua camuflagem, possibilita a sua instalação em diferentes policromias locais.
Os machos no Thai Ridgeback medem em altura entre os 56 a 61cm e as fêmeas entre os 51-56cm, oscilando o seu peso entre os 40 e 60kg e o das fêmeas entre os 33 e os 35kg, o que habilita esta raça como cão de guarda, considerando a sua altura, envergadura, peso, rusticidade, resistência e agilidade, quando somadas aos fortes impulsos à luta e ao poder que o levam a uma acentuada propensão protectora.
Este cão tem tudo para dar certo nas disciplinas de defesa pessoal e guarda, para se constituir num excelente companheiro e num cão de utilidade, prestando-se ainda à intimidação pela presença ostensiva, uma agradável surpresa para quem não o conhece e uma raça com o seu quê de belo!
O Oriente sempre nos guarda cada surpresa! Se o Thai Ridgeback é o cão dos nossos sonhos, então já vem tarde para nós, agora que temos os pés mais presos à terra. O futuro aos jovens pertence, apesar dos nossos emigrarem a olhos vistos, particularmente os melhores, os que poderiam devolver ao País a sua grandeza milenar, agora mergulhado numa profunda crise e a desbaratar os seus melhores filhos. Oxalá algum dos bons investigadores cá fique e valha pela erudição à nossa canicultura.

HACHIKO–HACHI: PATRIMÓNIO DO JAPÃO

“Hachiko”, diminutivo japonês para “Hachi”, foi um Akita nipónico que ficou célebre pela sua lealdade e apego ao dono, o professor Hidesaburo Ueno, que acompanhava diariamente de casa até à estação de comboios de Shibuya e o ia buscar ao mesmo local quando regressava a casa, até ao dia em que o professor sofreu um derrame fatal no seu posto de trabalho. Depois do desaparecimento do dono, porque o cão persistia em aguardá-lo junto à aquela estação de comboios, o animal foi entregue aos cuidados de duas pessoas diferentes, das quais fugiu para retornar ao mesmo local, vivendo na rua, passando fome e sofrendo o ataque de outros cães, o que lhe valeu, para além doutras cicatrizes, ter ficado com uma orelha deitada abaixo. Alguns transeuntes admirados, conhecedores do seu sofrimento e rara dedicação, compadeciam-se dele e davam-lhe de comer. A espera de Hachiko durou até à sua morte: 9 anos consecutivos de angústia na esperança de reencontrar o seu companheiro. Os seus ossos acabaram enterrados junto à sepultura do dono que tanto amou e a sua pele foi preservada e empalhada, encontrando-se hoje no Museu Nacional de Ciências de Ueno, onde ainda pode ser vista, passados 80 anos exactos após a sua morte (08 de Março de 1934).
O extraordinário exemplo de dedicação ao dono cativou os japoneses e o cão mereceu duas estátuas: uma primeira que veio a ser derretida por causa da entrada do Japão na II Guerra Mundial e a actual. Hachiko foi considerado património do Japão e anualmente, no dia 8 de Abril, é realizada uma cerimónia solene junto à Estação de Comboios de Shibuya, local do seu martírio, evocando-se ali o seu extraordinário exemplo de lealdade. Como se pode ver, apesar da proximidade racial e geográfica entre chineses e japoneses, a sua postura relativa aos cães é bem diferente, tão diferente quanto a sua cultura, já que os chineses preferem comê-los ou apostar neles em lutas de morte, muito embora também tenhamos por cá alguns esbirros com os olhos em bico, gente que nasceu com eles redondos e que embicou para a matança! A história de Hachiko veio enaltecer ainda mais os cães de Akita, cuja exportação veio a ser proibida, assegurando o governo japonês a sua sobrevivência se os seus donos não tiverem como mantê-los. Não treinámos muitos Akitas e os que adestrámos foram de linhas americanas, aqui e no Brasil. Em todos eles foi visível uma dedicação ímpar aos donos, mas o que mais os caracteriza e por vezes incomoda, é a sua forma de olhar, distante e ao mesmo tempo penetrante, franca e demorada, como se intentassem desnudar-nos para melhor nos compreenderem.
O Akita é sem sombra de dúvida um cão extraordinário, apesar de pouco visto nestas paragens, um companheiro que zela pelos seus e que vive em função de quem o estima, que para além de ser bonito e meigo, é um guardião silencioso, valente, seguro e atento que nos transmite tranquilidade e segurança. Lembramo-nos dum em particular que treinámos na década de 90 em Alcainça, um rapagão forte e decidido que pertencia à Paulinha, uma professora do ensino secundário. Queremos agradecer ao Jorge Martins por nos haver lembrado da efeméride relativa ao Hachiko, cão também imortalizado através da televisão e do cinema.

A FÁBULA DO LOBO CHECO: O REGRESSO AO ATAVISMO

Os lobos sempre espevitaram a curiosidade dos homens ao longo dos tempos, o que fatalmente os tem condenado à extinção, mesmo depois de inventarmos o cão na pré-história e de termos ficado com um lobo à nossa disposição. A procura do cão-soldado sempre foi alimentada pelo mito do “Lobo Mau”, não fossem os homens eternas crianças com sede de poder, ávidos de domínio e amantes de si próprios. Os homens da Europa Central, contrariamente aos idílicos meridionais, mais dados a filosofias do que ao engenho, têm por condição massificar os seus sonhos mercê do pragmatismo que sustenta as suas invenções e que os leva para diante, assim são também os checos! Uma dezena de anos depois da imposição da “Cortina de Ferro”, já os criadores de Pastores Alemães do Leste andavam à brocha com os reflexos da consanguinidade e da endogamia presentes nos seus cães. Não se antevendo para breve a “Perestroika” e a queda do “Muro de Berlim”, tampouco a separação entre checos e eslovacos, optou-se como solução, nalguns lugares da finada República Socialista da Checoslováquia, pelo cruzamento dos pastores alemães com os lobos, no intuito de produzir uma nova raça que conservasse a excelente parceria do pastor alemão aliada à extraordinária autonomia dos lobos, advinda da sua rusticidade, resistência e combatividade, num regresso inequívoco ao mais puro dos atavismos.
A ideia era boa mas o resultado não foi o esperado, porque ao invés de se ter alcançado o melhor das duas raças, a carga instintiva lupina diminui a desejável cumplicidade canina, sobrando mais lobo do que cão, o que não tem tornado fácil o adestramento destes cães-lobos, que exige mais inibição do que recompensa para se atingir a parceria desejável, porque se dispersam facilmente, exigem novidade de estímulos, procuram rumo próprio, resistem à interacção, são pouco agradecidos, desiludem-se com treino e não dispensam um forte condicionamento mecânico, isto quando comparados com os pastores alemães, apesar de mansos e por vezes até esquivos. Mas se forem criados junto doutros cães adultos que funcionarão como seus mestres, pelo exemplo deles e por força do seu particular social, melhor aceitarão a liderança humana e mais facilmente chegarão à cumplicidade e à interacção, porque são competitivos entre iguais e sentem-se mais cómodos quando inseridos num grupo. Esta tem sido a estratégia que melhor tem servido para a capacitação e uso destes híbridos, que nalgumas tarefas do treino apresentam dificuldades próximas às visíveis no Malamute do Alasca.
É evidente que sobressaem algumas excepções, fáceis de adivinhar quanto à sua origem (dominância em CPA, numa linha de lobos mais interactiva ou no produto de ambos) e que com o decorrer dos anos a raça se tornará mais moldável, independentemente de sofrer ou não outra infusão de lobo familiar, graças á selecção que procura os mais aptos. E é aqui que reside a grande dúvida quanto ao futuro da raça: o Lobo Checo retornará ao Pastor Alemão ou perpetuará o sangue do Lobo dos Cárpatos que lhe garante a existência e a diferença, virá ser um Pastor Alemão que no passado teve uma origem silvestre ou um cão-lobo que em tempos dele descendeu? O caminho mais fácil e seguro é o do retorno, aquele que procura a dominância do CPA e que segundo se diz à boca calada, tem vindo a acontecer com alguma frequência, caminho também facilitado pela abertura das fronteiras. Será verdade? Se for, alguém correrá o risco de comprar gato por lebre, de adquirir um Pastor Alemão com ascendência em lobo ou um cão-lobo que de silvestre pouco ou nada tem. O Lobo Checo poderá ser um melhoramento para o Pastor Alemão? Sê-lo-á se lhe eliminar as lacunas actuais e lhe conservar as características seculares (físicas e psíquicas), isto com o aval da “SV”, o que nos parece pouco provável e sendo o lobo relegado para a linha dos trisavôs, beneficiamento já aceite noutras raças.
O Lobo Checo como primeiro cão pode não ser a melhor das alternativas, isto se pensarmos em adquirir um segundo de raça diferente, porque ao ser mais velho e pelo peso hierárquico, levará o mais novo a comportamentos similares ao seu, o que de todo não seria desejável, a menos que os criemos em separado e vigiemos as suas brincadeiras, para além de bem cedo termos de reforçar os vínculos afectivos com o mais novo, desenvolvendo com ele a inerente cumplicidade. Se procedermos assim, o infante irá ajudar-nos de sobremaneira na recuperação do cão-lobo. O cruzamento de 1ª geração entre o Pastor Alemão e o Lobo Checo, infelizmente, não consegue levar de vencida a carga instintiva presente no segundo. A persistência nesta opção deve dispensar a contribuição branca, lobeira, cinzenta e vermelha, as três primeiras pela proximidade ao cão checo e a última porque lhe iria aumentar significativamente a sua agressividade, o que dificultaria deveras o seu controlo. A escolha menos comprometedora para este efeito deverá recair sobre pastores negros ou sobre exemplares recessivos nessa variedade cromática, muito embora a ossatura da prole tenda a aligeirar-se e as indesejáveis manchas brancas surjam com maior frequência, pelo que se deseja que o negro a usar seja naturalmente robusto e com um mínimo de 3/8 da variedade dominante (preto-afogueada) na sua construção.
Dos 10 exemplares que testámos e de outro tanto que observámos a trabalhar nas mãos de outrem, alguns entre militares há uns anos atrás, porque hoje praticamente desapareceram das fileiras e das classes de trabalho civis, passada que foi a novidade, avaliados os aspectos relativos à cognição, à biomecânica e à máquina sensorial, estes lobos checos demonstraram fraco impulso ao conhecimento, razoável propensão atlética e boa máquina sensorial, muito embora o seu uso careça de maior disponibilidade objectivando o seu fim útil. Do ponto de vista cognitivo conseguiram a absorver cerca de 25 comandos num período até 10 meses, o que os coloca um pouco acima das capacidades do Podengo nacional mas que os deixa para trás da maioria das raças comummente em treino (com a mesma carga horária e no mesmo período de tempo, um Pastor Alemão regular assimilaria mais 40% dos comandos). Apresentaram alguma resistência à trela, por vezes até algum desencanto, facto denunciado pelas suas expressões mímicas. Foi perceptível a sua resistência aos alinhamentos, um certo desapego aos condutores e alguma abstracção. Foram alvo de supercompensação, induzidos por recompensa e admoestados por contra-procedimentos, apesar de responderem melhor ao condicionamento mecânico do que ao afectivo.
Do ponto de vista atlético viu-se que são portadores de uma grande elasticidade, elegância e resistência, que rastejam com facilidade e nadam serenamente sem grande dificuldade, mostrando preferência pelos obstáculos naturais em detrimento dos artificiais. Verificou-se que a marcha é o seu andamento preferencial e que usam o passo de andadura nas abordagens. Evidenciaram grande capacidade de impulsão, especial à vontade nos túneis e passagens estreitas, algum atabalhoamento na saída dos obstáculos mais altos e algum incómodo nos mais elevados em relação ao solo. Vimos dois deles fazerem 8 segundos aos 100metros e passados alguns minutos retornarem a uma frequência cardíaca entre as 68 e as 74 pulsações por minuto. Segundo nos fizeram saber, aqueles cães-lobos não reduzem o seu desempenho diante de grandes amplitudes térmicas, suportando de igual modo o frio e o calor intensos.
Pelo que nos foi dado a observar e já dissemos atrás, a máquina sensorial do Lobo Checo é boa e não é excelente porque nem sempre se dispõe a utilizá-la, particularmente quando introduzido na pistagem depois da maturidade sexual e sem a parceria doutro cão já experimentado. Tem como hábito “apanhar ventos”, de captar de cabeça levantada os odores que procura, estranha ou necessita para os seus intentos, o que pode ser uma vantagem, rastreando depois mais perto dos alvos. Tem sido usado como cão de busca e resgate, mas o seu uso não se generalizou, muito embora raramente confunda os comandos de “ronda” e “busca”. Tem uma audição acima da média, o que o torna inquieto e a sua visão periférica é ligeiramente superior à encontrada no Pastor Alemão.
O Lobo Checo necessita de muito condicionamento para ser um cão de guarda eficaz, sendo mais fácil prepará-lo pela transformação dos momentos lúdicos em simulacros, ensiná-lo a partir da brincadeira para que ganhe confiança, porque procura a vantagem e é mais defensivo. A sua mordedura não é muito potente (sensivelmente igual à do Pastor Alemão), prefere surpreender e quando surpreendido recua ou tende a pôr-se em fuga. Sente-se mais à vontade nas perseguições do que nos ataques lançados, ataca com mais ímpeto quando atrelado, prefere os ataques de surtida, pode atacar pelas costas e evita a todo o custo ser capturado. Reage pior ao fogo do que aos estrondos, é mais atento no “lusco-fusco”, é difícil de enganar e faz abordagens dissimuladas, podendo agachar-se antes de desferir os seus ataques, que valem mais pela velocidade do que pela força de impacto, lembrando os desferidos pelos belgas groenendael, muito embora sejam mais baixos e imprevisíveis, menos projectados e notoriamente menos deliberados. Para se ter uma compreensão mais exacta do potencial guardião deste cão-lobo, aconselhamos a leitura do texto “ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS”, que editámos em 26/10/2009, já que as características principais dessa variedade cromática do CPA são potenciadas até mais 40% no Lobo Checo, sobejamente menos seguro, mais desconfiado e imprevisível.
Na nossa opinião, apesar de servir para melhor se entender a formação e a selecção do Pastor Alemão, o Lobo Checo é um cão mais para contemplar do que para ser usado, porque ao não ser um “produto acabado”, e não o é pelas insuficiências que apresenta, ou acabará melhorado ou verá o número dos seus exemplares reduzido, enquanto resultado de um tempo ido, que pode retornar se o Sr. Putin e os interesses da Mãe-Rússia, ao colidirem com os da Ucrânia, os levarem para a traulitada. Queira Deus que não! Ainda que os híbridos de Lobo tenham granjeado alguma fama no rastreamento, os híbridos do chacal têm sido melhor sucedidos. O Lobo Checo é maioritariamente manso, desligado e muito independente, o que compromete a cumplicidade e a divisão de tarefas, um cão tipicamente de “ let him go”, para se ter à solta no quintal, melhor instalado num parque temático do que circunscrito às áreas urbanas. Antes assim, porque se houvesse sido tirado a partir de cruzamento do lobo com um molosso, quem o aguentaria, reconhecida que é a maldade presente nos molossos alupinados? O regresso ao atavismo tem gerado muitos retrocessos e o Lobo Checo é também, nalguns casos, exemplo vivo disso, um companheiro quase silvestre que nos remete para os confins da domesticação, já que nenhuma raça poderá ser correctamente avaliada se considerarmos apenas as suas excepções. Valeu a lição! Valerá o esforço?
É evidente que sim! Existem excelentes Lobos Checos nas classes de trabalho, muito embora se ignore eventualmente que percentual têm de Lobo e de Pastor Alemão. Mas uma coisa é certa: serão sempre os homens a estabelecer a diferença, porque por detrás de um grande cão, sempre estará o trabalho oficinal, apaixonado, sofrido, suado e conseguido de quem seleccionou e melhor adestrou. Nós Acendura Brava, por respeito e admiração aos pergaminhos do Deutscher Schäferhund, nunca optámos pelos caminhos da hibridação e nunca sentimos essa necessidade, porque sempre colmatámos as menos valias do passado recente da raça pelo recurso às variedades recessivas, há muito marginalizadas e ainda reconhecidas no estalão, evitando assim bastardia e os seus retrocessos, retomando as linhas antigas e dando-lhes outro seguimento. É importante não esquecer que o Lobo Checo veio pela necessidade e que só o seu mérito o perpetuará. Será este o desafio que enfrentarão os novos criadores e apaixonados da raça. Oxalá o aceitem e o consigam vencer.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º_ PRAXES UNIVERSITÁRIAS: A RECRUTA DA PORNOCHACHADA?, editado em 07/02/2014
2º_ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIFERENTES LINHAS DE PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
3º_ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
4º_ O MELHOR E O PIOR DO PASTOR SUIÇO: ANÁLISE MORFOLÓGICA E FUNCIONAL, editado em 21/06/2011
5º_ FOI CORRER COM O CÃO E O “QUIETO” FOI-SE EMBORA, editado em 08/03/2014

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país deu o seguinte resultado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º Canadá, 6º Reino Unido, 7º Índia, 8º Moçambique, 9º Angola e 10º Suíça.