sábado, 16 de novembro de 2013

OS AFRICANOS E OS CÃES

É muito fácil assanhar os cães contra um grupo etário, uma minoria ética ou contra uma raça em particular, mercê da apresentação, do comportamento, do mimetismo e do odor que estabelecem a diferença individual. Nalguns grupos somáticos caninos essa detecção é automática e não carece de treino específico, podendo ser acompanhada de aviso ou ameaça e dar até lugar a ataques não ordenados, porque o nariz do cão é um excelente extractor de odores e os cães, enquanto predadores, vivem em constante observação, não vendo com bons olhos a presença de estranhos no seu território ou ao redor do seu grupo. 
Apesar da abolição da escravatura, do fim do apartheid e do colonialismo, o racismo não desapareceu, mesmo nas actuais sociedades multirraciais, cujo silêncio gera uma paz podre e não esconde a intolerância de parte a parte. Os indivíduos de raça africana têm todas as razões para se afastarem dos cães, porque ao longo de séculos foram caçados por eles e ainda continuam a sê-lo, quando ostracizados, remetidos a guetos e identificados como criminosos, por culpa própria ou como reflexo da exclusão que os vitima. Ainda que as companhias cinotécnicas dos exércitos ocidentais se dediquem a dar caça aos terroristas e aos extremistas islâmicos, as policiais caçam nas barracas e nos subúrbios, locais habitados por minorias, onde o crime se organiza e cresce a olhos vistos, o que não implica em dizer que, todos os que lá moram, sejam potenciais criminosos, diferenciação que sobrecarrega as polícias metropolitanas e as obriga à especialização e ao trabalho redobrado. 
Porque razão, tão poucos africanos têm cães? Porque alguns os tratam tão mal? O que leva a sua maioria a temê-los? Porque não aparecem nas escolas caninas? Porque optam alguns por ter cães perigosos? As respostas para estas perguntas obrigaram-nos à visitação de dois aglomerados problemáticos e a uma série de entrevistas de rua, num total de 235 indivíduos, uns ilegais, outros com autorização de residência e outros já nacionais, de ambos os sexos e de idades compreendidas entre os 12 e os 70 anos, tarefa árdua diante da suspeição generalizada. 
 
A razão pela qual não procuram a companhia dos cães prende-se, em primeiro lugar, com questões económicas e sociais (os cães são para os ricos), depois com o medo (histórico ou recente) e finalmente com a aversão. O mau tratamento que dão aos cães, e algum testemunhámo-lo (encarceramento impróprio, subnutrição e maus-tratos), deve-se, segundo eles, aos seus parcos recursos e à necessidade dos animais se espevitarem. Dos 15 cães visitados, apenas dois tinham as vacinas em dia e licença camarária (13.3%). O temor pelos cães, que acontece desde tenra idade, é sobejamente mais ambiental do que genético, chegando-lhes por conselho, advertência, inibição e trauma, antevendo-se daí uma razão cultural. A somar a isto, grande número dos entrevistados, teme mais os cães do que as shotgun, “porque das balas podem esconder-se, mas os cães vão dar com eles”. 
Os proprietários caninos entrevistados, na sua esmagadora maioria (12), não reconheceram qualquer vantagem ao adestramento, por ser caro e dispensável, uma vez que se consideram capazes de ensinar os cães à sua maneira. A opção pelos cães considerados perigosos, intimamente ligada ao tráfico e ao consumo de droga, também a alguns assaltos, é obra da juventude que procura também proventos na luta de cães, cada vez mais difícil devido à detenção dos cães e às rusgas policiais. Apenas 7.5% dos africanos e 18% dos mulatos, declararam gostar ou não dispensar a companhia dos cães, muito embora temam os alheios. Dos indivíduos entrevistados, os guineenses mostraram ser mais dedicados aos seus animais do que os angolanos. Segundo nos fizeram saber, os cabo-verdianos e outros mestiços, desde que tenham proventos para isso, acabam por concorrer às classes do adestramento. 
Talvez por aculturação, porque não o sabemos ao certo, os africanos residentes em bairros de maioria caucasiana, também por serem mais abastados, acabam por ter mais animais domésticos que os seus congéneres dos subúrbios, tratando-os impecavelmente. Tanto num lado como noutro, para além dos rafeiros e dos cães miniatura, os bracóides são os cães da sua eleição, mais os ingleses do que os alemães, sendo comum vê-los com Labradores, Goldens, Cockers e Beagles, contrariamente aos ciganos, quer eles sejam peninsulares ou romenos, que abusam dos pinschers como angariadores de moedas em cima das concertinas. E quando optam por cães maiores, os africanos sentem-se mais confortáveis com os molossos, sendo raro vê-los acompanhados de algum lupino, e quando isso sucede, ou o dono é mestiço, já nasceu em Portugal ou está ligado a qualquer força militar ou policial. É evidente que há excepções. 
O número de alunos africanos na Acendura Brava sempre foi diminuto (0.05%) e raramente alguém se lembra de ter tido um colega de classe africano ou seu descendente, porque apenas demos aulas a 8 indivíduos com essas características nos últimos 30 anos, sendo todos eles mestiços, 5 do sexo masculino e 3 do feminino, 7 nacionais e 1 brasileiro. Duas das senhoras eram aparentemente caucasianas (brancas de pele, loiras e de olhos azuis), descendentes de uma bisavó negra como os restantes. Todos conduziam cães de companhia e apenas um deles alcançou notoriedade no ensino, uma senhora, médica de profissão, que conduzia um boxer e que mais tarde se tornou criadora da raça, apesar de um cabo-verdiano, jogador profissional de futebol, muito prometer e não ter conseguido ir mais além (também o não foi na sua carreira futebolística). 
Contrariamente ao número de africanos nas nossas classes, ainda que sem sorte alguma, foram muitos os que nos procuraram para ajudar na caça aos “pretos”, aos “mininos”; aos “bumbos”; aos “nharros” e aos “kafires”, usando as sua próprias palavras, solicitando-nos o treino dos seus cães para esse fim, a pretexto de má vizinhança e necessidade imperiosa de defesa. Longe de cedermos a essa tentação, sem dúvida fratricida, sempre optámos por convidar esses justiceiros para o papel de cobaias, investidura suficiente para nos deixarem de importunar. O ensino dos cães para guarda não deve ser encarado de ânimo leve, porque o objectivo de uns tantos, por mais transparente ou justificável que nos pareça, pode esconder motivações doentias ou macabras, e disso já temos experiência. 
Para combater a xenofobia e o racismo, na ausência de africanos entre nós, durante dois anos e meio, passámos a dar aulas no exterior, deslocando a escola para os espaços mais frequentados pelas urbes, para que os cães destinados à guarda, se acostumassem a todo o tipo de gente e reconhecessem as intenções dos indivíduos para além da cor da sua pele, o que veio a verificar-se. Apostados na defesa do bom-nome dos cães junto das minorias raciais, convidámos adultos e crianças a participarem nos nossos trabalhos, dando-lhes a oportunidade de conduzirem alguns cães, ocasião memorável para muitos, perpetuada nas inúmeras fotos tiradas, como é o caso da seguinte. 
Apesar da abrangência do tema, não podíamos deixar para depois a análise das companhias cinotécnicas africanas, ainda que baseada em meia dúzia de instantes televisivos, quando chamadas a actuar. É evidente que não as podemos avaliar todas e com o rigor necessário, facto que obrigaria à nossa deslocação e posterior observação no terreno. Não obstante, porque temos imensos leitores angolanos, lembramo-nos de uma acção policial ocorrida em Luanda, para controlo e dispersão de uma multidão de jovens, reivindicando algo que já esquecemos, onde o estoiro dos cães foi visível e o seu préstimo quase nulo, sendo alguns “lidados” como se de garraios se tratassem. Não sabemos ou talvez saibamos, porque insistem as polícias africanas no recrutamento de cães de raças europeias, naturalmente condenados à fadiga e votados à falta de empenho por inadequação ao clima. Cães de pêlo duplo e maioritariamente negros, como é o caso do Pastor Alemão e do Rottweiler, não serão os mais indicados para trabalhar em África, porque ali se esfarrapam precocemente, perdendo a prontidão, a tenacidade e a resistência necessárias ao serviço. Não estariam melhor servidas com o Rhodesian Ridgeback ou com um cão similar, quando seleccionado para o efeito ou usado para a obtenção de uma nova raça? Será que ainda paira no ar o espectro dos famigerados cães brancos sul-africanos? 
Cinquenta e dois anos depois da exibição do filme “White Dog”, de Samuel Fuller, lamentavelmente, o mundo ainda assiste a cenas idênticas, ao adestramento de cães contra diferentes etnias, como se não houvesse o direito à diferença e os homens não fossem todos iguais, provenientes da mesma origem, carentes de iguais necessidades e portadores dos mesmos desejos. Com facilidade a cinotecnia se presta ao racismo, ainda que não o deva, embalada pelo processo eugénico que levou à selecção das diferentes raças caninas e pela tentação de ver o mundo do mesmo modo. Vale a pena ver ou rever o filme “Cão Branco”, baseado em factos reais e à disposição de qualquer um na internet. Diante desta inquietante obra, ninguém ficará insensível e também ninguém quererá ser vítima! 
Mais do que a aversão, a indiferença, o desprezo, a raiva e o ódio visceral, o medo tem sido o comburente de eleição para a inflamação do racismo actual, o que o identifica como reactivo ou defensivo diante da globalização e das profundas alterações vividas nas sociedades, porque o mundo transformou-se de um dia para o outro e apanhou a maioria das pessoas desprevenida. Face a esta tamanha mudança, que nos obriga a temer pelo futuro, porque nada será como dantes, alguns são levados, se não quase todos, a agarrar-se às suas origens, por necessidade de identificação e auto-defesa, porque se sentem desalojados ou expropriados, e obrigados a dividir com desconhecidos, para eles gente remota, de hábitos estranhos, concorrente ao seu emprego, invasora do seu cantinho e perturbadora do seu sossego. Parece que o domínio branco no Mundo está a entrar em colapso (há quem diga que isso começou no dia em que o mentor do III Reich se suicidou), porque a China parece ter acordado, a União Europeia sobrevive a duras penas, os Estados Unidos “andam às aranhas”, o Magrebe cresce na França e por todo lado emergem líderes não caucasianos, como se tudo fosse inevitável e uma questão de tempo. 
Ninguém sabe como será o mundo de amanhã, se entrará em guerra ou terá os dias contados, queremos acreditar que será mais fraterno e justo, haja guerra ou não, porque a humanidade tem evoluído nesse sentido, ainda que tarde e a más horas. Quem serão os caçados de amanhã: os africanos, os hispânicos, os muçulmanos ou os emigrantes ilegais? Provavelmente os algozes do presente, se ainda por cá andarem, se não tivermos aprendido a lição e os cães se prestarem a isso. 
Apesar de nunca o esperar, eu assisti ao ruir do colossal império britânico, à queda atabalhoada do português e à eleição de um negro para a presidência dos Estados Unidos. Quem imaginaria ver a Praça de Piccadilly Circus superpovoada de paquistaneses e o nosso Rossio repleto de africanos? Será que Nostradamus o previu? Breve, muito breve, os africanos chegarão também ao mundo do adestramento, adoptando uma arte que nunca lhes deu tréguas. Oxalá não caiam em vícios antigos e não se paguem da mesma moeda, porque os cães tanto podem caçar negros como brancos, é tudo uma questão de treino!

OLHAI QUE LEDOS VÃO…

Nunca tantos septuagenários chegaram aos centros de adestramento canino, a andar para a frente e a rivalizar com os mais novos, levando-nos a esquecer o peso dos seus anos e os possíveis entraves que possam ter. Vemo-los a caminhar por toda à parte e muitos até a correr pelos parques e jardins, havendo outros que não dispensam a légua diária com os seus cães, resultado directo das políticas relativas à saúde, implementadas nas décadas anteriores. Não sabemos quanto tempo se manterão assim e como se comportarão os do futuro, agora que o serviço nacional de saúde se encontra moribundo. Julgamos desnecessário matar os velhos para que os novos sobrevivam, mas agora não temos a certeza. Bom é… não precisar do Estado para coisa nenhuma!

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking do textos mais lidos esta semana ficou assim ordenado:
1º_ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011.
2º_ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 20/10/2009.
3º_ ROTTWEILER E SERRA DA ESTRELA (AQUILO QUE OS UNE E SEPARA), editado em 07/01/10.
4º_ O CÃO JOVEM DOS 7 AOS 18 MESES: DA PUBERDADE À MATURIDADE, editado 26/10/2009.
5º_ CADERNO DE ENSINO: XXIX. TIRAR O MEDO AOS TIROS OU PREPARAR O CÃO PARA OS DISPAROS, editado em 23/09/2010.

TOP 10 SEMANAL DOS LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 dos leitores por país desta semana deu os seguintes resultados: 1º Portugal, 2º Estados Unidos, 3º Brasil, 4º Rússia, 5º Alemanha, 6º China, 7º Reino Unido, 8º Suíça, 9º Marrocos e 10º Canadá.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

ESTAMOS CARECAS DE SABER!

Para começo de conversa, usando uma expressão muito em voga, estamos carecas de saber que os donos carecem de maior ensino do que os cães, muito embora acusem os animais das desventuras que não souberam evitar, decorrentes do seu despreparo, do desuso dos comandos, de ordens e indicações contraditórias ou impróprias, de erros sistemáticos e daí por diante, que não escondem o desprezo pelos procedimentos e revelam desequilíbrios psíquicos, dificuldades cognitivas que os obrigam ao improviso e inevitavelmente ao desacerto. Como a exposição dos seus erros não lhes agrada, a culpa é imputada aos cães, também aos treinadores, ao cansaço, às agruras da vida, a dias particularmente difíceis e até a afecções súbitas que obstam à sua melhor concentração, todo um chorrilho de desculpas que não se esgota e tende a perpetuar-se (já houve quem acusasse os sapatos pelo seu desacerto e atribuísse a sua causa à presença inusitada de almas que já partiram). Por vezes, perante desculpas tão esfarrapadas, somos obrigados ao humor para evitar o desconserto e o despropósito da hilaridade, impedindo assim a exposição gratuita dos indivíduos a perca de disciplina e a quebra de propósitos. 
Enquanto estamos a ensinar um cão à trela, ainda que estejamos a ensinar também o dono, a ênfase pedagógica recai maioritariamente sobre o cão, visando a instalação dos comandos e o melhor apetrechamento dos animais, para que futuramente possam ser conduzidos em liberdade, sem atropelos e debaixo da mesma segurança, o que nos leva a concluir que quanto mais exigente e rico for o ensino à trela, maiores serão as certezas na condução em liberdade. E porque importa que o cão obedeça, na fase em que anda atrelado, estamos também a instituir a liderança pelo reforço dos vínculos afectivos binomiais. Ainda que o ensino à trela possa ser cansativo para os donos, especialmente para os menos jovens e para os pouco acostumados a mexer-se, a quem naturalmente falta desembaraço, ele irá exigir-lhes menos esforço técnico, porque a trela tende a colmatar desacertos e impede o cão de fugir, graças ao predomínio da coerção, o que fatalmente poderá induzir os donos ao engano, julgando-se capazes e considerando os cães mais do que prontos. 
Se na condução atrelada é exigido maior esforço físico aos condutores, o que a torna fácil para alguns, na condução em liberdade o esforço é mais técnico (cognitivo), o que a irá tornar inalcançável para muitos, mercê da atenção que exige, do uso de diferentes linguagens (gestual, verbal e corporal), da antecipação que evita a surpresa, do domínio dos comandos e da sua precisão, requisitos que não dispensam a sintonia entre a ordem e acção e que obrigam a diferentes posturas de acordo com o trabalho a realizar, muito embora o brado possa ser substituído pelo som dum dispositivo, desde que audível para o animal, ou parcialmente dispensado pela certeza da recompensa, se ela for quase imediata ou houver sido assimilada como rotina. 
Largar o ensino à trela e alcançar a condução em liberdade, obra maior dos condutores, apesar de alguns cães nisso ajudarem, e muito, lembra a transição do secundário para a universidade, o tirar das rodinhas de apoio numa bicicleta ou o primeiro vôo de um pássaro, porque é um salto qualitativo, que ao alcançar o objectivo do condicionamento, irá transportar os binómios para os seus benefícios e superior aplicação, dotando-os de maior autonomia até ao alcance da sua verdadeira vocação, o que levará a novas formas de entendimento e a uma cumplicidade nunca antes vista. Infelizmente, a maioria dos binómios não a alcançará por culpa dos condutores. As causas mais frequentes desse insucesso são: ausência de auto-confiança, despreparo dos condutores (confusão ou mau domínio dos códigos), excessiva carga nervosa, fraca assiduidade escolar, liderança imprópria (deficiente ou abusiva), pouca ambição e receio. 
Muitas destas impropriedades, que resultam de algum tipo de enfermidade anterior ao treino, raramente confessada, continuarão a obrigar um pequeno grupo de condutores caninos à toma sistemática de substâncias químicas, umas receitadas, outras tomadas sem conselho médico e algumas por força da dependência (anti-depressivos, ansiolíticos, estupefacientes, psicotrópicos e sedativos), que obstam assim à sua concentração e rendimento, havendo ainda outros que têm os cães como auxiliares pedagógicos e até terapêuticos, sabendo-o ou não, aos quais pouco se pede, muito se incentiva e tudo se faz pela sua felicidade, desde que não abusem dos animais para o seu equilíbrio, possível recuperação e bem-estar. 
Um centro de adestramento canino, quando bem entendido, mais do que uma simples escola para cães, é uma academia para os homens que se dedicam a ensiná-los, o que não é tarefa fácil diante dos objectivos a que se propõe, no que aos condutores diz respeito. São eles: a formação teórico-prática para a liderança, o incentivo à leitura, pesquisa e observação, a aprendizagem das diferentes linguagens que melhor servem a comunicação interespécies, a aquisição de posturas típicas do adestramento, a instalação de uma mímica própria prà função, o aproveitamento da relação óptima entre tratamento e treino, a obtenção de uma relação mais próxima com os animais que conduzem, o domínio dos códigos, o respeito pelas regras, a constância nos procedimentos, a constituição binominal com base na cumplicidade, o ensino das diferentes disciplinas cinotécnicas, a recapitulação doméstica dos exercícios escolares, o controlo e uso das emoções, a compreensão da biomecânica canina, a gestão do esforço animal, a procura e transmissão de estímulos, o respeito pelos momentos de supercompensação, o controlo dos instintos caninos e a potenciação dos seus impulsos herdados. O resto cabe aos cães! E eles serão tanto melhores quanto for a excelência dos seus mestres. Depois do que se disse, ainda haverá alguém que duvide ser a escola para os donos? Diante de tanta azáfama, tantas vezes inglória, lamentamos que os cães não aprendam sozinhos!

SUA EXCELÊNCIA O GUAIPECA

 Nas terras do “tché barbaridade, no longínquo Estado brasileiro do Rio Grande do Sul, guaipeca é o nome que se aplica a um cão sem raça definida, magro e vadio, entendido por nós como rafeiro, um sonoro substantivo gaúcho que tem a sua piada pela entoação dada: alta, gutural, solta pelo canto da boca e a exalar raiva, como tantas outras palavras do léxico gaúcho, de vogais abertas pela influência do castelhano e doutras línguas há muito desusadas, substituídas, adulteradas ou aglutinadas, lembrando o ladino, tais como as línguas indígenas, basca e guanche, transmitidas pela tradição oral, que desapareceram com as gentes e que sobrevivem apenas nalguns vocábulos, comummente repetidos por plebe alheia aos homens das pampas, tal como se adopta o uso das bombachas, do facão ou do lenço vermelho. Valha-nos o cavalo crioulo, que por enquanto nada tem de hanoveriano ou maremmano, conservando incólumes as suas origens peninsulares, ainda que melhoradas pela generosidade daquelas terras, que o dotou de mais carne e nervo. Lamentavelmente encontra-se pouco divulgado, o que pode até não ser mau, porque poderia, sem maior dificuldade, ser usado como melhorador doutras raças e passar à história. 
Mas é do guaipeca que queremos falar, do comum rafeiro, que apesar de perseguido, maltratado e abatido ao longo dos séculos, aqui continua para alegria dos mais simples, para gáudio das crianças e pró bem-estar dos mais idosos, um companheiro humilde há muito merecedor de um monumento por toda a parte, homenagem que tarda diante do muito que nos tem dado e do holocausto que tem sofrido, apesar de meigo, pouco exigente, inofensivo e dedicado, um especialista em coisa nenhuma, a não ser em fazer-nos felizes, também ele um possível melhorador da actuais raças caninas, carenciadas de maior autonomia, multi-variedade, rusticidade, equilíbrio, juízo, saúde, resistência e longevidade. 
Se cada um dos nossos Concelhos, quase todos com canis terminais municipais (se não todos), os transformassem em parques temáticos ou quintas pedagógicas, usando os cães rafeiros e os tornados vadios como atracção, cobrando aos visitantes o suficiente para a manutenção, bem-estar e sustento dos animais, todos teriam a ganhar, mesmo que tal encargo fosse remetido à iniciativa privada, porque muitos cães seriam poupados, alguns apadrinhados e todos respeitados, em particular pelas crianças impedidas de os ter, que são cada vez mais. Que melhor campanha poderíamos fazer contra o abandono e os maus-tratos sobre os cães? Não teria isso impacto nas gerações futuras e levar a uma mudança radical de atitude? Não temos qualquer dúvida! E não a temos porque os cães, ao oferecerem parceria, constituem-se em terapia, labutam contra o ostracismo, ajudam no combate à solidão, equilibram-nos, retemperam-nos e fazem-nos sentir bem, funcionando inúmeras vezes como confidentes, companheiros de jornada e até como substitutos da família, e tudo isto a troco de quase nada! 
O rafeiro tem sido um autêntico “passe social” para os mais pobres ou com menos recursos, impossibilitados de ter um cão com pedigree, mais dispendioso, exigente e sensível, porque tem trazido o campo para a cidade, ligado os homens aos cães e recriado ambientes mais saudáveis em espaços exíguos, doutra forma mais estéreis, depressivos e sufocantes, particularmente para quem se sente só e não dispensa o contacto com os animais. Sim, o rafeiro continua a ser um dos melhores veículos para a saúde física e anímica das urbes, o melhor dos companheiros para as crianças (fartas de bonecos de peluche) e para aqueles que, depois de envelhecidos pelo trabalho, ainda mantêm viva a esperança e resistem em se ir embora. E se os amigos são para as ocasiões, nos momentos de crise económica, quem mais acompanhará as gentes: o exigente cão “puro” ou o rústico rafeiro? Provavelmente o que sobreviver de repastos com teores de proteína e gordura mais baixos: o implicado do costume, Sua Excelência o Rafeiro!

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

1º_ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011.
2º_ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/09/2013.
3º_ NUNCA OUVI LADRAR O MEU PASTOR ALEMÃO NEGRO, em 17/10/2013.
4º_ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado em 05/06/2010.
5º_ CÃO DE GUARDA: DISUASÃO, POLICIAMENTO E CAPTURA, editado em 10/10/2013.

TOP10 SEMANAL DOS LEITORES POR PAÍS

Esta semana registou o seguinte TOP10 de leitores por país: 1º Portugal, 2º Estados Unidos, 3º Brasil, 4º Ucrânia, 5º Alemanha, 6º China, 7º França, 8º Reino Unido, 9º Itália e 10º Japão.

sábado, 2 de novembro de 2013

OS LIMITES DA AUTONOMIA CONDICIONADA

Entende-se por autonomia condicionada a alcançada pelo cão debaixo do controle do dono, produto do treino prévio e da experiência directa, enquanto trabalho acessório que lhe devolve a liberdade para fim útil e que o obriga ao retorno quando necessário, por chamamento, cessação das ordens, precariedade de condições, necessidade de redireccionamento, ausência de novidade, perca de indícios, protecção do cão e socorro da liderança. A autonomia condicionada visa o aproveitamento da excelente máquina sensorial e do particular físico, social e psicológico presente nos cães, nas acções onde a actividade humana, para ser eficaz, necessita de ser assim complementada. Por razões genéticas (impulsos à luta e ao poder) e outras relativas à sua sobrevivência, que os capacita para a excursão, os machos são por norma mais autónomos e audazes, ainda que eventualmente imprecisos e mais sujeitos à distracção, o que sempre obrigará ao controle ou à potenciação dos seus instintos, dependendo essa escolha das características do trabalho a realizar. Todos os exercícios interdisciplinares que obrigam os cães a trabalharem isoladamente, distantes dos donos ou dispensando a sua presença, são exemplos claros de autonomia condicionada, primeiro e último objectivo laboral, já que o do adestramento aponta claramente para a sobrevivência animal.
O alcance da autonomia condicionada, que pode dispensar o uso da trela e resultar dum conjunto estímulos a apelos naturais, pressupõe dois momentos: um na presença do dono e o outro na sua ausência. A passagem de um momento para o outro acontece pela aprovação no primeiro e em cada um deles se evolui gradativamente, consoante a satisfação alcançada nas metas intermédias. Como a autonomia condicionada não pode ser forçada, correndo-se o risco da confusão, da aversão, do desinteresse, do excessivo travamento e da consequente ausência de prontidão, ela não dispensa a maturidade emocional dos cães para a sua compreensão e instalação. È importante relembrar que a essa maturidade acontece em momentos diferentes nas diversas raças caninas, segundo a maior ou menor curva de crescimento patente em cada uma delas. Todos os cães que permanecem nas escolas para além dos 24 meses e que iniciaram o seu ensino na idade da cópia (4 meses), ou em algum momento anterior aos 18, devem ser convidados para a instalação da autonomia condicionada, também aqueles que, sendo já adultos, ali recebem ensino há mais de 90 dias, a menos que tal seja impraticável ou as características dos animais não o permitam. Caso contrário, quando muito, a escola será para eles um ginásio e um local preferencial de recreio, o que é óptimo para a sua manutenção e bem-estar, mas insuficiente para a sua idade, progresso e qualidade prestativa. 
Como por detrás de qualquer autonomia condicionada se esconde algum tipo de obediência (condicionamento), muitas vezes imperceptível para quem observa, será nela que residirá o sucesso para a autonomia pretendida. Se abordarmos somente a obediência, isentando-a da associação com outras disciplinas cinotécnicas, considerando somente os automatismos de travamento e direccionais que lhe são próprios, os limites mínimos da obediência condicionada dependerão do alcance dos comandos, quer a sua emissão seja verbal, gestual ou sonora. Os actuais meios electrónicos, quando assimilados, testados e aprovados, permitem o uso do cão pelo dono de qualquer parte do globo onde este se encontrar, a despeito das léguas que os separam. Os limites máximos da autonomia condicionada são difíceis de calcular, porque irão depender da excelência binomial, do engenho dos donos e do impulso ao conhecimento dos cães, que como é sabido, não é igual em todas as raças e difere de cão para cão. Todavia, aos 24 meses de idade, qualquer cão deverá obedecer à distância, ser capaz de permanecer quieto até 2 horas e de obedecer num raio de 100m, encetando e perfazendo várias evoluções ordenadas, independentemente da geografia do local, das condições climatéricas, da hora do dia ou da noite, do tipo de provocação e da novidade de desafios, mesmo aqueles que apelam aos seus instintos mais básicos e o impelem à desobediência, já que a obediência perde a sua razão de ser nas situações ideais, mas é mais do que necessária nas excepcionais.

TALVEZ QUANDO O COELHO ACABAR!

Talvez quando o coelho bravo acabar, alguém repare no Podengo, o avalie com outros olhos e lhe descubra “novas” utilidades. Falar de Podengos é falar de vergonha, da nossa pouca-vergonha, porque nenhuma raça tem sido tão chacinada nos canis terminais municipais como o Podengo, apesar ser o símbolo do Clube Português de Canicultura. E como se isto não bastasse, a maioria dos cães abandonados ou é podengo ou seu descendente, verdade também visível nos canis de recolhimento e adopção. Não iremos aqui tratar da história da raça, sem dúvida mediterrânica e levada até ao Novo Mundo, porque outros já o fizeram e fizeram-no bem. O que nos interessa é divulgar o seu potencial, em particular o da sua variedade mais pequena, identificada por podengo português pequeno e que na gíria é tratado por “Anão”, porque o testámos e aprovámos como cão farejador de eleição. 
Como trabalhámos podengos dos três tamanhos, durante uma década e para diferentes fins (alarme, caça, companhia e pistagem), sentimo-nos à vontade para falar deles, também porque nos vimos obrigados a reeducar alguns. A par disto, acompanhámos inúmeras ninhadas e observámos muitas jornadas de caça ao coelho, ouvindo atentamente os seus criadores e proprietários, registando tanto as suas queixas quanto o seu contentamento, para além de observarmos o comportamento dos animais no terreno, o que nos permitiu estabelecer diferenças, compreender diversos modos de actuação e reconhecer o particular de cada variedade independentemente do seu tamanho, muito embora os diferentes tamanhos obriguem ou sejam aproveitados para distintos usos. 
Debaixo do frenesim na caça e sedentos pela captura, os podengos comportam-se de maneira diferente consoante o seu tamanho, quando obrigados a caçar igual variedade cinegética, fenómeno visível na detecção, na perseguição, na captura e na entrega. Os podengos grandes seguem tendencialmente os círculos odoríferos de cabeça levantada, desprezam a caça que se encontra mais perto e vão procurar outra mais longe, avançam sorrateiros, avisam menos e caçam a salto (por intercessão), resistindo por vezes à entrega da presa. Os podengos médios, que são os que fazem mais alarido, apresentam a mesma propensão para caçar longe, não esperam pela caça, perseguem-na e tendem a mutilá-la, embrenham-se no mato, constituem-se em grupo com facilidade e por competição podem desprezar presas mais fáceis, para não cederem aos outros aquela que perseguem. Por vezes é necessário arrancar-lhes o animal da boca, porque demoram a entregá-lo. Com a idade e a experiência adquirem outra postura. Os podengos anões (podengo português pequeno) são sorrateiros, avançam de nariz no chão debaixo de cautela, detectam a caça mais próxima e tendem a entrar nas suas tocas, cedem as presas com mais facilidade e muitos deles transportam-nas para os donos. Ao contrário dos outros podengos, que com facilidade se separam dos seus donos e se perdem, os anões nunca se afastam muito deles, o que lhes garante o retorno seguro a casa. Se compararmos o número de quilómetros batidos e o tempo gasto para a captura, os podengos pequenos são os mais produtivos.
 
Encantados com os podengos pequenos e dispostos a testá-los noutras procuras, adquirimos alguns desde tenra idade para a detecção de elementos químicos, embebidos ou sólidos, primeiro isolados, depois disfarçados e finalmente constituídos em composto. As substâncias a procurar foram: AI2SO30I2, C, CuSO4, FeSO4, K (CIO3), NaNO3, (NH4) (NO3), NH4 2SO4 e Pb (NO3) 2. Foram testados 12 cães e todos revelaram uma excepcional capacidade para a detecção do enxofre nas suas diversas apresentações. O trabalho aconteceu gradualmente e passou-se da detecção de 3 substâncias para a sua totalidade, usando-se a recompensa para o reforço das acções. Depois do que vimos, ouvimos, experimentámos e comprovámos, espanta-nos que ainda ninguém se tenha lembrado do pequeno podengo português para a detecção de explosivos e seus componentes, porque tem tudo para nisso ser aprovado, já que é dócil, fácil de parceria, dedicado ao dono e discreto, não tem sido vítima da exagerada endogamia presente noutras raças e ainda conserva as características atávicas que lhe permitem o melhor uso do faro. Provavelmente continuaremos à espera dos cães de Klim Sulimov, desvalorizando e desaproveitando a prata da casa como é nosso hábito (infelizmente).

O NACIONAL-PORREIRISMO

O termo “nacional-porreirismo”, tirado em primeira instância do adjectivo calão “porreiro”, que pode ter como significado algo de bom, óptimo, agradável, fixe ou excelente, ainda antes de ser criado, já havia subido à cabeça de muitos portugueses, em particular daqueles que, a despeito da razão, continuam a viver de acordo com os seus abusos e ao sabor dos seus ímpetos, sendo por norma gente simpática, conformada, desprecavida, pouco reflectida, entregue a emoções, dada à pândega e inofensiva, mais comum nas classes sociais mais baixas e nos indivíduos mais simples, ainda que os altíssimos políticos usem e abusem do nacional-porreirismo nas campanhas eleitorais, como arma prà caça ao voto, o que de imediato baixa o povo à condição de massa, ainda que ele não dê por isso e as promessas nunca venham a ser cumpridas.
Como não podia deixar de ser, o nacional-porreirismo acaba por contagiar também a classe média, a mesma que sustenta a canicultura e a cinotecnia, hoje a necessitar de um verdadeiro milagre para a sua sobrevivência, agora que os bancos não lhe oferecem dinheiro e deixaram de importuná-la pelo telefone (acabou o dinheiro fácil). Afortunadamente, não são muitos os nacional-porreiristas no seu seio, porque o optimismo pariu o pessimismo e anda por aí meio mundo com “credo na boca” ou com o desemprego à perna. Não obstante, porque os hábitos enraizados são difíceis de arrancar, ainda desembarcam alguns no adestramento. Estes indivíduos, que não primam pela pontualidade, são geralmente pouco esforçados, avessos a compromissos e de fácil contentamento, não gostam de traçar metas e raramente têm objectivos, vindo somente pelo gozo e camaradagem, detestando que os confrontem e abominando as correcções, apesar do treino ser dinâmico, exigir regra e não dispensar o progresso. Furam qualquer plano de aula e costumam faltar quando contamos com eles, palram em demasia e depressa atingem a exaustão. Como os cães aprendem com os donos (oxalá aprendessem sozinhos!), na ausência de uma liderança capaz, os deles não chegarão a parte alguma, podendo abandonar prematuramente as lições de que tanto precisavam e acabar num canil até que a euforia retorne aos seus donos. 
E o mais engraçado disto tudo, se alguma graça houver, é que são os animais dos nacionais-porreiristas os primeiros a dar mau nome aos cães em geral, porque se encontram mal-amanhados de obediência e pior ataviados de liderança, acabando enleados num sem número de disparates, tanto em casa como na rua, o que lamentavelmente condenará alguns ao abate. Que não se fiquem a rir os estrangeiros, porque o nacional-porreirismo é uma praga mundial, sendo apelidado noutras latitudes de “dolce farniente”, “jeitinho”, easy way”, etc., porque só o incómodo levantado pelo comodismo é capaz de levantar, sustentar e venerar encantadores de cães por toda a parte.

EU NÃO SEI COMO ELE SE CHAMA, MAS ENTENDO O QUE ELE QUER

Apesar dos muitos admiradores que têm Maria Bethânia e Chico Buarque em Portugal, não vamos tratar da canção “Terezinha”. Apenas usámos este verso da sua letra como introdução ao assunto de hoje, o relativo à actuação do adestrador, enquanto agente de ensino e primeiro responsável pelo seu sucesso, nos momentos em que se vê obrigado a pegar nos cães de outrem, para reparar, inovar ou instalar determinado conteúdo de ensino, distante das capacidades imediatas dos donos ou perante a repetição dos seus erros, quando coagido a exemplificar para esclarecer e produzir alteração, simplificando desse modo a comunicação binomial. 
As duas primeiras condições a considerar, intrinsecamente ligadas entre si (muitas vezes parece que nos esquecemos disso), é que o cão não é nosso e destina-se a trabalhar com o dono, o que nos obrigará ao condicionamento do animal para além da destreza técnica do seu condutor, só lhe sendo entregue depois de verdadeiramente codificado, o que libertará do embaraço e o fará ir para diante, apesar dos seus entraves, impropriedades, dificuldades ou menos valias. O condicionamento do animal deverá ser tirado a partir da sua memória afectiva, reforçado pela excelência técnica, sem limites de tempo e considerando a personalidade do dono, jamais pela violência, coerção ou potência de voz, para que o cão, ao obedecer-nos, não arranje mais um motivo para desrespeitar quem habitualmente o conduz. O ideal, aquilo que se deseja, é que o cão saia das nossas mãos pronto para ser conduzido por uma criança de seis anos de idade, obedecendo-lhe plenamente sem delongas. 
Nos cães destinados à segurança de pessoas e bens, o adestrador deve evitar ao máximo “mexer” neles, para que a liderança repartida não obste ao seu melhor desempenho, a confusão se estabeleça e o desinteresse canino aconteça. Não havendo outra opção e quase sempre as há, o adestrador deverá operar como reforço do dono, na sua presença, cedendo-lhe a emissão das ordens e funcionando como “handler”. A necessidade deste trabalho só se justifica nas acções de travamento, que não dispensam o uso da trela e que devem ser intercaladas com outras de pendor ofensivo, para que o cão rapidamente aprenda, pela ânsia da captura, o modo desejável de operar. Independentemente da disciplina a ministrar, quer seja ela desportiva ou prática, o adestrador nunca deverá chamar o cão pelo nome, porque o nome do animal é o primeiro comando de obediência a instalar num cachorro, geralmente usado para o chamar ou advertir. Também nunca deverá recompensá-lo, deixando essa tarefa para o dono, porque importa que o animal se construa impoluto e incorruptível. Nas correcções a haver entre os cães guardiões, o adestrador empresta o corpo e o dono dá o brado, ajuda indispensável para os proprietários com maior grau de insuficiência física, naturalmente mais vulneráveis às investidas do pequeno crime. 
Toda a correcção operada por um adestrador num cão alheio, só deverá acontecer quando se souber a causa ou casas da resistência animal e for totalmente impossível ao dono fazê-la. Este entendimento irá dispensar o concurso do nome cão, porque a soberania dos comandos é suficiente para a execução das ordens, já que procuramos a concentração dos cães, evitar a sua distracção e promover a sua fixação exclusiva na pessoa dos donos, predicados também indispensáveis para os cães auxiliares de cidadãos deficientes. O uso abusivo do nome do cão, mesmo quando operado pelo dono, para além de revelar o seu pouco apego aos procedimentos e poder entregar o controlo do animal a outros, poderá ainda condenar a execução pronta e imediata das ordens, o que sempre desnudará um condicionamento precário e votado ao improviso, obstando assim à assimilação e posterior instalação dos códigos.

QUANDO ELAS ESTÃO COM O CIO

Quando as cadelas estão com o cio e vão à escola, porque devem ir, alguns cuidados há que haver para que a harmonia se mantenha dentro do grupo escolar. E devem ir à escola para controlo dos ímpetos dos machos e para que não se tornem anti-sociais ou demasiado oferecidas, o que de certa maneira condicionaria o seu uso nestas situações, que se repetem duas vezes ao ano, ano após ano. Na obediência em grupo e à trela, pelas razões que atrás indicámos, devem ocupar o seu lugar de sempre dentro do escalonamento escolar e nos percursos de ginástica em liberdade devem ser as últimas a partir, para que a inibição não grasse e acabe por condenar a celeridade exigida aos machos. Nos momentos de super compensação ou naqueles em que são convidadas a refrescar-se, aí sim, devem ser afastadas dos machos e também das fêmeas, para que todos possam descansar e não haja lugar a escaramuças, também para não semear ódios passíveis de envenenar toda a matilha escolar, o que atentaria de sobremaneira contra a sociabilização procurada. Na 1ª semana do cio elas são menos sociáveis e encostam-se mais aos donos, o que as torna menos pacientes para os cachorros e outras cadelas, podendo atacar qualquer uns deles, para além de escorraçarem violentamente os machos, atitude típica do seu impulso à defesa. Disto sabedores, há que evitar os riscos e deixá-las em paz.

QUE CRITÉRIOS DE SELECÇÃO?

Desde o Sec. XIX até à presente data, quase sem darmos por isso, que andamos a purificar as raças caninas, na ânsia de as tornar cada vez mais distantes umas das outras, num processo de “purificação,” que de puro pouco ou nada tem, diante das maleitas visíveis nos cães actuais, oriundas de uma endogamia desmesurada e de uma eugenia nunca vista, como se o belo necessitasse da aberração e os cães fossem de plasticina. Esta aleivosia perpetrada sobre os cães, crime ainda sem castigo, para além de obstar ao bem-estar dos animais, de encurtar os seus dias e de comprometer a sua sobrevivência, como não podia deixar de ser, acabou por diminuir também a sua parceria, mais-valia e utilidade, tornando-os mais frágeis e carentes dos cuidados humanos. Não obstante, há ainda quem resista à mudança e persista no mesmo critério, como se a procura estética justificasse o mal que tem sido feito aos cães. 
Como adeptos da parceria canina, entendemos que a selecção dos cães deverá recair sobre os mais fortes e capazes, sobre aqueles que conseguem contrabalançar os seis impulsos herdados mais importantes (ao alimento, ao movimento, à defesa, à luta, ao poder e ao conhecimento), responsáveis pelo seu equilíbrio biológico e não como até aqui, a potenciar um em detrimento dos outros cinco ou… desconsiderando todos eles. E se algo houver para melhorar, devido ao que hoje se pede aos cães em termos de adaptação, até porque a ausência de préstimo induz ao desprezo, será o aumento da sua capacidade de aprendizagem, tarefa impossível sem o contributo do impulso ao conhecimento, que leva o cão à curiosidade e ao querer compreender, muito embora a tarefa não seja fácil, face ao muito que se desprezou e omitiu (benditos sejam os vulgares rafeiros!) 
Nas raças que ainda conservam no seu estalão as variedades recessivas ou que continuam a aceitar alguma multivariedade, a potenciação do impulso será mais fácil, isto se beneficiarmos a variedade dominante com as restantes. Infelizmente, nas raças que não possuem esse património genético, tal será muito difícil, para não dizer quase impossível, surgindo a hibridação como a melhor das soluções, a não ser que os benefícios da engenharia genética rapidamente cheguem aos cães. Mais do que cães que varram o mundo à dentada, precisamos de companheiros que nos valham, que auxiliem quem precisa e que sejam arautos da paz que em nós tarda.

UM EQUÍVOCO ÀS 4 DA TARDE

Chegou-nos à mão um email, que pelo seu insólito e piada, não resistimos à sua publicação. Um senhor, com idade para ter juízo, decidiu assustar uma moça, deu-se mal e a travessura poderia ter outras consequências, virando-se o feitiço contra o feiticeiro. Cuidado com os velhos, pois por norma são malandros! Vamos ao relato: 
“Vi-te às 4 da tarde, vinha eu dos meus afazeres, contrariado e debaixo de chuva, quando no parque à frente da tua residência, vi-te a estacionar o carro. Decidido a pregar-te um susto de morte, escondi-me num ângulo morto por detrás do retrovisor, estranhando não ver o teu cão. Esperei que apanhasses o que tinhas no banco do pendura e que o guardasses na mala. Ao saíres do carro, saltei-te em cima, agarrando-te pelo casaco e dizendo: "isto é um assalto! Tu gritaste que nem uma desalmada e eu ri-me instantaneamente. Quando viraste a cara, quem ficou deveras assustado fui eu, porque não eras tu que ali estavas, mas uma moça muito parecida contigo, que conduzia um carro velho, em tudo idêntico ao teu. Desfiz-me em desculpas e a pobre coitada demorou a restabelecer-se, permanecendo tombada sobre o carro. Depois de restabelecida e convencida do equívoco, disse-me. "Ò homem, vá para o diabo que o carregue e não me apareça mais na frente!” Realmente há pessoas muito iguais. Ainda bem que não fiz o que primeiro me deu na bolha, caso contrário podia estar agora metido numa camisa de onze varas e entregue ao cabo dos trabalhos. Nunca mais me meto noutra, especialmente se não tiver os óculos postos!”

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

VER MORRETES E MORRER

Em Morretes não vi cães, e se os vi não me lembro deles, mas não dei o tempo por desperdiçado. Fui levado para lá por outras razões, sem saber o que me esperava, por uma estrada sinuosa, com bancos de nevoeiro, rodeada de mata infinda e infestada de curvas e sobressaltos, coberta de humidade, ocasionalmente ladeada por lençóis de água, misteriosa e quase infinda, tumultuada por camiões e salpicada por pequenos postos de venda. Depois de mil e uma ladeiras serra abaixo, cheguei lá e não vi razão de espanto, somente pequenas casas, velhos armazéns de piso térreo, a lembrar antigas colónias e a anunciar uma cidade do passado, o que a princípio me fez lamentar tanto quilómetro andado (vinha de Curitiba). 
Pouco a pouco, o que me era familiar tornou-se idílico junto do rio, apesar daqui e ali recordar pedaços de Sintra, alguns braços do Sado e até o Portinho da Arrábida. E como fui para lá num fim-de-semana, aquele pequeno aglomerado habitacional, quase por completo dedicado ao turismo, recebeu-me de portas abertas, propondo-me a compra de produtos da terra e um olhar mais atento sobre o artesanato local, engenhoso, apelativo, segundo o gosto daquelas paragens, de influências bugres e italianas, denotando a crendice popular, o simples viver tropical e a mística presente na alma brasileira, rural e infinda, onde os sentimentos se confundem com os desejos e acabam por nortear o viver das gentes. 
Debaixo daquela luz verde e difusa, bem diferente da nossa, branca e azulada, o rio anuncia-se majestoso, calmo e sereno, numa abrigada típica de porto real, não sendo difícil de imaginar vários bergantins no seu leito, com trajes e figuras doutrora. Morretes junto ao rio é um sonho de meninice tornado realidade, uma espécie de ilha encantada que finalmente encontrámos, reforçada por construções rústicas e multicolores, povoada por gente simpática e feliz. Os restaurantes e pousadas debruçam-se sobre o rio, tirando dele uma atmosfera relaxante, convidativa e atemporal, levando-nos à introspecção pelo deslumbre da paisagem. 
Algumas construções ribeirinhas lembram certos recantos europeus, pela sua graça e arquitectura, apesar da luxuriante e bem cuidada flora tropical ao seu redor, erguendo-se como pequenos palácios dedicados à evasão e ao recolhimento. Os jardins envolventes, que se casam perfeitamente com a paisagem, são de cariz romântico, limpos e próprios para fotografias de postal, pequenos canteiros que espreitam o esplendor da mata atlântica à sua frente.
 

Como bom português e por sugestão, acabei por atravessar a graciosa ponte sobre o rio e decidi-me a provar a iguaria dali: o barreado, que inevitavelmente é… de origem açoriana e obedece a um ritual já com 300 anos, uma espécie de “cozido à portuguesa” tropical, que leva 20 horas a cozer dentro de um grande tacho de barro, composto por várias carnes, arroz e farinha de mandioca, servido com frutas várias e acompanhado com vinho ou cachaça. Comi muito e bem, e paguei bem pouco. 
As horas correram mais depressa do que eu queria, com alguma relutância abandonei aquele paraíso. Rendido às evidências, porque o caminho de regresso era longo, a humidade aumentava, a estrada não era pêra doce e o carro era velho. Lá voltei para Curitiba, onde a hospitalidade há muito foi de férias e o pessoal é por norma “grosso” e “metido a besta”, apesar da cidade ser habitada por uma maioria caucasiana, facto visível no rosto das gentes e no nome das ruas. Os pardos e caboclos que habitam maioritariamente nos subúrbios, ainda que substancialmente mais pobres, são mais acessíveis e prestáveis, muito embora hajam muitos brancos a coabitar com eles e a viver nas mesmas condições. Dizer-se e ser português ali, não é fácil, “hay que tener cojones”, porque sem grande dificuldade, qualquer “portuga” se verá acusado do extermínio dos índios e responsável pela escravatura. Exemplo dessa pressão foi o acontecido alguns dias antes com uma senhora, que quando inquirida, me respondeu ser de origem italiana, apesar de se chamar Maria de Jesus Pereira da Silva (apelidos vero italianos).
Enquanto voltava, há medida que a noite avançava, tocado por Morretes e abafado pela mata atlântica, dizia para mim mesmo: depois do que vi, a morte pouco importa e morrer por morrer, que seja em Morretes ou num lugar assim. Lamentavelmente, a maioria dos brasileiros jamais ali irá e muitos paranaenses morreram e continuarão a morrer sem conhecer essa dádiva de Deus, um éden que Ele colocou à sua disposição, dentro do seu Estado e ali tão perto. Hei-de lá voltar e para a próxima vou de trem! 


OS NOVOS LEITORES DESTA SEMANA

Esta semana recebemos novos leitores dos seguintes países: Argentina, Burquina-faso (uma novidade), Canadá, Colômbia, Finlândia, Itália, Japão, México, Moçambique, Paraguai e Suíça. A maior parte dos nossos leitores é oriunda do continente europeu, seguem-se-lhes os americanos do norte e do sul, de África temos poucos e da Ásia também, apesar de ser ainda mais escasso o número de visitantes do Mundo Muçulmano. O Top 10 de leitores por país encontra-se assim distribuído: 1º Portugal, 2º Brasil, 3º USA, 4º Rússia, 5º França, 6º Alemanha, 7º Reino Unido, 8º Angola, 9º Espanha e por fim, em 10º lugar a Holanda. 
Dos 193 países reconhecidos pela ONU, 91 já nos deram leitores e o seu número tem vindo a crescer. Quando chegarmos aos 100, caso o interesse por nós se mantenha, optaremos então por uma edição bilingue, em português e inglês, de modo a melhor servir quem nos procura.