terça-feira, 24 de setembro de 2013

O XIII ESTÁGIO DA ACENDURA BRAVA (39º 42’ N 8º 17’ W)

Realizou-se no passado fim-de-semana, dias 20, 21 e 22, o XIII Estágio da Acendura Brava que contou com 22 participantes e 18 binómios. O duplo objectivo da excursão escolar, plenamente alcançado, era o de familiarizar os binómios com a prática dos obstáculos e de capacitar os cães no desempenho dentro de água.
Ainda houve tempo para uma caminhada nocturna, para acções típicas da disciplina de guarda e no último dia realizaram-se provas para a fixação dos conteúdos de ensino adiantados.
As classificações obtidas pelos binómios com cães adultos nos obstáculos foram (até ao 5º lugar): 1º RED/ Rui Santos; 2º BROWNIE/ Jorge Martins; 3º RADAR  Joana Melo, 4º BONNIE/ Augusto Ribeiro e 5º DAISY/ Augusto Ribeiro.
Na prova de natação a classificação ficou assim: 1º DAISY/ Augusto Ribeiro; 2º RADAR/ Joana Melo; 3º BROWNIE/ Jorge Martins; 4º RED/ Rui Santos e 5º WILLIE/ Márcio Duarte.
Na prova de obstáculos para os cachorros até 1 ano de idade, a classificação foi a seguinte: 1º HUK/ Augusto Ribeiro; 2º RED/ Augusto Ribeiro/ 3º DAISY/ Telma, 4º GIGA/ Jorge Martins e 5º TWIX/ João Ramos.
Na natação para a mesma categoria, a classificação ficou assim ordenada: 1º GIGA/ Jorge Martins, 2º RED/ Augusto Ribeiro, 3º HUK/ Augusto Ribeiro, 4º KIRA/ Márcio Duarte e 5º DAISY/ Telma.
Os binómios constituídos pelo Sr. Augusto Ribeiro, a jogar em casa, alcançaram 55.5% dos pontos em jogo. O CPA RED, agora com 7 anos de idade e propriedade do Sr. Rui Santos alcançou  70% dos pontos possíveis, mostrando que apesar da idade, quem sabe nunca esquece e que a longevidade laboral é possível.
Nos cachorros o destaque foi para duas cachorras CPA, a HUK e a RED. A revelação coube à DAISY, uma SRD com muita garra, versátil e disponível. Participaram ainda nos trabalhos os seguintes binómios: BOXER/Luis Rebelo e PANTERA/Ricardo.
Os trabalhos foram coordenados pela Joana Melo, Rui Santos e Jorge Martins, cabendo também ao Sr. João Carreiras várias tarefas inerentes ao sucesso deste evento.
Nota de registo foi a participação do menino João Pedro Ferreira, que com apenas 11 anos, acampou com a sua CPA Cocas ao lado dos demais, debaixo da supervisão da Joana Melo, participando com interesse em todas as actividades.
A cozinha esteve a cargo da SrªAna Paula e ninguém passou fome, apesar de muita gente não gostar de sardinhas (este prato tão português jamais voltará ao menú de qualquer estágio ou acampamento). O Sr. Augusto Ribeiro fez as honras da casa e fê-las muito bem, pelo que lhe estamos muito gratos. Os condutores puderam ainda usufruir de uma praia fluvial privativa e de uma piscina colocada ao seu dispor.
No trabalho desenvolvido no rio avistámos duas lontras, que indiferentes à companhia dos cães, se deliciavam com camarões de água doce. 
O tempo esteve de feição e a lua iluminou as noites, o que muito ajudou na subida da serra e no retorno ao vale. Os cães adultos puderam expor a sua capacidade atlética no “Arco” e dois deles conseguiram ultrapassá-lo a 1.20 m de altura (RED e RADAR). O Sr. Jorge Martins, enquanto criador de CPA’s, esteve em alta porque os filhos da Brownie e do Kaiser estiveram em todos os pódios.
Queremos daqui endereçar os nossos agradecimentos a todos os participantes e esperamos vê-los de novo no próximo estágio, especialmente aqueles que agora iniciaram as suas actividades connosco, quer como convidados quer ainda como alunos.
Para a próxima vez trabalharemos em serra acima dos 400m, num ecossistema bem diverso e ao mesmo tempo único, com o propósito de melhor equipar homens e cães, para que em tudo e em todo o lugar, os vínculos binomais saiam reforçados e grupo escolar mais unido. Felicidades e boas caminhadas!          
 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

FACILITAR A TRANSPOSIÇÃO E MOSTRAR A SAÍDA!

Apesar da prática sobre os obstáculos trazer bastantes benefícios para os cães, tais como: a correcção morfológia, o desenvolvimento dos indíces atléticos, a harmonia muscular, a melhoria dos ritmos vitais, o alcance de novas capacidades, o aumento cognitivo, o robustecimento de carácter, melhor operacionalidade e o reforço dos vínculos afectivos binomais, entre outros, grassa entre nós uma opinião contrária, aquela que os desconsidera e os considera impróprios ou abusivos para os cães, pelo que importa denunciar inverdades, esclarecer todos os interessados e adiantar-lhes subsídios.
A dispensa dos obstáculos está ligada aos factores técnico e económico. Ao técnico porque o desuso dos obstáculos tem formado adestradores que ignoram os seus requisitos e ao económico porque a pista de obstáculos é dispendiosa e não está ao alcance de todos. Estas duas carências são responsáveis pela ignorância relativa a estes preciosos aparelhos, que é falsamente justificada pelo “amor” aos animais. E como se isto não bastasse, ainda há quem julgue que a prática dos obstáculos é exclusiva de determinadas modadilidades desportivas caninas. O progressivo abandono dos obstáculos também não pode ser dissociado dos actuais métodos de treino, mais virados para o aproveitamento dos impulsos inatos caninos (quando não nos instintos) e menos apostados no desenvolvimento técnico dos seus intervenientes, relegando para os cães a responsabilidade do sucesso ou insucesso escolar, o que invariavelmente agrada a quem paga as mensalidades, porque sai inocentado e burro é o cão, ainda que receba, sem se aperceber de imediato, um certificado igual ao do animal.
Como nem todos temos a experiência e a habilidade técnica para realizarmos de surpresa a transposição de um obstáculo, também a felicidade de ter um cão valente e resoluto que nos siga incondicionalmente, é obrigatório evoluir lenta e gradativamente sobre os obstáculos, facilitando a sua transposição e mostrando para o cão a sua saída. A evolução que sugerimos é aquela que parte dos aparelhos mais fáceis para os mais difíceis e dos mais simples para os complicados, algo a se convencionou chamar de “sequências naturais” (Ex: “janela”, “pneu”, “arco” e finalmente “arco de fogo”). Considerando a possibilidade da indesejável experiência negativa, que a ninguém aproveita, não se deve convidar um cão para um obstáculo que esteja para além da sua capacidade de resolução, o que sempre nos obrigará a ajudá-lo na sua transposição, tornando-a fácil e isenta de danos (físicos e psicológicos).
A resistência canina contra os obstáculos resulta, na maioria dos casos, da incapacidade animal de antever como sair deles, pelo que importa mostrar aos cães como fazê-lo, já que as suas faculdades cognitivas assentam quase em exclusivo na experiência. Assim, o nosso primeiro trabalho é mostrar-lhes primeiro a saída, ajudando-os na transposição para que prontamente a vejam. Para que isso aconteça, podemos ter que carregá-los para cima dos obstáculos, subdividir os momentos da transposição e apoiá-los na saída, pois só assim levaremos de vencida o medo que têm de partir para parte incerta. É errado julgar que estes procedimentos apenas se destinam aos cães mais débeis ou temerosos, porque os valentes também precisam deles, porque ao não medirem os riscos, partindo à desfilada, podem adquirir vícios, lesionar-se gravemente e adoptar traumas de difícil eliminação. Como entendemos os obstáculos muito para além da competição, usamo-los como meio para a sobrevivência canina e não como pretexto para alcançar vã glória, o que justamente nos leva a convidar todo e qualquer cão para o seu concurso.
Para melhor entendimento do que acabámos de dizer, salientamos aqui o ocorrido com os cães de uma ex-aluna nossa, daquelas que chega num Domingo e que no Sábado seguinte desaparece, não deixando rasto e pouca ou nenhuma saudade. Ela deixou os seus três cães num quintal ao nível da rua, circundado por um muro de 90 cm, indo depois trabalhar. Algumas horas depois, deflagrou um incêndio num dos prédios contíguos e os pobres animais acabaram irremediavelmente esturricados (alguém nos disse que a dita senhora está inconsolável e que até se afasta dos proprietários caninos da sua vizinhança, que se esconde e não quer falar com ninguém). Um simples muro de 90 cm de altura impediu aqueles cães de se salvarem, transposição possível a qualquer cão de apenas 30 cm ao garrote, quando saudável e devidamente capacitado. Costuma dizer-se que para ser cão é preciso ter sorte e estes não tiveram nenhuma, porque foram primeiro abandonados, castrados depois de resgatados e acabaram em brasas vivas. Frequentar uma escola sem obstáculos pode condenar os cães à morte e isso ninguém deseja!

EQUITAÇÃO E CINOTECNIA

Já há muito reparámos que os melhores alunos na cinotecnia não se fixam nela como profissionais, ocupando o seu lugar indivíduos menos preparados e mais rudimentares, gente que procura no universo canino aquilo que o mundo dos homens não lhe reconhece na ânsia de um lugar ao sol. E quem disto tiver dúvidas, basta inquirir sobre a profissão anterior da maioria dos adestradores em exercício. É evidente que há excepções, e que muitas delas resultaram do desencanto profissional de alguns. Se a isto juntarmos e entendermos como formação exclusiva os workshops de fim-de-semana e as palestras esporádicas, então o panorama agrava-se de sobremaneira, a erudição tarda, o plágio reina e não haverá progresso ou evolução.
Convém não esquecer que a cinotecnia é uma ciência, muito embora o vulgo a entenda quase exclusivamente como arte, talvez por causa dos “artistas” que nela abundam, aqui e além fronteiras. Ainda que pareça impossível, a arte da cinotecnia sempre dependerá do conhecimento científico que a sustenta, tanto do que lhe é próprio como daquele que lhe é tangente, concorrente ou acessório. Por esta razão também não consideramos o Sr. Cesar Millan, tido como “encantador de cães” (nome que lhe assenta muito bem), um adestrador genuíno, porque, truque por truque; bucha por bucha, com mais justiça se atribuiria ao falecido Houdini o Prémio Nobel da Física.
Sempre soubemos que o adestramento não é doma, mas sempre reconhecemos as vantagens dos praticantes da equitação na condução de cães, ignorando até a paternidade equestre do Agility canino, porque através da equitação se alcança maior conhecimento biomecânico, se compreende da necessidade das ajudas (incentivos) e a importância da postura corporal, enquanto subsídios válidos para o melhor desempenho binomal, já que um condutor de cães é correctamente avaliado pela postura corporal (impacto visual), modo de respirar (respiração) e pela entoação dos comandos, que deve ser suave e de acordo com a divisão das sílabas, onde a ira e o stress estão proibidos de entrar, para que o cão aprenda o mais rápido possível, porque pelo condicionamento, a resposta canina é um acto reflexo da vontade humana.
A disciplina corporal dos condutores torna-se imprescindível no adestramento, porque os cães passam a vida a observar-nos e aproveitam qualquer deslize da nossa parte, chegando alguns a subornar-nos. Como cada comando verbal tem uma mímica própria que o pode substituir, o corpo deverá estar em sintonia com a voz, doutro modo, indevidamente, estaremos a enviar duas mensagens diferentes em simultâneo, o que sempre será do agrado a quem não quer obedecer. Para além destes aspectos, a prática da equitação responsabiliza os cavaleiros e desnuda-lhes os erros, levando-os ao assumir das suas culpas, condição indispensável para quem quer evoluir também no adestramento, porque só os tolos atribuem aos cães todo o insucesso que lhes é alheio.
Conhecedores destas vantagens (e não as descrevemos todas), temos convidado vários jovens para a complementaridade existente entre a equitação e a cinotecnia, certos do progresso individual desses duplos praticantes, convite que repetimos ano após ano no intuito de melhorar a sua formação, enquanto líderes e condutores de animais, dotando-os de maior responsabilidade, saber e experiência. Mais tarde agradecer-nos-ão e alguns deles ficar-nos-ão gratos para sempre.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O SANDOKAN, OS DIABOS E O PITBULL

As escolas caninas lembram as aldeias do interior, onde a convivência apertada leva a uma relação mais próxima entre os indivíduos, sendo cada um identificado por uma alcunha advinda de uma característica pessoal, chegando ao ponto de se desconhecer por completo o nome verdadeiro das pessoas, aquele que se encontra no Bilhete de Identidade e que consta no Registo Civil. Este é também o caso do protagonista desta história real, um moço voluntarioso, eléctrico, alegre, carente de aceitação, crédulo, destemido, competitivo e desafiador, orundo de Aruil, freguesia de Almargem do Bispo, concelho de Sintra e distrito de Lisboa, pequena terra escondida na serra, pouco industrial, agrícola, aqui e ali com uma oficina por perto e adornada por meia dúzia de faustosas habitações, resultantes na sua maioria do negócio das hortaliças.
O homem foi rebaptizado de “Sandokan” mais pela alma do que pelo corpo, num misto de troça e admiração, porque era franzino e praticava uma modalidade de luta, sendo comum vê-lo a correr a pé entre a Amadora e Odivelas, descalço e dar pontapés em pilares de cimento, a mando do seu treinador, um “entendido” que o haveria de fazer campeão europeu. Num dos combates para o título, defrontou o campeão e apanhou “um enxerto”, viu andorinhas fora de estação e regressou a casa a comer por uma palhinha, mas mesmo assim não desistiu, porque a pequenez do corpo não lhe aprisionava a valentia (ou a loucura). Já antes do Conde de Lippe se sabia que os saloios são melhores para romper do que para defender, para o último caso temos cá os “galegos”, que não abrem mão do que é seu e vendem cara a pele ao diabo.
Os diabos eram os seus dois mestiços de Rottweiler com Fila de S. Miguel, umas piranhas que “distribuiam fruta à esquerda e à direita” num abrir e fechar de olhos, tropa que a muitos obrigava a andar com “pézinhos de lã” (merecidamente ficaram para a história com esse nome). Os bichos haviam nascido  de um cruzamento acidental entre um cão de hotel e uma Fila residente, que longe de se fazer rogada, num ápice, se enamorou dum Rottweiler que com ela se cruzou. Não nos lembramos do nome dos bichos, será que se chamavam “Punch” e “Uppercut”? Mas de uma coisa jamais nos esqueceremos, quando o rapaz descia as escadas de acesso à pista, todos os cães se alvoraçavam e ficavam prontos para lhe morder, mesmo os mais tímidos e mansos. Escusado será dizer que foi investido como figurante de eleição, papel que adorava e ao qual emprestava subsídios nunca vistos.
Como bom saloio, inquieto e belicoso, filho de um deus que D. Afonso Henriques baniu, apesar de adepto da pinga, da mão de vaca, dos torresmos, do chouriço assado e do terço pendurado na cabine da camioneta, cuja cabeça nunca pára, o engenho não lhe falta e o toca pra diante, decidiu mais tarde adquirir um Pitbull, animal que criou irreprensívelmente e com muito carinho, no intuito de fazer dele um lutador de ringue igual ao dono. A partir daí nunca mais tivemos notícias do Sandokan, somente que o Pitbull se finou no primeiro combate. Talvez o ridículo, o desgosto, a vergonha e o “levar nas orelhas”, o tenham impedido de reaparecer. Hoje o nosso herói, se for vivo (esperamos que seja), terá perto de 40 anos e já terá dado ao mundo descendência. Para a história fica um moço endiabrado, um “peso Mosca” que se constitui na melhor das presas para os cães. Não terá o fado uma origem saloia (fado vadio), ainda que suavizada por alguns acordes hebraicos? Há quem diga que sim e no Médio-Oriente há muita gente que ainda se degusta com ele.
E porque falámos de etnias, ainda que a traços largos, vale a pena rever dois filmes da cinemateca nacional sobre essa temática: Aldeia da Roupa Branca (1938) e Ala-Arriba! (1942), respectivamente de Chianca de Garcia e de Leitão de Barros, sendo os diálogos e o argumento do primeiro da autoria de Ramada Curto e do próprio Chianca de Garcia, e do segundo de Alfredo Cortez, enquanto testemunhos do pensar e viver das diferentes gentes de Portugal. Vale a pena rever com atenção, porque estas obras têm muito para ensinar!

LÁ COMO CÁ VÃO APARECENDO ALGUNS

As fotos deste artigo, enviadas pelo Márcio Tadeu Maia de Almeida Malta, um nosso leitor do Brasil, são do Aquiles, um cachorro pastor alemão fígado (chocolate) que é filho do Platão e propriedade deste nosso amigo, que desde há tempo vem mantendo correspondência connosco, enviando-nos ocasionalmente fotos dos seus cachorros. Pelo que nos é dado a observar, o Aquiles está bem e recomenda-se, para além de ser muito bonito e de se encontrar bem tratado. Parabéns Márcio!
Este leitor pergunta-nos se a variedade “liver” (fígado) pode ser registada (registrada). Márcio, se os cachorros em questão são descendentes de cães certificados e registados, não vejo por que não! Mas se os seus pais não têm qualquer tipo de registo (registro), não sei se poderá levá-los a julgamento para obter o seu registo inicial, pois ignoramos se tal prática existe no Brasil. De qualquer modo, dirija-se ao Kennel Club do Brasil e solicite essa informação, porque ninguém melhor que essa entidade o saberá informar.
Não obstante, mesmo que os cachorros não obtenham qualquer tipo de registo, eles não deixarão de ser excelentes exemplares e um marco vivo do passado selectivo da raça, hoje quase estagnada pelo abuso endogâmico, erro que você deverá também evitar. À parte disso ou reforçando o que dissemos, à imitação dos nossos filhos, os nossos cães são os melhores do mundo. Felicidades e vá dando notícias.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

NOTA EDITORIAL

Nunca tivemos pretensões globais ou sonhos megalómanos (por isso nunca optámos por uma edição bilingue), apenas o desejo de influir no pequeno mundo ao nosso redor, neste País que amamos e que nos adoptou como filhos, porque lhe estamos gratos e muito lhe devemos. Criámos este Blog para “consumo interno”, para os nossos alunos de todos os tempos, como meio de os auxiliar e congregar no amor pelos cães, enquanto arautos da nossa mensagem e membros desta grande família (desde o início dos nossos trabalhos até hoje já passaram por nós cerca de 38.000 binómios e ministrámos ensino a mais de 60 raças caninas).
No entanto, como a língua portuguesa é uma das grandes vias de acesso neste planeta, os nossos artigos são visitados por leitores de mais de 80 países e de todos os continentes. É evidente que a maior parte deles são lusos ou luso-descendentes e que os brasileiros ocupam o segundo lugar nas visitas (34.930, cerca de 30%). Imediatamente a seguir aos leitores de Portugal e do Brasil, seguem-se os dos Estados Unidos da América (3.374), da Rússia (1.306), da França (977), da Alemanha (837), do Reino Unido (491), de Angola (365), de Espanha (276) e finalmente os da Holanda com 273. Os restantes 6.701 leitores, até à data, encontram-se espalhados pelo globo. O número de visitantes do Leste europeu tem vindo a aumentar e da Sérvia vem o 2º maior grupo. Хвала!
Como a Internet faz maravilhas, este mês tivemos ainda leitores dos seguintes países europeus: Grécia, Itália, Polónia, Suiça, Turquia e Ucrânia. China, India e Japão da Ásia, Canadá e México da América do Norte, Argentina da América do Sul, Moçambique da África Austral, das Seychelles e também 9 de Israel (Shalom, mazel tov). Infelizmente não temos visitantes dos países muçulmanos, tanto dos sujeitos à  “Sharia” como dos liberais, por isso daqui saudamos um fiel leitor do Líbano, provavelmente cristão, com o qual gostaríamos de trocar correspondência, caso esteja interessado.
Muitos destes leitores colocam-nos questões e pedem-nos conselho, o que de sobremaneira tem aumentado o nosso trabalho e enriquecido a nossa experiência. Por causa disto, a actualização do Blog tarda nos meses ou semanas de maior azáfama, quando importa dar resposta a quem nos procura (já aconteceu estarmos no Hemisfério Sul a adiantar soluções para o Hemisfério Norte e vice-versa). Considerando esta realidade, estamos a pensar levar a cabo uma edição bilingue, muito embora saibamos que ela irá agravar o nosso já sobrecarregado caderno de encargos. Para além dos comuns proprietários caninos, temos sido abordados por criadores, adestradores, etólogos e estudantes de antrozoologia, gente a quem queremos agradecer pelo contributo que nos tem prestado. Esperamos continuar assim e agradecemos a todos.

A RAÇA QUE SOBREVIVEU AO IMPÉRIO

A foto acima tem perto de 70 anos e os dois retratados são fáceis de identificar. Em primeiro plano temos Adolf Hitler, o fuhrer e visionário do III Reich, sentado numa cadeira de campo e a seu lado, também sentado, um Pastor Alemão. Do homem de Braunau am Inn importa-nos que a terra lhe seja pesada, que não ressuscite como foi ou encarne noutro igual, apesar de ser curiosa a posição das suas mãos, provavelmente atormentadas por tremeliques, a menos que o homem estivesse a dizer algo parecido com “Ò Abreu dá cá o meu” ou a sofrer de androginia. Mais nos importa o cão e em particular a sua variedade cromática, que é parcialmente afogueada e notoriamente descendente de cães negros unicolores. Tempos houve em que exemplares destes eram também registados como negros.
O III Reich já passou à história, acabou num bunker em Berlim,  finou-se, o que não significa que todos os seus males partiram com ele, pois há ainda quem sofra por sua causa e não consiga esquecer os seus horrores. Afortunadamente o Cão de Pastor Alemão sobreviveu-lhe e continua entre nós tal como foi, apesar de quase extinto pelos predicados estéticos, gostos de ocasião e sucessivas modas em que se viu enleado, que lhe proibiram o trabalho para o qual havia sido criado. Pouca gente sabe que os cães negros foram uns dos primeiros padreadores da raça e a foto isso comprova. A paixão pelos Pastores Alemães negros creditou a Acendura, fê-la crescer e recriar a magnanimidade dos pastores doutrora, tanto física como cognitivamente, enquanto outros desprezavam a variedade por ser recessiva. Quem já teve um Pastor Alemão negro e pôde apreciar todo o seu manancial, dificilmente optará por outra variedade de Pastor Alemão, porque sabe que os negros são únicos e próximos de uma relação telepática com os donos.
Diz-se que há males que vêm por bem, assim foi o caso da foto introdutora, porque através dela pretendemos homenagear o cão da nossa eleição e incentivar outros à sua perpetuação, para que ontem como hoje, o Cão de Pastor Alemão seja procurado, respeitado e admirado, enquanto auxiliar de renome e companheiro sempre fiel. Essa tem sido a nossa experiência e nunca fomos desapontados.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A MENINA DO CÃO VERMELHO VAI PARA MEDICINA

Talvez naqueles pequenos flashes que antecedem a nossa partida deste mundo, nos lembremos como agora de uma menina franzina, morena, alegre, extrovertida, resoluta e responsável, ladeada por um Pastor Alemão Vermelho, valente e muito atento, numa harmonia que todos desejam e poucos alcançam. Assim andou a Joana entre nós, primeiro com a Xita e depois com o Flick. Veio muito nova para a Acendura (perto dos 10 anos de idade) e desde cedo mostrou potencial e garra, levando-nos a admirá-la e a apostar nela. Não nos defraudou. Connosco aprendeu a controlar as suas emoções e ir adiante, a adquirir a serenidade necessária ao bom desempenho, a fazer parte de um todo que sempre a estimou e que invariavelmente lhe pedia mais. Cumpriu com distinção.
Passámos com ela horas infindas numa relação quase paternal, aguentámos as suas tagarelices e os seus desalentos, o amadurecer dos seus anos e assistimos ao alcance das suas vitórias. Aqui recebeu o nome de “Jauna” e muitas vezes serviu de exemplo para miúdos e graúdos. Participou com os seus cães em várias exibições da Escola, acampou connosco e acompanhou-nos em muitas actividades no exterior. Esperamos ter contribuído para que tenha passado uma adolescência bem vivida e descontraída, pois esse era um dos nossos objectivos. Mas para mim, enquanto adestrador e condutor de homens, porque os cães não aprendem sozinhos, fica o seu exemplo de coragem, ocorrido na Serra do Socorro, quando num ataque simulado e perante o ensurdecimento do Flick, não hesitou em deitar-se sobre o figurante, protegendo-o com o seu corpo e livrando-o de qualquer dolo (deveria ter na altura 13 ou 14 anos).
O tempo passa e o futuro é dos novos, a menina do cão vermelho cresceu e entrou para Medicina. Estamos em crer que virá a ser uma excelente médica e uma profissional digna de mérito, porque a conhecemos há algum tempo e assistimos ao seu desabrochar. O progresso académico da Joana Moura não pode ser dissociado do alento e ajuda do pai, homem que em todos os momentos a acompanhou e incentivou. A Joana tem tudo para dar certo! Resta-nos agradecer à “Jauna” o muito que nos deu, a alegria e a irreverência que nos trouxe, o incómodo que nos doou vida e o sucesso que alcançou. Se Deus ouve os seus, a Joana jamais andará só, sairá vitoriosa e venceremos com ela. Já não temos conselhos a dar-lhe, somente dois comandos: “De pé e em frente”.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

DESEJOS ANTIGOS, VELHAS IDEIAS E PRÁTICAS DO PRESENTE

Nenhum animal foi tão manipulado e alterado como o cão, nele se aplicaram e aplicam todos os conceitos ideológicos, políticas sociais e experimentos, enquanto animal dependente e cobaia dos homens, “evoluindo” de acordo com os rudimentos científicos presentes nos diferentes momentos da caminhada comum, ainda que os seus proprietários isto ignorem ou disto se aproveitem pelos desejos que teimam em ver cumpridos. O cão tem sido pau para toda a colher e muitos continuam a meter a sua colherada, segundo desacertos que engordam as suas aspirações e massificam desejos tão antigos quanto a génese da nossa espécie.
E se outro registo não houvesse para provar o que acabámos de dizer, que o há e está lavrado na morfologia e nas aptidões dos cães actuais, bastar-nos-ia ler com mais atenção os sucessivos manuais de ensino e pressupostos selectivos usados nestes últimos cem anos, marcados pelo darwinismo, pela eugenia e por políticas bem próximas ao Lebensborn, princípios hoje quase desprezados mas ainda em uso na canicultura, denunciados por termos e conceitos doutros tempos. Porque nos dedicámos à criação de “cães puros” e criámos novas raças? Donde virá o termo “beneficiamento” e que política seguimos nos acasalamentos? O que obstará a transição desses conceitos dos cães para as pessoas? Certamente não serão a consciência global, a fraternidade, a religião, a moral ou a ética dos seus adeptos, tampouco as lições da história moderna, mas sim a impossibilidade temporária de alcançarem o poder. Parece que temos andado a brincar com coisas muito sérias há demasiado tempo e sem darmos conta. Cuidado com as diferentes pedagogias de ensino, porque a lei dos cães perigosos está aí e os cães agradecem o seu bom-nome.

O FRANCÊS, A UCRANIANA E O ROTTWEILER

Certo cidadão francês abastado, bom homem e excelente anfitrião, de proventos ligados à exploração de combustíveis fosséis e daí aumentados, residente em Portugal e casado com uma empreendedora senhora lusa, residente numa zona nobre lá para a Linha, decidiu adquirir um Rottweiler para sua segurança, dos seus e da propriedade onde habitavam. O cachorro depressa se transformou num robusto e valente cão, sendo criado por uma ucraniana empregada da família, com a qual dividia a maior parte do tempo e a quem obedecia sem reservas, pronta e decididamente. Os seus donos, assolados pelos seus múltiplos afazeres e obrigações sociais, apenas conviviam com ele ao pequeno almoço (altura em que o soltavam para vir até cozinha) e por vezes ao final da tarde, fora isso, apenas lhe acenavam para o canil e desejavam-lhe um dia feliz.
Com o passar do tempo, “inexplicavelmente”, o cão começou a portar-se mal aos pequenos-almoços, primeiro rosnando e depois abocanhando os seus companheiros de refeição, o que muito intimidou os donos e os levou à procura de auxílio. Sem saber se tinha condições para tal e ignorando por completo a necessidade de liderança que o cão apresentava, o bom do francês meteu os pés ao caminho e optou por treiná-lo, debaixo de medo e sem o contrariar, porque os antecedentes não eram bons e não queria ver agravado o seu futuro, fazendo jus ao que se diz: “que quem o tem, tem medo”.
O cão aprendeu a um ritmo vertiginoso e como era um animal nobre nunca apresentou problemas de sociabilização. A instalação das figuras de imobilização constantes do currículo clássico de obediência foi muito fácil e o animal demonstrou uma disponibilidade física e atlética notáveis. Aqui e ali, sentia-se que o Rottweiler dava mais, apesar de o seu dono lhe suplicar as ordens, evoluir de olhos fechados e de se entregar a todos os santinhos, postura que negava mas que era denunciada pelo engasgo da voz, fragilidade nas ajudas e pelo esgueirar do corpo. Tantas e tantas vezes foi alertado para a precaridade da sua liderança, mímica e prestação.
Se os conselhos e os subsídios de ensino de nada lhe valeram, muito menos lhe valeu a devoção. Certo dia, que já se adivinhava, muito embora não se soubesse qual a hora e o local exactos, durante um exercício e perante a frágil insistência do dono, o cão virou-se a ele e remeteu-o para tratamento hospitalar. Depois disto ainda se tentou educar o cão por um profissional, já que o animal continuava a obedecer plenamente à empregada, hipótese que bem cedo foi abandonada porque o Rottweiler passou a dispensável. Decididos a despachá-lo por qualquer preço (a dá-lo a quem o quisesse), os seus proprietários optaram por colocá-lo num hotel canino à espera de um novo dono.
Como se calcula, não seriam muitos os candidatos a tal encargo e o animal parecia condenado ao pior dos fins, ao inevitável. Afortunadamente isso não aconteceu e o cão acabou nas mãos de um segurança que muito precisava dele para melhor desempenhar o seu serviço. Este relato é verídico e carrega várias lições. A primeira é: quem não tem tempo para cães não deve desperdiçá-lo a adquiri-los, a segunda aponta para a relação óptima entre o tratamento e o treino, surgindo o adestramento como resultado dos cuidados anteriores. Assim, quem deveria ter treinado o cão era a criada ucraniana. Infelizmente ela estava contratada para outros serviços e não lhe foi permitido abandoná-los. Gente medrosa não deve procurar cães valentes, porque o ditote “quem tem medo compra um cão” é falso e quando levado à letra, pode levar a consequências muito desagradáveis. À parte disto, nestas situações manda o bom-senso e nenhum adestrador deverá aceitar os trabalhos de um binómio com estas características, mesmo que os donos se digam capazes, a bem da sua salvaguarda e do melhor aproveitamento dos cães (é para isto que serve o regime interno e o treino efectuado por terceiros), até porque sempre será mais fácil ludibriar cães do que robustecer aqueles que se encontram ludibriados (os donos).

OS MIÚDOS SÃO LEVADOS DA BRECA!

Num País onde a um conjunto de barracos, rodeados de cascalho e à torreira do sol se chama de hotel canino, pode parecer ficção falar sobre canis. Entendemos nós e nisto temos sido bem sucedidos, que o canil destinado a um cão, independentemente de ser quadrado, rectangular, circular ou triangular, deverá ter duas partes: uma coberta e outra descoberta, tendo a última o triplo da área da primeira, que nunca deverá ter menos de 6 m2, o que dará uma área total de 24 m2. Pondo de parte outras considerações, que são inúmeras, debruçar-nos-emos somente sobre a parte coberta e a sua importância para o bem-estar dos cães.
A parte coberta deverá ser constituída por duas partes e dividida ao meio, com uma altura de 2 m e com uma parede divisória de alto a baixo, sobrando somente uma entrada de 80 X 200 cm, o que equivale a dizer que deverá ter uma câmara e uma antecâmara. Na antecâmara colocaremos o bebedouro regulável e o doseador de ração e na câmara o estrado para o animal dormir. Não fechar a câmara de alto a baixo é aumentar a vulnerabilidade, atentar contra o sossego e impedir a defesa do animal, já que fica sem refúgio e impossibilitado de se defender, sujeito a todo o tipo de traumas e agressões, que foi exactamente o que aconteceu na semana passada, num canil sem esse cuidado, de frente gradeada e com 9 m2 de área coberta.
Como a parede de separação das câmaras era de apenas 1m e o canil tinha 2 de altura, o que não permitia ao animal ocultar-se, meia dúzia de míudos, convidados da casa e levados da breca, não tendo outra coisa que fazer, dedicaram-se a assustar o cão ali residente, picando-o com varas e jogando-lhe água para cima, à socapa. É interessante saber que o cão foi ensinado a não molestar crianças. Depois da saída dos pirralhos, o cão nunca mais se sentiu bem dentro do canil e resistia em voltar para lá. Uma vez ali fechado tremia assustado, negava-se a comer e despejava o doseador de ração para o chão. Por causa do sucedido e sem melhoras à vista, o cão foi transferido para outro canil, onde agora não manifesta qualquer dos sintomas anteriores. Nada disto teria acontecido se a parede entre as câmaras fosse do chão ao tecto.

A ASCENÇÃO DO BETA A ALFA

Escolher cães nunca foi fácil, escolhê-los para a função também não e constituir uma matilha funcional muito menos. Imagine-se, porque todos cometem erros, que determinado adestrador errou na escolha de um cachorro, tomando por “alfa” um “beta”, a destinar a uma matilha carenciada de liderança. Estará ela condenada ao logro e ao fracasso, uma vez que já possuía um macho-beta e o novo tambem o é?
Não necessariamente, porque a existência dos dois machos, a competetividade entre si, o viver social canino e a presença de cadelas induzem à investidura e promoção de um deles nessa categoria dentro do grupo. É possível que a qualidade da liderança não seja a desejável, mas a matilha funcionará em pleno graças ao escalonamento ratificado pela estrutura social, isto se os machos se encontrarem nas mesmas condições e forem alvo de idêntica capacitação, primeiro individualmente e depois em grupo. Também a presença de dois cães muito-dominantes numa matilha não os transforma automaticamente em “alfas”, pois só um o será, muito embora a luta pelo poder venha a ser deveras violenta. O fenómeno que leva à ascenção do “beta” em “alfa” é obra do grupo e por isso mesmo de origem social. Pela mesma razão, os cães têm o dobro da força quando se encontram atrelados aos donos e muitas cadelas não aceitam os machos quando os seus proprietários se fazem presentes.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO

Há um só Cão de Pastor Alemão, mas dentro da raça, como sempre aconteceu, acontecem diferentes linhas de selecção, ligadas a predicados tão distintos como são o trabalho e a beleza. Os actuais cães de trabalho, mercê das alterações de estalão, devem mais aos cães recentes que aos ancestrais dessa categoria, apresentando uma curva de crescimento mais próxima ou igual à dos cães de exposição, o que nem sempre abona em seu favor e tem levado à sua substituição por exemplares doutras raças, nomeadamente pelo Malinois. A discussão sobre as diferentes linhas anda acesa por este mundo afora, sendo invariavelmente mais cardíaca que razoável e por conseguinte mais apaixonada que objectiva. Como há muito fizemos a nossa opção, não nos interessa alimentar polémicas, apenas revelar dados da nossa observação e experiência ao longo de quatro décadas, no intuito de mais valer a uns e a outros, para que todos melhor acompanhem o desenvolvimento dos seus cachorros, os compreendam por aquilo que são e não segundo tabelas ou modelos estereotipados que a uns beneficiam e a outros prejudicam.
Somos obrigados a reconhecer duas linhas, uma anterior aos cães Von Arminius e Wienerau, que aqui trataremos como “linha antiga” e outra advinda desses dois canis que trataremos como “linha moderna”, muito embora esta diferenciação não nos agrade de todo, porque sempre subsistiram entre os Pastores Alemães exemplares muito mais rampeados que outros, o que legitima os actuais numa mesma e só origem comum. E quem disso tiver dúvidas, depressa as sanará pelas fotos dos primeiros exemplares da raça, onde tal já era por demais evidente. Essa inclinação de garupa, caraterizada por uma excessiva convexidade dorsal, sempre esteve associada a costelas mais planas, ao desaprumo dos jarretes (jarrete de vaca), à menor abertura de peito, às mãos divergentes e ao abatimento dos metacarpos, o que pela disposição dos eixos, ontem como hoje, garante uma marcha solta e desenvolta, para a frente e nalguns casos extraordinariamente suspensa, factores que têm contribuído para a proliferação de exemplares mais leves e nalguns casos substancialmente mais pequenos, dentro de um estalão que ainda aceita beneficiamentos entre progenitores com 10cm e quase 20kg de diferença entre si, o que não elimina de imediato os indesejáveis exemplares pernaltos. Entretanto, não se pode dissociar o trabalho nas linhas de Walter Martin prá supressão da displasia coxo-femural e pró reforço da caracterização lupina destes pastores.
Os cães considerados de linha antiga, cuja diferença principal não é o tamanho, porque também entre eles abundam exemplares pequenos, são cães mais arredondados de costela e de dorso quase paralelo ao solo, com tendências ao selamento e com mais facilidade na transição dos andamentos naturais. Grande número deles ainda é flagelado pela displasia coxo-femural, muito embora raramente apresentem displasia do ombro, bolsas de líquido sinovial nos codilhos, dificuldades digestivas ou intolerâncias alimentares, fenômenos mais comuns nos cães tidos como de linha moderna, a quem a endogamia e consanguinidade não são alheias. Foi a linha antiga a responsável pelos louros grangeados pelos Pastores Alemães, enquanto cães de trabalho, mais robustos, resistentes e equilibrados. Os actuais cães de trabalho, pelo menos no papel, há muito que quebraram os laços de sangue com eles, o que nem sempre é verdade e é por demais evidente na morfologia de alguns, especialmente se forem lobeiros, pretos ou doutra variedade recessiva, uma vez que estas variedades cromáticas foram, durante demasiado tempo, desprezadas ou arredadas da criação pelos expositores da raça.
Aos exemplares provenientes dos beneficiamentos entre as duas linhas, prática exclusiva dos criadores que procuram cães de utilidade, se tem chamado de meia-linha. Esta opção, atendendo ao fim procurado, tem-se revelado a mais capaz, muito embora o cão ideal ainda esteja por chegar, aquele que juntará à extraordinária beleza a excelente capacidade de aprendizagem. Chegará mais cedo se o adestramento específico ruir, o que parece não tardar, ou se os critérios selectivos se alterarem, o que já está a acontecer face à excessiva consanguinidade presente nesta e noutras raças. Os cães tratados como de “meia-linha” seguem a curva de crescimento dos cães de exposição e não a encontrada nos seus progenitores de selecção mais antiga, o que só por si legitima a pureza das linhas actuais, uma vez que o regresso ao atavismo não as desconsidera, contrariamente ao que alguns continuam a afirmar pelos quatro cantos do mundo. Não obstante e reforçando o que já dissemos, os cães actuais, quando libertos do calvário que apenas compreende o “vai-vem” da boxe para o ringue e vice-versa, pelo aumento da massa muscular produzido pelo trabalho, tendem a amarrecar-se menos, diferindo dos mais antigos somente pelas angulações traseiras e particular das costelas, já que o seu dorso tende a nivelar-se pela linha do solo (o que para muitos é um tremendo contratempo), isto se não forem demasiado estreitos de peito, apresentarem mãos divergentes, significativo abatimento de metacarpos, descodilharem em marcha ou forem “naturalmente” famélicos ao ponto de espetarem os ossos. Quando isto acontece, é melhor deixá-los à vontade e entregá-los ao exercício da sua preferência, para que não agravem a sua frágil morfologia e vejam assim comprometida a sua saúde que já não é muita!
Nenhuma linha de selecção se pode gabar de só produzir bons exemplares, porque subsistem em todas elas indivíduos bons, maus, excelentes e medíocres, independentemente da sua genealogia ser mais ou menos chocalhada e das expectativas criadas à sua volta. Apesar das diferenças entre elas, todas se sujeitam ao mesmo estalão e perante ele são julgadas, mesmo que tenham diferentes curvas de crescimento como é o caso. Os actuais cães de exposição crescem mais rápido que os seus congéres de trabalho, podendo inclusive ver o seu peso aumentado, dos 2 para os 7 meses, cerca de 25% em relação a eles, mas aos 8 meses estão praticamente formados e pouco aumentarão de peso e altura, permanecendo no peso de estalão até aos 3 anos de idade. Se houver aumento de peso (o que é natural), ele dificilmente ultrapassará os 5%. Já os das selecções anteriores têm uma curva de crescimento mais alongada, alcançando ou ultrapassando os outros até aos 12 meses. Uns e outros irão respeitar tanto a altura quando o peso padronizados.
A que se deverá tal diferença? Basicamente à escolha das linhas e aos pressupostos selectivos de cada criador, ao diverso entendimento do cão desejável diante do fim procurado, pois se antigamente se desprezavam os cães de costela demasiado plana, hoje procura-se a sua proliferação. Os coeficientes de envergadura desejados passaram de 2 e de 1.8 para 2.2 e 1.9, respectivamente para fêmeas e machos, entrando algumas em ringue com 2.4 e machos com 2.2. Se no passado se procurava uma ossatura forte, agora tal é um entrave, atendendo à flexibilidade dos cães muito angulados, que mesmo sendo leves, sofrem horrores sobre os jarretes, já que a exagerada convexidade os sobrecarrega pelo atraso do ponto gravitacional. O crescimento acelerado dos actuais pastores, que é mais célere do que o verificado nos lobos silvestres, ao aproximar a maturidade sexual da emocional, dá aos adestradores menor espaço de manobra e poderá condicionar a capacidade de aprendizagem desses cães, assim como a sua recuperação morfológica, por vezes imperativa diante de desaprumos vários mercê de uma fase plástica menor. Contudo, deste modo se conseguiu eliminar o selamento do dorso, indesejáveis alterações morfológicas, maiores delongas no uso dos cães e alcançar a sociabilização sem maiores dificuldades.

Convém não esquecer que o estalão em vigor foi lavrado 13 anos antes da descoberta do genoma canino e que futuramente, tudo leva a crer, conseguiremos eliminar menos valias físicas sem suprimirmos as mais–valias psicológicas e cognitivas que engrandeceram a raça. A nossa referência às linhas antigas, e que isto fique bem claro, desconsidera as “selecções” operadas na década de 70 do século passado e reconhece a excelência do trabalho selectivo operado nas três décadas anteriores, nomeadamente o efectuado nos países da Commonwealth, Estados Unidos, Bélgica, Alemanha, França, Austria e no Leste europeu, particularmente no mundo eslavo, apesar de nalguns casos a endogamia ter alcançado valores nunca vistos por força do isolamento a que se viu votado e que foi agravada com o passar dos anos.
As diferentes tabelas de crescimento, provenientes da observação de distintos criadores, ao não serem universais, não contemplam a globalidade da raça, as várias linhas de selecção e as respectivas curvas de crescimento, sendo por isso mesmo inexactas e apenas válidas para determinado grupo de indivíduos com a mesma origem, apesar de aos 12 meses todos os cães se encontrarem debaixo do mesmo estalão, diferindo apenas na envergadura, valor encontrado pela divisão da altura pelo peso e que deverá considerar o sexo, as diferentes ossaturas e as distintas variedades cromáticas (a dominante e as recessivas), porque cada uma delas se desenvolve mais ou menos em períodos diferentes, havendo umas mais precoces do que outras segundo a herança genética de cada uma.
Porque sempre nos dedicámos à utilidade dos Pastores Alemães e nunca isentámos nenhum do trabalho, de acordo com os pesos e medidas manifestos no estalão, temos para as cadelas 3 tabelas distintas de crescimento e o mesmo número para os machos, considerando os exemplares maiores e os menores, os mais leves e os mais pesados, atribuindo às fêmeas os valores de 2, 2.2 e 2.4 e aos machos de 1.7, 1.8 e 1.9. Abaixo ou acima destes valores, a prestação dos CPA’s torna-se incaracterística e certamente terá como modelo um cão doutra raça, por mais excelente que seja o seu desempenho ou a sua celeridade operativa. Estes são os valores desejáveis aos 12 meses de idade, pois não estamos a falar do peso intermédio (Ps.Int) que acontece a partir dos 3 anos ou do máximo (Ps.Mx) que pode suceder dos 6 em diante, respectivamente mais 5 e 10%. Atendendo à longevidade e qualidade de vida dos pastores, o ideal é que se mantenham por mais tempo dentro do peso indicado pelo estalão (Ps.Est).