quarta-feira, 10 de abril de 2013

A HISTÓRIA DO LÍDER INVISÍVEL

Quando o Verão chega a Portugal, o melhor sítio para o desfrutar encontra-se no litoral, na faixa compreendida entre os Cabos da Roca e Carvoeiro, no designado Litoral Oeste, porque para Sul do primeiro o calor é insuportável e para Norte do segundo a temperatura é substancialmente mais baixa. A época estival entre Cascais e Peniche é por demais generosa para os veraneantes, porque o calor advindo do  interior peninsular é alternado com a fresca brisa atlântica, o que permite um repouso seguro e prolongado. Outrora essa suave nortada movia os moinhos de vento (hoje abandonados, deteriorados e em desuso), coisa impossível de acontecer no Inverno, porque no Oeste o vento pouco sopra e quando sopra, é por demais violento e rasa o temporal.
Os portugueses ajeitam-se mal para os piqueniques quando comparados com os práticos europeus mais à norte ou… ajeitam-se em demasia, porque carregam para as praias e pinhais uma quantidade enorme de acessórios e comida, mesmo quando oriundos de extractos sociais mais baixos. É comum vê-los a assar sardinhas, pimentos, chouriços, bacalhau, frangos e febras de porco. O vinho nunca falta e o pão também não, há quem faça ainda comida de panela, caldeirada de peixe e arroz de marisco, invariavelmente complementados com sobremesas variadas: pudim de ovos, pão de ló, salada de frutas, mousse de chocolate, farofas e por aí adiante. Os lusos têm o mau hábito de comer bem, de repartir com os outros e não sabemos como será daqui em diante.
À imitação dos piqueniques, também o serviço de catering para as fimagens é geralmente abundante, variado e rico, isto se houver quem o pague e a produção não viva em constante aperto, o que infelizmente, tanto ontem como hoje, sempre acontece. Nós tivemos sorte quando por lá andámos e não nos pudemos queixar. Cerca das duas da tarde, lá para os lados de Ribamar, numa indústria de transformação de bacalhau, com a temperatura a rondar os 35 graus centígrados e sem serviço imediato à vista, depois de haver comido como um abade (outros diriam como um bruto), decidi ir descansar virado para as ondas do mar. Peguei num dos cães que foi protagonista nessa série de ficção, abri e reclinei a minha cadeira desdobrável, deitei o animal aos meus e dei-lhe o comando de “quieto”, certo que iria descansar, com o sol quente a bater-me na barriga e a brisa fresca a soprar-me nas orelhas.
Estava redondamente enganado, porque o pastor alemão não parou por muito tempo quieto, talvez incomodado pelo sol e movido pela procura de uma sombra, apesar de ambos nos encontrarmos debaixo de uma árvore. Escapulia-se mal me ouvia ressonar e pouco descanso me dava. Quando desaparecia, chamava-o pelo nome e ordenava-lhe o “aqui”. E fiz isso vezes sem conta, até que finalmente se conformou com a sua sorte, até porque não tinha outro remédio! Já mais descansado, adormeci, embalado pelo mar a bater nas rochas e pelo silvo das gaivotas.
De repente e para surpresa minha, começo a ouvir: “Bibos, aqui!”. Sem abrir os olhos, porque pensei tratar-se de alguma brincadeira dum membro da equipa técnica, gente obrigada a extravasar pelo stresse a que é sujeita e que não é pouco, soltei: “E se fosses brincar com os meninos da tua idade?”  O silêncio voltou a reinar e o problema pareceu resolvido. Passados alguns minutos, outra vez: “Bibos, aqui!” Farto da brincadeira, soltei um impropério e de olhos semi-abertos, olhava em todas as direcções, na ânsia de surpreender, em flagrante delito, quem estava a gozar comigo e a importunar o pobre do animal.
Munido de uma vara, porque assim se dá caça aos malandrecos, com os ouvidos bem abertos e as pernas tensas, fiquei alerta, tal qual predador à espera da presa. Por mais que ouvisse chamar o cão, não avistava ninguém, nem perto nem longe! Finalmente percebi que o som vinha duma cave que tinha a porta entreaberta. Entrei e deparei-me com um papagaio cinzento, bem disposto e disposto a mostrar-me as suas habilidades. Era ele quem chamava pelo cão. Segundo me disseram depois, ele aprendia e reproduzia prontamente tudo quanto ouvia. Fiquei maravilhado com a ave e mais ficaria se o cão não lhe obedecesse! Mais tarde foi-me oferecido um da mesma variedade, um figurão de todo o tamanho e um verdadeiro “artista”, um atrevido que conhecia todos os comandos verbais ministrados aos cães, que quando ouvia “senta”, logo dizia: “deita, quieto” e… muitos cães obedeciam-lhe pela mecanicidade das acções, em particular aqueles que não tinham sido objecto da contra-ordem. Esta história verídica levanta três questões e adianta uma conclusão: porque teimam certos donos em ser psitaciformes e psitacídeos? Porque continuam a mandar ensinar os seus cães a outrém? Só para lhes dar ordens? Para isso já cá temos os papagaios!

QUEM NASCE MALFADADO, MELHOR FADO NÃO TERÁ

Não é nosso objectivo falar de João Silva Tavares, um poeta alentejano de Estremoz, a quem se atribui a letra do fado “O Fado de Cada Um”, por mais importante e rica que tenha sido a sua obra ou legado. E também seria gratuito falar do Maestro Frederico de Freitas, autor da música, cuja contribuição para o teatro de revista é sobejamente conhecida e reconhecida. A estrofe desse fado, um dos êxitos de Amália Rodrigues, que escolhemos para o título desta rubrica, também não pretende reforçar o carácter fatídico dos portugueses em geral e em particular os do Sul, porque também a entendemos pelo aforismo: “quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Tampouco nos interessa a doutrina calvinista da predestinação, com a qual não concordamos. O que queremos denunciar e pôr em reflexão é a contribuição humana para o disparate canino, a sorte de alguns cães que vão parar a mãos erradas, cujo número é grande e não cessa de aumentar. Como as violações sobre os direitos dos animais são inúmeras, sempre que pudermos, denunciaremos aqui as mais comuns, aquelas que atormentam os cães e que por serem pouco perceptíveis, encobrem a responsabilidade dos seus proprietários, gente que mais tarde se dirá malfadada, diante do carrego daquilo que fez ou deixou por fazer, ainda que eventualmente possa ter sido mal aconselhada.
Um proprietário de uma mercearia, situada num dos subúrbios de Lisboa, num local pouco recomendado pela assiduídade dos assaltos, temendo o pior, decidiu adquirir um cão que mordesse que nem um danado. Depois de buscar conselho, optou por adquirir um Cão de Fila de S. Miguel, não sem antes se deslocar aos Açores e atestar da sua valentia, seguindo a advertência de que os melhores cães estavam nas mãos dos fazendeiros e não nos criadores de beleza. E por lá andou a saltar hortênsias e muros de pedra durante dois meses, inúmeras vezes esfarrapado e a fugir dos dentes que o perseguiam. Por fim decidiu-se pelos progenitores e ficou a aguadar o cachorro no Continente, acabando por recebê-lo alguns meses mais tarde. O bicho ganhou o nome de Bravo e até aos seis meses de idade mostrava-se manso, apesar de grande e robusto. Temendo o logro, o seu proprietário ligou para o criador a queixar-se do comportamento do animal, merecendo deste o seguinte comentário: “Ele está é a dormir, para o próximo mês vou ao Continente, irei a sua casa e acertaremos as agulhas do animal. Isto se você me der guarida”. Garantida essa condição, o açoreano não tardou e começou a “despertar” o cão, dando-lhe três doses diárias de pancadaria com o que tivesse à mão. Quando o cão começou a desfazer paletes à dentada, deu o serviço por concluído e voltou para os Açores.
Vivendo acorrentado e sendo vítima da terapia acima descrita, o cão tornou-se incontrolável, não aceitando a autoridade de ninguém e muito menos do seu próprio dono, que entrava em bicos de pés para lhe dar de comer e saía com os calcanhares a bater-lhe no traseiro. Consciente do problema, decidiu procurar ajuda, acabando por nos contactar. Começou por nos contar o histórico do cão e concluiu com a seguinte sentença: “eu queria um cão mau, mas não tão ruim, que mordesse nos outros e não a mim!” No início do treino não teve essa sorte, porque qualquer comando que solicitasse era rejeitado à dentada, já que o animal se atrasava intencionalmente para cair sobre o dono. Valeu-nos a valentia do homem, que apesar de cortado, não desistia às primeiras (dificilmente alguém aguentaria tanto). Perante o desinteresse pelo alimento, pelos convites à brincadeira e pelo insucesso do açaime, que ele tentava tirar até ao desmaio, optámos por treinar o cão dentro de uma piscina, pois adorava água, com o dono ao lado a conduzi-lo pela trela, protegendo assim o homem e invalidando os ataques do animal, familiarizando-o com as ordens e o seu emissor. Ainda bem que nos encontrávamos no Verão! Passados poucos dias, já o cão aceitava a trela e o seu condutor, desfilando ambos alinhados e garbosos. O Bravo veio a tornar-se num ícone da nossa escola, porque apesar de nascer malfadado, conseguimos dar-lhe outro fado, o que se deve em grande parte ao dono, porque se fosse outro, apesar da sua culpa e da inocência do animal, de imediato o eliminaria. Outros cães não tiveram a mesma sorte e acabaram por pagar pelos actos dos seus donos. Será que não continuam?

DOS CÃES QUE NÃO DEIXAM OS DONOS SAIR DE CASA

Alguém deve andar por aí a dar falsas informações ou a induzir instruendos ao engano, porque a dominância canina está na ordem do dia e tudo lhe é atribuído. A moda tem destas coisas, uns vestem calças a cair pelo rabo abaixo e outros divertem-se a ensinar cães. Tempos houve em que a mioleira de carneiro foi considerada a melhor dieta para os bebés e ainda há quem enrole os pés para que não cresçam! Vamos desenrolar o caso.
Um jovem a ganhar um salário mínimo, num emprego descontraído e pouco cansativo, tendo noção do custo de vida e não sendo um trabalhador especializado, dedica-se nas horas vagas ao ensino de cães, actividade paralela que lhe garante algumas centenas de euros extra. Segundo ele, o seu trabalho assenta sobre a obediência básica e a resolução de problemas comportamentais. Neste momento tem um problema com um cão que não deixa os donos sair de casa, porque se agarra deseperadamente às suas pernas, “o que é sem dúvida um problema de dominância”, como nos nos fez saber.
Ainda antes de passarmos ao comentário do caso, queremos adiantar outro, o acontecido há uns anos com um pastor alemão, este sim verdadeiramente dominante, que após a saída do dono e sem treino específico para isso, não consentia que a dona saísse depois do marido, rosnando-lhe e jogando-a ao chão, mordendo-lhe caso ela insistisse. A pobre senhora via-se obrigada a saltar o muro das traseiras para ir trabalhar, perante o incómodo da situação e diante da hilaridade dos vizinhos. O marido podia sair à vontade e quando quisesse, antes ou depois, a esposa só se saísse primeiro! Depois passou a fazer o mesmo com a mulher-a-dias, que podia entrar a qualquer hora, só podendo sair depois da chegada dos donos. A pobre coitada que nem pensasse em tocar nos acessórios do cão ou na secretária do dono, e muito menos lhe consentia que o olhasse nos olhos, apesar de a seguir por toda a parte e de procurar o enfrentamento. Estes incidentes trouxeram-no até nós. Fora da presença do dono, tardiamente aceitou a nossa autoridade, porque a bem abusava e a mal ripostava. Saíu perfeito, deixou marcas e saudades!
Já no caso do nosso jovem, que nos perdoem a ignorância, apesar da dominância derivar gradativamente do impulso ao poder de cada indivíduo, tendo por isso diferentes apresentações ou manifestações, não nos parece que o cão demonstre qualquer tipo dela, tanto genética quanto adquirida. Ao invés, estamos em crer que se trata de um indivíduo ansioso, mal instalado e piegas, cuja maturidade emocional não aconteceu ou tarda em chegar. E depois, os cães verdadeiramente dominantes, não se manifestam somente numa circunstância particular, mas em todas aquelas em que se vêem ou sentem contrariados, não se escusando a meios para impôr a sua vontade. Eles não suplicam, reagem contra e afirmam-se, enfrentam e não temem, resistem sem pruridos e confiam na sua supremacia. Já os induzidos a isso (à dominância), pela ficção forjada pelo condicionamento, tendem a abandonar esse comportamento por ausência de condições, diante da novidade ou perante a surpresa de um fim inesperado. Bem sabemos que “há que fazer render o peixe” e que o papão do bicho mau anda por aí de boca em boca!

RECEIO FAZER UMA NINHADA, TEMO QUE ELA FIQUE MAIS AGRESSIVA!

O medo e euforia são sentimentos que depressa avassalam as gentes. A euforia tem curta duração e o medo tende a perpetuar-se. E nisto, homens e cães não diferem muito, ambos temem o castigo e aprendem com as experiências negativas. No entanto, os homens esquecem-se mais depressa do bem que lhes é feito pelo mal que sofrem, enquanto nos cães parece acontecer exactamente o contrário. Talvez por isso, por causa da gratidão, os lobos familiares sejam mais fiáveis, merecedores de maior confiança. Como todos tememos e provocamos medo, rotula-se de alienado todo aquele que o não tem, muito embora a sua presença se revele de várias formas nos indivíduos, já que pode levar os fracos ao pânico e os fortes à cautela. O mesmo sucede nos cães.
Nas sociedades democráticas, governadas por outro peso que não o medo, são os meios de informação que dão o aviso, lançam o alerta e que por vezes semeiam o pânico. Com a chegada da Internet e do grosso da sua informação, muitos temores entram pelas nossa casas adentro e levam a sociedade a várias tomadas de posição. Exemplo disso, entre tantos, foi o que se convencionou chamar de “Primavera Árabe”. Consultar artigos da Internet sem inquirir das suas fontes é uma tolice bárbara, é tomar por certo o errado e daí colher as consequências. Uma senhora idónea, esclarecida e acautelada,  proprietária duma cadela que não deseja ver castrada, resiste em tirar uma ninhada dela, porque muitos lhe dizem que o animal, após a gestação, o aleitamento e a criação dos cachorros, por força do instinto maternal ou do exercício da maternidade, irá ficar mais agressivo, agravo que a dona teme e não deseja.
Justifica-se a preocupação desta nossa leitora perante a cinofobia que por aí vai, alimentada em simultâneo por quem a sofre e por quem ganha com ela, porque há sempre quem lucre com as guerras, tanto na logística como no mercado negro, porque não é raro o empobrecimento de muitos levar ao enriquecimento de uns tantos.
 
 
Considerados os ataques caninos perpetrados na Europa, os inusitados e tornados públicos, raríssimos foram aqueles levados a cabo pelas fêmeas. E quando aconteceram, aconteceram mais pelo instinto à defesa do que ao da luta, o que a ninguém espanta, já que as cadelas não apresentam por norma indícios desse impulso herdado, que é típico e está presente nos machos. Nos dois casos conhecidos, acontecidos na estranja, eles sucederam como resposta a uma invasão de propriedade. As notícias que vêm a lume em Portugal, por ausência de rigor e de know-how, o que obstaria ao sensacionalismo pretendido, não deverão ser consideradas até à conclusão dos respectivos inquéritos, pois já ouve um caso em que acusaram uma matilha de cães de ter morto uma criança e depois se vir a descobrir que ela  havia sido colocada já morta no meio deles. Atendendo ao escalonamento das matilhas caninas, capitaneadas por um macho, é possível que as cadelas avisem ou ataquem primeiro segundo a hierarquia que sustenta o grupo, já que naturalmente são elas a dar o mote (sinal), vindo depois os machos em sem auxílio “com tudo a que têm direito”. As cadelas não saiem prá rua a distribuir dentadas, mas podem defender-se e defender os seus donos quando provocadas ou se sentirem ameaçadas. E mesmo nestes casos, irão necessitar de treino específico, que nem sempre é bem sucedido, muito embora existam raças  e indivíduos mais propensos para tal.
Cientes disto e por apego aos cães, entendemos que a dita senhora deverá fazer uma ninhada com a sua cadela, porque daí não virá grande mal ao mundo. Apadrinhamos a ideia porque entendemos que a maturidade emocional das fêmeas se completa com o exercício da maternidade. Por outro lado, estamos fartos, fartíssimos de ver cadelas taradas por ausência da maternidade, todo um conjunto de máculas que potencia o ciúme e pode chegar até à curiosa pseudociese (gravidez psicológica), fenómeno carente de tratamento e geralmente pouco considerado. E se outras razões não nos sobrassem, bastará dizer que o exercício da maternidade muito tem ajudado na recuperação das fêmeas mais submissas e inibidas, dotando-as da confiança necessária para o trabalho e para a inserção em matilhas que se desejam unidas num só propósito.

DÁ PARA CÁ 75 EUROS!

Normalmente omitimos dos nossos comentários as identidades dos seus intervenientes e o nome das instituições ou empresas envolvidas. Fazêmo-lo para não dar azo a polémicas e para não expôr quem não nos autorizou. Mas neste caso, somos tentados a fazê-lo, por ser caricato, rasar o insólito e ser de um oprotunismo absurdo. Contudo, ainda não é desta que abdicaremos da nossa regra e manteremos no anonimato o hospital veterinário onde tudo se passou.
Um casal de brasileiros, há alguns anos radicado em Portugal, oriundos não se sabe de que Estado ou Cidade (tudo leva a crer que sejam de origem citadina), a falar português de Portugal (o que raramente se vê e ouve), decidiu comprar um cachorro Jack Russel para sua companhia, não tendo até ao momento qualquer experiência com cães. Com o passar dos meses, o cachorrinho chegou à maturidade sexual sem os donos disso se aperceberem. Certo dia, ao chegar a casa, o jovem casal é surpreendido com algo aterrador e inesperado: o seu cachorro tinha o pénis todo exposto, inflamado e desenbainhado até aos bulbos. Diante daquela exposição, a senhora imaginou que os intestitnos do pobre bicho tivessem saído e o marido, igualmente aterrado, não conseguia imaginar o que seria aquilo. Apostados em socorrer o cachorro, dirigiram-se de imediato a um hospital veterinário com atendimento 24 horas por dia. Chegados lá, com o cachorro ao colo e ainda naquele estado, aguardaram pelo atendimento. Entretanto, três veterinários passam por eles, olhando e nada dizendo. Finalmente são atendidos.
Ainda em sobressalto, perguntaram ao clínico do que se tratava. “Não se passa nada. Isto é um processo natural e está ligado ao desenvolvimento do cachorro. Daqui a mais alguns minutos tudo voltará à normalidade!” – disse-lhes ele. Depois de ouvirem as explicações do veterinário sossegaram e prepararam-se para sair. “Desejo-vos as maiorores felicidades com o cachorro. Ele é muito bonito. Por favor, dirijam-se à recepção e paguem a consulta, são 75€”. De novo em sobressalto, o casal nem queria acreditar naquilo que acabara de ouvir. Coibidos pela surpresa, acabaram por pagar e ambos juraram nunca mais lá voltar, juramento que não violaram até à presente data. Pudera, o caso também não é para menos, já que o veterinário nada fez ou observou! Como diz o Povo e nisso tem carradas de razão: “quem não sabe ser caixeiro, fecha a loja”.

ADIVINHE AS CONSEQUÊNCIAS: O MAU HÁBITO DE NÃO CONFERIR

Um rapaz simpático, proprietário de uma cachorra Border Collie, agora com seis meses de idade, decidiu inscrevê-la numa escola canina visando a sua futura prestação no agility. Na escola não conferiram o calendário de vacinação da cachorra, apesar dela ter todas as vacinas em dia (as combinadas), faltando-lhe “apenas” a específica contra a tosse do canil, o que não a impediu de treinar e de aproveitar os benefícios do treino, que foram vários e rapidamente assimiliados. Semanas antes da cadela ser inscrita na escola, um vizinho do seu dono alertou-o para a necessidade da vacina em falta, conselho que prontamente agradeceu e que de imediato esqueceu. Nem mesmo o director da escola prestou grande atenção para o facto. Serão os nossos leitores capazes de adivinhar as consequências dessa ausência de cuidado? Tentem adivinhá-las antes de lerem o próximo parágrafo.
A cachorra contraiu a doença e acabou por transmiti-la ao outro cão lá de casa. Estão neste momento debaixo de antibiótico e serão vacinados quando curados. Em todos os andares do prédio onde mora o simpático rapaz existem cães e espera-se que estes não contraiam a doença. Apesar dela ser altamente contagiosa, o jovem continua a treinar demoradamente a cachorra num jardim público, local muito frequentado pelos cães locais, das redondezas e de fora, contribuindo desse modo, voluntária ou involuntariamente, para a propagação da doença. Por estas razões, nenhuma escola deverá aceitar qualquer cão sem estar correctamente vacinado contra a doença e seus agentes (contra os vírus da parainfluenza e adenovirus tipo 2, assim como contra a bactéria Bordettela bronchiséptica). O surgimento da doença é mais comum nas estações intermédias do ano (Primavera e Outono), pelo que se aconselha a vacinação nos finais do Inverno e Verão.

OS ANIMAIS, OS CÃES E OS NÓMADAS: REGRESSAR AO PRINCÍPIO

Quem desejar abrir uma escola canina e pensar que irá alcançar o paraíso, desiluda-se, porque irá ter pela frente um sem número de problemas, não somente os colocados pelos cães, que esses sempre serão de pouca monta, mas os apresentados pelos donos, urbe com dificuldades em se compreender a si própria, tendencialmente deslocada e entregue a sonhos incontidos, mercê de sentimentos e apelos que se perdem pelos confins do tempo. Lidar com gente que sonha acordada não é fácil e importa compreendê-la para “embarcarmos no mesmo navio”, para chegarmos ao mesmo destino à mesma hora, sãos, salvos e radiantes. Porque serão os donos dos cães assim? Há décadas que esta dúvida nos assola. Parece que finalmente encontrámos a resposta ou simplesmente uma das possíveis.
O homem actual desespera diante do sedentarismo, garantidamente não nasceu para ficar parado, enjaulado no mesmo perímetro, rotulado e entregue às rotinas de sempre, que não lhe trazem novidade e que o põem doente. Está farto de ser massa e reclama a sua individualidade. Fustigado pelo desânimo e levado ao mutismo, anseia por outros espaços, sonha com a evasão e procura o lugar só para si, longe do que o atormenta e próprio para a sua realização, porque se sente preso e quer sair. Como a infelicidade tomou conta dele, resiste e refugia-se noutras actividades, não raramente opostas àquelas que é levado a fazer, numa dimensão para além daquela que lhe coube. Aqueles que não sentem o desejo de sair e que viajam para dentro, são geralmente mais aborrecidos, quizilentos e picuinhas, são donos zelosos do seu castelo, toleram mal a intromissão e fazem das suas varandas estufas ou florestas, podendo ainda adorná-las com um ou mais animais domésticos, o mundo acaba quando fecham a porta de casa e o sonho completa-se na solidão dos seus pensamentos. Outros há que sacralizam os seus pertences, fazem das casas museus e estabelecem regras próprias para o uso do seu pecúlio, instando para que permaneça intocável e reluzente.
Os mais saudáveis procurarão pôr-se em sintonia com a natureza e com os ponteiros do relógio biológico, peregrinarão, acamparão nas falésias, escalarão montanhas, voarão por cima das nossas cabeças, correrão léguas infindas, varrerão o asfalto, montarão bicicletas, cavalgarão pelas charnecas, desbravarão matas, vencerão as ondas, velejarão pelos mares, vencerão desertos e partirão à descoberta, de mochila às costas e rumo à aventura, porque sentem que o sedentarismo os mata e que algo lhes falta. Os mais abastados contruirão casas em sítios paradisíacos, morarão à parte e adquirirão grandes extensões de terreno. Os mais entrados procurarão o sol doutras paragens, empreenderão cruzeiros, irão às termas ou deleitar-se-ão em raros prazeres e novas iguarias. E com isto, o que estarão a recriar? Certamente o nomadismo milenar, as expedições doutrora, o prazer perdido dos tempos idos, envolto em mistério e anterior às modernas civilizações. Este retorno ao passado é também visível no interior do País, onde muitos estrangeiros, cansados das maleitas do urbanismo, acabam por povoar as aldeias abandonadas e habitar velhas casas de granito com telhados de xisto, dedicando-se com afinco à pecuária e à agricultura.
 
Se o sedentarismo mata o homem, a solidão estende-lhe a “extrema unção”. A junção de ambos é uma carga que ninguém deseja, porque lembra uma prisão e zombie ninguém quer ser. Desde há muito que os animais vêm sendo utilizados para colmatar carências afectivas nos humanos, ajudando no seu equilíbrio e integração social, quebrando-lhes a solidão e dispensando-lhes o ânimo necessário para a sua sobrevivência, enquanto terapeutas de eleição prontos a coabitar connosco. Entre eles, os cães são os que merecem maior destaque, porque o seu recrutamento para esse fim tem excedido amplamente o de outros, graças à sua versatilidade, interacção e cumplicidade. A somar a isto, porque o cão é um animal excursionista, a sua posse combate o sedentarismo, induz a novas rotinas e sempre traz alguma novidade. Como consequência, alguns donos, mercê da felicidade de os terem ao lado, que os leva à gratidão, vêem os seus cães como filhos, deuses, reis, heróis, conselheiros e confidentes, depositando neles um todo de expectativas, baseado numa relação de paridade extraordinária, muitas vezes para além daquilo que os animais são ou têm para oferecer, o que de sobremaneira poderá dificultar o seu ensino, já que a relação entre o dono e o seu cão, por ser de natureza afectiva, é por demais intíma, tirada a partir de regras extraordinárias ou da sua ausência, mais baseada em sentimentos incofessos do que em razões objectivas. Uma coisa é certa: os donos dos cães são gente boa e disso não temos qualquer dúvida!
Se nos cães somos obrigados a considerar o seu imprinting, também não podemos desconsiderar o imprinting dos donos alcançado pelos animais, já que alguns proprietários caninos, ao identicarem-se primeiro com eles, alcançaram depois melhor relacionamento com os seus semelhantes, em especial com outros iguais e inebriados de idêntica paixão. O homem robustece-se na companhia do cão, ganha alento e auto-estima, porque sabe que não está só e que dificilmente será abandonado. Com o cão ao lado sente-se pastor, caçador, resgatador e polícia, porque o animal ao aceitar a investidura, sem grande dificuldade, completará o quadro, massificando desse modo os sonhos de quem o acompanha. Assim, quando um binómio sai à rua, ele empreende uma viagem bem maior do que aquela que os seus passos alcançam. O homem procura no cão a felicidade há muito perdida e o retorno às coisas simples, a companhia que lhe falta e a aventura que não tem, um companheiro que o oiça, complemente e aceite a sua individualidade. Que melhor amigo encontraria para se evadir e enveredar pelos trilhos míticos de outrora e que em simultâneo lhe traga paz, serenidade, tranquilidade e bem-estar? Há quem diga que o cavalo oferece o mesmo, muito embora seja difícil alojá-lo à porta do nosso quarto ou tê-lo aos nossos pés na cozinha.
Bem-aventurados sejam aqui na Terra, quiçá no Céu, aqueles que criam, adestram e desenvolvem actividades com cães, que têm como ofício fazer os outros felizes, que abdicam do seu tempo para que outros o tenham em abundância. Bem-aventurados sejam também os que se dedicam à terapia canina e que aprimoram cães para o auxílio e o resgate daqueles que mais precisam, porque são mensageiros da esperança e servem os demais. Talvez morram ignotos, mas partem na certeza do dever cumprido.

sexta-feira, 29 de março de 2013

GRANDE SEM SER GRANDE COISA

Quem visitar os actuais canis de abrigo que têm animais para adopção, espanta-se com o número de cães de médio e grande porte que por lá há, muitas vezes ali alojados ao longo de anos, sem resgate ou saída à vista. Toda a gente sabe que os cães grandes têm menos procura, porque comem mais e são por isso mesmo mais dispendiosos. Acresce ainda a necessidade que têm de maior espaço, o que os torna de difícil arrumação num comum apartamento. Quem os procura, procura-os para moradias, quintas e fábricas, para reforço da defesa e segurança desse tipo de propriedades, que exigem um cão grande para meter respeito e que impeça de alguma forma a sua invasão. Acontece que a maioria dos cães resgatados, quando não a sua totalidade, acaba por ser castrada antes da maturidade sexual, o que tem vindo a roubar o préstimo a estes animais, uma vez que se tornam por demais amistosos e sociáveis, impróprios para defender seja o que seja, inclusive a si próprios. Uma vez capados, facilitam o seu alojamento e integração nos canis de resgate, já que naturalmente são menos quezilentos que os seus congéneres mais pequenos, ainda que fiquem a tremer com medo de tudo e de todos, porque raramente saiem à rua ou alguém os leva a passear. Grandes sem ser grande coisa, a maioria destes cães acabará para sempre nos canis de resgate tal qual infantes discriminados em lares da Misericórdia, cuja adopção difilmente acontecerá. Neste e noutros casos, não deverá a opcão pela castração ser repensada, já que os cães grandes são preteridos diante dos pequenos como animais de companhia?

INTERNAMENTO E IDADE DA CÓPIA

Quando se têm alojados vários cachorros no mesmo canil ou a coabitar no mesmo território e eles já alcançaram os quatro meses de idade (idade da cópia), altura em que começam a escalonar-se e a estabelecer a hierarquia, se um deles adoece e acaba internado num hospital ou clínica veterinária, alguns cuidados há que haver na sua reintegração na matilha, especialmente se o internamento for superior a um dia ou dois, o que geralmente acontece, porque os residentes poderão tentar expulsar aquele que se pretende reinstalar, uma vez que a ausência deste poderá ter provocado alteração no escalonamento social. O caso agrava-se entre os cães reconhecidamente territoriais e nas matilhas onde as fêmeas se encontram em maioria.
O internamento de cachorros é uma medida extrema que visa a sua plena recuperação e não deve ser implementada por sistema, comodidade ou lucro, particularmente na presença do caso acima descrito. Sempre que tal seja possível e daí não resultar qualquer perigo para os demais, o cachorro deverá ser  tratado em casa, desde que coma e o seu enfraquecimento não seja por demais evidente, o que agravaria substancialmente a sua desvantagem em relação aos restantes membros do grupo, podendo no entanto ser tratado e alojado em separado.
Diante das circunstâncias adiantadas no primeiro parágrafo e justificando-se o internamento, a integração do convalescente deverá ser gradual e vigiada, evitando-se os perigos do confinamento forçado que só agravariam a situação. Assim, os cachorros deverão primeiro familiarizar-se no exterior ou nos locais destinados à sua evasão e brincadeira, para que a aceitação do retornado aconteça sem maiores riscos e atropelos. Se assim não se proceder, porque os cães são seres sociais e animais de hábitos, podemos estoirar psicologicamente o cachorro que intentámos recuperar. Os cães aprendem, crescem e evoluem de acordo com a sua experiência de vida (experiência directa). Cabe a cada um de nós aplainar o seu caminho, suavizar o seu trajecto, evitar as suas experiências negativas (passíveis de trauma) e tudo fazer para que vivam confiantes e sem temor.

ADIVINHE AS CONSEQUÊNCIAS: ELES JÁ SE HAVIAM CHEIRADO!

Esta é uma nova rubrica que editaremos todas as semanas: “ADIVINHE AS CONSEQUÊNCIAS”. Nela relateremos episódios reais e as suas repercussões, tanto para nós como para os nossos cães, apertos a evitar pela denúncia e pela solução que sempre adiantaremos. Diz-se por aí que as escolas não ensinam os novos alunos a raciocinar, que mais obrigam o “marranço” do que ao descernimento lógico. Custa-nos a acreditar que sim e também não queremos contribuir para que isso aconteça. Vamos ao caso desta semana:
Uma aluna nossa, apaixonada por cães e a trabalhar em regime de voluntariado numa associação de recolha de animais, decidiu deslocar-se ali acompanhada pelo seu cão. Preso a uma corrente por ausência de outro tipo de instalação e quase desde sempre, estava um cão médio-pequeno que ao esticar a prisão se acercou deles, não manifestando de imediato qualquer tipo de hostilidade para ambos. Os animais cheiraram-se e nem sequer houve lugar a qualquer rosnadela, tudo parecia perfeito e a decorrer dentro da maior normalidade, o que levou a dona do cão visitante a soltá-lo. Inesperadamente (para ela), quando o seu cão entrou a correr pelo perímetro do outro adentro, sofreu uma valente dentada no dorso, certificada pelos quatro buracos lá deixados. È evidente que se ela soubesse ou adivinhasse as consequências, jamais soltaria o seu cão! Mas seriam assim tão difíceis de prever?
É do conhecimento geral que os cães acorrentados tornam-se mais agressivos e territoriais, que a “terapia da corrente” é usada para aumentar a sua agressividade e irritabilidade (veja-se o caso das trelas elásticas usadas nos treinos de ataque), que quanto mais exíguo é um território, mais ele induz à sua defesa, que os cães têm o dobro da força e de ânimo quando atrelados aos donos e que a corrente tende a substituir a sua presença, surtindo o mesmo efeito. Assim, face ao estímulo induzido pela prisão, nenhum cão verá com bons olhos a invasão do seu território e não deixará de perseguir outro que nele se constituir em presa, mesmo que seja um pobre coitado e somente grato por umas míseras sopas. Mais valia à menina ter soltado o cão acorrentado, porque uma vez à solta, por se sentir vulnerável e menos confortável, dificilmente encontraria razão para descarregar no outro. O facto dos cães se haverem cheirado nada garante, até porque os ataques ocorrem normalmente depois desse modo de identificação.

PERPETUAR A ANSIEDADE

A ansiedade canina continua a ser procurada nas ninhadas, aproveitada e potenciada no adestramento, porque carrega desconfiança, suscita agressividade e induz ao ataque. Por causa disto, um bom figurante não tem preço e sempre acabará bem sucedido. Quando a ansiedade é genética e de alguma forma sempre o é, com meia dúzia de "toques”, saiem os cães a morder nas estrelas!  A ansiedade que provoca a avidez da explosão, também tem sido utilizada noutras modalidades caninas distantes do propósito guardião, porque o stresse que a acompanha acabará por ser aproveitado. Existem raças mais ansiosas que outras e aqui a morfopsicologia e a fisiognomia poderão ajudar-nos de sobremaneira na sua identificação, melhor do que na compreensão das pessoas. Todos sabemos que os lupinos e os vulpinos são mais voláteis que os molossos, por exemplo. E depois, a ansiedade não consegue esconder o medo atávico que leva à defesa, o que a muitos faz jurar, que um casal de cobardes, mais facilmente gerará uma prole de valentes. Até quando ensinaremos os cães debaixo de stresse e perpetuaremos a sua ansiedade? Ansiedade e disparate não andarão de mãos dadas? Será a ansiedade boa conselheira ou levará a acções mecânicas previsíveis para quem as conhece e de grave consequência para quem as ignora? Que qualidade de vida terá um cão dominado pela ansiedade?
Muitas vezes sem repararmos, inconscientemente, contribuimos de modo eficaz para o aumento da ansiedade nos nosos cães, tanto no convívio diário como quando intentamos adestrá-los. Como são inúmeras as situações em que isso acontece e não podemos aqui contemplar todas, vamos remeter-nos ao caso do cão que resiste ao comando de “quieto” e que executa o “aqui” num ápice, desnecessitando de ser chamado. O comando de “aqui” acontece naturalmente nos cães, como uma resposta natural por força do seu sentimento gregário. Já o comando de “quieto”, por ser uma resposta artifical, carece de condicionamento e recapitulação para a sua assimilação, porque os cães, tanto os lobos como os familiares, preferem o trabalho em grupo e não se sentem confortáveis quando isolados. O isolamento de um canídeo, sem a interferência humana, sempre resultará da expulsão que induz ao exílio forçado e nenhum cão gostará de se ver ou sentir nesses “assados”. Os cães que mais resistem ao “quieto” são os medrosos e os mais activos, sendo ambos assolados pela ansiedade da separação, ainda que uns sejam movidos pelo medo e outros pela “incompreensão” da inércia.
Determinada senhora, desgostosa com a prestação do seu cão no comando de “quieto” (fica) e apostada na sua melhoria, valendo-se de um parque ao redor da sua habitação, treinava o seu companheiro nessa imobilização, a uma distância de 50 mt, chamando-o ciclicamente de dois em dois minutos. Contrariado, o bicho lá se ia aguentando, quando se aguentava, porque de tudo fazia para fugir da posição inicial, quer levantando-se quer ainda rastejando, não resultando do empenho da dona qualquer benefício, já que o animal se comportava cada vez mais ansioso, aguardando em sobressalto a hora da chamada e do reencontro. Em que estaria ela a errar?
Em primeiro lugar, as respostas artificiais não dispensam a comodidade dos animais na sua execução e obrigam ao trabalho gradual para o seu alcance, o que torna exagerada a distância havida entre ambos. Depois, o princípio escolhido atentava contra o fim procurado, uma vez que a imobilização sugerida era de pouca duração e obrigava à chamada quase constante, impedindo assim a assimilação e concentração do cão. Quando assim se procede, apesar das boas intenções, todo e qualquer processo pedagógico atinge a rotura, que é exactamente aquilo que ninguém quer. A senhora estava a ir depressa demais e a aumentar significativamente a ansiedade no seu cão, ainda que sem dar por isso.
Apesar de ser mais fácil ensinar correctamente do que eliminar vícios, não nos resta outra solução do que regressar à 1ª fase - à fase inicial, tratando o animal como se desconhecesse por inteiro o comando que executa parcialmente ou de modo deficitário. Assim, o “quieto” deverá ser primeiro tirado ao lado do dono, com algum pertence do cão e por tempo julgado conveniente, enfatizando-se em simultâneo o comando e a recompensa, pois os cães gostam de ver o seu esforço recompensado e de serem aceites. Sempre que possível, e nem sempre é, podemos valer-nos doutro cão para nos auxiliar na assimilação do comando, dum que já o tenha assimilado peremptoriamente, porque os cães aprendem por imitação e o melhor exemplo para eles virá doutro igual. Por vezes, raramente, perante animais extremamente teimosos, mais vale tê-los presos pela trela ou prendê-los a algo, do que desatar aos gritos sobre os seus ouvidos, o que seria uma tremenda estupidez!  Nesta ocasião, debaixo do comando, podemos ler um livro ou ouvir música, transmitindo-lhe a calma que geralmente lhe falta, corrigindo-o quanto for necessário, pacientemente e de modo coloquial, porque importa que se sinta à vontade e assim permaneça por mais tempo.
 Pouco a pouco, vamos aumentando a distância entre ambos e a permanência no comando, para que o animal não confunda o “alto” instantâneo com a ordem de “quieto”, que se deseja até um período de duas horas, sabendo-se que, quem isso aguenta, sem dificuldade permanecerá no comando pelo dobro do tempo ou por muito mais. O segredo no “quieto” sempre passará pela certeza do cão em não estar só, que o seu dono está por perto e que jamais o abandonará. As respostas artificiais fornecidas pelo condicionamento exigem amor, paciência e tempo, muito embora possam ser alcançadas por outros meios, cujas marcas serão por demais visíveis considerando a mímica presente nos seus executantes.


SOCIABILIZAR SIM, MAS NÃO DE QUALQUER MANEIRA!

Nunca tantos “anjinhos” andaram à bulha nos parques e jamais se ouviu amiúde a frase: “eles entendem-se”, porque sociabilizar virou palavra de ordem e a Lei tem mão pesada. Toda a gente tenta sociabilizar os seus cães e são poucos os que sabem como fazê-lo. Como resultado disso, muitos cachorros acabam agredidos e poderão adquirir traumas de dificil eliminação. Como a sociabilização tem regras, ela está muito para além da coabitação forçada entre dois ou mais cães, pois depende de condições, precisa de ser vigiada, obriga a cuidados, não acontece gratuitamente, necessita de reavivamento e não surge por decreto dos donos ou pela boa vontade dos animais.
A melhor das sociabilizações entre cães ou com outros animais domésticos acontece logo após o desmame dos cachorros, altura em que aceitarão como congéneres os restantes animais com quem irão dividir o mesmo espaço. Caso esse prazo já tenha sido ultrapassado, convém que a sociabilização anteceda os seis meses de idade e a maturidade sexual dos infantes, para que a luta pelo poder e a irreverência própria da idade não obstem àquilo que procuramos. Por outro lado, cães castrados neste período, dificilmente manifestarão comportamentos antissociais. Sempre será mais fácil sociabilizar dois cachorros do que dois cães adultos e os adultos, por norma, respeitam os cachorros até aos dez meses de idade, porque não vêem neles qualquer tipo de ameaça. Normalmente as fêmeas são mais difíceis de se sociabilizar entre si devido ao impulso à defesa. Um cachorro criado ao lado de um cão adulto bem sociabilizado, tende a manifestar o mesmo comportamento e o inverso, infelizmente, também sucede com alguma frequência.
Que ninguém se engane: a sociabilização como a entendemos, não é um acto natural canino e não acontece sem a interferência humana, porque a hierarquia nas matilhas é advinda da lei do mais forte, os cães são predadores, têm instintos de caça e presa, são territoriais, competitivos e prontos para o assalto ao poder, condições estas que obrigam os homens a estabelecer-lhes regras, o que nos leva a dizer que não existe sociabilização objectiva sem condicionamento prévio nesse sentido, apontando a sua primeira meta para a familiarização dos indivíduos. Como em tantas outras coisas no adestramento, também aqui começamos pelo trabalho à trela e fazemo-lo para o reforço da liderança, porque só ela conseguirá impedir as futuras escaramuças. Depois seguir-se-ão um conjunto de manobras de sociabilização animal a desenvolver em classe, primeiro à trela e depois com os cães em liberdade. Apesar de muito visto, é errado lançar uma só bola ou brinquedo para dentro dum grupo de cães que se desconhece, porque o acessório jogado pode constituir-se em motivo de discórdia, num rastilho para o despoletar da violência fratricida.
A sociabilização canina é indispensável a qualquer disciplina cinotécnica, um pré-requisito de valor inestimável e deve contemplar três objectos, a saber: as pessoas, os outros cães e os restantes animais domésticos. Todo o cão que não se encontra completamente sociabilizado, jamais se poderá considerar correctamente ensinado. É importante não esquecer que os cães não ficam para sempre sociabilizados e que convém reavivar-lhes, ciclicamente, as regras de convivência que melhor garantem a sua inserção na sociedade.

A ROUPA DOS FILHOS E OS ACESSÓRIOS DOS CÃES

Nesta filiação extraordinária que leva os homens à adopção de cães, sem espanto, temos reparado que muitos animais acabam tratados como filhos, a despeito da sua condição canina e extrapolando algumas das suas necessidades mais básicas, mercê do exagero antropomórfico que desconsidera as diferenças e que apenas procura aquilo que deseja ver. Os proprietários de vários cães, à imitação dos pais de famílias numerosas que fazem transitar a roupa dos filhos mais velhos para os mais novos, acabam por adquirir acessórios ou brinquedos para o grupo e não para cada indivíduo que o constitui, o que de todo é reprovável diante do acompanhamento e tratamento individual exigido por cada cão.
Arredados de preocupações metafísicas, os cães agarram-se ao que têm e vivem daquilo que alcançam, sendo tanto ou mais felizes consoante o espólio que escolhem, conservam, lhes é doado ou consentido, guardando zelosamente o que lhes pertence, lutando pela sua posse e não vendo com bons olhos a sua repartição, sendo isso fundamental para o seu equilíbrio emocional e bem-estar, pois necessitam de se sentir seguros e essa segurança sempre virá daquilo que consideram seu, uma vez que os ostracizados pouco têm ou nada possuem. À parte disto e denunciando a mesma necessidade, os acessórios caninos, enquanto meios eficazes para a comunicação interespécies e para o estabelecimento dos vínculos afectivos que ela não dispensa, devem ser exclusivos e não usados indistintamente em todos os cães, porque mais depressa se agradará um cão duma trela que considera sua, que breve carregará, do que de uma outra que é obrigado a dividir.
O mesmo se passa com os brinquedos, que para além de subsídios pedagógicos de valor inestimável, são utensílios que enriquecem o património individual dos cães, funcionando muitas vezes como autênticos troféus. Perante tamanha importância, é errado e contraproducente sujeitar vários cães à divisão de brinquedos, particularmente em grupos instantâneos, esporádicos ou heterozigóticos, porque tal recriaira o escalonamento da matilha animal e serviria de pretexto para a hegemonia dos mais fortes e para o afastamento compulsivo dos mais fracos, fenómenos que à partida ninguém deseja e que poderão comprometer a sociabilização desejável. Experiências negativas destas, se ocorrerem até aos seis meses de idade nos cachorros, podem levar ao seu desinteresse pelos brinquedos, acontecendo o mesmo àqueles que se viram privados deles até igual ciclo infantil, já que há uma idade para tudo e os cães depois da maturidade sexual tendem à novidade de interesses.
É evidente que nós, por razões sobejamente conhecidas, procuramos nos cães um carácter forte, impoluto e incorruptível, que tudo fazemos para que não sejam ludibriados, incorram em acidentes, corram riscos desnecessáros ou coloquem a sua vida em cheque, requisitos intrinsecamente ligados à nossa vocação e à paixão que nutrimos pelos cães considerados territoriais. Por isso não consentimos, para além dos aspectos ligados à higiene e à saúde, que os nossos cães bebam dos bebedouros alheios ou comam sem ordem expressa, porque não queremos vê-los escorraçados, fragilizar o carácter de outros ou a todos sentenciar a uma morte anunciada. Debaixo dos mesmos pressupostos e agora justificados de sobremaneira por razões ligadas à saúde dos animais e à possível ocorrência de doenças, entendemos que cada cão deva possuir o seu próprio trem de limpeza. O asseio, a saúde e a integridade de carácter de um cão são tarefas obrigatórias para o seu dono, que o vê como indivíduo, aposta no seu bem-estar e que tudo faz para que seja forte e viva por mais tempo.