quarta-feira, 17 de outubro de 2012

COMENTÁRIO DO PAULO ALMEIDA, CONDUTOR DO ROTTWEILER ALPHA, AO ARTIGO “DE HUMVEE PARA SMART”


"DE HUMVEE PARA SMART":
Olá a todos, eu sou o exemplo do título, mas, gostava de partilhar convosco o porquê da minha escolha.
Quem comigo e com o ALPHA conviveu na Acendura, sabe o quanto eu adorava o meu cão e ele a mim, éramos companheiros inseparáveis, e quando digo inseparáveis é porque era no verdadeiro sentido da palavra, iniciei o seu adestramento na Acendura tinha o ALPHA alguns meses de idade, para quem frequentava a Acendura nesses tempos, e digo “nesses tempos” porque nesses tempos trabalhava-se a sério, e com estas palavras não corro o risco de o Sr. João me repreender (como algumas vezes o fez e com razão), pois sabe muito bem que falo a verdade. Prescindi da vida normal de um jovem de 18 anos e dediquei-a ao meu cão, todos os fins-de-semana, feriados e todos os momentos em que era possível a deslocação, o destino era sempre o mesmo, Acendura Brava, isto durante quase quatro muito intensos anos, o meu cão dormia na minha cama, o meu cão ia para onde quer eu fosse, dia ou noite, o meu cão ficava no carro (comercial) enquanto eu trabalhava, o meu período de almoço, em vez de passado com os camaradas de trabalho no café, era passado na praia com o ALPHA, a trabalhar força, e obediência, só assim o levei à CLASSE A da Acendura Brava, com muita dedicação e trabalho que também muito tenho a agradecer a quem nos acompanhou em tantas horas de trabalho na pista da escola, pois sozinho jamais o conseguiria. Tudo isto para vos dizer que a vida leva-nos a fazer escolhas, o meu cão de eleição será para sempre o GRANDE ROTTWEILER, neste momento, pela indisponibilidade profissional, pelas condições físicas da minha actual morada, não poderia adquirir um destes poderosos cães, pois um cão que com muito orgulho vi trespassar um obstáculo de 3,15mt na Acendura Brava, não pode ter a separá-lo da via publica um muro de 0,80mt. Como tal, adquiri um pequeno Bulldog Françês para poder ensiná-lo a sentar, deitar e caminhar junto, e poder incutir na minha filha os sentimentos mais puros que existem entre dois seres, Amor, confiança e lealdade esse é o relacionamento do binómio.
Abraço a todos.

XII ESTÁGIO DA ACENDURA BRAVA


Realizou-se nos dias 12, 13 e 14 do corrente mês o XII Estágio da Acendura Brava que obrigou ao acampamento da Classe Excursionista por duas noites. A coordenação dos trabalhos de campo coube à Engª Joana Melo no que foi assessorada pelo Engº João Carreiras como responsável da logística e segurança. Os sectores da cozinha e primeiros socorros, do saneamento e o serviço de condutor de dia foram garantidos respectivamente pela Enfª Marina Veríssimo, Jorge Martins e Márcio Duarte. Do programa constaram: a abordagem às pistas quentes de pistagem, diversas induções e ataques lançados, uma patrulha nocturna de 14 km e o aperfeiçoamento dos automatismos funcionais, havendo ainda lugar à projecção do vídeo “Alpha, um amigo” mercê da disponibilidade do Paulo Almeida, a quem desde já agradecemos.
 
Os binómios da Acendura Brava foram acompanhados pelos monitores do último curso e todos contribuíram para o sucesso desta acção. Uma palavra especial de agradecimento para a Família Coutinho, que para além de se apresentar em bloco, desempenhou cabalmente os serviços para que foi nomeada, apesar de dois dos seus membros terem menos de 15 anos de idade. A realização deste Estágio só foi possível pela disponibilidade de um amigo de longa data e pelo empenho de todos os seus participantes. A patrulha deslocou-se a uma velocidade horária de 5.4 km e não houve acidentes nem desistentes. A boa ordem reinou dentro do acampamento e tanto o organograma como o cronograma de actividades não sofreram qualquer alteração, apesar de grande número dos binómios ser constituída por cachorros. O serviço de segurança decorreu sem novidade e o Márcio Duarte aproveitou a ocasião para testar os mecanismos de atenção da sua cadela. O participante mais novo foi a Sancha, uma menina de 7 aninhos que dormiu na sua tenda tal qual os outros. O estágio iniciou-se e terminou à ordem marcada, foi do agrado de todos e ao que parece deixa saudades.
Participaram no evento os seguintes condutores: André Martins, André Santos, Catarina Coutinho, Joana Melo, João Carreiras, Jorge Martins, Luís Coutinho, Luís Rebelo, Márcio Duarte, Margarida Coutinho, Marina Veríssimo, Miguel Gonçalves, Miguel Mendes, Paulo Almeida, Ricardo Miguel, Rita Gonçalves, Rita Nabais, Sancha Costa Lobo, Sérgio Silva e Tomás Coutinho. 

ACAMPAR COM O CÃO PARA QUÊ?


Temos um tríplice objecto quando acampamos com os cães escolares: o reforço dos vínculos binomais, a reciclagem dos condutores e o fortalecimento do grupo escolar visando a sua unidade. O reforço dos vínculos binomais irá acontecer pela divisão da tenda comum, pelo desempenho nocturno e pela parceria de 24 sobre 24 horas, o que aproximará de sobremaneira condutores e cães, dotando-os da cumplicidade necessária para qualquer serviço. A reciclagem dos condutores é algo que sempre deverá acontecer, assim como a sua correcção e aprimoramento técnico. Por força do trabalho colectivo, que exige igual prestação a todos os binómios, o acampamento irá constituir-se numa excelente ocasião para a avaliação do trabalho desenvolvido pelos condutores presentes, porque o grupo escolar é menor e maior é a possibilidade da correcção individual.


Se considerarmos como agentes de ensino de um cão todos os binómios escolares, que o são de facto, então compreendemos da necessidade da unidade de propósitos dentro do grupo, que tem a propriedade de aumentar a prestação individual pelo contributo do colectivo. Ainda que o amatilhamento escolar aconteça sem dificuldade pelo hábito e pela familiarização, importa “quebrar o gelo” entre os condutores, irmaná-los no mesmo propósito e desafiá-los para o objectivo comum, condições que o acampamento oferece pelo trabalho de equipa e convívio apertado. Que ninguém duvide: na escola alcançam-se as classes e no acampamento ganha-se o grupo familiar.  

A RAZÃO DO CÃO MORDER NAS MÃOS DO CONDUTOR


Neste último Domingo fomos surpreendidos com um Pastor Alemão grande e robusto (70cm de altura e 45kg de peso), adulto, preto-afogueado e instalado num quintal. O dono procurou-nos porque o cão apresentava sérios problemas de sociabilização com os outros cães. De imediato propusemo-nos à resolução do problema e convidámos o Márcio Duarte (que prontamente se ofereceu) para o conduzir dentro da classe escolar em excursão, não sem antes ataviarmos o animal da trela e estrangulador inerentes à tarefa. Ao fim da 3ª volta no Círculo de Instrução, o animal sossegou e deixou de afrontar e provocar os outros cães, resistindo no entanto ao comando de “junto” de modo deliberado e ameaçador. Perante isto, temendo por si e ajudado pela sua inexperiência, o Márcio começou a afastar o cão da perna e a subir a mão na trela, exactamente como faria nas ajudas para a transposição de um obstáculo vertical a efectuar por um cão, perfazendo com a trela e o braço um ângulo recto, o que facilitou a tentativa de ataque por parte do animal, que em vão saltou para o homem e não lhe causou dano algum, felizmente. O bicho sempre procurava “caçar” a mão direita do condutor, apesar da esquerda lhe ser mais próxima, facto que provocou alguma estranheza nos restantes condutores em exercício. Acontece que o cão se encontra alojado num quintal e ao alcance de todo e qualquer transeunte, uma vez que o muro da propriedade é baixo e todos lhe estendem a mão, uns acariciam-no e outros, ainda que em menor número, provocam-no e dão-lhe murraças. Como é sabido, a esmagadora maioria das pessoas é destra, inclusive aqueles que se comportam pior do que os animais. Com o mistério desfeito entende-se a razão do cão.

AÇAIME OU VALENTIA?

O medo pelos cães não se esgota no cidadão comum, estende-se também pela cinotécnica adentro e vem invadindo muitos treinadores e monitores como sempre invadiu, porque todos somos vítimas do mesmo espectro e temos naturalmente cautelas perante o desconhecido. O que induz à perca do medo e evita os perigos do excesso de confiança é a antevisão das acções caninas que nos é dada pela experiência. Mas mesmo assim há que estar atento, porque o mais pequeno dos pormenores pode gerar uma grande surpresa, e perante ela todos somos mais ou menos vulneráveis. Diante de cães potencialmente perigosos, daqueles que nem os donos respeitam, devem os novos adestradores solicitar a colocação do açaime nos animais ou proceder eles mesmos a essa colocação, debaixo de todas as cautelas, valendo-se para isso, quanto tal se justificar, da ajuda de terceiros. O que faz uma tropa eficaz não é a loucura dos seus soldados, mas sim o treino que os robusteceu e melhor preparou em relação aos demais, através dos riscos calculados, pelo apego aos procedimentos, pela recriação do teatro operacional e pelo conhecimento do inimigo, já que a valentia gratuita é geralmente paga a título póstumo e pode levar outros consigo.  

O CÓDIGO E OS AUTOMATISMOS


Se ao conjunto dos comandos a ministrar a um cão se chamar código, facilmente se entende da necessidade destes se transformarem em automatismos, mais-valia só alcançável pela procura e obtenção do condicionamento objectivo. Assim, todos os comandos escolares devem passar a automatismos e acontecer de forma plena, pronta e imediata. Perante a dura realidade dos factos pergunta-se: quantos automatismos possui o seu cão? É desejável que ele possua entre 25 a 32 e pela resposta saberá qual a carga laboral que o espera. Mãos à obra!

SE TIVER UM AMIGO ASSIM, ESTABELEÇA-LHE REGRAS ANTES QUE ELE AS ESTABELEÇA A SI

A frase não é nossa mas de um ex-aluno da escola, um cidadão francês que durante anos esteve ligado à indústria petrolífera e que andou por várias partes do globo, invariavelmente pelo mundo árabe. Uma vez radicado em Portugal, com dinheiro para investir e com a cabeça cheia de projectos, decidiu constituir sociedade com outros indivíduos (nacionais e estrangeiros) com igual capital e idêntica ambição. Entre os sócios escolhidos havia um alemão, um sujeito grave e sério que abominava o mundo latino, apesar de aqui residir há várias décadas. Naquela postura típica de savoir faire, o francês convidava amiúde o teutónico para sua casa, onde o regalava com tudo do bom e do melhor, coisa que não acontecia quanto era o alemão a convidá-lo, onde a retórica era muita e somente acompanhada por umas míseras salsichas. Quase sem dar por isso, o enfant de la Patrie viu a sua vida enfernizada pelas visitas do sócio, que apesar de ser convidado, não se coibia de estabelecer regras dentro da sua casa. Indignado e disposto a inverter a situação, o francês decidiu impor regras ao alemão e dali em diante cessaram os abusos, lição que resumia na frase: “se tiver um amigo alemão, estabeleça-lhe regras antes que ele as estabeleça a si”. Com os cães passa-se exactamente a mesma coisa, ou estabelecemos-lhes regras ou vivemos segundo as deles, o que infelizmente é uma insanidade muito comum nos dias que correm, onde a liderança humana se submete à desobediência canina e vem causando tremendos disparates. À parte disto ou como complemento, adianta-se que as distintas raças caninas acabam por espelhar os mesmos defeitos e virtudes do povo que as criou, acabando por massificar os sonhos dos seus criadores. Por isso é fácil educar um cão de origem alemã, que é normalmente de “esquerdo, direito”, sendo muito difícil fazer má figura com um Pastor Alemão ou Rottweiler (há quem lhes chame estupidamente obedientes). O importante é guardar a lição: há que estabelecer regras!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

UM SÉCULO DE MUTANTES


Há sensivelmente um século, logo após Darwin e Galton, muito antes do advento do hediondo II Reich da eugenia de má memória, graças à excessiva endogamia e muito para além das leis da selecção natural, que a canicultura mundial enveredou pela criação de mutantes, criando raças morfologicamente anómalas e distantes do bem-estar animal, aberrações de toda a casta que se constituíram em impropriedades genéticas e que acabaram por transformar o sonho dos homens no maior pesadelo dos cães. A BBC lançou há pouco tempo dois documentários acerca do assunto e a canicultura europeia começa agora, ainda que lentamente, a tomar consciência dos erros cometidos e da necessidade de mudança nos critérios de selecção dentro das raças actualmente reconhecidas pela FCI, apesar de muitos clubes de raça e outros tantos criadores fazerem “orelhas moucas”, o que a ninguém espanta considerando o embaraço e os custos inerentes à mudança requerida.
Para se ter a noção exacta dos abusos cometidos, que cada vez mais atentam contra a saúde dos cães considerados puros, basta comparar o que eles eram há um século atrás com aquilo que são hoje. Essas alterações resultaram num sem número de enfermidades e incapacidades que estão a comprometer a saúde e sobrevivência das raças, contribuindo desde logo para o sofrimento atroz de muitos animais. Se entendermos a selecção dos cães como um baralho de cartas, então está na hora de baralhar outra vez e dar de novo, o que aponta claramente para a hibridação quando tal se justificar para a eliminação das insuficiências que hoje vitimam cada raça, porque a procura da dominância em cada uma delas, ao ser por demais valorizada, foi, é-lhes e continuará a ser-lhes fatal, fenómeno também compreendido pelo desprezo relativo e sistemático pelas variedades recessivas que estiveram na origem e construção dos diferentes estalões.
O problema há muito que é do conhecimento dos adestradores, o que os tem obrigado a cuidados suplementares e à supressão de um sem número de tarefas ou aptidões, considerando a salvaguarda animal, a particularidade dos indivíduos e a continuidade do seu ofício. Assim se compreende quão difícil é juntar o belo ao funcional, tarefa inglória tantas vezes procurada por muitos, porque ordinariamente os “Apolos” vêm munidos de atestados limitadores para a função. E neste sentido, poder-se-á dizer a grosso modo (porque sempre houve excepções e são bem vindas), que a clássica divisão entre o trabalho e a beleza reside na diferença entre os cães saudáveis e aqueles que o não são, exactamente quando a estética ignora ou desconsidera o trabalho, serviço que exige saúde e que não se compraz exclusivamente na passerelle, no corrupio entre a boxe e a apresentação. Não queremos com isto denegrir a importância das exposições de beleza, o que seria um autêntico descalabro, apenas pedimos aos diferentes criadores e expositores de cães que apresentem e passem animais saudáveis. Oxalá esse tempo não demore, todos temos a ganhar com isso, homens e cães, criadores, adestradores e futuros proprietários caninos.

COMO ATRELAR UM CÃO PELA PRIMEIRA VEZ


Não fosse o espectro da Lei, a maioria dos proprietários caninos andaria com os seus animais à solta por toda a parte, mesmo assim, há quem persista na desobediência e coloque em risco pessoas e cães, porque a condução há trela tem regras e nem sempre é cómoda e prática, limita a liberdade de movimentos e obriga a alguma atenção. Quem não se quer ver nestes assados, tem condições e não prescinde da companhia dos cães, acaba por colocá-los dentro de quintas e moradias, onde os tem à vontade, quase sem restrições e livres de incómodo. Mais cedo ou mais tarde, por uma razão ou por outra, os donos vêem-se obrigados a atrelar os cães, o que não irá ser do agrado dos animais e os levará a comportar-se como autênticos poldros quando laçados pela primeira vez. Quando a coisa se complica, porque o cão leva o condutor de rojo, tem muita força, embrulha-se na trela ou faz finca-pé e não anda, rumam finalmente a uma escola, ondem chegam exaustos como vindos de dura faena: o dono a escorrer suor e o cão preso a uma corrente. E como se isto não bastasse, os donos destes animais ainda reclamam por brevidade no ensino! Geralmente são bons clientes para o internato dos seus cães, porque não se querem maçar e pagam o que for preciso. Infelizmente, nem sempre são bem servidos, por culpa da sua ignorância e falta de profissionalismo de quem assume a incumbência.
Um cão adulto deve ser atrelado com os mesmos cuidados dispensados a um cachorro com dois meses de idade, atendendo à experiência feliz, à novidade do trabalho e ao alcance suave e progressivo da autonomia condicionada que não dispensa o exercício da liderança, que importa ser consentânea, cúmplice, paciente e arguta. O respeito por estas condições poderá isentar o dono do cão dos primeiros passos (porque pode nem saber pegar na trela), e levar à sua substituição pelo adestrador ou por outro condutor mais experiente. Contudo, um cuidado à que haver: o de verificar os graus de dominância e agressividade presentes no cão, normalmente identificáveis pelas suas intenções, expressões mímicas e vozes utilizadas (bufar, ganir, gemer, ladrar, latir, rosnar, uivar, etc.), geralmente potenciadas quer pelo sexo quer pela idade. Na dúvida deve colocar-se o açaime no cão e considerar-se o particular do grupo somático a que pertence. Os trajectos iniciais a respeitar deverão ser do desconhecido para o conhecido, ser de dentro para fora, da pista de treino para o carro do dono e este deverá permanecer calado durante a evolução, porque doutro modo aumentará a resistência do cão e fará com que nos desobedeça. Sempre que possível (e nem sempre o é), podemos valer-nos doutros cães como fila-guias, tirando-se partido do particular social presente nos cães, o que muito nos ajudará prà sua futura integração nas classes escolares. Os trajectos escolhidos deverão ser curtos e bastante espaçados entre si, o cão deverá ser amplamente incentivado e recompensado, mesmo que o trabalho não decorra às mil maravilhas, porque a adaptação não é automática e a ruptura deve ser evitada a todo o custo.
Quando o cão já conseguir andar, satisfatoriamente, no círculo destinado à obediência linear, é altura de chamarmos o dono para a constituição binominal, adiantando-lhe tanto os requisitos técnicos como os automatismos a instalar, meios que lhe irão possibilitar uma condução mais solta e sem atropelos. Quando assim procedemos, o dono sai feliz pelo progresso e o cão não ganhou aversão ou temor pela escola, o que fará gostar do adestramento e procurar o convívio com os outros cães. Entretanto, e esta é a parte mais delicada, deve-se convidar o dono para uma melhor coabitação com o animal, incentivá-lo para a recapitulação doméstica e para a assiduidade escolar, que sendo hábitos novos, são passíveis da sua resistência, rara disponibilidade ou pouco empenho. Importa começar bem porque os cães vivem da experiência que têm.

IR PARA ALÉM DA COMPAIXÃO


 
Desde que me conheço que vejo pessoas a alimentar e a resgatar cães e gatos vadios, muito embora o termo próprio seja “abandonados”. Guardo ainda a imagem de uma velha professora primária, do mundo alheada, solteirona, magra e avançada na idade, que à noitinha era perseguida por um grupo enorme de gatos esfomeados, miando rua abaixo, à espera de serem alimentados. Daí para cá pouco ou nada mudou, somente o esforço isolado cedeu lugar às associações com esse propósito. Apesar das campanhas de sensibilização, da pressão social, da política de castração, da obrigatoriedade do microchip, de uma maior fiscalização e do aumento das coimas, o número de animais abandonados não cessa de aumentar e as associações tornam-se impotentes diante de tanto encargo. Não lhes restando outro remédio, sobrevivem do trabalho voluntário, do bolso dos seus associados, do serviço quase gratuito de alguns veterinários e dos parcos donativos que conseguem alcançar, quer eles sejam em dinheiro ou em ração, tudo na esperança da futura adopção dos animais por si recolhidos, o que nem sempre acontece e não tem impedido o retorno ao abandono de alguns deles, nomeadamente dos mais velhos, dos inadaptados e dos carentes de maiores cuidados.
 
Apesar das dificuldades (que são históricas e já têm barbas), da precariedade dos alojamentos e da superlotação, do endividamento dos seus associados e da incerteza quanto ao futuro, mesmo assim, fustigadas como andam (a lembrar baratas tontas), raras são as associações que apresentam e põem em prática as estratégias necessárias para a resolução dos seus problemas, quedando-se exclusivamente pela compaixão relativa aos animais. Ainda que de Berlim só me seduzam as bolas com creme da doçaria tradicional portuguesa e da Baviera a Oktoberfest, lembro aqui as palavras de Markus Söder, ministro das Finanças da Baviera, acerca do possível abandono do euro pela Grécia: “Há sempre um dia em que temos que sair da casa da mamã, e chegou a vez dos gregos”. Pondo de parte o conteúdo político da citação, que é pseudomaternal, fratricida, abusivo e descarado, intimamente ligado à guerra económica que a Alemanha está a encetar contra a restante Europa, vale a pena aceitar o seu conteúdo pedagógico, já que o mundo é feito de mudança e quem não se adapta jamais sobreviverá. Se as actuais associações querem sobreviver e continuar a desenvolver a sua meritória actividade, então terão que mudar de política, abandonar o facilitismo e deixar de estender a mão ou a saca à caridade, aproveitar melhor os recursos humanos ao seu dispor e colocar-se em simultâneo ao serviço da sociedade, desenvolvendo actividades e mais-valias que levem à melhor aceitação dos animais que até aqui resgataram e continuam a resgatar, já que de nada vale pôr-se à parte e depois queixar-se do isolamento.
Toda a gente sabe e quem não souber engana-se irremediavelmente, que a criação de cães, longe de ser rentável, é um capricho caro só ao alcance de alguns, porque não é auto-sustentável e sempre necessitará da injecção de capital doutras actividades verdadeiramente rentáveis. Ao invés, os hotéis caninos sempre foram e continuarão a ser rentáveis, suportando muitas vezes e quase sempre outras actividades ligadas à canicultura nas suas múltiplas vertentes ou serviços. Por outro lado, o recurso ao adestramento tem-se revelado uma necessidade para quem tem cães, particularmente diante da “lei dos cães perigosos” e das múltiplas restrições a que estes animais têm vindo a ser alvo. Considerando os preços médios actuais da hotelaria canina, o preço mensal cobrado por cada cão hospedado dá para sustentar outros seis com rações de topo de gama ou doze com rações de manutenção e dez canis em funcionamento garantem o salário mínimo de um tratador. Vinte animais em treino garantem o salário dum adestrador e ainda o sustento mensal de quinze cães. Pergunta-se agora: porque não inscrevem as associações alguns dos seus associados nos cursos de adestramento e paralelamente não enveredam pela construção de hotéis caninos? Porque não oferecem esses serviços a quem adopta os seus cães? Não será o adestramento o melhor dos subsídios para o entendimento entre homens e cães?
Está na hora de ousar ir para além da simples compaixão, de se abandonar o estatuto de associação sem fins lucrativos, de produzir riqueza para valer à desgraça, de servir para ser servido e melhor valer aos cães, porque tudo o que é irrecusável deve-se à sua necessidade – “Há sempre um dia em que temos que sair da casa da mamã!”. 

MAL ME QUER, BEM ME QUER

“Em tempo de guerra não se limpam armas”. Este aforismo serve perfeitamente como introdução ao assunto que aqui vamos tratar de modo sucinto: o destino dado aos cães com doenças de origem genética e sem cura à vista, particularmente neste tempo de profunda recessão económica, onde o Eutasil não deixa de ser requisitado amiúde. A sobrevivência das famílias, sujeitas ao exíguo orçamento doméstico, tem levado ao abate precoce de muitos cães, que arredados dos tratamentos e sujeitos à injecção letal, vêem assim encurtados os seus dias, independentemente da sua idade, grau de incapacidade, tipo de prestação, modo de parceria ou valor sentimental, porque o dinheiro está caro e cães há muitos! E como se isto não bastasse, ainda há quem mande abater cães por considerar que uma intervenção cirúrgica é um luxo fora do seu alcance, daí não espantar que em certas zonas do País seja maior o número de abates do que o montante das intervenções cirúrgicas realizadas. Pode ser, se esta crise entretanto demorar a passar, que mandemos os chineses de volta e passemos nós a comer cão. E se nalguns casos tal ainda não aconteceu, talvez isso tenha ficado a dever-se à desconfiança oriunda da falta de hábito! Ironia à parte, a sorte dos cães menos saudáveis não se prefigura risonha e a sua sentença parece tirada do desfolhar de um malmaquer: “ mal me quer, bem me quer…”, e logo se verá qual o veredicto!

PEQUENA CRIMINALIDADE E CÃES DE GUARDA

Apesar da pequena criminalidade ter aumentado em Portugal no último ano, nem por isso a procura de cães de guarda aumentou, mantendo-se em valores abaixo aos encontrados em 2008, o que à partida não deixa de causar alguma estranheza. No entanto, analisando o problema ao pormenor, os furtos e roubos perpetrados aconteceram onde a eficácia canina é pouco objectiva e impossível de actuar. Estamos a falar de roubos de carteiras e telemóveis em restaurantes, nos transportes colectivos e na via pública, dos bem conhecidos roubos por esticão e de um número infindo de burlas. O grande apogeu do cão de guarda aconteceu na década de 90, altura em que se treinava essa disciplina quase em exclusivo e afincadamente, como se houvesse um ladrão para cada cidadão exemplar, o que nunca foi o caso - valha-nos Deus! Em Terras Lusas, o aumento ou diminuição da procura por cães de guarda nunca resultou da evolução ou decréscimo dos índices de criminalidade, mas sim do maior ou menor poder de compra da classe média, hoje vítima dum empobrecimento nunca visto ou sentido, o que tem vindo a relegar os cães para depois e invariavelmente para nunca mais - para a Neverland! Estamos em crer, oxalá que não, que os nossos irmãos brasileiros irão sofrer (não já, mas daqui a um tempinho, se calhar depois do Mundial) de idêntica recessão, porque tudo o que acontece na Europa acaba por ecoar mais tarde nas Américas. A solução que os canicultores aqui encontraram passou pela diminuição das despesas e efectivos, pela interrupção das ninhadas de até então e pela produção de cães miniatura, daqueles que comem diariamente entre 90 e 200g de ração, que levam a um débito diário nunca superior a 52 cêntimos ou que se contentam com as sobras lá de casa, o que é do agrado tanto dos criadores quanto dos futuros proprietários.

NÃO TEVE PORQUE A MAMÃ NÃO QUERIA!

Exigir dos cães caçadores outro tipo de parceria nunca foi uma tarefa fácil, ainda que lancemos mão do reforço positivo, procedamos à constante troca de alvos (presas) e abusemos da recompensa. No caso dos galgos o problema agrava-se ainda mais, porque caçam à vista, são naturalmente taciturnos e carecem de grande incentivo para novas motivações, já que detestam correr sem lebre à frente. Criar um galgo sem o recurso aos brinquedos (espólio) é no mínimo absurdo, porque ele vive para a perseguição e nisso reside a sua satisfação. Recentemente recebemos nas nossas fileiras um Whippet que foi objecto desse desrespeito, um animal quase mórbido a quem foi proibido ter qualquer tipo de brinquedo, porque a matriarca da família assim o entendeu em abono da limpeza, boa ordem e arrumo da casa. Não nos sobrando outro remédio perante a tristeza do animal, temos optado por brincar com ele nas aulas, valendo-nos para isso dos peluches que ele nunca teve e que hoje tanto adora. Graças à brincadeira, já anda alinhado pela dona em liberdade, desfilando garboso e convicto do seu papel como cão oriundo da transumância.

DE HUMVEE PARA SMART

Não são só os políticos que passam de marxistas-leninistas na juventude para sociais-democratas na idade do amadurecimento, também os apaixonados por cães sofrem idêntica transformação, adquirindo mais tarde animais de raças diametralmente opostas àquelas que tiveram na sua mocidade. É evidente que sempre sobram algumas excepções, ficando isso a dever-se à falta de amadurecimento dos indivíduos ou à continuada paixão por determinada raça. Houve neste extremo ocidental da Europa uma época de ouro para o Rottweiler (década de 90), ocasião em que treinámos várias dezenas destes valentes e dedicados guardiões alemães. Agora, vinte anos depois, e não tanto por causa da lei relativa aos cães perigosos, escasso é o número daqueles que se fazem acompanhar por estes molossos de tamanha utilidade. Os mancebos de outrora contraíram família, assumiram outras responsabilidades e os Rottweilers vieram a ser substituídos por Bulldogs Franceses, Bull Terriers, Teckels, Daschunds e outros que tais, numa transição que lembra o abandono dum Humvee para a aquisição de um Smart.

VÊ LÁ SE QUERES LEVAR COM ELE!


Uma aluna nossa já falecida, amiga do seu cão como poucos, senhora que deixou saudades, detestava dizer “Não” para o seu fiel amigo, um guardião sério, normalmente bem comportado mas tremendamente engenhoso, chegado a paródias e senhor do seu nariz. O bicho comportava-se exemplarmente na escola e em casa aproveitava para extravasar, sendo ali difícil de segurar. Sabe Deus com que custo, contrariada, a dona lá lhe ia dizendo uns tímidos “Nãos” para o refrear, infelizmente sem sucesso. Farta de ser gozada e depois de ter dado muitas voltas à cabeça, decidiu gravar o “Não” do adestrador no intuito de regrar o cão, estratégia que veio a funcionar em pleno. Depois de ter recorrido algumas vezes ao gravador, quando importava pôr o pobre bicho “em sentido”, bastava dizer-lhe: “vê lá se queres levar com ele” e imediatamente o cão cessava as acções inusitadas, temendo pela presença dum homem, que apesar ausente, parecia estar em todo o lado. Dona e cão já partiram, resta a saudade que ambos deixaram.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

CHEGOU A VEZ DO DOGUE ARGENTINO


Num país onde a maior parte da juventude não tem qualquer contacto com animais, exceptuando o havido com os do Jardim Zoológico que se encontram por detrás das grades e  em exposição ao público, o papão do bicho-cão cresce assustadoramente e toda a gente jura ter-se cruzado com um cão potencialmente perigoso pelo menos uma vez na vida. Apesar da psicologia aqui ter chegado tarde e a etologia ser para muitos desconhecida, o populacho julga-se agora “entendido” em cães e não se inibe na formação de pareceres, movido pelo cagaço que leva à confusão entre o indivíduo e a sua raça, segundo a ignorância de quem tudo sabe e de acordo com as manchetes que lhe bombardeiam os ouvidos. Chegou a vez do Dogue Argentino, porque, ao que parece, já causou duas vítimas mortais. Quem será o freguês que se segue?
O grande boom do Dogue Argentino, que entre nós não foi assim tão grande, iniciou-se no final da década de 80 via Espanha, depois da adesão de Portugal à CEE e a raça começou por ser recrutada para a guarda convencional, uma vez que vinha acompanhada de uma fama que nunca lhe sobrou em proveito e que a fazia devoradora de pumas. Sobraram desse tempo uns tantos vídeos de má qualidade, que pela sua natureza sanguinária, foram e continuam impróprios para os serões familiares. O desaproveitamento massivo da raça na guarda convencional, motivado pelo seu pouco interesse na disciplina, pela constante confusão na troca de alvos, precária resistência às invernias, pouca predisposição laboral, problemas articulares e inadequada máquina sensorial (ainda sobrevivem na raça muitos exemplares surdos), reencaminhou o “porco branco”, nome como ficou conhecido na gíria em analogia ao Rottweiler, para o seu lugar de eleição: as matilhas de caça grossa, acontecendo com isso o seu desbarato e banalização. Assim como não se pode esconder que alguns Dogues Argentinos se vieram a constituir em bons guardiões, também não se deve omitir a escassez do seu número, enquanto cães matilheiros, afáveis de trato e de fácil coabitação, qualidades desconsideradas por aqueles que os desconhecem  e que agora ao condenam.
 
Nestas coisas dos cães, como em tantas outras áreas, mais vale cair em graça do que ser engraçado, muito embora a situação vire desgraça para qualquer proprietário canino que se faça acompanhar pelo seu cão, em particular se for grande e pouco visto, porque sem grande dificuldade poderão ser entendidos como uma ameaça pública, plebe a evitar e companhia nada recomendável. Recentemente, debaixo do medo instalado, num jardim público, uma pequena cachorra de 12 kg e 5 meses de idade, sem raça defenida, no intuito de brincar, empoleirou-se num miúdo de 13 anos, obeso e a rondar os 100 kg, que se encontrava a jogar à bola (a guarda-redes) com o pai. Da brincadeira resultaram exíguas marcas das patas no animal nas pernas do rapaz, “insólito” que deu azo ao seguinte protesto do seu papá: Veja lá se prende a cadela, ela é perigosa e a prova disso encontra-se nas pernas do meu filho. Ele não está aqui para ser ferido!” Decididamente, perante a escassez de espécies cinegéticas, e de uma vez por todas, abriu a caça ao cão! Urge reatar o salutar convívio com os cães, fazer saber aos homens porque razão é o cão considerado o seu melhor amigo.
Sosseguem as mentes inquietas e os corações atribulados que do Dogue Argentino não virá grande mal ao mundo. Lamentavelmente, o mesmo não se poderá dizer de todos os donos, tanto dos proprietários dessa raça como das outras, que de forma intencional ou não, pela irresponsabilidade, projectam o disparate e põem a cabeça dos cães a prémio. No nosso entender, todos os cães deveriam ser treinados e não somente os que se portam mal, porque a ausência da prática do bem já é mal que a todos basta. E depois, pior do que qualquer raça canina e muito mais mortífera do que qualquer uma delas, tem sido a actual crise que teima em se ir embora, responsável por uns tantos suicídios, pela destruição de muitas famílias e pela diminuição da taxa de natalidade. O País precipita-se para a cova e nós a correr atrás dos cães!

O NOSSO RIN TIN TIN


Brevemente iremos voltar a este assunto, está prometido, quando estivermos melhor documentados e nos for facultado o acesso a alguns ficheiros há muito esquecidos, porque o tema nos interessa e faz parte da história da cinecultura nacional, da nossa cinemateca e espelha o trabalho dos tratadores militares que nos antecederam, trabalho embrionário que geralmente é pouco lembrado. Quarenta e dois anos depois do filme “The Man From Hell’s River”, que marca a estreia do mítico Rin Tin Tin no cinema, em 1964, estreia-se em Lisboa, no cinema Odeon, o filme de Constantino Esteves “9 Rapazes e Um Cão”, uma produção nacional levada a cabo por Manuel Queiroz, ficção filmada em Campolide com uma duração de 94 minutos, com um guião ao gosto da época, a enaltecer o drama e o heroísmo juvenis.
 
Ao que nos foi dito e isso parece confirmado, o cão protagonista veio das fileiras da GNR, ali dando entrada por doação da sua proprietária. Quem o conheceu diz que era quase todo negro, que o afogueado da sua máscara era por demais claro e que era pernalto de morfologia. O seu tratador, que foi acompanhado nas filmagens por um Cabo, vivia até há pouco tempo na área de Algés. Também segundo o que nos foi contado, o cão era um “Às” dentro e fora do cinema, chegando a interpôr-se entre tratadores e cães, quando a integridade dos segundos era posta em risco. Meia dúzia de anos depois da sua formação, a cinotecnia da Guarda começava a dar os seus frutos, a cerrar fileiras e a constituir-se naquilo que até hoje nos chegou. Poucos tratadores desse tempo continuam entre nós e a memória dos seus cães irá morrer com eles. Até lá, relembram em cada Pastor Alemão que vêem um pouco da sua história e vão adiante. Mas como “serviço é serviço e conhaque é conhaque”, o que fica para a história é que quarenta anos antes do aparecimento da série do “Inspector Max” em Portugal, já um Pastor Alemão havia sido protagonista num filme. Continuamos sem saber o seu nome, mas ele ainda pode ser visto, o cinema imortalizou-o.

ELES ENTENDEM-SE!

Os conceitos quando não são científicos, e não estamos aqui a tratar da transcendência das verdades metafísicas, mais cedo ou mais tarde, acabam por ser desacreditados e desprezados. O mundo canino está impregnado de falsos conceitos que para alguns ainda são verdades absolutas, inverdades que a seu tempo acabarão por revelar-se. Certo zootécnico, por sinal bem sucedido no seu ofício, decidiu aceitar mais uma cadela no seio da sua já numerosa matilha heterogênea. Na ocasião da entrega do animal foi alertado para os riscos do amatilhamento canino sem a interferência humana, ao que respondeu: “Eles entendem-se!”. Acabou por descobrir, da pior maneira, que estava redondamente enganado e foi ontem enterrar a cadela miniatura que mais adorava, vítima da outra que recentemente havia adquirido. A sociabilização canina não é gratuita e não dispensa tanto a liderança humana quanto a familiarização, porque o escalonamento da matilha animal não acontece de forma pacífica, mas sim por meios ligados à “lei do mais forte” que normalmente não dispensam o recurso à violência, o que sempre levará o Homem a estabelecer regras e a fazê-las cumprir.

ESCONDA-SE PARA SER ENCONTRADO E SEMPRE ANDARÁ ACOMPANHADO


Um dos problemas mais comuns entre os proprietários caninos é a fuga dos seus cães e a dificuldade no seu retorno, quando em liberdade e em espaço aberto, o que tem levado muitos, justificadamente, a conservá-los quase sempre atrelados ao seu lado nas rotineiras deambulações pelos espaços públicos, conforme a Lei e para defesa da integridade de homens e animais. Tecnicamente falando, estamos perante a inexistência de um comando básico – o “Aqui”, que quando associado ao “Junto” (ao lado), constitui a base piramidal do adestramento. A constactação do problema levará alguns donos e outros tantos cães até às portas dos centros de treino caninos, onde por norma encontrarão solução através de um ou mais tipos de condicionamento, consoante os métodos utilizados e de acordo com as características individuais de cada cão.
A causa do problema é gregária e aponta para algum descuido no ciclo infantil que antecede os quatro meses de idade nos cachorros, altura em que começam a manisfestar a sua propensão excursionista, partem à descoberta do mundo que os rodeia e procuram nele um lugar que lhes seja mais cómodo, vantajoso ou propício. É também nesta idade que começam a compreender e a respeitar a hierarquia, cujas bases normalmente se encontram consolidadas aos seis meses. A incidência do problema é maior junto dos cachorros que passam a maior parte do seus dias sózinhos e daqueles que aos nossos olhos nos parecem mais erráticos, quiçá por uma selecção mais baseada nos instintos do que na parceria. Como atrás se disse, tanto para uns como para outros, a partir dos 4 meses, as escolas caninas tendem a resolver o problema, dentro de um cronograma mais ou menos longo que sempre exigirá alguma recapitulação até ao alcance do automatismo desejado, delongas associadas à resistência dos animais, à aceitação da liderança e ao despreparo dos seus condutores, geralmente suavizadas e tornadas mais céleres pelo recurso ao reforço positivo. Por razões óbvias, o problema deverá ser resolvido antes da maturidade sexual dos cães (antes dos 7 meses de idade), isto se quisermos evitar maiores entraves.
No entanto, se você acabou de adquirir um cachorro com dois meses de idade e não deseja vir a passar pelo mesmo problema ou embaraço, saiba que ele pode ser evitado a partir de uma simples brincadeira e que os cães, mesmo entre eles, aprendem brincando. A brincadeira é algo similar ao “brincar às escondidas”, você esconde-se e convida o seu cachorro a procurá-lo, chamando primeiro pelo nome e desaparecendo depois sem pré-aviso. A constância na brincadeira, que é do inteiro agrado do cachorro, leva-lo-á a nunca o perder de vista e possibilitará a inserção quase automática dos comandos de “Busca” e “Aqui”, exercitando assim o seu faro enquanto sentido director. O adestramento tem sofrido profundas alterações nas últimas décadas e as tradicionais caminhadas lineares ou circulares destinadas à obediência, têm cedido lugar, na fase introdutória do treino, à administração do currículo básico de pistagem, ganhando-se com isso os vínculos afectivos binomiais indispensáveis a um adestramento mais alegre e mais profícuo. Até lá, brinque às escondidas com o seu cachorro e ganhe um companheiro que sempre se fará presente a seu lado, pois mais vale conquistar o cão em casa do que perdê-lo no meio da rua.

PROTESTARAM E COM RAZÃO!

Certo empregado dedicado e fiel, amigo do seu patrão e zelador dos seus cães, chegada a hora, decidiu trocar os cachorros de habitáculo e separá-los um a um, cada um para o seu canil, três Pastores Alemães de 5 meses e há 3 a viverem em conjunto. Esperou pela noite para fazer a mudança e depois foi dormir descansado, distante dos animais porque morava longe. Os bichos não se calaram durante toda a noite, arranharam as portas, gemeram e uivaram, e não deixaram os vizinhos “pregar olho”. Na manhã seguinte o coro dos protestos fez-se ouvir e os vizinhos indignados não foram nada simpáticos, protestando veementemente pelo incómodo a que se viram sujeitos. O pobre homem derreteu-se em desculpas, mas isso para alguns pareceu não bastar. Agora já sabe como fazer e gradualmente vai acostumando os cachorros aos canis, primeiro de dia e depois à noite, nunca sem antes permanecer um pouco a seu lado e lhes deixar uma guloseima ou petisco do seu agrado (um deles até gosta de ouvir rádio).