sexta-feira, 10 de agosto de 2012

CÃES MECÂNICOS E GENTE STRESSADA: O CÃO ESFRANGALHADO


A constatação e prática do reflexo condicionado, os benefícios e novidade da escola inglesa pós Darwin, o pragmatismo dos ancestrais criadores germânicos e os seus rigorosos critérios de selecção (hoje continuados por outros), formaram um todo que deu origem ao Cão de Pastor Alemão, um animal “estupidamente” obediente, mecânico e por isso mesmo de alta capacidade de aprendizagem, pouco temperal, objectivo e seguro. Mas quando o dono dum cão destes é a sua antítese, comportando-se sem regra e enveredando pelo stresse, o animal é lançado na mais profunda confusão, resiste à liderança e tende a procurar quem o respeite na procura de identificação, podendo inclusive tomar iniciativas que por direito não lhe pertencem, ainda que compreensíveis e tornadas justas por força do desacerto. As pessoas mais temperamentais, fustigadas por estados de ânimo radicais, não devem procurar cães mecânicos e muito menos proceder ao seu ensino, para que o treino não se torne num suplício para homens e cães. Assim, os cães nesta situação, deverão ser treinados por outrém e entregues aos donos para fim terapêutico, ajudando-os no equilíbrio de que tanto necessitam para a sua felicidade, pois o regime de internato canino sempre se justifica pelos desacertos binomais, independentemente da sua razão ser humana ou canina. Não há necessidade de esfrangalhar cães!

E DEPOIS DO ADEUS?

Para onde irão os cães de competição quando a velhice chegar e o cronómetro perder a sua razão de ser? Será que serão preteridos e arrumados como troféus ou serão objecto dos mesmos cuidados e honrarias? Uma coisa é certa: sempre deixam de ser vistos! Os bons ainda serão relembrados por algum tempo e outros nem isso. Será que ficarão esquecidos num canil até ao fim, condenados a ração de má qualidade e a afagos de surtida? Porque será que ninguém fala deles e sempre se enaltecem aqueles que os vieram render? Estaremos numa política de “rei morto, rei posto”? Seria bom que não, os cães não o merecem, particularmente aqueles que, a despeito do seu esforço, nos encheram o ego ou barriga. 

A DUNA DA DONA SEN NOME

A Duna é uma Golden que enche de alegria as ruas por onde passa, um “espírito livre” que adora rebolar-se em qualquer poça. Desfila de cauda erguida e sempre procura a companhia dos outros cães, com quem adora dividir brincadeiras e estabelecer cumplicidade. A “pinta” do animal é tal que ninguém sabe qual é o nome da sua dona, apesar de simpática e acessível. A cadela a todos encanta pela sua afectividade e boa disposição, faz a alegria da criançada e põe a cabeça do Radar às voltas, um Pastor Alemão que a quer como namorada, mesmo sendo bruto e de rudes maneiras. Continuamos sem saber o nome da dona, apenas sabemos que é galega e que a Duna a adora. Para a próxima vamos perguntar-lhe. 

terça-feira, 24 de julho de 2012

ONDE MENOS SE ESPERA, HÁ UM PINSCHER QUE ESPERA POR SI


Parece não haver dúvida: o mundo do adestramento está cheio de preconceitos. Nos países meridionais da Europa, por vezes mais preconceituosos que os demais, quiçá pela diferença social ser mais gritante, os preconceitos esfumam-se agora diante da actual crise pelo espectro da sobrevivência e ficam a aguardar por melhores dias. Antigamente ia-se até ao Brasil e agora são muitos os brasileiros que nos visitam, ainda que alguns os atendam com um nó na garganta. Tempos houve em que se consideravam os cães pequenos como “EPês” (cães de encher o pé), canitos sem interesse para os adestradores e por isso mesmo desprezados, entendidos como chinchilas e muitas vezes identificados como “LCs”, sigla que o decoro não nos permite desvendar. Com as contas feitas à vida, porque um cão de 35kg come em média um saco de ração que custa entre 52 e 75€ (estamos a falar de rações de qualidade), os cães de raça abaixo dos 15kg viraram moda, ainda que obrigados a preço de saldo, caso contrário, os canis municipais têm demasiados cãezinhos atractivos à espera de quem os queira resgatar, rafeiros muito engraçados e por vezes mais bonitos e saudáveis do que os ditos de pura casta, fáceis de “arrumar” em qualquer apartamento e pouco dispendiosos.
Como consequência disso, as matilhas escolares tornaram-se mais heterogeneas e nunca se viu tanto cão toy a deambular entre molossos de 40 e tantos quilos ou bassetóides a alinhar por lupinos. A “era da pequenada”, depois de algum desconforto inicial, tem-se revelado uma alegre surpresa, porque indo prá além das expectativas, tem revelado uma aptidão e uma capacidade de adaptação nunca vistas, concorrendo para isso o trabalho desenvolvido pelos pinschers, teckels, dachshunds, cockers e tantos outros, para já não se falar dos seus híbridos ou mestiços. Nas zonas interiores, onde ainda sobrevivem muitos podengos, e entre eles alguns anões, o mesteño de podengo tem vindo a engrossar significativamente as classes de adestramento, comportando-se como um verdadeiro mustang. Contudo, na cabeça da lista dos “Top 10” encontra-se o pinscher, um pequeno valente muito disponível, que aprende com facilidade e “vai a todas”, que nos lembra outro cão bem maior (somente na morfologia e cor), que poucas ou nenhumas saudades nos deixou, porque quase sempre gorou as nossas expectativas e por isso mesmo caiu em desuso

SALTAR PARA VIVER MAIS


O que a maioria dos cães domésticos mais depressa desaprende é a saltar e isso acontece logo desde tenra idade, quando os proibem de saltar para os donos e os obrigam, mediante a trela, a uma cadência de passo curto. Apesar do recurso ao salto ser instintivo nos cães e contribuir para a sua sobrevivência (defesa, ataque, ocultação, fuga e modo de caçar), o desuso operado pelo condicionamento poderá eliminar este acto natural de uma vez por todas, porque o cão possui poucos instintos e não os segue cegamente, sendo ao invés rico em personalidade e apostado no agrado do seu dono. O lobo familiar é um dos poucos animais cujo comportamento sofre mais alteração e onde a fronteira entre o nato e o inato é por vezes pouco perceptível.
O acto de saltar possibilita a transição e uso automático dos diversos andamentos naturais presentes no cão (passo, marcha e galope), o que contribui significativamente para a sua boa forma física e anímica, qualidade de vida e longevidade, isto se geneticamente tal lhe for possível, já que existem raças que, por força da selecção humana, são incapazes de formar qualquer salto por lhes ser impróprio, nocivo ou impossível. Exceptuando estes casos, todos os cães deverão ser convidados a reaprender a saltar e a melhorar as suas performances atléticas, acções que naturalmente serão do seu agrado. Cabe aos centros de adestramento caninos este trabalho, porque se subtrairmos da cinotecnia a sobrevivência canina, estaremos de volta ao circo romano.

NADAR CONTRA O STRESSE


O Jorge Martins faz parte dum pequeno grupo de cidadãos que vai de férias com o seu cão, neste caso com uma cadela: a Brownie. Quando importa aliviar o stresse, o binómio ruma ao Portugal profundo e segue o curso dos rios, parte à descoberta e encontra ocasião para nadar contra o stresse. Desta vez exploraram os rios Vouga e Paiva, nadaram juntos e aproveitaram para tirar algumas fotos. A Brownie, ao contrário de tantos cães, não sofre com a chegada da época estival, porque sabe que, na hora de fazer as malas, a sua mochila segue junto com a bagagem da família. Dá que pensar! Já pensou em ir de férias com o seu cão? O que será melhor: levá-lo consigo ou obrigá-lo a aceitar uma nova liderança e forçá-lo a um novo território? Parabéns Jorge!

O MENSAGEIRO NÃO SE ABATE


Existe um homem que sempre passa à mesma hora, chega sorrateiro à porta dos donos, toca num dos limites da propriedade e depressa desaparece. Nalguns casos vem de mota ou bicicleta, o que desagrada aos cães e denuncia a sua chegada. Esse sujeito é o carteiro e não raramente vira cobaia dos cães domésticos que erroneamente o identificam como intruso. O caso agrava-se quando o indivíduo tem medo ou pavor de cães, porque a adrenalina que liberta transforma-o automaticamente em presa, apesar de todos sabermos que não se abatem os mensageiros. A aversão à bicicleta do carteiro pode estender-se a todos os ciclistas, o que não é desejável e constitui um sério problema, especialmente quando os cães saem à rua e se deparam com esse meio de transporte, tão comum entre nós pelo proveito do exercício físico. Quando isto acontece, os donos vão de charola, aos trancos e barrancos e os cães tornam-se de difícil controle, acabando confinados em casa por tempo indeterminado, o que os tornará ainda mais anti-sociais. O ódio ao carteiro, por ausência de sociabilização, pode estender-se também aos cães da vizinhança que circulam junto à habitação de alguns guardiões, porque provocam e invariavelmente marcam território. Neste último caso, a sociabilização inter pares é a solução mais acertada, o que não deixa dúvidas a ninguém.
Para solucionar o problema relativo aos ciclistas, teremos de nos valer, em primeiro lugar, de um condutor canino mais experiente que instalará a inibição desejada, já que dificilmente o dono se fará respeitar. Em simultâneo, convidaremos um ciciclista para circular no sentido contrário ao do cão para garantir o cruzamento frontal entre ambos. O comando inibitório, para ser eficaz, deverá acontecer dois ou três metros antes do cruzamento acontecer. Depois do cão se encontrar familiarizado com a bicicleta, pediremos ao ciclista que o provoque. Caso se manifeste o desinteresse do cão, facto visível pela ausência de fixação do animal, é chegada a altura de transferirmos o comando para o dono. Convém que o percurso a estabelecer seja circular e de pequeno diâmetro para garantir o maior número de cruzamentos possível e melhor operar a fixação da inibição. Dependendo do histórico do cão, grau de instrução e perfil psicológico, poderemos e nalguns casos deveremos, promover imediatamente a amizade entre o ciclista e o animal, porque o melhor remédio para a cessação das hostilidades vem daí.
Como atrás disse, o dono só deverá pegar no cão depois do acerto inquestionável do cão, quando a inibição estiver instalada, for plenamente alcançada e os riscos de confrontação forem completamente nulos. Por norma, os cães que incorrem neste problema são animais que nunca tiverem qualquer tipo de ensino ou que foram vítimas de algum mal dirigido, apressado ou inadequado. O dono irá repetir todos os exercícios e situações anteriormente vencidas pelo cão. Se tudo correr segundo o esperado, então aconselharemos o dono à inscrição escolar e à recapitulação doméstica, se isso não se verificar retomaremos à primeira fase, valendo-nos, mais uma vez, do auxílio de um monitor ou de um condutor mais experiente. A celeridade do processo pedagógico irá depender da assiduidade, qualidade, atenção e rigor dos intervenientes humanos, assim como da duração do problema na vida do cão. De qualquer modo, a gravidade do sucedido sempre apontará para a ausência de uma liderança eficaz, normalmente associada a um exagerado proteccionismo e adornada por princípios antropomórficos advindos de sentimentos exacerbados ou descabidos.          

SEMPRE À ESPREITA!


A manga exerce um autêntico fascínio nos cães e eles sempre esperam que ela surja nalgum momento do treino, mantendo-se alerta e aguardando pela sua apresentação. Os mais jovens deliram com os ataques simulados e robustecem desse modo o apego binomial, sedentos de mostrar serviço e ávidos pela captura. Sem qualquer preparação, cada foto é de rara beleza e o mito sempre renasce quando o binómio vai adiante.
Nada é mais fácil e ao mesmo tempo tão difícil com ensinar a disciplina de guarda, porque os cães nasceram para vencer e necessitam de ser refreados, são predadores e não podem agir por modo próprio, necessitam de conhecer os seus inimigos para não serem surpreendidos, de identificar os que carecem da sua protecção e tolerar todos aqueles que não se constituem em ameça para si, para o seu dono e património comum. Qualquer anjo da guarda transforma-se no pior dos demónios quando deixa de obedecer ao seu líder e age para além da sua ordem. O suporte da guarda é a obediência e os ataques cirúrgicos resultam dela, assim como a sua cessação e oportunidade. O bom cão de guarda, apesar de provocado, fixa primeiro os olhos no dono e só depois no alvo que lhe for indicado. Assim foi e assim deverá continuar, em prol do cão, do dono e de todos aqueles que com ele se cruzam.

CÃO ENCONTRADO, DONO TRAMADO


Se Fausto Cardoso de Figueiredo cá voltasse, o homem que ousou construir a Biarritz portuguesa e que deu vida à Costa do Sol, certamente morreria fulminado de vergonha ao ver naquilo em que Cascais se transformou. Nada temos contra os ciganos, muito embora o estudo da língua romani nunca tenha estado na lista das nossas prioridades e ao que parece, nem sequer na dos ciganos peninsulares, mas vamos aos factos. Certa senhora deu por falta do seu cão e prometeu recompensar quem o encontrasse. Pouco tempo depois recebe um telefonema a dizer que o seu fiel foi encontrado. De imediato desloca-se ao local da pessoa que o encontrou e depara-se com o cão drogado. Apesar de estranhar o comportamento do animal, puxa pela carteira e entrega 20€ ao homem. Num ápice, vê-se rodeada de ciganos que a tentam assaltar. Por sorte consegue fugir e dirige-se à polícia, onde lhe dizem, para espanto seu, que o estratagema é bastante usual e comumente empreendido por ciganos. Cuidado com os “descobridores” de cães, à cautela, não vá ao seu encontro sozinho e vá preparado para o pior, pois não sabe aquilo que o espera. O aviso está dado!
PS: Sempre houve ciganos exemplares e não se pode incriminar toda uma etnia pelos actos de alguns indivíduos, porque nem todos são negociantes desonestos, ladrões, falsos adivinhos, traficantes de droga e de armas, burlões, falsários ou fascinados pela contrafacção. Há que separar o trigo do joio.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

NINHO OU RONDA: SALVAGUARDAR O CÃO PARA GARANTIR O SERVIÇO


Todo e qualquer serviço a atribuir a um cão deverá considerar, em primeiro lugar, a salvaguarda do animal e só depois a sua utilização. E quando se trata de cães de guarda, será o respeito por esta regra que determinará todo o condicionamento a haver, porque doutro modo, já se sabe quem poderá morrer no cumprimento do dever. Os entusiastas dos cães de guarda, dominados pelo dano que os seus cães possam causar, facilmente se esquecem disso por força do show off em que andam embrenhados, como se a eliminação dos cães não fosse possível, não acontecesse todos os dias, um pouco por toda a parte e agora com maior frequência. E se os cães destes brincalhões continuam vivos, tal não se deve ao esmero do seu trabalho ou à excelência do seu desempenho, mas simplesmente ao facto de não serem utilizados e à pouca cobiça que a riqueza dos seus donos desperta. Pelo sim pelo não, a haver Deus no Céu, vida para além da morte e eu lá chegar, já tenho preparado um caderninho de dúvidas para Lhe apresentar. Entre elas há uma que não me deixa descansar: porque será que aqueles que menos têm para guardar, são os que mais procuram cães de guarda? Se aceitamos sem nenhuma dificuldade o poder dissuasor canino, também sabemos da inoperacionalidade de um cão em matéria de segurança, quando isolado e entregue a si próprio. Penso que ninguém tem dúvidas: é mais fácil dar caça a um cão do que caçar um tigre. Não obstante, o famigerado felino encontra-se em vias de extinção!
Ainda que nos pareça estranho e coisa de tempos idos, tanto nos Montes Cárpatos como na Cordilheira do Cáucaso, ainda hoje se caçam e domam ursos. Há meia dúzia de anos atrás conhecemos um emigrante ucraniano, calmo, afável, bem disposto e de sorriso angelical, camionista entre nós, que combateu no Afeganistão aquando da Invasão Soviética em 1979. O homem havia pertencido a um corpo especial de tropas e em determinada altura abraçou também como especialidade a cinotecnia militar. Quando o inquirimos sobre a opção que tomou, respondeu-nos: “eu desde criança que ia caçar ursos com o meu avô e nem sempre tínhamos espingarda, adestrar cães foi muito mais fácil, sempre vivi rodeado deles e até tivémos um que, quando o soltávamos, nunca regressava a casa sem ter morto algo!” E como a conversa lhe ia a gosto, lá foi explicando como era importante conhecer os hábitos dos ursos, saber quais as cavernas para onde iam hibernar e esperar pela hibernação. Hoje o “Alex” diverte-se a ver os cães alheios que lhe passam pela frente e depois de algumas cervejas para vencer a timidez, não se escusa a dar conselhos aos proprietários caninos que com ele se cruzam. Fala bem português e por consenso é um excelente rapaz. Também somos dessa opinião.
Não queremos com este relato exaltar sentimentos xenófobos ou alimentar polémicas relativas à emigração ou imigração, mas servir-nos das lições práticas que ele carrega, algo para além do “moral da história”, porque isso lança-nos para o tema de hoje. Há duas coisas que são fatais para o cão guardião: o estudo dos seus hábitos e o conhecimento das suas acções (hábito e operação). E quando de trata de instalar um cão de guarda numa casa, moradia ou quintal, considerando a sobrevivência do animal e a garantia do serviço, importa decidir o que melhor serve esses propósitos, se instalar um percurso rondante ou optar por um “ninho de vigilância”. Para encontrar o cão certo, somos obrigados a considerar o ecossistema da propriedade, a policromia das cores do local, o nº de metros quadrados a bater, os horários de vigilância, o tipo ou tipos de piso que apresenta e a natureza das suas delimitações, para que haja um casamento perfeito entre as características do animal e o local onde irá ser instalado. Mas tudo isto poderá ser desconsiderado se os hábitos e acções do cão forem por demais visíveis do exterior, já que são considerações relativas ao exercício de rondar, que se deseja silencioso e operado debaixo de surpresa. Nos casos em que o animal se apresenta por demais exposto e sujeito a observação detalhada, “o ninho de observação” apresenta-se como a melhor opção, o mesmo sucedendo quando a propriedade tem um perímetro diminuto ou uma área descoberta de pouco significado.
O “ninho de observação”, que pode constituir-se em canil, desde que dissimulado na arquitectura da propriedade, camuflado nos seus acidentes naturais ou incrustado na sua decoração, é um local de vigia privilegiado para o cão, onde se transforma em sentinela e vive em constante observação, sem ser observado e pronto a escorraçar qualquer tentativa de intrusão. Na escolha do local, para além da ocultação do animal, há que considerar o seu bem-estar e saúde, para que seja da sua preferência e ali se sinta comodamente instalado, fiado na rectaguarda e com os olhos postos no exterior. Donos mais desafogados do ponto de vista económico, por natureza engenhosos e ligados ao pormenor, mediante a construção de um pequeno túnel de ligação, que não pode ser muito comprido devido à urgência do socorro, juntam o útil ao agradável e conseguem garantir a segurança, em simultâneo, tanto o interior quanto o exterior da casa, ligando assim o “ninho” a uma ou mais salas da sua habitação. Deseja-se que a porta de entrada do cão se encontre embutida num armário de parede e que se abra inesperadamente perante a aproximação do animal, que despoleta para acção mediante dispositivo electrónico amovível e não audível, tal qual um comando de portão, garagem ou televisão. Esta é uma acção extremamente eficaz, fácil de treinar e de resultados comprovados, porque resulta de uma manobra de surpresa e o cão parte em vantagem, graças ao treino realizado e às capturas alcançadas, factores que o robustecerão e o farão partir na certeza da vitória. Com o “ninho embutido”, o cão passa a surpreender ao invés de ser surpreendido e só deste modo poderá fazer lograr os planos dum inteligente num combate que normalmente lhe é desfavorável. O treino desta manobra deverá acontecer na ausência dos criados, longe das crianças e segundo um cronograma previamente estabelecido. O comando de abertura deverá ter um duplicado por causa do seu possível extravio e ser colocado num local anteriormente determinado. O dispositivo que abre a porta do cão não deverá depender da corrente eléctrica da casa, porque quando falta a luz, muita coisa pode acontecer e os ladrões agradam-se disso. 

CRUZAR, ESCOLTA E ELIMINAÇÃO DO CÃO

Talvez os nossos leitores não se lembrem disso, muito embora não seja difícil de imaginar, mas é no mundo do espectáculo que o verbo falsear atinge a sua máxima expressão, porque a representação assim o exige e os dramas são fictícios. Por causa disso e pelo particular dos meios técnicos, ao se apontar uma faca à garganta duma personagem, é necessário inclinar esse objecto de forma a torná-lo visível pelas câmaras, porque se o fizermos com toda a realidade, a faca surge como um pequeno risco, não gera suspense e lá vai a cena para o beleléu. Mas o pior que pode suceder a um actor, é perder a sua própria identidade e substituí-la por uma ou duas personagens que representou. A ficção tem destas coisas e a mísera realidade sempre acabará por lhe bater à porta. No mundo do adestramento, também ele dominado pelo show, as coisas não são muito diferentes, porque se privilegia o espectáculo em detrimento da realidade. Há por aí quem treine as figuras de “revista” e “escolta” com o cão no meio das pernas do infractor ou agressor, uma pobre cobaia que ricamente interpreta o seu papel, tal qual “palhaço pobre” a apanhar sopapos. Na realidade, as coisas passar-se-iam de outra forma, o cão acabaria eliminado e o seu dono provavelmente em fuga. Por um lado, ainda bem que assim é, porque não há lugar a vítimas e tudo acaba bem. No nosso ver, e por vezes já sentimos que a vista nos falta, o cão deverá funcionar como escudo e primeira barreira, estar entre nós e o agressor, independentemente deste se deslocar ao nosso lado ou à nossa frente. Não estará na altura de alterar o guião? A bilheteira está farta de dizer que sim!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

OS CÃES DA JUVENTUDE

Temos vindo a reparar que os homens escolhem diferentes raças caninas de acordo com a franja etária que atravessam e segundo a maturidade que cada idade oferece, espelhando assim a sapiência ou a irreverência típica de cada estágio evolutivo. È evidente que há gente que não melhora, que não aprende com os seus erros, que mal interpreta a experiência e desconsidera as suas lições, tropeçando invariavelmente nas mesmas armadilhas que a si mesma se sujeita. Assim como há uma idade própria para se ter um cão agressivo ou proscrito, também haverá outra que se harmonizará com um cão dócil e socialmente bem aceite, muitas vezes marca de status e sinal de bem-estar. Os jovens, movidos saudavelmente pela contestação e irreverência, porque o mundo precisa de avançar, sempre acabam por escolher cães de idêntica condição na procura do seu lugar ao sol, munindo-se inúmeras vezes de animais tenebrosos para esconder os seus receios e alcançar os seus anseios. Quando se é jovem tem-se um fila, um malinois, um rottweiler ou um grande mastim, e daí não virá grande mal ao mundo porque tal é reflexo do nosso aprendizado. Do mesmo modo, outros menos chegados aos cães e embevecidos pela política, começaram por distribuir panfletos marxistas-leninistas e acabaram como líderes destacados de partidos conservadores nas voltas que o mundo dá. Estamos aqui para valer aos jovens, pois serão eles que nos irão render. Como não queremos que partam atrasados, instamos para que nos oiçam e vão mais além, evitando-lhes os nossos erros e robustecendo-os com a nossa experiência.

O CHECO ENCOBERTO E A POLÍTICA DO NÓ CEGO

Entre os canicultores subsiste uma fauna rara que nem por isso tende à extinção, um número reduzidíssimo de cavalheiros que ficará para a história pelas piores razões e que irá prejudicar em simultâneo pessoas e cães, graças à sua cegueira e pouco escrúpulo na selecção dos animais tidos como de trabalho, que à imitação doutros lá fora, faz da hibridação esporádica prática corrente, mais de acordo com as suas convicções do que no benefício das raças lesadas. Como se já não bastasse o insucesso do Lobo-Checo enquanto cão de utilidade, a quem é reconhecido um fraco impulso ao conhecimento e uma tremenda carga instintiva, ainda há quem se sirva dele para alcançar maior porte e rusticidade dentro dos pastores alemães, características atávicas que obstam ao melhor rendimento dos cães. Se os híbridos de primeira geração nascerem preto-afogueados, só uma observação mais detalhada e demorada conseguirá detectá-los, já no caso dos lobeiros tudo se torna mais fácil, porque desprezam a variedade dominante que lhes é comum e regressam à proto-dominância do lobo cinzento, adquirindo traços fisionómicos, nuances, comportamentos e posturas próximas desse parente silvestre. O cunho pessoal de uns que leva à bastardia de outros é um autêntico “nó cego” contra os apaixonados e defensores da pureza no Pastor Alemão, uma traição encoberta que só o ADN porá a descoberto. Até lá há que estar atento e denunciar quem conspurca e adultera o cão da nossa predilecção.

O RAPAZ DAS BOAS INTENÇÕES

Conhecemos um rapazola cheio de boas intenções que circula por todo o lado com o seu cachorro pittbull à solta, adiantando que assim procede para alcançar a sociabilização do animal. Até agora nada de extraordinário aconteceu, apesar do rapaz “ingenuamente” suspender o cão em vários potenciadores de mordedura por mais ou menos tempo. O cachorro já alcançou a maturidade sexual e ao que parece começou a detestar uma raça em particular. Quando brinca com os outros cães sempre lhes rouba os objectos e não raramente usa o rosnar gutural para alcançar os seus intentos. A somar a isto, o cão nunca anda à trela e tendencialmente ensurdece-se perante as ordens que lhe são dadas, obedecendo somente pelo recurso à coerção. Diante destes factos não se adivinha um futuro feliz para o cachorro e muito menos para aqueles que com ele se irão cruzar, sendo caso para se dizer: “ de boas intenções está o inferno cheio!”

MACHO ALFA, DESGRAÇA MINHA

Nem todas as raças caninas se podem educar com papas e bolos, ainda que nelas subsistam indivíduos mais fáceis de ensinar e próprios para a cumplicidade. Apesar dos criadores das raças mais duras alertarem para a necessidade de uma liderança forte, muita gente sem essa qualidade teima em adquirir cães de forte impulso ao poder que tendencialmente incorrem na desobediência e rebeldia, causando aos seus proprietários amargos de boca “inesperados” por falta da imposição que estabelece a regra. As mesmas agruras passarão aqueles que irão adquirir cães muito-dominantes, mesmo que oriundos de raças que à partida são de natureza mais submissa. Como estes desaguisados engrossam as fileiras escolares e nem todos os binómios alcançam a sua constituição efectiva, convém que cada um escolha o cão adequado para si e não aquele da raça que gostaria de ter. Daqui lançamos um pedido aos canicultores, que vendam cachorros de acordo com o perfil psicológico de quem os quer adquirir, porque se a coisa der prò torto é o cão que irá pagar! Se você pretende adquirir um cachorro, não sabe como o escolher e não quer receber kit de problemas, contacte-nos, pois estamos cá para o ajudar e nada lhe cobraremos.

terça-feira, 22 de maio de 2012

ECOS DA CRISE, PATRANHAS ANTIGAS

Sucedânea à criação de “pintos do dia” que tantos aviários gerou, no hábito enraizado da economia paralela que o interior trouxe para a cidade, a criação de cães aconteceu um pouco por toda a parte, substituindo nos quintais as tradicionais hortas, capoeiras, coelheiras, currais, charcos e pombais. Num ápice e de modo inesperado, fruto do tempo e por auspício do consumo exagerado, o número de canicultores cresceu assustadoramente. Hoje decresce vertiginosamente e há quem tudo faça para se ver livre dos cães na celebérrima política do “passar da batata quente”, ressuscitando desse modo velhas patranhas que de novas só têm os seus intervenientes, já que a canicultura não é auto-suficiente e sempre dependerá doutra actividade para o seu sustento. Recentemente ouvimos uma patranha digna de destaque que queremos dividir com os nossos leitores. Fulano tal, que diz de si mesmo ser um adestrador reputado e com promissores contactos internacionais, na ânsia de angariar um seguidor, mão-de-obra barata e de se ver livre de um cão, solta para o incauto: “ Este cão está vendido para uma polícia estrangeira por 3.400€, mas como eu gosto de ti e tenho prazer em ensinar-te, vendo-te somente por 340!” Em tempos idos conhecemos um sujeito que esteve prestes a vender o Convento de Mafra, apesar de não ser seu, ser de custo incalculável, de manutenção astronómica e ter 365 portas e janelas. É preciso descaramento, mas há sempre alguém que embarca! 

A PARAGEM DO TEMPO ÀS 10 PARA AS DUAS

Há quem diga e nisto parece ter alguma razão, que os cães de trabalho são normalmente feios e mal-amanhados, toscos de morfologia e de qualidade duvidosa, isto se considerarmos que nas classes ditas laborais, pelo menos na nossa latitude, superabundam cães com essas características. Ninguém duvida que existem por cá excelentes exemplares de trabalho, que juntam à aptidão uma morfologia invejável, contudo são muito poucos. Paralelamente, os canicultores de cães de utilidade parecem não se preocupar com isso, produzindo animais com uma biomecânica desprezível onde sobressaiem desaprumos de toda a ordem que irão gerar animais côncavos e por isso mesmo impróprios. Dá ideia que o relógio parou em Portugal às dez para as duas para os criadores de cães de trabalho, considerando o número de exemplares que apresenta o peito estreito ou invertido, abatimento de metacarpos e mãos divergentes, incapacidades responsáveis pelo selar do dorso, pelo desprendimento de bolsas de líquido sinovial e pelo aparecimento de higromas, dando a idéia que o cão de trabalho já nasce estoirado pelo serviço. Sabe-se que na maioria dos casos o problema não é genético e resulta da falta de acompanhamento dos cachorros, verdadeiros sobreviventes sujeitos à subnutrição e isentos do parecer médico-veterinário. Está mais do que na hora de dar corda ao relógio e apostar na criação de exemplares capazes, capazes de nos surpreender e capazes para o serviço que deles esperamos.

QUE GRANDE CÃO EU LHE VENDI!

Muita gente já fechou as portas e entre ela grande número de sensatos, um sem número de oportunistas e outro tanto de gente imprópria, graças à actual crise económica que inevitavelmente acabou por atingir a canicultura e os seus apaixonados, também ela vítima e reflexo do outrora crédito fácil que teve como consequências o aumento da procura e a supervalorização dos cães, como se o dinheiro não tivesse fim e nunca nos viessem a pedir contas. Nunca foi tão fácil comprar um cão, considerando que algumas raças são agora vendidas a 1/6 do preço encontrado nos finais da década de 90, altura áurea para a importação e ocasião para grandes negociatas. Como a crise não é só falada em português e ultrapassa largamente as nossas fronteiras, também porque alguns países de leste fazem hoje parte da Comunidade Europeia, exportando para aqui cães a baixo preço e nem sempre de boa qualidade, por toda a Europa o preço dos cães baixou drasticamente e encontra-se tabelado quase ao preço dos gastos. Salvo honrosas excepções, que são motivo de inspiração, a maioria das ninhadas nacionais acaba também por pagar com a barriga o preço da crise, havendo por aí muitas subnutridas e até famélicas, lembrando ratos carecas em ecossistema de parco alimento. Por força da austeridade, ao contrário do que antes sucedia, irá caber aos futuros proprietários a recuperação desses cachorros, façanha alheia aos seus criadores que aproveitarão esse investimento para justificarem a qualidade do seu produto, soltanto frases do género: “ Está ver… que grande cão eu lhe vendi!”

QUARTO DE VOLTA: O REGRESSO DO SOLDADINHO DE CHUMBO

Lá, por onde andaram franceses e ingleses pelo domínio da Europa no Séc.XIX, numa localidade onde os seus moradores insistem em trocar a acentuação tónica do seu nome, num sítio remoto, nada convidativo e mal apetrechado, assistimos ao regresso do soldadinho de chumbo, quiçá tornado efeméride por força do seu passado histórico. Estamos a referir-nos ao uso e abuso do “quarto de volta” na disciplina de obediência canina, como se tal fosse premente, insubstituível ou carregasse vantagens nunca vistas. O movimento, tornado ali em “ordem unida”, lembra as intermináveis filas para o recebimento do “pré”, muito embora a continência acabe substituída pelo ajustar do cão com a mão.

Ainda que o movimento requerido tenha como objectivo a fixação do “alto, do “junto” ou a fixação exclusiva do cão na pessoa do seu condutor, já há muito que se descobriram modos mais eficazes e céleres para esses propósitos, tais como o recurso ao reforço positivo e a instalação do “meia-volta”, muitas vezes codificado como “volta” ou “roda” de acordo com o comando alemão “zurück”. O “quarto de volta”, quando usado sistematicamente, tende ao aumento do travamento e a contribuir para uma autonomia condicionada pouco visível e nalguns casos piegas, ficando isso a dever-se aos diferentes perfis psicológicos presentes nos cães. A somar a isto, porque o ensino canino é dinâmico, exige celeridade no cumprimento das ordens, procura a minimização do esforço humano e a maximização do esforço animal, não dispensando por isso a velocidade funcional inerente aos diferentes serviços a prestar pelos cães, o “quarto de volta” acaba por atentar contra tudo isto, o que de todo não é desejável.

É evidente que cada qual dentro da sua casa é rei e isso deve ser respeitado, no entanto e porque começámos por uma evocação histórica, interessa-nos manter o mote e usá-lo para uma melhor compreensão da problemática ligada à insistência no “quarto de volta”, evolução típica dos imóveis soldadinhos de chumbo que a foram beber aos exércitos regulares no apogeu da Revolução Francesa. Por culpa dos espanhóis que inventaram a guerrilha (do castelhano guerrilla: pequena guerra), o modo de guerrear alterou-se e a partir daí a derrota dos Franceses consumou-se na Península Ibérica. Exceptuando a praxis de alguns membros da histórica e extinta escola alsaciana, não sabemos se alguma vez o “quarto de volta” fez parte do currículo base da obediência a ministrar a um cão, mas se isso aconteceu algum dia, foi lá para os primórdios dos cães de utilidade e muito antes da II Guerra Mundial, porque a partir daí tal nunca foi visto, já que as inversões do sentido de marcha sempre aconteceram de modo mais pronto pela “meia-volta” e resolvidos os “quartos” pelo auxílio do “junto”, nomeadamente nas evoluções de “direita e esquerda volver”, comandos militares e por isso mesmo distantes das práticas civis.


Assim como o “troca” (tauschen) exige nos ensinos dinâmico e nuclear modos mais céleres que não dispensam a rotação de tronco que possibilita a condução a duas mãos direccionais, também o “quarto-de-volta” deverá ceder lugar a outras formas de “junto” que garantam o mesmo propósito (o “junto instantâneo” por pirueta ou o confirmado a partir do ladear). Assim como a prontidão dos ataques deve ser igual à sua cessação, também qualquer imobilização deverá garantir a partida automática para a acção. O uso abusivo das figuras de imobilização, muitas vezes usurpando o lugar da ginástica nos 1º e 2º Ciclos Infantis (dos 4 aos 6 meses e dos 6 aos 8 meses), tem funcionado como um inibidor da velocidade e castrado muitos cães para um conjunto de acções necessárias às restantes disciplinas cinotécnias, inutilizando assim a sua vocação, propensão natural, mais-valia e complementaridade. Por outro lado, o abuso da toada “alto e pára” que o “quarto-de-volta" propicia acabará por enfraquecer os impulsos herdados que garantem a defesa do dono e dos seus bens, particularmente na sua ausência, graças à exagerada submissão operada que obstará a qualquer autonomia pretendida. E como importa dar a cada um o que é seu e a César o que é de Cesar, os adeptos do “quarto-de-volta” deveriam uniformizar os seus alunos com fardas de cotim ao invés dos comuns fatos de treino.

terça-feira, 1 de maio de 2012

GINÁSTICA CINOTÉCNICA: A FORMAÇÃO DO CÃO-GATO



Desde cedo se percebeu, quando se pretendeu usar o cão como guerreiro nos tempos modernos e treiná-lo como militar, da necessidade de um adestramento específico visando a supressão de algumas dificuldades e a potenciação das suas capacidades ou complementaridades, da emergência de pistas tácticas com obstáculos próprios e capazes para o simulacro do teatro operacional, nascendo assim, um pouco por toda a parte, o conceito e elaboração da pista táctica (nalguns casos tratada como pista de fogo), requisito que viria a revelar-se fundamental para o treino do cão de guerra. O modo diverso de fazer a guerra e a perca galopante de atribuições militares por parte dos cães, levaram ao desuso e desaparecimento das outrora famosas pistas tácticas, que subsistiriam ainda até aos alvores do cão-polícia, transição natural que tanto creditou algumas raças e uma ou duas em particular.

E como não estamos aqui a tratar do fenómeno de Tunguska e tudo tem o seu início, todas as pistas que hoje vemos tiveram a sua origem comum nas pistas militares, a menos que consideremos a actividade circense como madre de algumas modalidades ou disciplinas caninas, o que nos parece pouco provável. Apesar da novidade de propósitos ter levado a diferentes filosofias e outros tantos objectivos, o hábito sistemático de treinar cães é um legado militar sobre os cães ditos de utilidade ou de trabalho, mesmo que eles se tenham vindo a transformar em simples guardiões, caçadores ou companheiros, porque ainda definimos o treino como rigor, apostamos na constância das acções, buscamos o condicionamento, procuramos a uniformidade, o apego aos procedimentos e temos como base de todo e qualquer adestramento a disciplina de obediência, ainda que os meios para o seu alcance tenham mudado, diga-se que felizmente, em abono dos cães, na defesa da sua integridade e individualidade, defesa operada pelo reforço positivo e pelo uso requerente à memória afectiva presente nestes animais.

A passarelle já existia e dela se fazia uso antes de um “sonhador” ter inventado o agility pela observação das provas equestres, o mesmo aconteceu com os esconderijos hoje usados para o treino do cão de guarda e os retrievers são anteriores aos novos métodos de ensino. Valerão as pistas tácticas somente como referência para os actuais cães paisanos ou serão também importantes para a sua formação e capacitação? Estamos em crer que elas não perderam a sua actualidade e que muito podem subsidiar os actuais cães de trabalho, considerando o alcance dos seus indices atléticos, superior capacitação, bem-estar e longevidade, enquanto preparação específica para o trabalhado vindouro, alvos muitas vezes aquém das pistas em voga e que se transformaram no melhor dos marketings para quem tem rações ou acessórios para vender, porque não promovem o conhecimento biomecânico, o seu aproveitamento e potenciação, subsidiando ao invés o show e gozo efémero dos donos.

Para além destes aspectos, as pistas tácticas foram e devem ser concebidas para dar combate e levar de vencida os medos mais comuns presentes nos cães, geralmente transformados em traumas que inibem de sobremaneira a prestação canina e a sua saúde como um todo. Como a lista desses medos é interminável adiantaremos apenas alguns: acrofobia, acustofobia, batofobia, cainofobia, cimofobia, claustrofobia, cleitrofobia, escotofobia, ligirofobia e mictofobia, o rol é deveras extenso! As mais-valias das pistas tácticas não se esgotam nos benefícios psicológicos e na melhoria dos índices atléticos, no aumento da prontidão e na preparação específica dos cães, estendendo-se também à correcção morfológica e à melhoria dos aprumos, isto se convidarmos os cachorros para a sua prática aquando da face plástica que os ciclos infantis oferecem.

Os inimigos das pistas tácticas e que delas dizem horrores são na sua maioria gente que na década de 80 ainda não tinha atingido a maioridade e que assustada com os relatos que foi ouvindo, não raramente exagerados, as tem conotado como hediondas e desprezíveis quando comparadas com as actuais, de índole desportiva, de técnica rudimentar e de fácil resolução, o que compromete de sobremaneira o seu parecer, por não ser tangencial e não resultar da experiência objectiva que induz à comprovação. Assim também nasceu a história do lobo mau e o mito da avestruz com a cabeça debaixo da terra! Há quem também diga que a pista táctica é uma fomentadora de lesões e que por causa disso entrou em desuso, o que é falso, uma vez que o seu objectivo aponta claramente na direcção contrária e tem como prioridade a salvaguarda da integridade global dos cães, preparando-os para os perigos e desafios que encontrarão no seu quotidiano, valendo-se para isso de obstáculos idênticos àqueles com que irão ser confrontados.

O adestramento perderia o seu significado se em cada cão houvesse um gato, pelo menos na sua vertente atlética, porque o felino dispensa nesta matéria de qualquer tipo de aprendizado mercê das suas características inatas. Ao invés, o cão necessita de aprender a saltar correctamente, a distribuir prontamente o seu peso corporal pelos dois pares de membros nas recepções ao solo, o que lhe permitirá impactos menos violentos e garantirá a progressão por mais tempo e sem delongas. Ele irá necessitar de aprender a escalar, quer para prestar socorro quer para se libertar ou salvar, terá que aprender a nadar com os dois pares de membros abaixo da linha de água, caso contrário entrará em colapso e virá a morrer afogado. Terá que aprender a escapar-se do fogo e a evoluir em diferentes superfícies, pisos e acidentes (naturais ou artificiais), e ser condicionado na resolução de todo e qualquer obstáculo que encontrará pela frente.

Também terá de acostumar-se à vida urbana, à novidade de materiais e a evitar os danos que estes lhe possam causar, a vários tipos de transporte e a toda a casta de gente na progressão alinhada que lhe será exigida. Ser experimentado e aprovado nas situações em que importa socorrer-se e socorrer o seu dono, necessitando para isso de usar toda a ferramenta morfológica ao seu dispor, meta que a pista táctica não dispensa e que abraça como objectivo, resultando daí a sua actualidade e utilidade. Cortar, escalar, escavar, nadar, rasgar, rastejar, saltar, subir escadas, transportar e aprender a ocultar-se, são algumas das acções que a pista táctica lhe oferecerá e que irão capacitá-lo para a sua sobrevivência e mais-valia. A somar a isto, pelo peso do trabalho binomial que não dispensa a cumplicidade, a sua condução em liberdade e autonomia acontecerão mais cedo e tornar-se-ão mais eficazes. 

A natureza dos obstáculos propostos pelas pistas tácticas, para além de fomentar a escolha correcta dos andamentos naturais presentes nos cães pràs tarefas, tende e normalmente consegue, dotar determinadas raças de características funcionais que a sua selecção desprezou ou omitiu, algo a que a diferenciação estética não é alheia e que tem sido responsável por várias afecções e não raras aberrações. Os milagres operados pelas pistas tácticas ficam a dever-se à diversidade dos seus obstáculos e propósitos, ao respeito salutar pelos mais elementares princípios pedagógicos de ensino e à qualidade dos mestres de campo, gente experimentada na arte de ensinar cães e que disso faz uma verdadeira paixão, indivíduos que vieram para servir e que nisso se sentem bem, ainda que por vezes não sejam compreendidos, porque não esperam retribuição e sempre procuram o aprimoramento.

Uma pista táctica digna desse nome deve estar equipada com obstáculos típicos para os cachorros, ter um perímetro exterior de aquecimento, um conjunto de aparelhos para a correcção morfológica, obstáculos de diferente índole e outros específicos para o desenvolvimento interdisciplinar, ser um simulacro das acções reais que o cão terá pela frente e que exigem a sua pronta resolução. Pensar e agir ao contrário, é desejar que o cataclismo surja para que o treino aconteça. Situações destas fazem lembrar aquele crente pouco crédulo que só se lembrava de Santa Bárbara quando a borrasca estoirava.
Apesar das múltiplas vantagens que as pistas tácticas oferecem, o seu número é diminuto quando comparado com as de competição, facto que se fica a dever ao seu custo, à escassez de técnicos capazes e à ignorância de grande parte dos proprietários caninos, mais interessados naquilo que os cães têm para lhes dar do que em dar-lhes subsídios de longevidade.