A constatação e prática do reflexo
condicionado, os benefícios e novidade da escola inglesa pós Darwin, o
pragmatismo dos ancestrais criadores germânicos e os seus rigorosos critérios
de selecção (hoje continuados por outros), formaram um todo que deu origem ao
Cão de Pastor Alemão, um animal “estupidamente” obediente, mecânico e por isso
mesmo de alta capacidade de aprendizagem, pouco temperal, objectivo e seguro.
Mas quando o dono dum cão destes é a sua antítese, comportando-se sem regra e
enveredando pelo stresse, o animal é lançado na mais profunda confusão, resiste
à liderança e tende a procurar quem o respeite na procura de identificação,
podendo inclusive tomar iniciativas que por direito não lhe pertencem, ainda
que compreensíveis e tornadas justas por força do desacerto. As pessoas mais
temperamentais, fustigadas por estados de ânimo radicais, não devem procurar
cães mecânicos e muito menos proceder ao seu ensino, para que o treino não se
torne num suplício para homens e cães. Assim, os cães nesta situação, deverão
ser treinados por outrém e entregues aos donos para fim terapêutico,
ajudando-os no equilíbrio de que tanto necessitam para a sua felicidade, pois o
regime de internato canino sempre se justifica pelos desacertos binomais,
independentemente da sua razão ser humana ou canina. Não há necessidade de
esfrangalhar cães!
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
E DEPOIS DO ADEUS?
Para onde
irão os cães de competição quando a velhice chegar e o cronómetro perder a sua
razão de ser? Será que serão preteridos e arrumados como troféus ou serão
objecto dos mesmos cuidados e honrarias? Uma coisa é certa: sempre deixam de
ser vistos! Os bons ainda serão relembrados por algum tempo e outros nem isso.
Será que ficarão esquecidos num canil até ao fim, condenados a ração de má
qualidade e a afagos de surtida? Porque será que ninguém fala deles e sempre se
enaltecem aqueles que os vieram render? Estaremos numa política de “rei morto,
rei posto”? Seria bom que não, os cães não o merecem, particularmente aqueles
que, a despeito do seu esforço, nos encheram o ego ou barriga.
A DUNA DA DONA SEN NOME
A Duna é
uma Golden que enche de alegria as ruas por onde passa, um “espírito livre” que
adora rebolar-se em qualquer poça. Desfila de cauda erguida e sempre procura a
companhia dos outros cães, com quem adora dividir brincadeiras e estabelecer
cumplicidade. A “pinta” do animal é tal que ninguém sabe qual é o nome da sua
dona, apesar de simpática e acessível. A cadela a todos encanta pela sua
afectividade e boa disposição, faz a alegria da criançada e põe a cabeça do Radar
às voltas, um Pastor Alemão que a quer como namorada, mesmo sendo bruto e de
rudes maneiras. Continuamos sem saber o nome da dona, apenas sabemos que é
galega e que a Duna a adora. Para a próxima vamos perguntar-lhe.
terça-feira, 24 de julho de 2012
ONDE MENOS SE ESPERA, HÁ UM PINSCHER QUE ESPERA POR SI
Parece não haver dúvida: o mundo do
adestramento está cheio de preconceitos. Nos países meridionais da Europa, por
vezes mais preconceituosos que os demais, quiçá pela diferença social ser mais
gritante, os preconceitos esfumam-se agora diante da actual crise pelo espectro
da sobrevivência e ficam a aguardar por melhores dias. Antigamente ia-se até ao
Brasil e agora são muitos os brasileiros que nos visitam, ainda que alguns os
atendam com um nó na garganta. Tempos houve em que se consideravam os cães
pequenos como “EPês” (cães de encher o pé), canitos
sem interesse para os adestradores e por isso mesmo desprezados, entendidos
como chinchilas e muitas vezes identificados como “LCs”, sigla que o decoro não
nos permite desvendar. Com as contas feitas à vida, porque um cão de 35kg come
em média um saco de ração que custa entre 52 e 75€ (estamos a falar de rações
de qualidade), os cães de raça abaixo dos 15kg viraram moda, ainda que
obrigados a preço de saldo, caso contrário, os canis municipais têm demasiados
cãezinhos atractivos à espera de quem os queira resgatar, rafeiros muito engraçados
e por vezes mais bonitos e saudáveis do que os ditos de pura casta, fáceis de
“arrumar” em qualquer apartamento e pouco dispendiosos.
Como
consequência disso, as matilhas escolares tornaram-se mais heterogeneas e nunca
se viu tanto cão toy a deambular entre molossos de 40 e tantos quilos ou
bassetóides a alinhar por lupinos. A “era da pequenada”, depois de algum
desconforto inicial, tem-se revelado uma alegre surpresa, porque indo prá além
das expectativas, tem revelado uma aptidão e uma capacidade de adaptação nunca
vistas, concorrendo para isso o trabalho desenvolvido pelos pinschers, teckels,
dachshunds, cockers e tantos outros, para já não se falar dos seus híbridos ou
mestiços. Nas zonas interiores, onde ainda sobrevivem muitos podengos, e entre
eles alguns anões, o mesteño de
podengo tem vindo a engrossar significativamente as classes de adestramento,
comportando-se como um verdadeiro mustang. Contudo, na cabeça da lista dos “Top
10” encontra-se o pinscher, um pequeno valente muito disponível, que aprende
com facilidade e “vai a todas”, que nos lembra outro cão bem maior (somente na
morfologia e cor), que poucas ou nenhumas saudades nos deixou, porque quase
sempre gorou as nossas expectativas e por isso mesmo caiu em desuso
SALTAR PARA VIVER MAIS
O que a maioria dos cães domésticos
mais depressa desaprende é a saltar e isso acontece logo desde tenra idade,
quando os proibem de saltar para os donos e os obrigam, mediante a trela, a uma
cadência de passo curto. Apesar do recurso ao salto ser instintivo nos cães e
contribuir para a sua sobrevivência (defesa, ataque, ocultação, fuga e modo de
caçar), o desuso operado pelo condicionamento poderá eliminar este acto natural
de uma vez por todas, porque o cão possui poucos instintos e não os segue
cegamente, sendo ao invés rico em personalidade e apostado no agrado do seu
dono. O lobo familiar é um dos poucos animais cujo comportamento sofre mais
alteração e onde a fronteira entre o nato e o inato é por vezes pouco
perceptível.
O acto de saltar possibilita a
transição e uso automático dos diversos andamentos naturais presentes no cão
(passo, marcha e galope), o que contribui significativamente para a sua boa
forma física e anímica, qualidade de vida e longevidade, isto se geneticamente
tal lhe for possível, já que existem raças que, por força da selecção humana, são
incapazes de formar qualquer salto por lhes ser impróprio, nocivo ou
impossível. Exceptuando estes casos, todos os cães deverão ser convidados a
reaprender a saltar e a melhorar as suas performances atléticas, acções que
naturalmente serão do seu agrado. Cabe aos centros de adestramento caninos este
trabalho, porque se subtrairmos da cinotecnia a sobrevivência canina, estaremos
de volta ao circo romano.
NADAR CONTRA O STRESSE
O Jorge Martins faz parte dum pequeno
grupo de cidadãos que vai de férias com o seu cão, neste caso com uma cadela: a
Brownie. Quando importa aliviar o stresse, o binómio ruma ao Portugal profundo
e segue o curso dos rios, parte à descoberta e encontra ocasião para nadar
contra o stresse. Desta vez exploraram os rios Vouga e Paiva, nadaram juntos e
aproveitaram para tirar algumas fotos. A Brownie, ao contrário de tantos cães,
não sofre com a chegada da época estival, porque sabe que, na hora de fazer as
malas, a sua mochila segue junto com a bagagem da família. Dá que pensar! Já
pensou em ir de férias com o seu cão? O que será melhor: levá-lo consigo ou
obrigá-lo a aceitar uma nova liderança e forçá-lo a um novo território?
Parabéns Jorge!
O MENSAGEIRO NÃO SE ABATE
Existe um homem que sempre passa à
mesma hora, chega sorrateiro à porta dos donos, toca num dos limites da
propriedade e depressa desaparece. Nalguns casos vem de mota ou bicicleta, o
que desagrada aos cães e denuncia a sua chegada. Esse sujeito é o carteiro e
não raramente vira cobaia dos cães domésticos que erroneamente o identificam
como intruso. O caso agrava-se quando o indivíduo tem medo ou pavor de cães,
porque a adrenalina que liberta transforma-o automaticamente em presa, apesar
de todos sabermos que não se abatem os mensageiros. A aversão à bicicleta do carteiro
pode estender-se a todos os ciclistas, o que não é desejável e constitui um
sério problema, especialmente quando os cães saem à rua e se deparam com esse
meio de transporte, tão comum entre nós pelo proveito do exercício físico.
Quando isto acontece, os donos vão de charola, aos trancos e barrancos e os
cães tornam-se de difícil controle, acabando confinados em casa por tempo
indeterminado, o que os tornará ainda mais anti-sociais. O ódio ao carteiro,
por ausência de sociabilização, pode estender-se também aos cães da vizinhança
que circulam junto à habitação de alguns guardiões, porque provocam e
invariavelmente marcam território. Neste último caso, a sociabilização inter pares é a solução mais acertada, o
que não deixa dúvidas a ninguém.
Para solucionar o problema relativo
aos ciclistas, teremos de nos valer, em primeiro lugar, de um condutor canino
mais experiente que instalará a inibição desejada, já que dificilmente o dono
se fará respeitar. Em simultâneo, convidaremos um ciciclista para circular no
sentido contrário ao do cão para garantir o cruzamento frontal entre ambos. O
comando inibitório, para ser eficaz, deverá acontecer dois ou três metros antes
do cruzamento acontecer. Depois do cão se encontrar familiarizado com a
bicicleta, pediremos ao ciclista que o provoque. Caso se manifeste o
desinteresse do cão, facto visível pela ausência de fixação do animal, é chegada
a altura de transferirmos o comando para o dono. Convém que o percurso a
estabelecer seja circular e de pequeno diâmetro para garantir o maior número de
cruzamentos possível e melhor operar a fixação da inibição. Dependendo do
histórico do cão, grau de instrução e perfil psicológico, poderemos e nalguns
casos deveremos, promover imediatamente a amizade entre o ciclista e o animal,
porque o melhor remédio para a cessação das hostilidades vem daí.
Como atrás disse, o dono só deverá
pegar no cão depois do acerto inquestionável do cão, quando a inibição estiver
instalada, for plenamente alcançada e os riscos de confrontação forem
completamente nulos. Por norma, os cães que incorrem neste problema são animais
que nunca tiverem qualquer tipo de ensino ou que foram vítimas de algum mal
dirigido, apressado ou inadequado. O dono irá repetir todos os exercícios e
situações anteriormente vencidas pelo cão. Se tudo correr segundo o esperado,
então aconselharemos o dono à inscrição escolar e à recapitulação doméstica, se
isso não se verificar retomaremos à primeira fase, valendo-nos, mais uma vez,
do auxílio de um monitor ou de um condutor mais experiente. A celeridade do
processo pedagógico irá depender da assiduidade, qualidade, atenção e rigor dos
intervenientes humanos, assim como da duração do problema na vida do cão. De
qualquer modo, a gravidade do sucedido sempre apontará para a ausência de uma
liderança eficaz, normalmente associada a um exagerado proteccionismo e
adornada por princípios antropomórficos advindos de sentimentos exacerbados ou
descabidos.
SEMPRE À ESPREITA!
A manga exerce um autêntico fascínio
nos cães e eles sempre esperam que ela surja nalgum momento do treino,
mantendo-se alerta e aguardando pela sua apresentação. Os mais jovens deliram
com os ataques simulados e robustecem desse modo o apego binomial, sedentos de
mostrar serviço e ávidos pela captura. Sem qualquer preparação, cada foto é de
rara beleza e o mito sempre renasce quando o binómio vai adiante.
Nada é mais fácil e ao mesmo tempo tão
difícil com ensinar a disciplina de guarda, porque os cães nasceram para vencer
e necessitam de ser refreados, são predadores e não podem agir por modo
próprio, necessitam de conhecer os seus inimigos para não serem surpreendidos,
de identificar os que carecem da sua protecção e tolerar todos aqueles que não
se constituem em ameça para si, para o seu dono e património comum. Qualquer
anjo da guarda transforma-se no pior dos demónios quando deixa de obedecer ao
seu líder e age para além da sua ordem. O suporte da guarda é a obediência e os
ataques cirúrgicos resultam dela, assim como a sua cessação e oportunidade. O
bom cão de guarda, apesar de provocado, fixa primeiro os olhos no dono e só
depois no alvo que lhe for indicado. Assim foi e assim deverá continuar, em
prol do cão, do dono e de todos aqueles que com ele se cruzam.
CÃO ENCONTRADO, DONO TRAMADO
Se Fausto Cardoso de Figueiredo cá
voltasse, o homem que ousou construir a Biarritz portuguesa e que deu vida à
Costa do Sol, certamente morreria fulminado de vergonha ao ver naquilo em que
Cascais se transformou. Nada temos contra os ciganos, muito embora o estudo da
língua romani nunca tenha estado na lista das nossas prioridades e ao que
parece, nem sequer na dos ciganos peninsulares, mas vamos aos factos. Certa
senhora deu por falta do seu cão e prometeu recompensar quem o encontrasse.
Pouco tempo depois recebe um telefonema a dizer que o seu fiel foi encontrado.
De imediato desloca-se ao local da pessoa que o encontrou e depara-se com o cão
drogado. Apesar de estranhar o comportamento do animal, puxa pela carteira e
entrega 20€ ao homem. Num ápice, vê-se rodeada de ciganos que a tentam
assaltar. Por sorte consegue fugir e dirige-se à polícia, onde lhe dizem, para
espanto seu, que o estratagema é bastante usual e comumente empreendido por
ciganos. Cuidado com os “descobridores” de cães, à cautela, não vá ao seu encontro
sozinho e vá preparado para o pior, pois não sabe aquilo que o espera. O aviso
está dado!
PS: Sempre houve ciganos exemplares e
não se pode incriminar toda uma etnia pelos actos de alguns indivíduos, porque
nem todos são negociantes desonestos, ladrões, falsos adivinhos, traficantes de
droga e de armas, burlões, falsários ou fascinados pela contrafacção. Há que
separar o trigo do joio.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
NINHO OU RONDA: SALVAGUARDAR O CÃO PARA GARANTIR O SERVIÇO
Todo e qualquer serviço a atribuir a
um cão deverá considerar, em primeiro lugar, a salvaguarda do animal e só depois
a sua utilização. E quando se trata de cães de guarda, será o respeito por esta
regra que determinará todo o condicionamento a haver, porque doutro modo, já se
sabe quem poderá morrer no cumprimento do dever. Os entusiastas dos cães de
guarda, dominados pelo dano que os seus cães possam causar, facilmente se
esquecem disso por força do show off
em que andam embrenhados, como se a eliminação dos cães não fosse possível, não
acontecesse todos os dias, um pouco por toda a parte e agora com maior
frequência. E se os cães destes brincalhões continuam vivos, tal não se deve ao
esmero do seu trabalho ou à excelência do seu desempenho, mas simplesmente ao
facto de não serem utilizados e à pouca cobiça que a riqueza dos seus donos
desperta. Pelo sim pelo não, a haver Deus no Céu, vida para além da morte e eu
lá chegar, já tenho preparado um caderninho de dúvidas para Lhe apresentar.
Entre elas há uma que não me deixa descansar: porque será que aqueles que menos
têm para guardar, são os que mais procuram cães de guarda? Se aceitamos sem
nenhuma dificuldade o poder dissuasor canino, também sabemos da
inoperacionalidade de um cão em matéria de segurança, quando isolado e entregue
a si próprio. Penso que ninguém tem dúvidas: é mais fácil dar caça a um cão do
que caçar um tigre. Não obstante, o famigerado felino encontra-se em vias de
extinção!
Ainda que nos pareça estranho e coisa
de tempos idos, tanto nos Montes Cárpatos como na Cordilheira do Cáucaso, ainda
hoje se caçam e domam ursos. Há meia dúzia de anos atrás conhecemos um emigrante
ucraniano, calmo, afável, bem disposto e de sorriso angelical, camionista entre
nós, que combateu no Afeganistão aquando da Invasão Soviética em 1979. O homem
havia pertencido a um corpo especial de tropas e em determinada altura abraçou
também como especialidade a cinotecnia militar. Quando o inquirimos sobre a
opção que tomou, respondeu-nos: “eu desde criança que ia caçar ursos com o meu
avô e nem sempre tínhamos espingarda, adestrar cães foi muito mais fácil,
sempre vivi rodeado deles e até tivémos um que, quando o soltávamos, nunca
regressava a casa sem ter morto algo!” E como a conversa lhe ia a gosto, lá foi
explicando como era importante conhecer os hábitos dos ursos, saber quais as
cavernas para onde iam hibernar e esperar pela hibernação. Hoje o “Alex”
diverte-se a ver os cães alheios que lhe passam pela frente e depois de algumas
cervejas para vencer a timidez, não se escusa a dar conselhos aos proprietários
caninos que com ele se cruzam. Fala bem português e por consenso é um excelente
rapaz. Também somos dessa opinião.
Não queremos com este relato exaltar
sentimentos xenófobos ou alimentar polémicas relativas à emigração ou imigração,
mas servir-nos das lições práticas que ele carrega, algo para além do “moral da
história”, porque isso lança-nos para o tema de hoje. Há duas coisas que são
fatais para o cão guardião: o estudo dos seus hábitos e o conhecimento das suas
acções (hábito e operação). E quando de trata de instalar um cão de guarda numa
casa, moradia ou quintal, considerando a sobrevivência do animal e a garantia
do serviço, importa decidir o que melhor serve esses propósitos, se instalar um
percurso rondante ou optar por um “ninho de vigilância”. Para encontrar o cão
certo, somos obrigados a considerar o ecossistema da propriedade, a policromia
das cores do local, o nº de metros quadrados a bater, os horários de
vigilância, o tipo ou tipos de piso que apresenta e a natureza das suas
delimitações, para que haja um casamento perfeito entre as características do
animal e o local onde irá ser instalado. Mas tudo isto poderá ser
desconsiderado se os hábitos e acções do cão forem por demais visíveis do
exterior, já que são considerações relativas ao exercício de rondar, que se
deseja silencioso e operado debaixo de surpresa. Nos casos em que o animal se
apresenta por demais exposto e sujeito a observação detalhada, “o ninho de
observação” apresenta-se como a melhor opção, o mesmo sucedendo quando a
propriedade tem um perímetro diminuto ou uma área descoberta de pouco significado.
O “ninho
de observação”, que pode constituir-se em canil, desde que dissimulado na
arquitectura da propriedade, camuflado nos seus acidentes naturais ou
incrustado na sua decoração, é um local de vigia privilegiado para o cão, onde
se transforma em sentinela e vive em constante observação, sem ser observado e
pronto a escorraçar qualquer tentativa de intrusão. Na escolha do local, para
além da ocultação do animal, há que considerar o seu bem-estar e saúde, para
que seja da sua preferência e ali se sinta comodamente instalado, fiado na
rectaguarda e com os olhos postos no exterior. Donos mais desafogados do ponto
de vista económico, por natureza engenhosos e ligados ao pormenor, mediante a
construção de um pequeno túnel de ligação, que não pode ser muito comprido
devido à urgência do socorro, juntam o útil ao agradável e conseguem garantir a
segurança, em simultâneo, tanto o interior quanto o exterior da casa, ligando
assim o “ninho” a uma ou mais salas da sua habitação. Deseja-se que a porta de
entrada do cão se encontre embutida num armário de parede e que se abra
inesperadamente perante a aproximação do animal, que despoleta para acção
mediante dispositivo electrónico amovível e não audível, tal qual um comando de
portão, garagem ou televisão. Esta é uma acção extremamente eficaz, fácil de
treinar e de resultados comprovados, porque resulta de uma manobra de surpresa
e o cão parte em vantagem, graças ao treino realizado e às capturas alcançadas,
factores que o robustecerão e o farão partir na certeza da vitória. Com o
“ninho embutido”, o cão passa a surpreender ao invés de ser surpreendido e só
deste modo poderá fazer lograr os planos dum inteligente num combate que
normalmente lhe é desfavorável. O treino desta manobra deverá acontecer na
ausência dos criados, longe das crianças e segundo um cronograma previamente
estabelecido. O comando de abertura deverá ter um duplicado por causa do seu
possível extravio e ser colocado num local anteriormente determinado. O
dispositivo que abre a porta do cão não deverá depender da corrente eléctrica
da casa, porque quando falta a luz, muita coisa pode acontecer e os ladrões
agradam-se disso.
CRUZAR, ESCOLTA E ELIMINAÇÃO DO CÃO
Talvez os
nossos leitores não se lembrem disso, muito embora não seja difícil de
imaginar, mas é no mundo do espectáculo que o verbo falsear atinge a sua máxima
expressão, porque a representação assim o exige e os dramas são fictícios. Por
causa disso e pelo particular dos meios técnicos, ao se apontar uma faca à
garganta duma personagem, é necessário inclinar esse objecto de forma a
torná-lo visível pelas câmaras, porque se o fizermos com toda a realidade, a
faca surge como um pequeno risco, não gera suspense e lá vai a cena para o
beleléu. Mas o pior que pode suceder a um actor, é perder a sua própria
identidade e substituí-la por uma ou duas personagens que representou. A ficção
tem destas coisas e a mísera realidade sempre acabará por lhe bater à porta. No
mundo do adestramento, também ele dominado pelo show, as coisas não são muito
diferentes, porque se privilegia o espectáculo em detrimento da realidade. Há
por aí quem treine as figuras de “revista” e “escolta” com o cão no meio das
pernas do infractor ou agressor, uma pobre cobaia que ricamente interpreta o seu
papel, tal qual “palhaço pobre” a apanhar sopapos. Na realidade, as coisas
passar-se-iam de outra forma, o cão acabaria eliminado e o seu dono
provavelmente em fuga. Por um lado, ainda bem que assim é, porque não há lugar
a vítimas e tudo acaba bem. No nosso ver, e por vezes já sentimos que a vista
nos falta, o cão deverá funcionar como escudo e primeira barreira, estar entre
nós e o agressor, independentemente deste se deslocar ao nosso lado ou à nossa
frente. Não estará na altura de alterar o guião? A bilheteira está farta de
dizer que sim!
quinta-feira, 14 de junho de 2012
OS CÃES DA JUVENTUDE
Temos
vindo a reparar que os homens escolhem diferentes raças caninas de acordo com a
franja etária que atravessam e segundo a maturidade que cada idade oferece,
espelhando assim a sapiência ou a irreverência típica de cada estágio
evolutivo. È evidente que há gente que não melhora, que não aprende com os seus
erros, que mal interpreta a experiência e desconsidera as suas lições,
tropeçando invariavelmente nas mesmas armadilhas que a si mesma se sujeita. Assim
como há uma idade própria para se ter um cão agressivo ou proscrito, também
haverá outra que se harmonizará com um cão dócil e socialmente bem aceite,
muitas vezes marca de status e sinal de bem-estar. Os jovens, movidos
saudavelmente pela contestação e irreverência, porque o mundo precisa de
avançar, sempre acabam por escolher cães de idêntica condição na procura do seu
lugar ao sol, munindo-se inúmeras vezes de animais tenebrosos para esconder os
seus receios e alcançar os seus anseios. Quando se é jovem tem-se um fila, um
malinois, um rottweiler ou um grande mastim, e daí não virá grande mal ao mundo
porque tal é reflexo do nosso aprendizado. Do mesmo modo, outros menos chegados
aos cães e embevecidos pela política, começaram por distribuir panfletos marxistas-leninistas
e acabaram como líderes destacados de partidos conservadores nas voltas que o
mundo dá. Estamos aqui para valer aos jovens, pois serão eles que nos irão
render. Como não queremos que partam atrasados, instamos para que nos oiçam e
vão mais além, evitando-lhes os nossos erros e robustecendo-os com a nossa
experiência.
O CHECO ENCOBERTO E A POLÍTICA DO NÓ CEGO
Entre os
canicultores subsiste uma fauna rara que nem por isso tende à extinção, um número
reduzidíssimo de cavalheiros que ficará para a história pelas piores razões e
que irá prejudicar em simultâneo pessoas e cães, graças à sua cegueira e pouco
escrúpulo na selecção dos animais tidos como de trabalho, que à imitação
doutros lá fora, faz da hibridação esporádica prática corrente, mais de acordo
com as suas convicções do que no benefício das raças lesadas. Como se já não
bastasse o insucesso do Lobo-Checo enquanto cão de utilidade, a quem é
reconhecido um fraco impulso ao conhecimento e uma tremenda carga instintiva,
ainda há quem se sirva dele para alcançar maior porte e rusticidade dentro dos
pastores alemães, características atávicas que obstam ao melhor rendimento dos
cães. Se os híbridos de primeira geração nascerem preto-afogueados, só uma observação
mais detalhada e demorada conseguirá detectá-los, já no caso dos lobeiros tudo
se torna mais fácil, porque desprezam a variedade dominante que lhes é comum e
regressam à proto-dominância do lobo cinzento, adquirindo traços fisionómicos,
nuances, comportamentos e posturas próximas desse parente silvestre. O cunho
pessoal de uns que leva à bastardia de outros é um autêntico “nó cego” contra
os apaixonados e defensores da pureza no Pastor Alemão, uma traição encoberta
que só o ADN porá a descoberto. Até lá há que estar atento e denunciar quem
conspurca e adultera o cão da nossa predilecção.
O RAPAZ DAS BOAS INTENÇÕES
Conhecemos
um rapazola cheio de boas intenções que circula por todo o lado com o seu
cachorro pittbull à solta, adiantando que assim procede para alcançar a
sociabilização do animal. Até agora nada de extraordinário aconteceu, apesar do
rapaz “ingenuamente” suspender o cão em vários potenciadores de mordedura por
mais ou menos tempo. O cachorro já alcançou a maturidade sexual e ao que parece
começou a detestar uma raça em particular. Quando brinca com os outros cães
sempre lhes rouba os objectos e não raramente usa o rosnar gutural para
alcançar os seus intentos. A somar a isto, o cão nunca anda à trela e
tendencialmente ensurdece-se perante as ordens que lhe são dadas, obedecendo
somente pelo recurso à coerção. Diante destes factos não se adivinha um futuro
feliz para o cachorro e muito menos para aqueles que com ele se irão cruzar,
sendo caso para se dizer: “ de boas intenções está o inferno cheio!”
MACHO ALFA, DESGRAÇA MINHA
Nem todas
as raças caninas se podem educar com papas e bolos, ainda que nelas subsistam
indivíduos mais fáceis de ensinar e próprios para a cumplicidade. Apesar dos
criadores das raças mais duras alertarem para a necessidade de uma liderança
forte, muita gente sem essa qualidade teima em adquirir cães de forte impulso
ao poder que tendencialmente incorrem na desobediência e rebeldia, causando aos
seus proprietários amargos de boca “inesperados” por falta da imposição que
estabelece a regra. As mesmas agruras passarão aqueles que irão adquirir cães
muito-dominantes, mesmo que oriundos de raças que à partida são de natureza
mais submissa. Como estes desaguisados engrossam as fileiras escolares e nem
todos os binómios alcançam a sua constituição efectiva, convém que cada um
escolha o cão adequado para si e não aquele da raça que gostaria de ter. Daqui
lançamos um pedido aos canicultores, que vendam cachorros de acordo com o
perfil psicológico de quem os quer adquirir, porque se a coisa der prò torto é
o cão que irá pagar! Se você pretende adquirir um cachorro, não sabe como o
escolher e não quer receber kit de problemas, contacte-nos, pois estamos cá para
o ajudar e nada lhe cobraremos.
terça-feira, 22 de maio de 2012
ECOS DA CRISE, PATRANHAS ANTIGAS
Sucedânea
à criação de “pintos do dia” que tantos aviários gerou, no hábito enraizado da
economia paralela que o interior trouxe para a cidade, a criação de cães
aconteceu um pouco por toda a parte, substituindo nos quintais as tradicionais
hortas, capoeiras, coelheiras, currais, charcos e pombais. Num ápice e de modo
inesperado, fruto do tempo e por auspício do consumo exagerado, o número de
canicultores cresceu assustadoramente. Hoje decresce vertiginosamente e há quem
tudo faça para se ver livre dos cães na celebérrima política do “passar da
batata quente”, ressuscitando desse modo velhas patranhas que de novas só têm
os seus intervenientes, já que a canicultura não é auto-suficiente e sempre
dependerá doutra actividade para o seu sustento. Recentemente ouvimos uma
patranha digna de destaque que queremos dividir com os nossos leitores. Fulano
tal, que diz de si mesmo ser um adestrador reputado e com promissores contactos
internacionais, na ânsia de angariar um seguidor, mão-de-obra barata e de se ver
livre de um cão, solta para o incauto: “ Este cão está vendido para uma polícia
estrangeira por 3.400€, mas como eu gosto de ti e tenho prazer em ensinar-te,
vendo-te somente por 340!” Em tempos idos conhecemos um sujeito que esteve
prestes a vender o Convento de Mafra, apesar de não ser seu, ser de custo incalculável,
de manutenção astronómica e ter 365 portas e janelas. É preciso descaramento,
mas há sempre alguém que embarca!
A PARAGEM DO TEMPO ÀS 10 PARA AS DUAS
Há quem
diga e nisto parece ter alguma razão, que os cães de trabalho são normalmente
feios e mal-amanhados, toscos de morfologia e de qualidade duvidosa, isto se
considerarmos que nas classes ditas laborais, pelo menos na nossa latitude,
superabundam cães com essas características. Ninguém duvida que existem por cá
excelentes exemplares de trabalho, que juntam à aptidão uma morfologia
invejável, contudo são muito poucos. Paralelamente, os canicultores de cães de
utilidade parecem não se preocupar com isso, produzindo animais com uma
biomecânica desprezível onde sobressaiem desaprumos de toda a ordem que irão
gerar animais côncavos e por isso mesmo impróprios. Dá ideia que o relógio
parou em Portugal às dez para as duas para os criadores de cães de trabalho, considerando
o número de exemplares que apresenta o peito estreito ou invertido, abatimento
de metacarpos e mãos divergentes, incapacidades responsáveis pelo selar do
dorso, pelo desprendimento de bolsas de líquido sinovial e pelo aparecimento de
higromas, dando a idéia que o cão de trabalho já nasce estoirado pelo serviço. Sabe-se que na maioria dos casos o problema não é genético e resulta
da falta de acompanhamento dos cachorros, verdadeiros sobreviventes sujeitos à
subnutrição e isentos do parecer médico-veterinário. Está mais do que na hora de dar corda ao relógio e apostar na criação de exemplares capazes, capazes de nos
surpreender e capazes para o serviço que deles esperamos.
QUE GRANDE CÃO EU LHE VENDI!
Muita
gente já fechou as portas e entre ela grande número de sensatos, um sem número
de oportunistas e outro tanto de gente imprópria, graças à actual crise
económica que inevitavelmente acabou por atingir a canicultura e os seus
apaixonados, também ela vítima e reflexo do outrora crédito fácil que teve como
consequências o aumento da procura e a supervalorização dos cães, como se o
dinheiro não tivesse fim e nunca nos viessem a pedir contas. Nunca foi tão
fácil comprar um cão, considerando que algumas raças são agora vendidas a 1/6
do preço encontrado nos finais da década de 90, altura áurea para a importação
e ocasião para grandes negociatas. Como a crise não é só falada em português e
ultrapassa largamente as nossas fronteiras, também porque alguns países de
leste fazem hoje parte da Comunidade Europeia, exportando para aqui cães a
baixo preço e nem sempre de boa qualidade, por toda a Europa o preço dos cães
baixou drasticamente e encontra-se tabelado quase ao preço dos gastos. Salvo
honrosas excepções, que são motivo de inspiração, a maioria das ninhadas
nacionais acaba também por pagar com a barriga o preço da crise, havendo por aí
muitas subnutridas e até famélicas, lembrando ratos carecas em ecossistema de
parco alimento. Por força da austeridade, ao contrário do que antes sucedia,
irá caber aos futuros proprietários a recuperação desses cachorros, façanha
alheia aos seus criadores que aproveitarão esse investimento para justificarem
a qualidade do seu produto, soltanto frases do género: “ Está ver… que grande
cão eu lhe vendi!”
QUARTO DE VOLTA: O REGRESSO DO SOLDADINHO DE CHUMBO
Lá, por onde andaram franceses e
ingleses pelo domínio da Europa no Séc.XIX, numa localidade onde os seus
moradores insistem em trocar a acentuação tónica do seu nome, num sítio remoto,
nada convidativo e mal apetrechado, assistimos ao regresso do soldadinho de
chumbo, quiçá tornado efeméride por força do seu passado histórico. Estamos a
referir-nos ao uso e abuso do “quarto de volta” na disciplina de obediência
canina, como se tal fosse premente, insubstituível ou carregasse vantagens
nunca vistas. O movimento, tornado ali em “ordem unida”, lembra as
intermináveis filas para o recebimento do “pré”, muito embora a continência
acabe substituída pelo ajustar do cão com a mão.
Ainda que o movimento requerido tenha
como objectivo a fixação do “alto, do “junto” ou a fixação exclusiva do cão na
pessoa do seu condutor, já há muito que se descobriram modos mais eficazes e
céleres para esses propósitos, tais como o recurso ao reforço positivo e a
instalação do “meia-volta”, muitas vezes codificado como “volta” ou “roda” de
acordo com o comando alemão “zurück”. O “quarto de volta”, quando
usado sistematicamente, tende ao aumento do travamento e a contribuir para uma
autonomia condicionada pouco visível e nalguns casos piegas, ficando isso a
dever-se aos diferentes perfis psicológicos presentes nos cães. A somar a isto,
porque o ensino canino é dinâmico, exige celeridade no cumprimento das ordens,
procura a minimização do esforço humano e a maximização do esforço animal, não
dispensando por isso a velocidade funcional inerente aos diferentes serviços a
prestar pelos cães, o “quarto de volta” acaba por atentar contra tudo isto, o
que de todo não é desejável.
É evidente que cada qual dentro da sua
casa é rei e isso deve ser respeitado, no entanto e porque começámos por uma
evocação histórica, interessa-nos manter o mote e usá-lo para uma melhor
compreensão da problemática ligada à insistência no “quarto de volta”, evolução
típica dos imóveis soldadinhos de chumbo que a foram beber aos exércitos
regulares no apogeu da Revolução Francesa. Por culpa dos espanhóis que
inventaram a guerrilha (do castelhano guerrilla: pequena guerra), o modo de
guerrear alterou-se e a partir daí a derrota dos Franceses consumou-se na
Península Ibérica. Exceptuando a praxis de alguns membros da histórica e
extinta escola alsaciana, não sabemos se alguma vez o “quarto de volta” fez
parte do currículo base da obediência a ministrar a um cão, mas se isso
aconteceu algum dia, foi lá para os primórdios dos cães de utilidade e muito
antes da II Guerra Mundial, porque a partir daí tal nunca foi visto, já que as
inversões do sentido de marcha sempre aconteceram de modo mais pronto pela
“meia-volta” e resolvidos os “quartos” pelo auxílio do “junto”, nomeadamente nas
evoluções de “direita e esquerda volver”, comandos militares e por isso
mesmo distantes das práticas civis.
Assim
como o “troca” (tauschen) exige nos ensinos dinâmico e nuclear modos mais
céleres que não dispensam a rotação de tronco que possibilita a condução a duas
mãos direccionais, também o “quarto-de-volta” deverá ceder lugar a outras
formas de “junto” que garantam o mesmo propósito (o “junto instantâneo” por
pirueta ou o confirmado a partir do ladear). Assim como a prontidão dos ataques
deve ser igual à sua cessação, também qualquer imobilização deverá garantir a
partida automática para a acção. O uso abusivo das figuras de imobilização,
muitas vezes usurpando o lugar da ginástica nos 1º e 2º Ciclos Infantis (dos 4
aos 6 meses e dos 6 aos 8 meses), tem funcionado como um inibidor da velocidade
e castrado muitos cães para um conjunto de acções necessárias às restantes
disciplinas cinotécnias, inutilizando assim a sua vocação, propensão natural,
mais-valia e complementaridade. Por outro lado, o abuso da toada “alto e pára”
que o “quarto-de-volta" propicia acabará por enfraquecer os impulsos herdados
que garantem a defesa do dono e dos seus bens, particularmente na sua ausência,
graças à exagerada submissão operada que obstará a qualquer autonomia pretendida.
E como importa dar a cada um o que é seu e a César o que é de Cesar, os adeptos
do “quarto-de-volta” deveriam uniformizar os seus alunos com fardas de cotim ao
invés dos comuns fatos de treino.
terça-feira, 1 de maio de 2012
GINÁSTICA CINOTÉCNICA: A FORMAÇÃO DO CÃO-GATO
Desde cedo se percebeu, quando se
pretendeu usar o cão como guerreiro nos tempos modernos e treiná-lo como
militar, da necessidade de um adestramento específico visando a supressão de
algumas dificuldades e a potenciação das suas capacidades ou complementaridades,
da emergência de pistas tácticas com obstáculos próprios e capazes para o
simulacro do teatro operacional, nascendo assim, um pouco por toda a parte, o
conceito e elaboração da pista táctica (nalguns casos tratada como pista de
fogo), requisito que viria a revelar-se fundamental para o treino do cão de
guerra. O modo diverso de fazer a guerra e a perca galopante de atribuições
militares por parte dos cães, levaram ao desuso e desaparecimento das outrora
famosas pistas tácticas, que subsistiriam ainda até aos alvores do cão-polícia,
transição natural que tanto creditou algumas raças e uma ou duas em particular.
E como não estamos aqui a tratar do
fenómeno de Tunguska e tudo tem o seu início, todas as pistas que hoje vemos
tiveram a sua origem comum nas pistas militares, a menos que consideremos a
actividade circense como madre de algumas modalidades ou disciplinas caninas, o
que nos parece pouco provável. Apesar da novidade de propósitos ter levado a
diferentes filosofias e outros tantos objectivos, o hábito sistemático de treinar cães é um legado militar sobre os cães ditos de utilidade ou de
trabalho, mesmo que eles se tenham vindo a transformar em simples guardiões, caçadores
ou companheiros, porque ainda definimos o treino como rigor, apostamos na
constância das acções, buscamos o condicionamento, procuramos a uniformidade, o apego aos procedimentos e temos como base de todo e qualquer adestramento a
disciplina de obediência, ainda que os meios para o seu alcance tenham mudado,
diga-se que felizmente, em abono dos cães, na defesa da sua integridade e
individualidade, defesa operada pelo reforço positivo e pelo uso requerente à
memória afectiva presente nestes animais.
A passarelle já existia e dela se
fazia uso antes de um “sonhador” ter inventado o agility pela observação das
provas equestres, o mesmo aconteceu com os esconderijos hoje usados para o
treino do cão de guarda e os retrievers são anteriores aos novos métodos de
ensino. Valerão as pistas tácticas somente como referência para os actuais cães
paisanos ou serão também importantes para a sua formação e capacitação? Estamos
em crer que elas não perderam a sua actualidade e que muito podem subsidiar os
actuais cães de trabalho, considerando o alcance dos seus indices atléticos,
superior capacitação, bem-estar e longevidade, enquanto preparação específica
para o trabalhado vindouro, alvos muitas vezes aquém das pistas em voga e que
se transformaram no melhor dos marketings para quem tem rações ou acessórios para
vender, porque não promovem o conhecimento biomecânico, o seu aproveitamento e
potenciação, subsidiando ao invés o show e gozo efémero dos donos.
Para além destes aspectos, as pistas
tácticas foram e devem ser concebidas para dar combate e levar de vencida os
medos mais comuns presentes nos cães, geralmente transformados em traumas que
inibem de sobremaneira a prestação canina e a sua saúde como um todo. Como a
lista desses medos é interminável adiantaremos apenas alguns: acrofobia,
acustofobia, batofobia, cainofobia, cimofobia, claustrofobia, cleitrofobia,
escotofobia, ligirofobia e mictofobia, o rol é deveras extenso! As mais-valias
das pistas tácticas não se esgotam nos benefícios psicológicos e na melhoria
dos índices atléticos, no aumento da prontidão e na preparação específica dos
cães, estendendo-se também à correcção morfológica e à melhoria dos aprumos, isto
se convidarmos os cachorros para a sua prática aquando da face plástica que os
ciclos infantis oferecem.
Os inimigos das pistas tácticas e que
delas dizem horrores são na sua maioria gente que na década de 80 ainda não
tinha atingido a maioridade e que assustada com os relatos que foi ouvindo, não
raramente exagerados, as tem conotado como hediondas e desprezíveis quando
comparadas com as actuais, de índole desportiva, de técnica rudimentar e de fácil
resolução, o que compromete de sobremaneira o seu parecer, por não ser
tangencial e não resultar da experiência objectiva que induz à comprovação.
Assim também nasceu a história do lobo mau e o mito da avestruz com a cabeça
debaixo da terra! Há quem também diga que a pista táctica é uma fomentadora de
lesões e que por causa disso entrou em desuso, o que é falso, uma vez que o seu
objectivo aponta claramente na direcção contrária e tem como prioridade a
salvaguarda da integridade global dos cães, preparando-os para os perigos e desafios
que encontrarão no seu quotidiano, valendo-se para isso de obstáculos idênticos
àqueles com que irão ser confrontados.
O adestramento perderia o seu
significado se em cada cão houvesse um gato, pelo menos na sua vertente atlética,
porque o felino dispensa nesta matéria de qualquer tipo de aprendizado mercê
das suas características inatas. Ao invés, o cão necessita de aprender a saltar
correctamente, a distribuir prontamente o seu peso corporal pelos dois pares de
membros nas recepções ao solo, o que lhe permitirá impactos menos violentos e
garantirá a progressão por mais tempo e sem delongas. Ele irá necessitar de
aprender a escalar, quer para prestar socorro quer para se libertar ou salvar,
terá que aprender a nadar com os dois pares de membros abaixo da linha de água,
caso contrário entrará em colapso e virá a morrer afogado. Terá que aprender a
escapar-se do fogo e a evoluir em diferentes superfícies, pisos e acidentes
(naturais ou artificiais), e ser condicionado na resolução de todo e qualquer
obstáculo que encontrará pela frente.
Também terá de acostumar-se à vida
urbana, à novidade de materiais e a evitar os danos que estes lhe possam
causar, a vários tipos de transporte e a toda a casta de gente na progressão alinhada
que lhe será exigida. Ser experimentado e aprovado nas situações em que importa
socorrer-se e socorrer o seu dono, necessitando para isso de usar toda a
ferramenta morfológica ao seu dispor, meta que a pista táctica não dispensa e
que abraça como objectivo, resultando daí a sua actualidade e utilidade.
Cortar, escalar, escavar, nadar, rasgar, rastejar, saltar, subir escadas,
transportar e aprender a ocultar-se, são algumas das acções que a pista táctica
lhe oferecerá e que irão capacitá-lo para a sua sobrevivência e mais-valia. A
somar a isto, pelo peso do trabalho binomial que não dispensa a cumplicidade, a
sua condução em liberdade e autonomia acontecerão mais cedo e tornar-se-ão mais
eficazes.
A natureza dos obstáculos propostos pelas
pistas tácticas, para além de fomentar a escolha correcta dos andamentos
naturais presentes nos cães pràs tarefas, tende e normalmente consegue, dotar
determinadas raças de características funcionais que a sua selecção desprezou
ou omitiu, algo a que a diferenciação estética não é alheia e que tem sido
responsável por várias afecções e não raras aberrações. Os milagres operados
pelas pistas tácticas ficam a dever-se à diversidade dos seus obstáculos e propósitos,
ao respeito salutar pelos mais elementares princípios pedagógicos de ensino e à
qualidade dos mestres de campo, gente experimentada na arte de ensinar cães e
que disso faz uma verdadeira paixão, indivíduos que vieram para servir e que
nisso se sentem bem, ainda que por vezes não sejam compreendidos, porque não
esperam retribuição e sempre procuram o aprimoramento.
Uma pista táctica digna desse nome
deve estar equipada com obstáculos típicos para os cachorros, ter um perímetro
exterior de aquecimento, um conjunto de aparelhos para a correcção morfológica,
obstáculos de diferente índole e outros específicos para o desenvolvimento
interdisciplinar, ser um simulacro das acções reais que o cão terá pela frente
e que exigem a sua pronta resolução. Pensar e agir ao contrário, é desejar que
o cataclismo surja para que o treino aconteça. Situações destas fazem lembrar
aquele crente pouco crédulo que só se lembrava de Santa Bárbara quando a
borrasca estoirava.
Apesar das múltiplas vantagens que as
pistas tácticas oferecem, o seu número é diminuto quando comparado com as de
competição, facto que se fica a dever ao seu custo, à escassez de técnicos
capazes e à ignorância de grande parte dos proprietários caninos, mais
interessados naquilo que os cães têm para lhes dar do que em dar-lhes subsídios
de longevidade.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


.jpg)





















