terça-feira, 24 de julho de 2012

NADAR CONTRA O STRESSE


O Jorge Martins faz parte dum pequeno grupo de cidadãos que vai de férias com o seu cão, neste caso com uma cadela: a Brownie. Quando importa aliviar o stresse, o binómio ruma ao Portugal profundo e segue o curso dos rios, parte à descoberta e encontra ocasião para nadar contra o stresse. Desta vez exploraram os rios Vouga e Paiva, nadaram juntos e aproveitaram para tirar algumas fotos. A Brownie, ao contrário de tantos cães, não sofre com a chegada da época estival, porque sabe que, na hora de fazer as malas, a sua mochila segue junto com a bagagem da família. Dá que pensar! Já pensou em ir de férias com o seu cão? O que será melhor: levá-lo consigo ou obrigá-lo a aceitar uma nova liderança e forçá-lo a um novo território? Parabéns Jorge!

O MENSAGEIRO NÃO SE ABATE


Existe um homem que sempre passa à mesma hora, chega sorrateiro à porta dos donos, toca num dos limites da propriedade e depressa desaparece. Nalguns casos vem de mota ou bicicleta, o que desagrada aos cães e denuncia a sua chegada. Esse sujeito é o carteiro e não raramente vira cobaia dos cães domésticos que erroneamente o identificam como intruso. O caso agrava-se quando o indivíduo tem medo ou pavor de cães, porque a adrenalina que liberta transforma-o automaticamente em presa, apesar de todos sabermos que não se abatem os mensageiros. A aversão à bicicleta do carteiro pode estender-se a todos os ciclistas, o que não é desejável e constitui um sério problema, especialmente quando os cães saem à rua e se deparam com esse meio de transporte, tão comum entre nós pelo proveito do exercício físico. Quando isto acontece, os donos vão de charola, aos trancos e barrancos e os cães tornam-se de difícil controle, acabando confinados em casa por tempo indeterminado, o que os tornará ainda mais anti-sociais. O ódio ao carteiro, por ausência de sociabilização, pode estender-se também aos cães da vizinhança que circulam junto à habitação de alguns guardiões, porque provocam e invariavelmente marcam território. Neste último caso, a sociabilização inter pares é a solução mais acertada, o que não deixa dúvidas a ninguém.
Para solucionar o problema relativo aos ciclistas, teremos de nos valer, em primeiro lugar, de um condutor canino mais experiente que instalará a inibição desejada, já que dificilmente o dono se fará respeitar. Em simultâneo, convidaremos um ciciclista para circular no sentido contrário ao do cão para garantir o cruzamento frontal entre ambos. O comando inibitório, para ser eficaz, deverá acontecer dois ou três metros antes do cruzamento acontecer. Depois do cão se encontrar familiarizado com a bicicleta, pediremos ao ciclista que o provoque. Caso se manifeste o desinteresse do cão, facto visível pela ausência de fixação do animal, é chegada a altura de transferirmos o comando para o dono. Convém que o percurso a estabelecer seja circular e de pequeno diâmetro para garantir o maior número de cruzamentos possível e melhor operar a fixação da inibição. Dependendo do histórico do cão, grau de instrução e perfil psicológico, poderemos e nalguns casos deveremos, promover imediatamente a amizade entre o ciclista e o animal, porque o melhor remédio para a cessação das hostilidades vem daí.
Como atrás disse, o dono só deverá pegar no cão depois do acerto inquestionável do cão, quando a inibição estiver instalada, for plenamente alcançada e os riscos de confrontação forem completamente nulos. Por norma, os cães que incorrem neste problema são animais que nunca tiverem qualquer tipo de ensino ou que foram vítimas de algum mal dirigido, apressado ou inadequado. O dono irá repetir todos os exercícios e situações anteriormente vencidas pelo cão. Se tudo correr segundo o esperado, então aconselharemos o dono à inscrição escolar e à recapitulação doméstica, se isso não se verificar retomaremos à primeira fase, valendo-nos, mais uma vez, do auxílio de um monitor ou de um condutor mais experiente. A celeridade do processo pedagógico irá depender da assiduidade, qualidade, atenção e rigor dos intervenientes humanos, assim como da duração do problema na vida do cão. De qualquer modo, a gravidade do sucedido sempre apontará para a ausência de uma liderança eficaz, normalmente associada a um exagerado proteccionismo e adornada por princípios antropomórficos advindos de sentimentos exacerbados ou descabidos.          

SEMPRE À ESPREITA!


A manga exerce um autêntico fascínio nos cães e eles sempre esperam que ela surja nalgum momento do treino, mantendo-se alerta e aguardando pela sua apresentação. Os mais jovens deliram com os ataques simulados e robustecem desse modo o apego binomial, sedentos de mostrar serviço e ávidos pela captura. Sem qualquer preparação, cada foto é de rara beleza e o mito sempre renasce quando o binómio vai adiante.
Nada é mais fácil e ao mesmo tempo tão difícil com ensinar a disciplina de guarda, porque os cães nasceram para vencer e necessitam de ser refreados, são predadores e não podem agir por modo próprio, necessitam de conhecer os seus inimigos para não serem surpreendidos, de identificar os que carecem da sua protecção e tolerar todos aqueles que não se constituem em ameça para si, para o seu dono e património comum. Qualquer anjo da guarda transforma-se no pior dos demónios quando deixa de obedecer ao seu líder e age para além da sua ordem. O suporte da guarda é a obediência e os ataques cirúrgicos resultam dela, assim como a sua cessação e oportunidade. O bom cão de guarda, apesar de provocado, fixa primeiro os olhos no dono e só depois no alvo que lhe for indicado. Assim foi e assim deverá continuar, em prol do cão, do dono e de todos aqueles que com ele se cruzam.

CÃO ENCONTRADO, DONO TRAMADO


Se Fausto Cardoso de Figueiredo cá voltasse, o homem que ousou construir a Biarritz portuguesa e que deu vida à Costa do Sol, certamente morreria fulminado de vergonha ao ver naquilo em que Cascais se transformou. Nada temos contra os ciganos, muito embora o estudo da língua romani nunca tenha estado na lista das nossas prioridades e ao que parece, nem sequer na dos ciganos peninsulares, mas vamos aos factos. Certa senhora deu por falta do seu cão e prometeu recompensar quem o encontrasse. Pouco tempo depois recebe um telefonema a dizer que o seu fiel foi encontrado. De imediato desloca-se ao local da pessoa que o encontrou e depara-se com o cão drogado. Apesar de estranhar o comportamento do animal, puxa pela carteira e entrega 20€ ao homem. Num ápice, vê-se rodeada de ciganos que a tentam assaltar. Por sorte consegue fugir e dirige-se à polícia, onde lhe dizem, para espanto seu, que o estratagema é bastante usual e comumente empreendido por ciganos. Cuidado com os “descobridores” de cães, à cautela, não vá ao seu encontro sozinho e vá preparado para o pior, pois não sabe aquilo que o espera. O aviso está dado!
PS: Sempre houve ciganos exemplares e não se pode incriminar toda uma etnia pelos actos de alguns indivíduos, porque nem todos são negociantes desonestos, ladrões, falsos adivinhos, traficantes de droga e de armas, burlões, falsários ou fascinados pela contrafacção. Há que separar o trigo do joio.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

NINHO OU RONDA: SALVAGUARDAR O CÃO PARA GARANTIR O SERVIÇO


Todo e qualquer serviço a atribuir a um cão deverá considerar, em primeiro lugar, a salvaguarda do animal e só depois a sua utilização. E quando se trata de cães de guarda, será o respeito por esta regra que determinará todo o condicionamento a haver, porque doutro modo, já se sabe quem poderá morrer no cumprimento do dever. Os entusiastas dos cães de guarda, dominados pelo dano que os seus cães possam causar, facilmente se esquecem disso por força do show off em que andam embrenhados, como se a eliminação dos cães não fosse possível, não acontecesse todos os dias, um pouco por toda a parte e agora com maior frequência. E se os cães destes brincalhões continuam vivos, tal não se deve ao esmero do seu trabalho ou à excelência do seu desempenho, mas simplesmente ao facto de não serem utilizados e à pouca cobiça que a riqueza dos seus donos desperta. Pelo sim pelo não, a haver Deus no Céu, vida para além da morte e eu lá chegar, já tenho preparado um caderninho de dúvidas para Lhe apresentar. Entre elas há uma que não me deixa descansar: porque será que aqueles que menos têm para guardar, são os que mais procuram cães de guarda? Se aceitamos sem nenhuma dificuldade o poder dissuasor canino, também sabemos da inoperacionalidade de um cão em matéria de segurança, quando isolado e entregue a si próprio. Penso que ninguém tem dúvidas: é mais fácil dar caça a um cão do que caçar um tigre. Não obstante, o famigerado felino encontra-se em vias de extinção!
Ainda que nos pareça estranho e coisa de tempos idos, tanto nos Montes Cárpatos como na Cordilheira do Cáucaso, ainda hoje se caçam e domam ursos. Há meia dúzia de anos atrás conhecemos um emigrante ucraniano, calmo, afável, bem disposto e de sorriso angelical, camionista entre nós, que combateu no Afeganistão aquando da Invasão Soviética em 1979. O homem havia pertencido a um corpo especial de tropas e em determinada altura abraçou também como especialidade a cinotecnia militar. Quando o inquirimos sobre a opção que tomou, respondeu-nos: “eu desde criança que ia caçar ursos com o meu avô e nem sempre tínhamos espingarda, adestrar cães foi muito mais fácil, sempre vivi rodeado deles e até tivémos um que, quando o soltávamos, nunca regressava a casa sem ter morto algo!” E como a conversa lhe ia a gosto, lá foi explicando como era importante conhecer os hábitos dos ursos, saber quais as cavernas para onde iam hibernar e esperar pela hibernação. Hoje o “Alex” diverte-se a ver os cães alheios que lhe passam pela frente e depois de algumas cervejas para vencer a timidez, não se escusa a dar conselhos aos proprietários caninos que com ele se cruzam. Fala bem português e por consenso é um excelente rapaz. Também somos dessa opinião.
Não queremos com este relato exaltar sentimentos xenófobos ou alimentar polémicas relativas à emigração ou imigração, mas servir-nos das lições práticas que ele carrega, algo para além do “moral da história”, porque isso lança-nos para o tema de hoje. Há duas coisas que são fatais para o cão guardião: o estudo dos seus hábitos e o conhecimento das suas acções (hábito e operação). E quando de trata de instalar um cão de guarda numa casa, moradia ou quintal, considerando a sobrevivência do animal e a garantia do serviço, importa decidir o que melhor serve esses propósitos, se instalar um percurso rondante ou optar por um “ninho de vigilância”. Para encontrar o cão certo, somos obrigados a considerar o ecossistema da propriedade, a policromia das cores do local, o nº de metros quadrados a bater, os horários de vigilância, o tipo ou tipos de piso que apresenta e a natureza das suas delimitações, para que haja um casamento perfeito entre as características do animal e o local onde irá ser instalado. Mas tudo isto poderá ser desconsiderado se os hábitos e acções do cão forem por demais visíveis do exterior, já que são considerações relativas ao exercício de rondar, que se deseja silencioso e operado debaixo de surpresa. Nos casos em que o animal se apresenta por demais exposto e sujeito a observação detalhada, “o ninho de observação” apresenta-se como a melhor opção, o mesmo sucedendo quando a propriedade tem um perímetro diminuto ou uma área descoberta de pouco significado.
O “ninho de observação”, que pode constituir-se em canil, desde que dissimulado na arquitectura da propriedade, camuflado nos seus acidentes naturais ou incrustado na sua decoração, é um local de vigia privilegiado para o cão, onde se transforma em sentinela e vive em constante observação, sem ser observado e pronto a escorraçar qualquer tentativa de intrusão. Na escolha do local, para além da ocultação do animal, há que considerar o seu bem-estar e saúde, para que seja da sua preferência e ali se sinta comodamente instalado, fiado na rectaguarda e com os olhos postos no exterior. Donos mais desafogados do ponto de vista económico, por natureza engenhosos e ligados ao pormenor, mediante a construção de um pequeno túnel de ligação, que não pode ser muito comprido devido à urgência do socorro, juntam o útil ao agradável e conseguem garantir a segurança, em simultâneo, tanto o interior quanto o exterior da casa, ligando assim o “ninho” a uma ou mais salas da sua habitação. Deseja-se que a porta de entrada do cão se encontre embutida num armário de parede e que se abra inesperadamente perante a aproximação do animal, que despoleta para acção mediante dispositivo electrónico amovível e não audível, tal qual um comando de portão, garagem ou televisão. Esta é uma acção extremamente eficaz, fácil de treinar e de resultados comprovados, porque resulta de uma manobra de surpresa e o cão parte em vantagem, graças ao treino realizado e às capturas alcançadas, factores que o robustecerão e o farão partir na certeza da vitória. Com o “ninho embutido”, o cão passa a surpreender ao invés de ser surpreendido e só deste modo poderá fazer lograr os planos dum inteligente num combate que normalmente lhe é desfavorável. O treino desta manobra deverá acontecer na ausência dos criados, longe das crianças e segundo um cronograma previamente estabelecido. O comando de abertura deverá ter um duplicado por causa do seu possível extravio e ser colocado num local anteriormente determinado. O dispositivo que abre a porta do cão não deverá depender da corrente eléctrica da casa, porque quando falta a luz, muita coisa pode acontecer e os ladrões agradam-se disso. 

CRUZAR, ESCOLTA E ELIMINAÇÃO DO CÃO

Talvez os nossos leitores não se lembrem disso, muito embora não seja difícil de imaginar, mas é no mundo do espectáculo que o verbo falsear atinge a sua máxima expressão, porque a representação assim o exige e os dramas são fictícios. Por causa disso e pelo particular dos meios técnicos, ao se apontar uma faca à garganta duma personagem, é necessário inclinar esse objecto de forma a torná-lo visível pelas câmaras, porque se o fizermos com toda a realidade, a faca surge como um pequeno risco, não gera suspense e lá vai a cena para o beleléu. Mas o pior que pode suceder a um actor, é perder a sua própria identidade e substituí-la por uma ou duas personagens que representou. A ficção tem destas coisas e a mísera realidade sempre acabará por lhe bater à porta. No mundo do adestramento, também ele dominado pelo show, as coisas não são muito diferentes, porque se privilegia o espectáculo em detrimento da realidade. Há por aí quem treine as figuras de “revista” e “escolta” com o cão no meio das pernas do infractor ou agressor, uma pobre cobaia que ricamente interpreta o seu papel, tal qual “palhaço pobre” a apanhar sopapos. Na realidade, as coisas passar-se-iam de outra forma, o cão acabaria eliminado e o seu dono provavelmente em fuga. Por um lado, ainda bem que assim é, porque não há lugar a vítimas e tudo acaba bem. No nosso ver, e por vezes já sentimos que a vista nos falta, o cão deverá funcionar como escudo e primeira barreira, estar entre nós e o agressor, independentemente deste se deslocar ao nosso lado ou à nossa frente. Não estará na altura de alterar o guião? A bilheteira está farta de dizer que sim!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

OS CÃES DA JUVENTUDE

Temos vindo a reparar que os homens escolhem diferentes raças caninas de acordo com a franja etária que atravessam e segundo a maturidade que cada idade oferece, espelhando assim a sapiência ou a irreverência típica de cada estágio evolutivo. È evidente que há gente que não melhora, que não aprende com os seus erros, que mal interpreta a experiência e desconsidera as suas lições, tropeçando invariavelmente nas mesmas armadilhas que a si mesma se sujeita. Assim como há uma idade própria para se ter um cão agressivo ou proscrito, também haverá outra que se harmonizará com um cão dócil e socialmente bem aceite, muitas vezes marca de status e sinal de bem-estar. Os jovens, movidos saudavelmente pela contestação e irreverência, porque o mundo precisa de avançar, sempre acabam por escolher cães de idêntica condição na procura do seu lugar ao sol, munindo-se inúmeras vezes de animais tenebrosos para esconder os seus receios e alcançar os seus anseios. Quando se é jovem tem-se um fila, um malinois, um rottweiler ou um grande mastim, e daí não virá grande mal ao mundo porque tal é reflexo do nosso aprendizado. Do mesmo modo, outros menos chegados aos cães e embevecidos pela política, começaram por distribuir panfletos marxistas-leninistas e acabaram como líderes destacados de partidos conservadores nas voltas que o mundo dá. Estamos aqui para valer aos jovens, pois serão eles que nos irão render. Como não queremos que partam atrasados, instamos para que nos oiçam e vão mais além, evitando-lhes os nossos erros e robustecendo-os com a nossa experiência.

O CHECO ENCOBERTO E A POLÍTICA DO NÓ CEGO

Entre os canicultores subsiste uma fauna rara que nem por isso tende à extinção, um número reduzidíssimo de cavalheiros que ficará para a história pelas piores razões e que irá prejudicar em simultâneo pessoas e cães, graças à sua cegueira e pouco escrúpulo na selecção dos animais tidos como de trabalho, que à imitação doutros lá fora, faz da hibridação esporádica prática corrente, mais de acordo com as suas convicções do que no benefício das raças lesadas. Como se já não bastasse o insucesso do Lobo-Checo enquanto cão de utilidade, a quem é reconhecido um fraco impulso ao conhecimento e uma tremenda carga instintiva, ainda há quem se sirva dele para alcançar maior porte e rusticidade dentro dos pastores alemães, características atávicas que obstam ao melhor rendimento dos cães. Se os híbridos de primeira geração nascerem preto-afogueados, só uma observação mais detalhada e demorada conseguirá detectá-los, já no caso dos lobeiros tudo se torna mais fácil, porque desprezam a variedade dominante que lhes é comum e regressam à proto-dominância do lobo cinzento, adquirindo traços fisionómicos, nuances, comportamentos e posturas próximas desse parente silvestre. O cunho pessoal de uns que leva à bastardia de outros é um autêntico “nó cego” contra os apaixonados e defensores da pureza no Pastor Alemão, uma traição encoberta que só o ADN porá a descoberto. Até lá há que estar atento e denunciar quem conspurca e adultera o cão da nossa predilecção.

O RAPAZ DAS BOAS INTENÇÕES

Conhecemos um rapazola cheio de boas intenções que circula por todo o lado com o seu cachorro pittbull à solta, adiantando que assim procede para alcançar a sociabilização do animal. Até agora nada de extraordinário aconteceu, apesar do rapaz “ingenuamente” suspender o cão em vários potenciadores de mordedura por mais ou menos tempo. O cachorro já alcançou a maturidade sexual e ao que parece começou a detestar uma raça em particular. Quando brinca com os outros cães sempre lhes rouba os objectos e não raramente usa o rosnar gutural para alcançar os seus intentos. A somar a isto, o cão nunca anda à trela e tendencialmente ensurdece-se perante as ordens que lhe são dadas, obedecendo somente pelo recurso à coerção. Diante destes factos não se adivinha um futuro feliz para o cachorro e muito menos para aqueles que com ele se irão cruzar, sendo caso para se dizer: “ de boas intenções está o inferno cheio!”

MACHO ALFA, DESGRAÇA MINHA

Nem todas as raças caninas se podem educar com papas e bolos, ainda que nelas subsistam indivíduos mais fáceis de ensinar e próprios para a cumplicidade. Apesar dos criadores das raças mais duras alertarem para a necessidade de uma liderança forte, muita gente sem essa qualidade teima em adquirir cães de forte impulso ao poder que tendencialmente incorrem na desobediência e rebeldia, causando aos seus proprietários amargos de boca “inesperados” por falta da imposição que estabelece a regra. As mesmas agruras passarão aqueles que irão adquirir cães muito-dominantes, mesmo que oriundos de raças que à partida são de natureza mais submissa. Como estes desaguisados engrossam as fileiras escolares e nem todos os binómios alcançam a sua constituição efectiva, convém que cada um escolha o cão adequado para si e não aquele da raça que gostaria de ter. Daqui lançamos um pedido aos canicultores, que vendam cachorros de acordo com o perfil psicológico de quem os quer adquirir, porque se a coisa der prò torto é o cão que irá pagar! Se você pretende adquirir um cachorro, não sabe como o escolher e não quer receber kit de problemas, contacte-nos, pois estamos cá para o ajudar e nada lhe cobraremos.

terça-feira, 22 de maio de 2012

ECOS DA CRISE, PATRANHAS ANTIGAS

Sucedânea à criação de “pintos do dia” que tantos aviários gerou, no hábito enraizado da economia paralela que o interior trouxe para a cidade, a criação de cães aconteceu um pouco por toda a parte, substituindo nos quintais as tradicionais hortas, capoeiras, coelheiras, currais, charcos e pombais. Num ápice e de modo inesperado, fruto do tempo e por auspício do consumo exagerado, o número de canicultores cresceu assustadoramente. Hoje decresce vertiginosamente e há quem tudo faça para se ver livre dos cães na celebérrima política do “passar da batata quente”, ressuscitando desse modo velhas patranhas que de novas só têm os seus intervenientes, já que a canicultura não é auto-suficiente e sempre dependerá doutra actividade para o seu sustento. Recentemente ouvimos uma patranha digna de destaque que queremos dividir com os nossos leitores. Fulano tal, que diz de si mesmo ser um adestrador reputado e com promissores contactos internacionais, na ânsia de angariar um seguidor, mão-de-obra barata e de se ver livre de um cão, solta para o incauto: “ Este cão está vendido para uma polícia estrangeira por 3.400€, mas como eu gosto de ti e tenho prazer em ensinar-te, vendo-te somente por 340!” Em tempos idos conhecemos um sujeito que esteve prestes a vender o Convento de Mafra, apesar de não ser seu, ser de custo incalculável, de manutenção astronómica e ter 365 portas e janelas. É preciso descaramento, mas há sempre alguém que embarca! 

A PARAGEM DO TEMPO ÀS 10 PARA AS DUAS

Há quem diga e nisto parece ter alguma razão, que os cães de trabalho são normalmente feios e mal-amanhados, toscos de morfologia e de qualidade duvidosa, isto se considerarmos que nas classes ditas laborais, pelo menos na nossa latitude, superabundam cães com essas características. Ninguém duvida que existem por cá excelentes exemplares de trabalho, que juntam à aptidão uma morfologia invejável, contudo são muito poucos. Paralelamente, os canicultores de cães de utilidade parecem não se preocupar com isso, produzindo animais com uma biomecânica desprezível onde sobressaiem desaprumos de toda a ordem que irão gerar animais côncavos e por isso mesmo impróprios. Dá ideia que o relógio parou em Portugal às dez para as duas para os criadores de cães de trabalho, considerando o número de exemplares que apresenta o peito estreito ou invertido, abatimento de metacarpos e mãos divergentes, incapacidades responsáveis pelo selar do dorso, pelo desprendimento de bolsas de líquido sinovial e pelo aparecimento de higromas, dando a idéia que o cão de trabalho já nasce estoirado pelo serviço. Sabe-se que na maioria dos casos o problema não é genético e resulta da falta de acompanhamento dos cachorros, verdadeiros sobreviventes sujeitos à subnutrição e isentos do parecer médico-veterinário. Está mais do que na hora de dar corda ao relógio e apostar na criação de exemplares capazes, capazes de nos surpreender e capazes para o serviço que deles esperamos.

QUE GRANDE CÃO EU LHE VENDI!

Muita gente já fechou as portas e entre ela grande número de sensatos, um sem número de oportunistas e outro tanto de gente imprópria, graças à actual crise económica que inevitavelmente acabou por atingir a canicultura e os seus apaixonados, também ela vítima e reflexo do outrora crédito fácil que teve como consequências o aumento da procura e a supervalorização dos cães, como se o dinheiro não tivesse fim e nunca nos viessem a pedir contas. Nunca foi tão fácil comprar um cão, considerando que algumas raças são agora vendidas a 1/6 do preço encontrado nos finais da década de 90, altura áurea para a importação e ocasião para grandes negociatas. Como a crise não é só falada em português e ultrapassa largamente as nossas fronteiras, também porque alguns países de leste fazem hoje parte da Comunidade Europeia, exportando para aqui cães a baixo preço e nem sempre de boa qualidade, por toda a Europa o preço dos cães baixou drasticamente e encontra-se tabelado quase ao preço dos gastos. Salvo honrosas excepções, que são motivo de inspiração, a maioria das ninhadas nacionais acaba também por pagar com a barriga o preço da crise, havendo por aí muitas subnutridas e até famélicas, lembrando ratos carecas em ecossistema de parco alimento. Por força da austeridade, ao contrário do que antes sucedia, irá caber aos futuros proprietários a recuperação desses cachorros, façanha alheia aos seus criadores que aproveitarão esse investimento para justificarem a qualidade do seu produto, soltanto frases do género: “ Está ver… que grande cão eu lhe vendi!”

QUARTO DE VOLTA: O REGRESSO DO SOLDADINHO DE CHUMBO

Lá, por onde andaram franceses e ingleses pelo domínio da Europa no Séc.XIX, numa localidade onde os seus moradores insistem em trocar a acentuação tónica do seu nome, num sítio remoto, nada convidativo e mal apetrechado, assistimos ao regresso do soldadinho de chumbo, quiçá tornado efeméride por força do seu passado histórico. Estamos a referir-nos ao uso e abuso do “quarto de volta” na disciplina de obediência canina, como se tal fosse premente, insubstituível ou carregasse vantagens nunca vistas. O movimento, tornado ali em “ordem unida”, lembra as intermináveis filas para o recebimento do “pré”, muito embora a continência acabe substituída pelo ajustar do cão com a mão.

Ainda que o movimento requerido tenha como objectivo a fixação do “alto, do “junto” ou a fixação exclusiva do cão na pessoa do seu condutor, já há muito que se descobriram modos mais eficazes e céleres para esses propósitos, tais como o recurso ao reforço positivo e a instalação do “meia-volta”, muitas vezes codificado como “volta” ou “roda” de acordo com o comando alemão “zurück”. O “quarto de volta”, quando usado sistematicamente, tende ao aumento do travamento e a contribuir para uma autonomia condicionada pouco visível e nalguns casos piegas, ficando isso a dever-se aos diferentes perfis psicológicos presentes nos cães. A somar a isto, porque o ensino canino é dinâmico, exige celeridade no cumprimento das ordens, procura a minimização do esforço humano e a maximização do esforço animal, não dispensando por isso a velocidade funcional inerente aos diferentes serviços a prestar pelos cães, o “quarto de volta” acaba por atentar contra tudo isto, o que de todo não é desejável.

É evidente que cada qual dentro da sua casa é rei e isso deve ser respeitado, no entanto e porque começámos por uma evocação histórica, interessa-nos manter o mote e usá-lo para uma melhor compreensão da problemática ligada à insistência no “quarto de volta”, evolução típica dos imóveis soldadinhos de chumbo que a foram beber aos exércitos regulares no apogeu da Revolução Francesa. Por culpa dos espanhóis que inventaram a guerrilha (do castelhano guerrilla: pequena guerra), o modo de guerrear alterou-se e a partir daí a derrota dos Franceses consumou-se na Península Ibérica. Exceptuando a praxis de alguns membros da histórica e extinta escola alsaciana, não sabemos se alguma vez o “quarto de volta” fez parte do currículo base da obediência a ministrar a um cão, mas se isso aconteceu algum dia, foi lá para os primórdios dos cães de utilidade e muito antes da II Guerra Mundial, porque a partir daí tal nunca foi visto, já que as inversões do sentido de marcha sempre aconteceram de modo mais pronto pela “meia-volta” e resolvidos os “quartos” pelo auxílio do “junto”, nomeadamente nas evoluções de “direita e esquerda volver”, comandos militares e por isso mesmo distantes das práticas civis.


Assim como o “troca” (tauschen) exige nos ensinos dinâmico e nuclear modos mais céleres que não dispensam a rotação de tronco que possibilita a condução a duas mãos direccionais, também o “quarto-de-volta” deverá ceder lugar a outras formas de “junto” que garantam o mesmo propósito (o “junto instantâneo” por pirueta ou o confirmado a partir do ladear). Assim como a prontidão dos ataques deve ser igual à sua cessação, também qualquer imobilização deverá garantir a partida automática para a acção. O uso abusivo das figuras de imobilização, muitas vezes usurpando o lugar da ginástica nos 1º e 2º Ciclos Infantis (dos 4 aos 6 meses e dos 6 aos 8 meses), tem funcionado como um inibidor da velocidade e castrado muitos cães para um conjunto de acções necessárias às restantes disciplinas cinotécnias, inutilizando assim a sua vocação, propensão natural, mais-valia e complementaridade. Por outro lado, o abuso da toada “alto e pára” que o “quarto-de-volta" propicia acabará por enfraquecer os impulsos herdados que garantem a defesa do dono e dos seus bens, particularmente na sua ausência, graças à exagerada submissão operada que obstará a qualquer autonomia pretendida. E como importa dar a cada um o que é seu e a César o que é de Cesar, os adeptos do “quarto-de-volta” deveriam uniformizar os seus alunos com fardas de cotim ao invés dos comuns fatos de treino.

terça-feira, 1 de maio de 2012

GINÁSTICA CINOTÉCNICA: A FORMAÇÃO DO CÃO-GATO



Desde cedo se percebeu, quando se pretendeu usar o cão como guerreiro nos tempos modernos e treiná-lo como militar, da necessidade de um adestramento específico visando a supressão de algumas dificuldades e a potenciação das suas capacidades ou complementaridades, da emergência de pistas tácticas com obstáculos próprios e capazes para o simulacro do teatro operacional, nascendo assim, um pouco por toda a parte, o conceito e elaboração da pista táctica (nalguns casos tratada como pista de fogo), requisito que viria a revelar-se fundamental para o treino do cão de guerra. O modo diverso de fazer a guerra e a perca galopante de atribuições militares por parte dos cães, levaram ao desuso e desaparecimento das outrora famosas pistas tácticas, que subsistiriam ainda até aos alvores do cão-polícia, transição natural que tanto creditou algumas raças e uma ou duas em particular.

E como não estamos aqui a tratar do fenómeno de Tunguska e tudo tem o seu início, todas as pistas que hoje vemos tiveram a sua origem comum nas pistas militares, a menos que consideremos a actividade circense como madre de algumas modalidades ou disciplinas caninas, o que nos parece pouco provável. Apesar da novidade de propósitos ter levado a diferentes filosofias e outros tantos objectivos, o hábito sistemático de treinar cães é um legado militar sobre os cães ditos de utilidade ou de trabalho, mesmo que eles se tenham vindo a transformar em simples guardiões, caçadores ou companheiros, porque ainda definimos o treino como rigor, apostamos na constância das acções, buscamos o condicionamento, procuramos a uniformidade, o apego aos procedimentos e temos como base de todo e qualquer adestramento a disciplina de obediência, ainda que os meios para o seu alcance tenham mudado, diga-se que felizmente, em abono dos cães, na defesa da sua integridade e individualidade, defesa operada pelo reforço positivo e pelo uso requerente à memória afectiva presente nestes animais.

A passarelle já existia e dela se fazia uso antes de um “sonhador” ter inventado o agility pela observação das provas equestres, o mesmo aconteceu com os esconderijos hoje usados para o treino do cão de guarda e os retrievers são anteriores aos novos métodos de ensino. Valerão as pistas tácticas somente como referência para os actuais cães paisanos ou serão também importantes para a sua formação e capacitação? Estamos em crer que elas não perderam a sua actualidade e que muito podem subsidiar os actuais cães de trabalho, considerando o alcance dos seus indices atléticos, superior capacitação, bem-estar e longevidade, enquanto preparação específica para o trabalhado vindouro, alvos muitas vezes aquém das pistas em voga e que se transformaram no melhor dos marketings para quem tem rações ou acessórios para vender, porque não promovem o conhecimento biomecânico, o seu aproveitamento e potenciação, subsidiando ao invés o show e gozo efémero dos donos.

Para além destes aspectos, as pistas tácticas foram e devem ser concebidas para dar combate e levar de vencida os medos mais comuns presentes nos cães, geralmente transformados em traumas que inibem de sobremaneira a prestação canina e a sua saúde como um todo. Como a lista desses medos é interminável adiantaremos apenas alguns: acrofobia, acustofobia, batofobia, cainofobia, cimofobia, claustrofobia, cleitrofobia, escotofobia, ligirofobia e mictofobia, o rol é deveras extenso! As mais-valias das pistas tácticas não se esgotam nos benefícios psicológicos e na melhoria dos índices atléticos, no aumento da prontidão e na preparação específica dos cães, estendendo-se também à correcção morfológica e à melhoria dos aprumos, isto se convidarmos os cachorros para a sua prática aquando da face plástica que os ciclos infantis oferecem.

Os inimigos das pistas tácticas e que delas dizem horrores são na sua maioria gente que na década de 80 ainda não tinha atingido a maioridade e que assustada com os relatos que foi ouvindo, não raramente exagerados, as tem conotado como hediondas e desprezíveis quando comparadas com as actuais, de índole desportiva, de técnica rudimentar e de fácil resolução, o que compromete de sobremaneira o seu parecer, por não ser tangencial e não resultar da experiência objectiva que induz à comprovação. Assim também nasceu a história do lobo mau e o mito da avestruz com a cabeça debaixo da terra! Há quem também diga que a pista táctica é uma fomentadora de lesões e que por causa disso entrou em desuso, o que é falso, uma vez que o seu objectivo aponta claramente na direcção contrária e tem como prioridade a salvaguarda da integridade global dos cães, preparando-os para os perigos e desafios que encontrarão no seu quotidiano, valendo-se para isso de obstáculos idênticos àqueles com que irão ser confrontados.

O adestramento perderia o seu significado se em cada cão houvesse um gato, pelo menos na sua vertente atlética, porque o felino dispensa nesta matéria de qualquer tipo de aprendizado mercê das suas características inatas. Ao invés, o cão necessita de aprender a saltar correctamente, a distribuir prontamente o seu peso corporal pelos dois pares de membros nas recepções ao solo, o que lhe permitirá impactos menos violentos e garantirá a progressão por mais tempo e sem delongas. Ele irá necessitar de aprender a escalar, quer para prestar socorro quer para se libertar ou salvar, terá que aprender a nadar com os dois pares de membros abaixo da linha de água, caso contrário entrará em colapso e virá a morrer afogado. Terá que aprender a escapar-se do fogo e a evoluir em diferentes superfícies, pisos e acidentes (naturais ou artificiais), e ser condicionado na resolução de todo e qualquer obstáculo que encontrará pela frente.

Também terá de acostumar-se à vida urbana, à novidade de materiais e a evitar os danos que estes lhe possam causar, a vários tipos de transporte e a toda a casta de gente na progressão alinhada que lhe será exigida. Ser experimentado e aprovado nas situações em que importa socorrer-se e socorrer o seu dono, necessitando para isso de usar toda a ferramenta morfológica ao seu dispor, meta que a pista táctica não dispensa e que abraça como objectivo, resultando daí a sua actualidade e utilidade. Cortar, escalar, escavar, nadar, rasgar, rastejar, saltar, subir escadas, transportar e aprender a ocultar-se, são algumas das acções que a pista táctica lhe oferecerá e que irão capacitá-lo para a sua sobrevivência e mais-valia. A somar a isto, pelo peso do trabalho binomial que não dispensa a cumplicidade, a sua condução em liberdade e autonomia acontecerão mais cedo e tornar-se-ão mais eficazes. 

A natureza dos obstáculos propostos pelas pistas tácticas, para além de fomentar a escolha correcta dos andamentos naturais presentes nos cães pràs tarefas, tende e normalmente consegue, dotar determinadas raças de características funcionais que a sua selecção desprezou ou omitiu, algo a que a diferenciação estética não é alheia e que tem sido responsável por várias afecções e não raras aberrações. Os milagres operados pelas pistas tácticas ficam a dever-se à diversidade dos seus obstáculos e propósitos, ao respeito salutar pelos mais elementares princípios pedagógicos de ensino e à qualidade dos mestres de campo, gente experimentada na arte de ensinar cães e que disso faz uma verdadeira paixão, indivíduos que vieram para servir e que nisso se sentem bem, ainda que por vezes não sejam compreendidos, porque não esperam retribuição e sempre procuram o aprimoramento.

Uma pista táctica digna desse nome deve estar equipada com obstáculos típicos para os cachorros, ter um perímetro exterior de aquecimento, um conjunto de aparelhos para a correcção morfológica, obstáculos de diferente índole e outros específicos para o desenvolvimento interdisciplinar, ser um simulacro das acções reais que o cão terá pela frente e que exigem a sua pronta resolução. Pensar e agir ao contrário, é desejar que o cataclismo surja para que o treino aconteça. Situações destas fazem lembrar aquele crente pouco crédulo que só se lembrava de Santa Bárbara quando a borrasca estoirava.
Apesar das múltiplas vantagens que as pistas tácticas oferecem, o seu número é diminuto quando comparado com as de competição, facto que se fica a dever ao seu custo, à escassez de técnicos capazes e à ignorância de grande parte dos proprietários caninos, mais interessados naquilo que os cães têm para lhes dar do que em dar-lhes subsídios de longevidade. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A TRAGÉDIA DA FERA QUE NUNCA O FOI



A paga do justo pelo pecador é uma injustiça histórica da qual dificilmente nos livraremos, já que continuamos a vitimar e a condenar inocentes por erros de julgamento fortemente ligados aos medos, à ignorância e à generalização, a quem as conveniências ou convenções não são alheias. E quando se trata de animais, nomeadamente dos cães, o mito do “bicho papão” sempre volta à tona de água. Como tantas vezes já o dissemos, assiste-se no mundo ocidental ao holocausto e ao sacrifício desses animais, como se fossem feras por si mesmos ou oriundos duma savana alienígena nociva e potencialmente criminosa. Queremos dividir convosco a história da White, uma Pastora Alemã adulta com 22 kg de peso, extremamente meiga e carente de afecto, submissa e ligada à brincadeira com outros cães (ela coabita actualmente com uma cocker preta que adora). Segundo o que nos fizeram saber, a White foi primeiro propriedade de um emigrante brasileiro desafortunado, um indivíduo que mal tinha para comer e que a sujeitava a igual sorte, correndo por isso sérios riscos de vir a ser abandonada. Conhecedora da situação, uma vizinha piedosa decidiu adoptá-la, sem mais nem menos, movida somente pela compaixão que o animal lhe provocava. A adaptação da cadela ao novo lar aconteceu sem problemas, facilitada pelo contributo da cocker que já lá morava e pela atenção que a nova dona lhe dispensava, pessoa que ignorava por completo a raça, as suas necessidades e modus operandi, para quem todos os cães eram iguais e todos sedentos em exclusivo de mimos e afectos.


Certo dia, como já vinha sendo hábito (não sabemos com que justiça se enraizou), a dita senhora soltou as duas cadelas num parque para brincarem com os outros cães ali presentes e tudo parecia correr bem. Eis que, vindo não se sabe donde, surge um casal acompanhado por dois filhos, um mais velho e outro ainda bem tenrinho que disputavam entre si uma bola. Espevitada pelo brinquedo e pela algazarra, num ápice, a pastora alemã correu na sua perseguição, e no meio da confusão e do pânico instalados, acabou por mordiscar o infante mais pequeno, causando-lhe ferimentos superficiais, uns pequenos arranhões na pele solucionados pelo recurso ao Betadine. A polícia e o INEM foram chamados e a cadela foi recambiada para o Canil Municipal, identificada como potencialmente perigosa e ali enclausurada durante 24 horas (não ficou lá mais tempo porque tanto a dona como o veterinário do animal assumiram a responsabilidade do sequestro doméstico, num período até 15 dias, apresentando prontamente o seguro de responsabilidade civil e a licença camarária da cadela). Como consequência do ocorrido a White irá ser castrada e ver-se-á obrigada a frequentar uma escola canina, onde deverá ser aprovada na disciplina de obediência e ser alvo de aulas de sociabilização, procedimentos correctos mas tardios diante da esterilização requerida.


Como não se podem dissociar os cães dos seus donos, assistindo-se vezes sem conta a uma transferência física e anímica entre ambos, decorrendo o comportamento dos animais da indução de quem os alimenta e instrói, importa considerar aquilo que geralmente não é considerado – a pessoa dos seus proprietários, a sua contribuição para o dolo alheio e para vitimização dos cães. A actual dona da White é uma pessoa afável, positiva e que busca na energia cósmica a solução para todos os seus problemas (como ela gostaria de ter apertado a mão ao Dailai Lama, pois assim subiria mais um nível que a colocaria mais perto da divindade), uma desempregada de cinquenta e tal primaveras que vive só e que se preocupa com o avanço metafísico dos demais rumo à felicidade eterna. Não obstante, distante do império dos seus sentidos e para além da intuição que a guia, soltou a cadela no parque e gerou o disparate, sabendo que tendencialmente ela corria atrás de quem corresse à sua frente. As convicções e instintos da senhora levaram-na a desconsiderar os instintos presentes no animal, necessitados de regra e controle em prol dos demais e do bem-estar da sua protegida. Quando adquiriu a White, do alto dos seus cento e tal quilos, a piedosa senhora nunca alvitrou da necessidade de a treinar, confiante nos desígnios do bem e na experiência havida com a cocker, não procurando até esse momento qualquer informação sobre pastores alemães ou acerca do comportamento canino, omissões que se revelaram fatais para o funesto desenlace e para o dolo de outrem. Apraz-nos perguntar: quando exigiremos aos donos um atestado de robustez física e psicológica? Outros já não o fizeram? Para quando obrigar todos proprietários caninos à aprovação num curso de obediência básica onde se fariam presentes com os seus cães? O licenciamento não deveria depender disso? Será mais civilizado continuar a castrar e a matar cães?


A White depois de testada não revelou qualquer evidência de impulso à luta, somente excelentes impulsos ao movimento e à defesa, mostrando assim quanto gosta da dona e o quanto lhe está grata. Quando provocada não agride e fica-se pelo aviso, ladrando invariavelmente e nunca se valendo da ameaça que o rosnar gutural indicia. Não avança para as pessoas e receia o castigo, sociabiliza-se sem dificuldade com estranhos e facilmente se incorpora numa matilha animal espontânea e heterogénea. Deixa-se conduzir por crianças e apenas reage à presença das aves, dificuldade que rapidamente ultrapassará. Estaremos na presença de um cão potencialmente perigoso? Será ela a responsável pela violação das regras que jamais alguém lhe houvera ensinado? Certamente que não, mas será ela que pagará a ausência de uma liderança séria e eficaz! Lamentamos que os cães não possam cantar, porque atendendo ao número de castrados que virá, certamente envergonhariam, enquanto eunucos, o mais excelso coro alguma vez presente na Capela Sistina. Resta o silêncio dos inocentes!

MÃO NA TRELA E BOA VIAGEM!


Para além dos aspectos económico e logístico, e de requerer uma vasta experiência no contacto directo com os cães, a hospedagem canina exige em simultâneo algum tacto e bom senso considerando a custódia e devolução dos animais aos seus proprietários. Seria ideal que antes da entrada do cão já fossem conhecidos tanto os seus hábitos quanto o seu perfil psicológico, diminuindo-se assim os riscos de uma alteração forçada e penosa para o animal, desencanto possível pela alteração de dietas e rotinas que mais agravarão a ausência do dono e a transferência de território. À parte disto, nos canis mais acessíveis e visitados, considerando a segurança dos animais, convém que os seus acessórios de locomoção (trela e estrangulador), sejam guardados no interior dos canis e nunca nos corredores que lhe dão acesso, medida que dificultará grandemente o roubo dos cães, porque naturalmente guardarão aquilo que é seu e com mais dificuldade aceitarão o convite para sairem. Por outro lado, considerando os animais menos estáveis e mais medrosos, é desejável que o bebedouro esteja o mais perto possível deles e não junto ao corredor dá acesso aos canis, já que o medo de alguns poderá impedi-los de beber.

A IMAGO MUNDI E A IMAGO ANIME NA CINOTECNIA



Não é nosso propósito tratar aqui da relação entre a pintura ou de outras artes com a cinotecnia, muito embora ela exista e deva ser considerada para uma melhor compreensão da antrozoologia como um todo, uma vez que a arte não se escusou ao retrato e à representação dos animais desde a pré-história, emergindo os cães segundo o que foram e muitas vezes de acordo com o significado que lhes era ou foi atribuído, face à sua utilidade ou segundo a religiosidade de quem os pintou, na ancestral relação entre a natureza dos animais e a preocupação metafísica dos homens, relação essa que ainda subsiste e leva alguns a uma compreensão surrealista dos cães, fortemente ligada aos seus seus sonhos e invariavelmente distante da biologia, bem-estar e potencial individual dos animais, que sujeitos à biodiversidade, podem ou não massificar as expectativas dos seus donos, projectando assim o endeusamento ou desprezo dos cães consoante o grau de cumprimento das suas aspirações. E nalguns casos, quando a plena satisfação acontece, é melhor seguir o conselho: “cuidado com o dono que o cão está preso!”


O homem bem cedo, ao deparar-se com o lobo, viu nesse animal a possibilidade de realizar alguns dos seus sonhos, anseios e necessidades, preocupações fortemente ligadas à sua sobrevivência individual e colectiva, ao aumento dos seus proventos e bem-estar – criou o cão, um lobo que foi transformando para o seu uso e serviço até aos dias de hoje, dando-lhe, aqui e ali, caracterísiticas morfológicas únicas presas à estética de quem o tem vindo a criar e por vezes distantes da qualidade de vida e longevidade que qualquer espécie animal requer, isentando-o assim do peso dos ecossistemas e do relógio biológico que até então regulavam as suas características, viver social, ciclos de vida e proliferação. Também o chacal e outros canídeos têm sido sujeitos ou usados para o mesmo fim ou prestação, na procura de algum atavismo que melhor garanta uma tarefa em particular ou contribua para alguma transformação morfológica agora requerida e já há muito procurada na dicotomia entre a imago mundis e a imago anime.


Se considerarmos a canicultura e a cinotecnia como rebentos ou brotos da cinofilia (enquanto raiz comum), então facilmente vislumbraremos os diferentes critérios de selecção presentes em cada uma delas, preocupações oriundas da diferença de propósitos e ambiguidade de objectivos, ainda que os adeptos de ambos digam disso coisa diversa, reclamando cada um a continuidade genuína das raças que justifica a sua selecção na já gasta controvérsia entre a beleza e o trabalho, onde os sentimentos exacerbados de parte a parte não permitem a harmonia entre o agradável e o útil por força da realidade que obsta ao sonho ou vice versa.


Se entendermos a criação de cães como um acto humano de manipulação genética sobre esses animais e também à luz do actual conceito de beneficiamento, sem grande dificuldade encontraremos criadores mais preocupados com o préstimo objectivo do seu produto e outros profundamente empenhados na massificação dos seus sonhos, uns verdadeiramente apostados nas mais-valias e outros no seu gozo pessoal ou na manifestação das suas inquietudes, o que a ninguém espanta porque o cão se presta a tudo quedo e mudo.


A procura do cunho pessoal na construção das várias raças, marca indubitavel do artista que habita dentro de cada um de nós, continua a levar alguns à perpétuação de insuficiências e incapacidades que obstam à saúde, propósito e rendimento dos cães que colocam em praça, promovendo assim o seu descrédito, desprezo e esquecimento. A menos que pretenda ficar com todos, nenhum criador produz cachorros para si mesmo, mas antes para diferentes destinatários e serviços segundo as expectativas presentes em cada raça que ciclicamente precisam de ser reforçadas para que as caracterísitcas originais se mantenham e saiam exponenciadas, porque a venda de cães deve também ser entendida como uma prestação de serviço.


Remetendo-nos agora em exclusivo à classe de cães de trabalho, importa dizer que a qualidade desses animais é visível, mensurável e objectiva, ainda que se assista a um decréscimo significativo da sua capacidade laboral, porte e robustez, factores ligados à precaridade nas selecções e à teimosia injustificada de uns quantos, que apostados na satisfação pessoal remetem as raças que criam para a história, dando-lhes assim um final trágico e indigno diante dos seus pergaminhos, mercê da escolha arbitrária dos progenitores.


Como na cinotecnia é a realidade que torna possível o sonho, pergunta-se: porque se insiste na escolha de reprodutores desconhecidos e não testados? Serão os cães todos iguais em capacidade e potência? A cinotecnia não pode constituir-se num jogo de sorte e azar, necessita de certezas para que o sucesso aconteça. Desde há muito que se sabe da existência de indivíduos próprios ou impróprios para o trabalho. O cão de trabalho deve descender de cães que nele obtiveram superior aprovação, dimuindo assim os riscos de descalabro e mantendo incólumes os indíces laborais pretendidos, o que para mal dos nossos pecados nem sempre acontece, quase sempre por culpa nossa.

NUNCA MORRERAM TANTOS E AINDA IRÃO MORRER MAIS


Perante a incerteza da continuidade do actual SNS (Serviço Nacional de Saúde) como o conhecemos, parece irrisório ou mesquinho abordar aqui os problemas relativos à saúde animal, nomeadamente aqueles que afectam ou vitimam os animais domésticos, também eles de sobremaneira fustigados pela crise económica que agora vivemos, particularmente diante do fecho de algumas maternidades, da baixa taxa de natalidade e face ao aumento da mortalidadade nos mais idosos. Não obstante, alguma parte da fatia da crise acaba paga pelo sacrifício animal, o que a ninguém espanta porque sempre foi assim.


Tempos houve, no finado e nunca esquecido Império Romano, em que algumas tribos godas trocavam filhos por cães, entregando-os para o exército imperial e recebendo na permuta os animais indispensáveis à sua sobrevivência, quando fustigados pela fome ou pela escassez de alimento. Esta troca viria a revelar-se fatídica para o Império, porque os germanos adoptados tomaram a chefia e formaram a elite de muitas das legiões e hostes romanas, contribuindo assim para o final desse milenar Império. Na China, mais do que uma iguaria, a carne de cão tem vindo a socorrer várias gerações de chineses na procura de proteína animal, particularmente nas zonas rurais, porque os cães procriam duas  vezes anualmente e as suas ninhadas são numerosas quando comparadas com as das vacas, das cabras e das ovelhas, já que a carne de porco nem sempre esteve ao alcance de todos.


Pondo de parte a história e os hábitos alimentares de outros, no contexto que nos toca e importa – o dos cães na actual crise – vale a pena observar os resultados do nosso mau estado económico sobre a canicultura que temos. A ocorrência de ninhadas diminuiu significativamente e a qualidade do seu acompanhamento desceu drasticamente. A diminuição da procura gerou a baixa de preços e a intrusão de cães oriundos do estrangeiro, invariavelmente de baixo custo e de qualidade duvidosa, para isso também tem contribuído. O abandono de cães tem vindo a aumentar a par com a esterilização e cada vez mais se vêem mais cães “puros” abandonados. Muitos cachorros são dados porque não há quem os compre, acabando muitas vezes condenados à subnutrição e arredados dos mais elementares cuidados higieno-sanitários. Não poucas escolas caninas fecharam as suas portas e as que sobrevivem assistem ao decréscimo dos seus alunos. Muitos consultórios veterinários estão “às moscas” e o abandono do quadro de vacinação rasa o escândalo, pois a venda livre das vacinas nas farmácias não obriga ao preço das consultas. As pet shops desaparecem sem deixar rasto tal qual seita promissora e prontamente desacreditada, ao invés, as lojas dos chineses nunca venderam tantos acessórios para cães. A procura de rações de baixa qualidade nas grandes superfícies tem vindo a aumentar e poucas rações de marca não sentiram a crise desde que ela se instalou aqui.


Com muitos criadores à beira da bancarrota, não sendo poucos os que abandonaram já essa actividade, o número de cães para abater tem vindo a aumentar, particularmente a partir dos seis anos de idade, altura em que normalmente surgem os tumores de índole diversa e que carecem de extracção, porque as intervenções cirúrgicas são dispendiosas, escasso vai o dinheiro e as despesas continuam a crescer. O  endividamento das famílias, mais do que outro flagelo ou maleita, como se já não bastasse o folhetim sobre os cães perigosos, tem sido o maior responsável pelo abandono e abate dos cães, bichos sem perspectiva de futuro e que dificilmente acreditam nas promessas feitas prà semana dos nove dias ou para o ano de dois mil e carqueja! Diante deste panorama facilmente se compreende que só a recuperação económica poderá valer aos cães. Até lá continuarão a morrer muitos mais e somente alguns sortudos escaparão, exactamente aqueles cujos donos a crise não apanhou desprevenidos. Antes de adquirir um cão seja previdente, faça contas, veja se tem condições para o sustentar satisfatoriamente sem prejudicar de sobremaneira tanto a economia como a vida dos seus familiares.


Dizemos entre nós que “entre mortos e feridos alguém há-de escapar”, que “não há mal que sempre dure ou bem que não se acabe”, certamente aforismos de esperança perpétuados pelos sobreviventes ou vencedores de outras crises, o que implica em dizer que o desalento não deve agravar o infortúnio, pois já basta que as coisas corram mal para ainda serem agravadas pela nossa rendição. Vivemos num tempo de contenção e só o ultrapassaremos pelo apego à razão, pois só ela nos ajudará na certeza das opções e estratégias. Estamos certos que a canicultura sobreviverá e sustentará todas as actividades dela advindas, ainda que de modo diverso do actual e de acordo com outras prioridades ou prestações. Quer nos agrade ou não, qualquer crise é também uma forma de selecção natural e quem não se adapta dificilmente sobreviverá. Há que apostar na qualidade, na formação e na inovação, diminuir o número de ninhadas, não aumentar os efectivos, procurar a relação preço-qualidade nas rações, trabalhar em sistemas integrados, descobrir novos mercados e alcançar outras mais-valias, porque o tempo que corre é indubitavelmente de depuração. O sentimento que nos liga aos cães não nos deverá levar ao seu extermínio, coisa fácil de acontecer quando tomamos a emoção no lugar da razão. A inutilidade dos burros, e aqui estamos a falar dos asnos e demais gado muar, tem vindo a provocar a sua extinção e se alguns sobrevivem ainda, devem-no a um grupo de apaixonados certamente a braços com as contas. Com os cães acontecerá coisa diversa, pois a sua utilidade não se esgota nos serviços que até agora têm prestado – o cão sobreviverá!