terça-feira, 22 de maio de 2012

QUARTO DE VOLTA: O REGRESSO DO SOLDADINHO DE CHUMBO

Lá, por onde andaram franceses e ingleses pelo domínio da Europa no Séc.XIX, numa localidade onde os seus moradores insistem em trocar a acentuação tónica do seu nome, num sítio remoto, nada convidativo e mal apetrechado, assistimos ao regresso do soldadinho de chumbo, quiçá tornado efeméride por força do seu passado histórico. Estamos a referir-nos ao uso e abuso do “quarto de volta” na disciplina de obediência canina, como se tal fosse premente, insubstituível ou carregasse vantagens nunca vistas. O movimento, tornado ali em “ordem unida”, lembra as intermináveis filas para o recebimento do “pré”, muito embora a continência acabe substituída pelo ajustar do cão com a mão.

Ainda que o movimento requerido tenha como objectivo a fixação do “alto, do “junto” ou a fixação exclusiva do cão na pessoa do seu condutor, já há muito que se descobriram modos mais eficazes e céleres para esses propósitos, tais como o recurso ao reforço positivo e a instalação do “meia-volta”, muitas vezes codificado como “volta” ou “roda” de acordo com o comando alemão “zurück”. O “quarto de volta”, quando usado sistematicamente, tende ao aumento do travamento e a contribuir para uma autonomia condicionada pouco visível e nalguns casos piegas, ficando isso a dever-se aos diferentes perfis psicológicos presentes nos cães. A somar a isto, porque o ensino canino é dinâmico, exige celeridade no cumprimento das ordens, procura a minimização do esforço humano e a maximização do esforço animal, não dispensando por isso a velocidade funcional inerente aos diferentes serviços a prestar pelos cães, o “quarto de volta” acaba por atentar contra tudo isto, o que de todo não é desejável.

É evidente que cada qual dentro da sua casa é rei e isso deve ser respeitado, no entanto e porque começámos por uma evocação histórica, interessa-nos manter o mote e usá-lo para uma melhor compreensão da problemática ligada à insistência no “quarto de volta”, evolução típica dos imóveis soldadinhos de chumbo que a foram beber aos exércitos regulares no apogeu da Revolução Francesa. Por culpa dos espanhóis que inventaram a guerrilha (do castelhano guerrilla: pequena guerra), o modo de guerrear alterou-se e a partir daí a derrota dos Franceses consumou-se na Península Ibérica. Exceptuando a praxis de alguns membros da histórica e extinta escola alsaciana, não sabemos se alguma vez o “quarto de volta” fez parte do currículo base da obediência a ministrar a um cão, mas se isso aconteceu algum dia, foi lá para os primórdios dos cães de utilidade e muito antes da II Guerra Mundial, porque a partir daí tal nunca foi visto, já que as inversões do sentido de marcha sempre aconteceram de modo mais pronto pela “meia-volta” e resolvidos os “quartos” pelo auxílio do “junto”, nomeadamente nas evoluções de “direita e esquerda volver”, comandos militares e por isso mesmo distantes das práticas civis.


Assim como o “troca” (tauschen) exige nos ensinos dinâmico e nuclear modos mais céleres que não dispensam a rotação de tronco que possibilita a condução a duas mãos direccionais, também o “quarto-de-volta” deverá ceder lugar a outras formas de “junto” que garantam o mesmo propósito (o “junto instantâneo” por pirueta ou o confirmado a partir do ladear). Assim como a prontidão dos ataques deve ser igual à sua cessação, também qualquer imobilização deverá garantir a partida automática para a acção. O uso abusivo das figuras de imobilização, muitas vezes usurpando o lugar da ginástica nos 1º e 2º Ciclos Infantis (dos 4 aos 6 meses e dos 6 aos 8 meses), tem funcionado como um inibidor da velocidade e castrado muitos cães para um conjunto de acções necessárias às restantes disciplinas cinotécnias, inutilizando assim a sua vocação, propensão natural, mais-valia e complementaridade. Por outro lado, o abuso da toada “alto e pára” que o “quarto-de-volta" propicia acabará por enfraquecer os impulsos herdados que garantem a defesa do dono e dos seus bens, particularmente na sua ausência, graças à exagerada submissão operada que obstará a qualquer autonomia pretendida. E como importa dar a cada um o que é seu e a César o que é de Cesar, os adeptos do “quarto-de-volta” deveriam uniformizar os seus alunos com fardas de cotim ao invés dos comuns fatos de treino.

terça-feira, 1 de maio de 2012

GINÁSTICA CINOTÉCNICA: A FORMAÇÃO DO CÃO-GATO



Desde cedo se percebeu, quando se pretendeu usar o cão como guerreiro nos tempos modernos e treiná-lo como militar, da necessidade de um adestramento específico visando a supressão de algumas dificuldades e a potenciação das suas capacidades ou complementaridades, da emergência de pistas tácticas com obstáculos próprios e capazes para o simulacro do teatro operacional, nascendo assim, um pouco por toda a parte, o conceito e elaboração da pista táctica (nalguns casos tratada como pista de fogo), requisito que viria a revelar-se fundamental para o treino do cão de guerra. O modo diverso de fazer a guerra e a perca galopante de atribuições militares por parte dos cães, levaram ao desuso e desaparecimento das outrora famosas pistas tácticas, que subsistiriam ainda até aos alvores do cão-polícia, transição natural que tanto creditou algumas raças e uma ou duas em particular.

E como não estamos aqui a tratar do fenómeno de Tunguska e tudo tem o seu início, todas as pistas que hoje vemos tiveram a sua origem comum nas pistas militares, a menos que consideremos a actividade circense como madre de algumas modalidades ou disciplinas caninas, o que nos parece pouco provável. Apesar da novidade de propósitos ter levado a diferentes filosofias e outros tantos objectivos, o hábito sistemático de treinar cães é um legado militar sobre os cães ditos de utilidade ou de trabalho, mesmo que eles se tenham vindo a transformar em simples guardiões, caçadores ou companheiros, porque ainda definimos o treino como rigor, apostamos na constância das acções, buscamos o condicionamento, procuramos a uniformidade, o apego aos procedimentos e temos como base de todo e qualquer adestramento a disciplina de obediência, ainda que os meios para o seu alcance tenham mudado, diga-se que felizmente, em abono dos cães, na defesa da sua integridade e individualidade, defesa operada pelo reforço positivo e pelo uso requerente à memória afectiva presente nestes animais.

A passarelle já existia e dela se fazia uso antes de um “sonhador” ter inventado o agility pela observação das provas equestres, o mesmo aconteceu com os esconderijos hoje usados para o treino do cão de guarda e os retrievers são anteriores aos novos métodos de ensino. Valerão as pistas tácticas somente como referência para os actuais cães paisanos ou serão também importantes para a sua formação e capacitação? Estamos em crer que elas não perderam a sua actualidade e que muito podem subsidiar os actuais cães de trabalho, considerando o alcance dos seus indices atléticos, superior capacitação, bem-estar e longevidade, enquanto preparação específica para o trabalhado vindouro, alvos muitas vezes aquém das pistas em voga e que se transformaram no melhor dos marketings para quem tem rações ou acessórios para vender, porque não promovem o conhecimento biomecânico, o seu aproveitamento e potenciação, subsidiando ao invés o show e gozo efémero dos donos.

Para além destes aspectos, as pistas tácticas foram e devem ser concebidas para dar combate e levar de vencida os medos mais comuns presentes nos cães, geralmente transformados em traumas que inibem de sobremaneira a prestação canina e a sua saúde como um todo. Como a lista desses medos é interminável adiantaremos apenas alguns: acrofobia, acustofobia, batofobia, cainofobia, cimofobia, claustrofobia, cleitrofobia, escotofobia, ligirofobia e mictofobia, o rol é deveras extenso! As mais-valias das pistas tácticas não se esgotam nos benefícios psicológicos e na melhoria dos índices atléticos, no aumento da prontidão e na preparação específica dos cães, estendendo-se também à correcção morfológica e à melhoria dos aprumos, isto se convidarmos os cachorros para a sua prática aquando da face plástica que os ciclos infantis oferecem.

Os inimigos das pistas tácticas e que delas dizem horrores são na sua maioria gente que na década de 80 ainda não tinha atingido a maioridade e que assustada com os relatos que foi ouvindo, não raramente exagerados, as tem conotado como hediondas e desprezíveis quando comparadas com as actuais, de índole desportiva, de técnica rudimentar e de fácil resolução, o que compromete de sobremaneira o seu parecer, por não ser tangencial e não resultar da experiência objectiva que induz à comprovação. Assim também nasceu a história do lobo mau e o mito da avestruz com a cabeça debaixo da terra! Há quem também diga que a pista táctica é uma fomentadora de lesões e que por causa disso entrou em desuso, o que é falso, uma vez que o seu objectivo aponta claramente na direcção contrária e tem como prioridade a salvaguarda da integridade global dos cães, preparando-os para os perigos e desafios que encontrarão no seu quotidiano, valendo-se para isso de obstáculos idênticos àqueles com que irão ser confrontados.

O adestramento perderia o seu significado se em cada cão houvesse um gato, pelo menos na sua vertente atlética, porque o felino dispensa nesta matéria de qualquer tipo de aprendizado mercê das suas características inatas. Ao invés, o cão necessita de aprender a saltar correctamente, a distribuir prontamente o seu peso corporal pelos dois pares de membros nas recepções ao solo, o que lhe permitirá impactos menos violentos e garantirá a progressão por mais tempo e sem delongas. Ele irá necessitar de aprender a escalar, quer para prestar socorro quer para se libertar ou salvar, terá que aprender a nadar com os dois pares de membros abaixo da linha de água, caso contrário entrará em colapso e virá a morrer afogado. Terá que aprender a escapar-se do fogo e a evoluir em diferentes superfícies, pisos e acidentes (naturais ou artificiais), e ser condicionado na resolução de todo e qualquer obstáculo que encontrará pela frente.

Também terá de acostumar-se à vida urbana, à novidade de materiais e a evitar os danos que estes lhe possam causar, a vários tipos de transporte e a toda a casta de gente na progressão alinhada que lhe será exigida. Ser experimentado e aprovado nas situações em que importa socorrer-se e socorrer o seu dono, necessitando para isso de usar toda a ferramenta morfológica ao seu dispor, meta que a pista táctica não dispensa e que abraça como objectivo, resultando daí a sua actualidade e utilidade. Cortar, escalar, escavar, nadar, rasgar, rastejar, saltar, subir escadas, transportar e aprender a ocultar-se, são algumas das acções que a pista táctica lhe oferecerá e que irão capacitá-lo para a sua sobrevivência e mais-valia. A somar a isto, pelo peso do trabalho binomial que não dispensa a cumplicidade, a sua condução em liberdade e autonomia acontecerão mais cedo e tornar-se-ão mais eficazes. 

A natureza dos obstáculos propostos pelas pistas tácticas, para além de fomentar a escolha correcta dos andamentos naturais presentes nos cães pràs tarefas, tende e normalmente consegue, dotar determinadas raças de características funcionais que a sua selecção desprezou ou omitiu, algo a que a diferenciação estética não é alheia e que tem sido responsável por várias afecções e não raras aberrações. Os milagres operados pelas pistas tácticas ficam a dever-se à diversidade dos seus obstáculos e propósitos, ao respeito salutar pelos mais elementares princípios pedagógicos de ensino e à qualidade dos mestres de campo, gente experimentada na arte de ensinar cães e que disso faz uma verdadeira paixão, indivíduos que vieram para servir e que nisso se sentem bem, ainda que por vezes não sejam compreendidos, porque não esperam retribuição e sempre procuram o aprimoramento.

Uma pista táctica digna desse nome deve estar equipada com obstáculos típicos para os cachorros, ter um perímetro exterior de aquecimento, um conjunto de aparelhos para a correcção morfológica, obstáculos de diferente índole e outros específicos para o desenvolvimento interdisciplinar, ser um simulacro das acções reais que o cão terá pela frente e que exigem a sua pronta resolução. Pensar e agir ao contrário, é desejar que o cataclismo surja para que o treino aconteça. Situações destas fazem lembrar aquele crente pouco crédulo que só se lembrava de Santa Bárbara quando a borrasca estoirava.
Apesar das múltiplas vantagens que as pistas tácticas oferecem, o seu número é diminuto quando comparado com as de competição, facto que se fica a dever ao seu custo, à escassez de técnicos capazes e à ignorância de grande parte dos proprietários caninos, mais interessados naquilo que os cães têm para lhes dar do que em dar-lhes subsídios de longevidade. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A TRAGÉDIA DA FERA QUE NUNCA O FOI



A paga do justo pelo pecador é uma injustiça histórica da qual dificilmente nos livraremos, já que continuamos a vitimar e a condenar inocentes por erros de julgamento fortemente ligados aos medos, à ignorância e à generalização, a quem as conveniências ou convenções não são alheias. E quando se trata de animais, nomeadamente dos cães, o mito do “bicho papão” sempre volta à tona de água. Como tantas vezes já o dissemos, assiste-se no mundo ocidental ao holocausto e ao sacrifício desses animais, como se fossem feras por si mesmos ou oriundos duma savana alienígena nociva e potencialmente criminosa. Queremos dividir convosco a história da White, uma Pastora Alemã adulta com 22 kg de peso, extremamente meiga e carente de afecto, submissa e ligada à brincadeira com outros cães (ela coabita actualmente com uma cocker preta que adora). Segundo o que nos fizeram saber, a White foi primeiro propriedade de um emigrante brasileiro desafortunado, um indivíduo que mal tinha para comer e que a sujeitava a igual sorte, correndo por isso sérios riscos de vir a ser abandonada. Conhecedora da situação, uma vizinha piedosa decidiu adoptá-la, sem mais nem menos, movida somente pela compaixão que o animal lhe provocava. A adaptação da cadela ao novo lar aconteceu sem problemas, facilitada pelo contributo da cocker que já lá morava e pela atenção que a nova dona lhe dispensava, pessoa que ignorava por completo a raça, as suas necessidades e modus operandi, para quem todos os cães eram iguais e todos sedentos em exclusivo de mimos e afectos.


Certo dia, como já vinha sendo hábito (não sabemos com que justiça se enraizou), a dita senhora soltou as duas cadelas num parque para brincarem com os outros cães ali presentes e tudo parecia correr bem. Eis que, vindo não se sabe donde, surge um casal acompanhado por dois filhos, um mais velho e outro ainda bem tenrinho que disputavam entre si uma bola. Espevitada pelo brinquedo e pela algazarra, num ápice, a pastora alemã correu na sua perseguição, e no meio da confusão e do pânico instalados, acabou por mordiscar o infante mais pequeno, causando-lhe ferimentos superficiais, uns pequenos arranhões na pele solucionados pelo recurso ao Betadine. A polícia e o INEM foram chamados e a cadela foi recambiada para o Canil Municipal, identificada como potencialmente perigosa e ali enclausurada durante 24 horas (não ficou lá mais tempo porque tanto a dona como o veterinário do animal assumiram a responsabilidade do sequestro doméstico, num período até 15 dias, apresentando prontamente o seguro de responsabilidade civil e a licença camarária da cadela). Como consequência do ocorrido a White irá ser castrada e ver-se-á obrigada a frequentar uma escola canina, onde deverá ser aprovada na disciplina de obediência e ser alvo de aulas de sociabilização, procedimentos correctos mas tardios diante da esterilização requerida.


Como não se podem dissociar os cães dos seus donos, assistindo-se vezes sem conta a uma transferência física e anímica entre ambos, decorrendo o comportamento dos animais da indução de quem os alimenta e instrói, importa considerar aquilo que geralmente não é considerado – a pessoa dos seus proprietários, a sua contribuição para o dolo alheio e para vitimização dos cães. A actual dona da White é uma pessoa afável, positiva e que busca na energia cósmica a solução para todos os seus problemas (como ela gostaria de ter apertado a mão ao Dailai Lama, pois assim subiria mais um nível que a colocaria mais perto da divindade), uma desempregada de cinquenta e tal primaveras que vive só e que se preocupa com o avanço metafísico dos demais rumo à felicidade eterna. Não obstante, distante do império dos seus sentidos e para além da intuição que a guia, soltou a cadela no parque e gerou o disparate, sabendo que tendencialmente ela corria atrás de quem corresse à sua frente. As convicções e instintos da senhora levaram-na a desconsiderar os instintos presentes no animal, necessitados de regra e controle em prol dos demais e do bem-estar da sua protegida. Quando adquiriu a White, do alto dos seus cento e tal quilos, a piedosa senhora nunca alvitrou da necessidade de a treinar, confiante nos desígnios do bem e na experiência havida com a cocker, não procurando até esse momento qualquer informação sobre pastores alemães ou acerca do comportamento canino, omissões que se revelaram fatais para o funesto desenlace e para o dolo de outrem. Apraz-nos perguntar: quando exigiremos aos donos um atestado de robustez física e psicológica? Outros já não o fizeram? Para quando obrigar todos proprietários caninos à aprovação num curso de obediência básica onde se fariam presentes com os seus cães? O licenciamento não deveria depender disso? Será mais civilizado continuar a castrar e a matar cães?


A White depois de testada não revelou qualquer evidência de impulso à luta, somente excelentes impulsos ao movimento e à defesa, mostrando assim quanto gosta da dona e o quanto lhe está grata. Quando provocada não agride e fica-se pelo aviso, ladrando invariavelmente e nunca se valendo da ameaça que o rosnar gutural indicia. Não avança para as pessoas e receia o castigo, sociabiliza-se sem dificuldade com estranhos e facilmente se incorpora numa matilha animal espontânea e heterogénea. Deixa-se conduzir por crianças e apenas reage à presença das aves, dificuldade que rapidamente ultrapassará. Estaremos na presença de um cão potencialmente perigoso? Será ela a responsável pela violação das regras que jamais alguém lhe houvera ensinado? Certamente que não, mas será ela que pagará a ausência de uma liderança séria e eficaz! Lamentamos que os cães não possam cantar, porque atendendo ao número de castrados que virá, certamente envergonhariam, enquanto eunucos, o mais excelso coro alguma vez presente na Capela Sistina. Resta o silêncio dos inocentes!

MÃO NA TRELA E BOA VIAGEM!


Para além dos aspectos económico e logístico, e de requerer uma vasta experiência no contacto directo com os cães, a hospedagem canina exige em simultâneo algum tacto e bom senso considerando a custódia e devolução dos animais aos seus proprietários. Seria ideal que antes da entrada do cão já fossem conhecidos tanto os seus hábitos quanto o seu perfil psicológico, diminuindo-se assim os riscos de uma alteração forçada e penosa para o animal, desencanto possível pela alteração de dietas e rotinas que mais agravarão a ausência do dono e a transferência de território. À parte disto, nos canis mais acessíveis e visitados, considerando a segurança dos animais, convém que os seus acessórios de locomoção (trela e estrangulador), sejam guardados no interior dos canis e nunca nos corredores que lhe dão acesso, medida que dificultará grandemente o roubo dos cães, porque naturalmente guardarão aquilo que é seu e com mais dificuldade aceitarão o convite para sairem. Por outro lado, considerando os animais menos estáveis e mais medrosos, é desejável que o bebedouro esteja o mais perto possível deles e não junto ao corredor dá acesso aos canis, já que o medo de alguns poderá impedi-los de beber.

A IMAGO MUNDI E A IMAGO ANIME NA CINOTECNIA



Não é nosso propósito tratar aqui da relação entre a pintura ou de outras artes com a cinotecnia, muito embora ela exista e deva ser considerada para uma melhor compreensão da antrozoologia como um todo, uma vez que a arte não se escusou ao retrato e à representação dos animais desde a pré-história, emergindo os cães segundo o que foram e muitas vezes de acordo com o significado que lhes era ou foi atribuído, face à sua utilidade ou segundo a religiosidade de quem os pintou, na ancestral relação entre a natureza dos animais e a preocupação metafísica dos homens, relação essa que ainda subsiste e leva alguns a uma compreensão surrealista dos cães, fortemente ligada aos seus seus sonhos e invariavelmente distante da biologia, bem-estar e potencial individual dos animais, que sujeitos à biodiversidade, podem ou não massificar as expectativas dos seus donos, projectando assim o endeusamento ou desprezo dos cães consoante o grau de cumprimento das suas aspirações. E nalguns casos, quando a plena satisfação acontece, é melhor seguir o conselho: “cuidado com o dono que o cão está preso!”


O homem bem cedo, ao deparar-se com o lobo, viu nesse animal a possibilidade de realizar alguns dos seus sonhos, anseios e necessidades, preocupações fortemente ligadas à sua sobrevivência individual e colectiva, ao aumento dos seus proventos e bem-estar – criou o cão, um lobo que foi transformando para o seu uso e serviço até aos dias de hoje, dando-lhe, aqui e ali, caracterísiticas morfológicas únicas presas à estética de quem o tem vindo a criar e por vezes distantes da qualidade de vida e longevidade que qualquer espécie animal requer, isentando-o assim do peso dos ecossistemas e do relógio biológico que até então regulavam as suas características, viver social, ciclos de vida e proliferação. Também o chacal e outros canídeos têm sido sujeitos ou usados para o mesmo fim ou prestação, na procura de algum atavismo que melhor garanta uma tarefa em particular ou contribua para alguma transformação morfológica agora requerida e já há muito procurada na dicotomia entre a imago mundis e a imago anime.


Se considerarmos a canicultura e a cinotecnia como rebentos ou brotos da cinofilia (enquanto raiz comum), então facilmente vislumbraremos os diferentes critérios de selecção presentes em cada uma delas, preocupações oriundas da diferença de propósitos e ambiguidade de objectivos, ainda que os adeptos de ambos digam disso coisa diversa, reclamando cada um a continuidade genuína das raças que justifica a sua selecção na já gasta controvérsia entre a beleza e o trabalho, onde os sentimentos exacerbados de parte a parte não permitem a harmonia entre o agradável e o útil por força da realidade que obsta ao sonho ou vice versa.


Se entendermos a criação de cães como um acto humano de manipulação genética sobre esses animais e também à luz do actual conceito de beneficiamento, sem grande dificuldade encontraremos criadores mais preocupados com o préstimo objectivo do seu produto e outros profundamente empenhados na massificação dos seus sonhos, uns verdadeiramente apostados nas mais-valias e outros no seu gozo pessoal ou na manifestação das suas inquietudes, o que a ninguém espanta porque o cão se presta a tudo quedo e mudo.


A procura do cunho pessoal na construção das várias raças, marca indubitavel do artista que habita dentro de cada um de nós, continua a levar alguns à perpétuação de insuficiências e incapacidades que obstam à saúde, propósito e rendimento dos cães que colocam em praça, promovendo assim o seu descrédito, desprezo e esquecimento. A menos que pretenda ficar com todos, nenhum criador produz cachorros para si mesmo, mas antes para diferentes destinatários e serviços segundo as expectativas presentes em cada raça que ciclicamente precisam de ser reforçadas para que as caracterísitcas originais se mantenham e saiam exponenciadas, porque a venda de cães deve também ser entendida como uma prestação de serviço.


Remetendo-nos agora em exclusivo à classe de cães de trabalho, importa dizer que a qualidade desses animais é visível, mensurável e objectiva, ainda que se assista a um decréscimo significativo da sua capacidade laboral, porte e robustez, factores ligados à precaridade nas selecções e à teimosia injustificada de uns quantos, que apostados na satisfação pessoal remetem as raças que criam para a história, dando-lhes assim um final trágico e indigno diante dos seus pergaminhos, mercê da escolha arbitrária dos progenitores.


Como na cinotecnia é a realidade que torna possível o sonho, pergunta-se: porque se insiste na escolha de reprodutores desconhecidos e não testados? Serão os cães todos iguais em capacidade e potência? A cinotecnia não pode constituir-se num jogo de sorte e azar, necessita de certezas para que o sucesso aconteça. Desde há muito que se sabe da existência de indivíduos próprios ou impróprios para o trabalho. O cão de trabalho deve descender de cães que nele obtiveram superior aprovação, dimuindo assim os riscos de descalabro e mantendo incólumes os indíces laborais pretendidos, o que para mal dos nossos pecados nem sempre acontece, quase sempre por culpa nossa.

NUNCA MORRERAM TANTOS E AINDA IRÃO MORRER MAIS


Perante a incerteza da continuidade do actual SNS (Serviço Nacional de Saúde) como o conhecemos, parece irrisório ou mesquinho abordar aqui os problemas relativos à saúde animal, nomeadamente aqueles que afectam ou vitimam os animais domésticos, também eles de sobremaneira fustigados pela crise económica que agora vivemos, particularmente diante do fecho de algumas maternidades, da baixa taxa de natalidade e face ao aumento da mortalidadade nos mais idosos. Não obstante, alguma parte da fatia da crise acaba paga pelo sacrifício animal, o que a ninguém espanta porque sempre foi assim.


Tempos houve, no finado e nunca esquecido Império Romano, em que algumas tribos godas trocavam filhos por cães, entregando-os para o exército imperial e recebendo na permuta os animais indispensáveis à sua sobrevivência, quando fustigados pela fome ou pela escassez de alimento. Esta troca viria a revelar-se fatídica para o Império, porque os germanos adoptados tomaram a chefia e formaram a elite de muitas das legiões e hostes romanas, contribuindo assim para o final desse milenar Império. Na China, mais do que uma iguaria, a carne de cão tem vindo a socorrer várias gerações de chineses na procura de proteína animal, particularmente nas zonas rurais, porque os cães procriam duas  vezes anualmente e as suas ninhadas são numerosas quando comparadas com as das vacas, das cabras e das ovelhas, já que a carne de porco nem sempre esteve ao alcance de todos.


Pondo de parte a história e os hábitos alimentares de outros, no contexto que nos toca e importa – o dos cães na actual crise – vale a pena observar os resultados do nosso mau estado económico sobre a canicultura que temos. A ocorrência de ninhadas diminuiu significativamente e a qualidade do seu acompanhamento desceu drasticamente. A diminuição da procura gerou a baixa de preços e a intrusão de cães oriundos do estrangeiro, invariavelmente de baixo custo e de qualidade duvidosa, para isso também tem contribuído. O abandono de cães tem vindo a aumentar a par com a esterilização e cada vez mais se vêem mais cães “puros” abandonados. Muitos cachorros são dados porque não há quem os compre, acabando muitas vezes condenados à subnutrição e arredados dos mais elementares cuidados higieno-sanitários. Não poucas escolas caninas fecharam as suas portas e as que sobrevivem assistem ao decréscimo dos seus alunos. Muitos consultórios veterinários estão “às moscas” e o abandono do quadro de vacinação rasa o escândalo, pois a venda livre das vacinas nas farmácias não obriga ao preço das consultas. As pet shops desaparecem sem deixar rasto tal qual seita promissora e prontamente desacreditada, ao invés, as lojas dos chineses nunca venderam tantos acessórios para cães. A procura de rações de baixa qualidade nas grandes superfícies tem vindo a aumentar e poucas rações de marca não sentiram a crise desde que ela se instalou aqui.


Com muitos criadores à beira da bancarrota, não sendo poucos os que abandonaram já essa actividade, o número de cães para abater tem vindo a aumentar, particularmente a partir dos seis anos de idade, altura em que normalmente surgem os tumores de índole diversa e que carecem de extracção, porque as intervenções cirúrgicas são dispendiosas, escasso vai o dinheiro e as despesas continuam a crescer. O  endividamento das famílias, mais do que outro flagelo ou maleita, como se já não bastasse o folhetim sobre os cães perigosos, tem sido o maior responsável pelo abandono e abate dos cães, bichos sem perspectiva de futuro e que dificilmente acreditam nas promessas feitas prà semana dos nove dias ou para o ano de dois mil e carqueja! Diante deste panorama facilmente se compreende que só a recuperação económica poderá valer aos cães. Até lá continuarão a morrer muitos mais e somente alguns sortudos escaparão, exactamente aqueles cujos donos a crise não apanhou desprevenidos. Antes de adquirir um cão seja previdente, faça contas, veja se tem condições para o sustentar satisfatoriamente sem prejudicar de sobremaneira tanto a economia como a vida dos seus familiares.


Dizemos entre nós que “entre mortos e feridos alguém há-de escapar”, que “não há mal que sempre dure ou bem que não se acabe”, certamente aforismos de esperança perpétuados pelos sobreviventes ou vencedores de outras crises, o que implica em dizer que o desalento não deve agravar o infortúnio, pois já basta que as coisas corram mal para ainda serem agravadas pela nossa rendição. Vivemos num tempo de contenção e só o ultrapassaremos pelo apego à razão, pois só ela nos ajudará na certeza das opções e estratégias. Estamos certos que a canicultura sobreviverá e sustentará todas as actividades dela advindas, ainda que de modo diverso do actual e de acordo com outras prioridades ou prestações. Quer nos agrade ou não, qualquer crise é também uma forma de selecção natural e quem não se adapta dificilmente sobreviverá. Há que apostar na qualidade, na formação e na inovação, diminuir o número de ninhadas, não aumentar os efectivos, procurar a relação preço-qualidade nas rações, trabalhar em sistemas integrados, descobrir novos mercados e alcançar outras mais-valias, porque o tempo que corre é indubitavelmente de depuração. O sentimento que nos liga aos cães não nos deverá levar ao seu extermínio, coisa fácil de acontecer quando tomamos a emoção no lugar da razão. A inutilidade dos burros, e aqui estamos a falar dos asnos e demais gado muar, tem vindo a provocar a sua extinção e se alguns sobrevivem ainda, devem-no a um grupo de apaixonados certamente a braços com as contas. Com os cães acontecerá coisa diversa, pois a sua utilidade não se esgota nos serviços que até agora têm prestado – o cão sobreviverá! 

A REPETIÇÃO DOS COMANDOS E A DEMORA NO SEU CUMPRIMENTO


Os comandos a instalar a um cão, independentemente da linguagem utilizada e de se constituirem em código de comunicação, são ordens directas e expressas que exigem o seu cumprimento pronto e imediato. A repetição das ordens, invariavelmente, produz delongas desnecessárias ou a cessação da ordem anteriormente dada. O fenómeno é mais visível nos binómios menos aptos na disciplina de obediência e não é da exclusiva responsabilidade dos cães. Por outro lado, as constantes repetições dos condutores acabam por ser aproveitadas pelos animais, convidando-os à desobediência mercê de uma liderança imprópria ou ineficaz. Contrariamente à repetição de comandos, porque também nós enveredamos pelos automatismos fornecidos pelas rotinas, o que deve suceder é o apego constante aos procedimentos que possibilitam o cumprimento cabal das ordens, o que nos deverá levar ao uso e recapitulação das figuras ou exercícios de obediência. O apego aos procedimentos, justamente entendido como cumprimento dos protocolos, para além de possibilitar e desenvolver a memória mecânica presente nos cães, possibilita ainda outras formas de comunicação menos decifráveis para quem vê e mais eficazes segundo o particular de cada situação. O condutor que se repete, mal comparado como é evidente, lembra os tolos que julgam que por muito falarem serão ouvidos.

UNS SEM FRALDA E OUTROS PARA A RUA


Sempre que alguém adquire um cachorro pela primeira vez a pergunta volta à tona: como proceder para que ele deixe de fazer as necessidades dentro de casa? A esmagadora maioria desta gente é urbana, vive num apartamento sem quintal e pretende usar as suas cozinhas e varandas para outro fim, ainda que muitas vezes nada faça para isso. A situação lembra os jovens casais humanos que, obrigados ao trabalho e não podendo contar com a experiência ou concurso dos seus pais, condenam a sua prole ao uso das fraldas por mais tempo, não aproveitando a altura do ano mais favorável prà desejada alteração de hábitos. Depois de havermos criado 10 raças caninas e produzido cerca de 5000 filhotes, apesar de existirem raças mais limpas do que outras e das fêmeas serem por norma mais asseadas (porque ordinariamente dispensam a marcação de território), jamais vimos algum cão cuja predilecção fosse o chiqueiro.


Em contraposição, como é de conhecimento geral, será o tamanho do território colocado à disposição de um cão que o tornará mais ou menos asseado, porque normalmente ele tende a afastar as excreções do seu prato de comida e local de pernoita, muito embora hajam cães que procedam ao contrário por força de qualquer desequilíbrio psíquico, afecção nervosa ou mal-estar social. Daqui se conclui que será a escassez de território que obrigará os donos a uso de regras, tendo em conta as dimensões do lar de adopção e a necessidade duma coabitação harmoniosa autêntica.


Tal qual como a ida dos bébés ao bacio, porque os cachorros necessitam de imunidade às doenças mais comuns que os afligem e não podem de imediato andar no meio da rua, também eles precisam de ser colocados no sítio próprio para a satisfação das suas necessidades. Sabe-se que após as refeições eles tendem a urinar e defectar e será a partir dessas ocasiões que os colocaremos no sítio destinado para o seu alívio. Passado pouco tempo, também muito pelo mérito da felicitação face ao sucesso, qualquer cachorrinho adquirirá o hábito que irá garantir a higiéne doméstica.


Por volta dos 4 meses de idade deverá acontecer a transferência do local destinado às necessidades fisiológicas de todo e qualquer cachorro, que deverá transitar do interior da casa para o exterior graças à excursão a empreender. Como essa transição não irá ser automática e acontecerá mais célere nos cachorros mais valentes, convém ter paciência, saber esperar e incentivar. E como pisar bosta não traz fortuna a ninguém, nessas ocasiões, nunca se esqueça de carregar consigo o saco destinado à apanha dos dejectos, coisa que os outros agradecerão e que poderá impedir tanto a queda como repúdio de muitos viandantes. Os donos limpos sempre terão cães asseados e os disciplinados sempre regrarão os seus animais. Se tem um cão pouco asseado de quem será a culpa? Os cães não serão animais de hábitos?  

CÃES À SOLTA E DONOS NO HOSPITAL: A PRENDA DO COELHINHO DA PÁSCOA


Segundo o que nos fizeram saber e de acordo com o relato de um dos intervenientes, um grupo familiar constituído por três pessoas adultas (pai, mãe e filho), acompanhadas pelo seu cão miniatura, à solta e deitado junto delas, tomava o seu café numa esplanada dum restaurante na Capital, como era seu hábito e usufruindo do lazer típico da época pascal. Entretanto, sem que a família tenha dado conta, eis que passa pela esplanada outro cão à trela e junto ao dono. Por susto ou picardia, muito embora não seja agressivo, o pequeno cão avançou para o outro a ladrar, recebendo de imediato um pontapé que o projectou alguns metros para diante, por parte do proprietário desagrado do cão em trânsito. Indignada com a violência do acto, aquela família exigiu em uníssono prontas explicações ao agressor, recebendo em troca múltiplas agressões que os colocou a todos no hospital. A polícia chegou, prontamente sanou o conflito e tomou conta da ocorrência. Por certo não era esta a prenda que aquela gente esperava do coelhinho da Páscoa.


Vivemos momentos conturbados e os ânimos andam exaltados, qualquer palha gera um conflito, a violência anda à flor da pele e a revolta é agravada pela precaridade orçamental de cada um, por força do desemprego e da actual política económica de contenção, que a muitos tem levado ao endividamento e à perca das suas próprias casas. Daqui exortamos os nossos leitores para que circulem sempre com os seus cães atrelados, junto de si e como a Lei manda, mantendo especial atenção no cruzamento com outras pessoas ou cães, pois o rastilho está pronto e sem dificuldade se acenderá, até porque o azar tende a bater à porta dos mais desprecavidos. Entretando e diante da ocorrência que aqui narrámos, agiganta-se a necessidade de sociabilização de todo e qualquer cão, independentemente do seu tamanho, raça, sexo ou idade, trabalho que realizamos e que aconselhamos outros a fazê-lo.

O QUE DEVERÁ SALTAR À VISTA?


Como seguimos o método de Trumler e aceitamos cachorros para treinar aos 4 meses de idade, já nos acostumámos a avaliá-los de modo tangencial e objectivo, antevendo à partida como virão a ser quando adultos: se grandes, pequenos, robustos ou pernaltos, verdades que a experiência nos ensinou ao longo de décadas. Nos cães ditos de utilidade, mormente entre os de porte médio e de morfologia rectangular, independentemente de serem lupinos, vulpinos, molossos ou bracóides, o que deverá saltar à vista nos cachorros será a robustez dos seus membros e a propriedade dos seus aprumos, pois aos 4 meses o cachorro robusto é-o essencialmente por isso. Quando esse destaque não é visível, podemos estar na presença de dois casos atípicos e infelizmente bastante comuns: na presença de um futuro animal pequeno ou perante a evidência dum vindouro cão pernalto. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

TARDE PIASTE!

A expressão acima é tipicamente beirã, duma região onde Portugal assenta as suas raízes mais profundas e é aplicada a todo o indivíduo que chega tarde, não falou atempadamente ou que perdeu a oportunidade há tanto esperada, alcançando por isso mesmo uma situação irremediável. O adestramento renova-se a cada dia, vai adiante pelos avanços da etologia, estuda a antrozoologia, usufrui do conhecimento genético, adapta-se aos novos desafios do quotidiano e actualiza-se pela contribuição das novas tecnologias. Desprezar as novidades ou avanços colaterais que podem subsidiar e optimizar a arte de ensinar cães é também piar tarde demais, permanecer num pretenso puritanismo típico de outras eras, geralmente abraçado por sectários e normalmente remetido aos museus de cariz etnográfico, porque os diferentes métodos em uso nas actuais escolas caninas são somente metas para o alcance de distintos objectivos, muitos deles já desactualizados ou deslocados e outros alcançados a tosco modo, cujo secretismo não consegue esconder práticas ou técnicas menos conseguidas e por conseguinte violentas para os cães. Assim como nenhum método é perfeito, também nenhuma escola conseguirá alicerçar-se sem o contributo de algum, porque as lacunas ou dificuldades que apresenta aguçam o engenho, levam à descoberta que induz à inovação e procedem à sua lapidação. O método enquanto meta para o alcance dos objectivos sempre estará cativo à realidade histórica do seu tempo, preso ao momento da sua adopção e às expectativas humanas dessa época. Nos nossos dias onde a informação dispara ao ritmo das balas e quase tudo é mutável, o que dificulta deveras a nossa adaptação e é também causa de muito desastre por força do desajuste pergunta-se: será desejável manter incólumes os métodos de treino caninos como até aqui? Responderão eles aos novos desafios e garantirão por si mesmos a salvaguarda dos cães? Tempos houve em que essa salvaguarda foi por demais omitida, cite-se como exemplo e não foi o único, o uso que lhes deram os russos por ocasião do cerco de Stalingrado. A relação homem-cão alterou-se desde então, continua a não dispensar a cumplicidade que gera a parceria, mas tem vindo a substituir o uso pelo bem-estar que garante a companhia, ainda que à posteriori possam ser exigidos aos cães tarefas milenares ou outras de acordo com a novidade dos tempos (finalmente o cão ganhou direitos, apesar de continuar legalmente entre nós como um pertence do dono, tal qual um frigorífico ou uma prótese). A aposta na salvaguarda canina é agora o objectivo primeiro e central do adestramento e a sua substituição, para além de poder promover a quarentena ou o abate dos animais, poderá reavivar ainda o tempo em que os homens andavam a jogar ao pau com os ursos!
Tem sido a procura da optimização na comunicação que tem norteado o avanço dos métodos ou a sua novidade (procura-se hoje o aproveitamento de todos os cães e não somente os benefícios específicos presentes nalguns). Contudo, em todos eles subsiste a necessidade de reavivamento dos códigos e persiste a dificuldade na comunicação à distância, quando os donos se encontram ausentes ou longe da vista dos animais, porque as adaptações produzidas pelo treino, sendo artificiais, não têm igual duração, sucumbem perante a ausência das rotinas e muitas delas carecem da presença activa da liderança para o seu despoletar ou cumprimento, insuficiências que continuam a limitar quer o tempo quer a operacionalidade dos cães ditos de trabalho, transformando desse modo as suas tarefas num jogo de sorte e azar. Por causa disso, infelizmente, vemo-nos sujeitos a um policiamento canino condicionado e de curta duração, à menos valia do cão perante a superioridade binomial e entregues à esperança que espera o acerto. Por melhor adaptado ou equipado que esteja um cão, quando isolado e entregue a si próprio no desempenho de tarefas específicas, a sua ineficácia e vulnerabilidade não deixarão de aumentar, o que geralmente coloca em risco tanto o serviço quanto a sobrevivência do animal, logro que não queremos e destino que abominamos. Assim, o isolamento dos cães relativo à liderança tem sido responsável por um sem número de descalabros e desastres, desventuras que não têm poupado cães e pessoas, ceifando vidas, penalizando inocentes e gorando expectativas. Torna-se mais do que evidente a necessidade da omnipresença do dono sobre toda e qualquer acção canina, garantindo dessa forma a operacionalidade dos cães e a sua sobrevivência, labuta fisicamente inalcançável e um paradoxo perante a procura da complementaridade animal. Como poderemos fazer-nos sempre presentes mesmo estando ausentes?

Importa primeiro classificar o trabalho escolar como oficinal (essencial, básico, genérico e primário), que apesar de não poder ser dispensado e ser uma meta a respeitar, sempre será inconsequente se não produzir alteração e não transitar para a realidade adjacente à instalação e serviço dos cães transformados em alunos, pois é na escola que acontece a sua codificação e se envereda pelo concurso das diferentes linguagens (gestual, sonora e verbal), consoante a evolução dos distintos membros de cada binómio e a natureza dos seus encargos. Como a supremacia da linguagem verbal sobre a gestual é indubitável, considerando a brevidade das respostas, ela jamais deverá ser abandonada, porque será a responsável pelo transporte de homens e cães para outras formas de entendimento recíproco, abrindo em simultâneo novas portas e apossando-se da novidade tecnológica ao alcance de cada um. Entretanto, importa não desvalorizar a importância da mímica, apesar dela não prescindir da presença física dos condutores, porque pode garantir ao mesmo tempo a coabitação harmoniosa do cão em sociedade e todo um conjunto de acções ofensivas ou defensivas silenciosas, perceptíveis para quem as executa e imperceptíveis para quem abusa. Tanto o apito de ultra-sons como o clicker servem exactamente o mesmo propósito e são geralmente usados e bem sucedidos nas situações de retorno e nos automatismos de travamento ou imobilização. Como estas formas de linguagem sonora não dispensam a presença do emissor e sem ele não há emitente, elas só são válidas até onde se fizerem ouvir. Não obstante (mais o clicker do que apito ultra-sons), podem constituir-se em meios eficazes para a obtenção da esperada codificação escolar (quando associados à recompensa).
Todos já tomámos conhecimento do trabalho operado por distintos biólogos com uma ou várias espécies animais, especialmente com aquelas menos conhecidas ou em vias de extinção, quando colocam nos indivíduos dessas espécies coleiras sinalizadoras ou emissores de vária ordem que possibilitam o seu controle e detecção por ondas rádio ou por satélite, o que lhes garante um estudo mais aproximado dos seus hábitos, número de exemplares e distribuição geográfica, esforço em tudo suportado pelo avanço tecnológico ao seu dispor. Se invertermos a polaridade dessa novidade e dela fizermos uso, alcançaremos eficazmente um melhor controlo dos nossos cães e melhor garantiremos a sua salvaguarda, à distância e quando ausentes, exactamente nos momentos de menor desempenho e maior vulnerabilidade para os animais (quando isolados). Neste momento estamos a transitar os comandos verbais para mensagens telefónicas ou radiofónicas, valendo-nos para isso de walkie talkies e telemóveis, usando preferencialmente os segundos pelo menor alcance dos primeiros, acessórios que colocamos nos coletes de pistagem ou nos próprios para o passeio dos cães. No caso dos telemóveis, como podemos seleccionar vários toques para o mesmo destinatário e substitui-los por distintas mensagens de voz, estamos a proceder à substituição dos comandos por mensagens telefónicas e a habituar os cães à novidade emissora. Como esta fase experimental se tem revelado animadora e os resultados surpreendentes, a comunicação via telemóvel virá a fazer parte do currículo normal a ministrar a todos os binómios desta Escola.
As vantagens deste tipo de ensino, em tudo dependentes do prévio trabalho oficinal a desenvolver em classe, são imensas e dão resposta às mais variadas situações a que os animais se encontram sujeitos, efectivando-se como normas e subsídios para o seu trabalho e sobrevivência. Imagine-se o caso dum cão que se perde ou desnorteia, por razão instintiva ou devida à novidade territorial. Com um simples toque se avisa a quem pertence e quem deve ser contactado, evitando-se dessa forma o seu abandono acidental e possível abate. Também o cão guardião tendencialmente guloso poderá ser constantemente alertado para a recusa de engodos e o menos disponível para o despoletar das acções, com o dono dentro de casa e entregue aos seus afazeres. Mediante o telemóvel é também possível ordenar operações de “ronda” com o dono ausente ou entregue a compromissos sociais de vária ordem, quer se encontre dentro ou fora do País. Toda e qualquer manobra evasiva ou invasiva poderá ser despoletada por um simples toque, assim como qualquer acção ou a sua cessação. Para além disto e a validade deste tipo de ensino não se esgota aqui, poderemos ainda alertar à distância que não toquem ou dêem guloseimas ao nosso cão, bastando para isso “teclar” a mensagem certa. Não merecerá o cão ter um telemóvel? O avanço tecnológico serve vários fins e propósitos, subsidia qualquer actividade e facilita extraordinariamente a comunicação à distância, vantagem a considerar pela cinofilia e cinotecnia, enquanto vocações que se espraiam na comunicação interespécies. Se os pastores do passado/presente tivessem telemóvel, os seus braços, pernas e gargantas agradeceriam, pelo desuso das pedras, da correria e do assobio e os cães seriam poupados ao constante movimento de vai-vem na procura do retomar das ordens. Quem não aproveitar os avanços na tecnologia das comunicações pode piar tarde ou pior do que isso: chegar tarde, perder o pio e vir a ser ultrapassado.

VENHAM OS DIFÍCEIS: AQUELES QUE OUTROS REJEITARAM E NÃO LHES VIRAM QUALQUER PRÉSTIMO!

Continuamos a aceitar todos os cães nas nossas fileiras, especialmente aqueles a quem não lhes foi reconhecido qualquer préstimo, os portadores de qualquer desvio (por mais grave que seja) e todos aqueles a quem o ensino não produziu alteração, tidos como resistentes, dominantes e com pouco apego ao conhecimento. A experiência ensinou-nos que por norma são excelentes cães, nunca tigres ou leões, somente companheiros mal compreendidos e por vezes mal amados. A todos eles estendemos o nosso caloroso “bem-vindo”.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

MOLHAR A SOPA E ENTORNAR O CALDO: A RENDIÇÃO DO CÃO DE GUARDA

Temos como experiência que o que é bom nunca se perde e que actualmente apenas 2% dos cães ditos para guarda o virão a ser de facto, daqueles capazes de aguentar um ataque de intensidade igual ou superior àquele que causam e ainda contra-atacar. Já depois da II Guerra Mundial, na transição do cão de guerra para o policial, mercê dos exageros e de uma maior consciência por parte dos cidadãos dos seus direitos e dos direitos dos animais, a selecção de cães sofreu profundas alterações, optando-se pela substituição do ataque deliberado pelo provocado ou instigado, substituindo-se a valentia que apenas necessitava de travamento por um maior impulso ao conhecimento nos cães ditos de utilidade policial. Com a entrada em vigor das recentes leis relativas aos cães perigosos na Europa, muitas raças acabaram desprezadas e o seu número diminuiu significativamente, acontecendo em simultâneo a eliminação de algumas variedades cromáticas mais propensas à agressividade dos estalões aos quais pertenciam até então (tal é o caso dos cães vermelhos irremediavelmente afastados da construção da maioria dos molossos e lupinos actuais). Salvou-se o Malinois, um cão que não necessita de maiores trabalhos para se lançar e usar os dentes, porque tal lhe é instintivo e por isso mesmo automático, pese embora o facto de ter uma baixa potência de mordedura e de dificilmente aguentar um contra-ataque sério, valendo pela surpresa e força de impacto, considerando o carácter imprevisto dos seus ataques e a velocidade que lhes imprime. No entanto, subsistem por cá alguns exemplares ditos desta raça de oriundos do Leste, apimentados de tudo um pouco e com diferente disposição de dentes, tipo de mordedura e díspar conformação de focinho entre si. Pondo de parte a excepção que ao Malinois pertence, a maioria dos cães aproveitados para guarda é-o por força da indução que aproveita os impulsos herdados que sustentam um desempenho mais ou menos satisfatório, desempenho esse que será melhor ou pior alcançado pelos pilares da simulação que se irão constituir em experiência directa (treino aturado e experiência feliz: o cão parte na certeza da vitória). Infelizmente temos constatado que o aforismo popular “quem tem medo compra um cão” não perdeu a sua actualidade e tende a perpetuar-se, apesar de aos medrosos, em abono dos cães, não lhes ser recomendável tal aquisição, porque invariavelmente morrem de medo dos seus próprios companheiros e acabam por esfrangalhá-los, temendo pelo dolo que eventualmente possam causar-lhes. Vezes sem conta e ao longo dos anos temos ouvido a sentença: “se o meu cão me morder, só o fará uma vez porque de imediato o matarei!” Para além dos medrosos que desde cedo carregam nos cachorros abusivamente, rebentando desse modo parcial ou totalmente os impulsos herdados inerentes à prestação que lhes é requerida, também aos coléricos e impacientes falta o tacto e a liderança necessários à sã capacitação dos cães, porque não raramente são parcos na paciência que induz ao esmero e à concentração dos seus auxiliares. Tanto uns como outros, inadvertidamente, tendem a molhar a sopa, a agredir os animais violentamente perante dificuldades de comunicação, respostas erradas ou pretensos disparates, entornando assim o caldo que sujeitará os cães à rendição, experiência que lhes será fatal diante de confrontação e frente a invasores violentos. A última coisa a que se deve induzir um guardião é à rendição, porque tal é impróprio aos cães de guarda e enterra de uma vez por todas a cumplicidade que é exigida a um binómio, já que a alma do cão provém da vontade do dono e o bicho parte na certeza do apoio do seu condutor. Como seria bom que a Lei exigisse a todos os proprietários de cães um atestado de sanidade mental. Com isso evitar-se-iam muitos disparates, práticas clandestinas, um sem número de vítimas e muitos animais seriam poupados aos maus-tratos

QUE SE EXPLODA!

Gostaríamos que o episódio que vamos narrar nunca tivesse acontecido, que fosse obra de ficção ou uma simples parábola. Infelizmente a história é verdadeira, repete-se vezes sem conta e tarda em desaparecer. Ao anoitecer um jovem sai com a sua cachorrinha à rua, não se vê vivalma, a noite cai serena e a escuridão impera. Deliciados pela companhia um do outro, homem e cachorra circulam felizes, atrelados e entregues à afeição que os une, felizes pelo trajecto comum na evasão que ele oferece. Inesperadamente e vindos não se sabe donde, surgem cinco cães caçadores, quatro bracos alemães e um epagneul breton, que de imediato se lançam sobre a cachorrinha atrelada de 4 meses, atacando-a em matilha e furiosamente, como se de uma espécie cinegética se tratasse. Apesar dos esforços do dono (aflito, desarmado e surpreso), que em vão tenta afastar os predadores, os ataques sucedem-se, um atrás do outro e cada um deles pior do que o primeiro. De barriga para o ar e totalmente vulnerável, a pobre cachorra suporta todas as investidas, o seu dono temendo o pior, opta por gritar e pede socorro. O caçador quebra o silêncio e finalmente chama os cães, sem tão pouco se inteirar ou interessar pelo estado da pobre cachorra, numa atitude clara de indiferença do tipo “que se exploda!” Milagrosamente a cachorrinha sobrevive, sujeita a umas quantas costuras e à perfuração dos pulmões. Contudo o seu estado é crítico e o seu internamento torna-se urgente. Encontra-se agora em recuperação e indicia que irá recuperar, oxalá que completamente. O caçador nunca se fez presente, apesar de morar perto do proprietário da desafortunada convalescente. Exactamente por ser vizinho e querer salvaguardar uma política de boa vizinhança, o proprietário da cachorra não apresentou queixa, o que nos soa a estranho atendendo aos seus direitos, à gravidade dos ferimentos infligidos e ao bem-estar dos demais cães nas redondezas. Em situações como a ocorrida, dependendo da idade e do particular de cada animal (sexo, robustez e estado físico), desde que daí não resulte maior dano para os cães tornados vítimas, aconselha-se que se peguem os cachorros ao colo perante ataques deste género e que desatrelem os adultos para melhor se defenderem. Em qualquer dos casos, porque estamos perante a investida instintiva de uma matilha animal e em desvantagem numérica, os proprietários dos cães constituídos em presa deverão auxiliar os seus companheiros no contra ataque, respondendo às agressões com uma intensidade igual ou superior àquela de que eventualmente virão a ser vítimas, o que infelizmente não está ao alcance de qualquer um. Um condutor mais experimentado conseguirá identificar qual o cão indutor aos ataques, o despoletador das acções, escolhendo-o como alvo da sua resposta, o que naturalmente e após o dolo infligido levará à debandada do grupo. De qualquer modo e atendendo às possíveis consequências ou transtornos de vária ordem, convém que a escolha dos percursos prà excursão binomial não reserve surpresas tanto para homens como para cães. Primeiro há que reconhecer o terreno e aquilatar os riscos, tarefa melhor alcançada durante o dia. Circular em áreas bem iluminadas possibilita uma defesa mais atempada, pronta e apropriada, já que os perigos de emboscada são menores. Todo e qualquer percurso deverá permitir uma visibilidade mínima de 50 metros ao seu redor e em todas as direcções, o que só por si conseguirá dissuadir o ataque de um ou mais submissos, normalmente a trabalhar na frente do cão dominante, carenciados de camuflagem e peritos em ataques de surtida. Aqui como na vida, mais vale prevenir do que remediar.

TOMA LÁ, DÁ CÁ: O CÃO DE MÃO EM MÃO

Como o que é dado não custa a ganhar, muitos dos cães adoptados acabam nas mãos de quem não os resgatou, arcando estes com a responsabilidade dos ímpetos ou desejos doutros, seus parentes, amigos ou conhecidos. Recentemente uma jovem foi buscar a um canil de adopção um cachorro dito mestiço de Pastor Alemão com Rafeiro Alentejano. A paixão pelo animal desfez-se em dois meses e meio, porque o diabrete não parava quieto, não gostava de estar sozinho, tudo roía e os estragos começavam a avultar-se. Segundo nos fizeram saber, foi recambiado para a quinta de uns parentes lá na província, para um lugar mais amplo e por onde andará à vontade sem causar maiores transtornos. É caso para se dizer: para grandes males, grandes remédios! Queira Deus que vá para melhor e que ali permaneça feliz para sempre, o que raramente acontece e pode acabar da pior forma para os desgraçados dos animais sujeitos a este fado (abandonados mais uma vez, atropelados, envenenados, electrocutados, abatidos na caça, entregues ao bom serviço dos canis terminais municipais, etc.). Até quando trataremos os cães como trapos que não usamos? Pior do que isto só as mães que abandonam os próprios filhos! Pense bem antes de adoptar um animal, veja se tem condições para o ter e informe-se primeiro, pois ele é um investimento para uma dezena de anos (no mínimo).

A SÍNDROME DO CÃO QUE EU TIVE

Mal vai o cão cujo dono pensa noutro que já teve e não vê no actual o muito que ele tem para dar, porque sempre será julgado por comparação e ver-se-á obrigado a ser aquilo que não é. É do conhecimento geral que não existem dois cães iguais e com rara propriedade o confirmarão os criadores votados à endogamia, porque por mais idênticos que sejam os animais produzidos, sempre subsistirão algumas diferenças pelo peso da individualidade. O apego declarado ao cão que já se foi tende a menosprezar o rendimento do recentemente adquirido, porque as diferenças obrigam à novidade de procedimentos e a disponibilidade operacional do dono, traído pela afeição e ávido de um clone autêntico, não será certamente a desejável, o que condenará o trabalho do cão ao sub-rendimento, a um aproveitamento parcial e à obtenção de respostas artificiais de difícil instalação. Este fenómeno é visível nos condutores que no passado tiveram em mãos um cão excepcional ou tido como excepcional, normalmente produto do trabalho alheio que não reclamou do dono grande empenho ou esforço em demasia. Graças à bitola do dono, presa ao passado, imprópria e alheia ao cão, o animal tornar-se-á evasivo, desatento e pouco interessado, factores advindos da ausência dos verdadeiros afectos que tarde ou nunca lhe chegam. A relação entre ambos dificilmente chegará à cumplicidade e o bicho enveredará justificadamente por tarefas a modo próprio, tornando-se desatento para aquelas que lhe serão solicitadas. O mundo do adestramento tem o seu esqueleto nos afectos, tanto que a mão que acaricia é ordinariamente a mesma que despoleta a ordem e é seguida. Como nenhum ânimo é válido se provir do desgosto ou desalento e o carácter dinâmico do adestramento assenta sobre o aproveitamento da novidade, importa alertar tais donos e convidá-los para a unicidade e mais-valia dos cães que conduzem, colocados à sua disposição e sedentos por apresentar trabalho. Ensinar cães é semear esperança nos condutores, despertá-los para a realidade e fomentar-lhes a parceria. E nisto que Deus nos conserve!