quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Muda do pêlo e higiene
Os 12 de Inglaterra e as 24 da Acendura
U.S. Team: Megan Lavelle / Champ
O Carlos e o Tote
O Carlos chegou-nos primeiro com o Toureiro, depois com a Luna e finalmente com o Tote. Assim tem sido o seu caminhar entre os CPA’s. Com o Toureiro pouco trabalhou, porque o animal apresentava algumas insuficiências que lhe dificultavam o treino, com a Luna labutou afincadamente e excedeu as expectativas, com o Tote encontrou um companheiro, uma alma gémea como hoje se diz. A união e a cumplicidade entre ambos são tão grandes que é impossível pensar num sem imaginar o outro. O Carlos tem a sobranceria típica dos ribatejanos (garbo), um fervor nas veias que o torna excêntrico, vibra com pequenos nadas e espraia-se pela emoção. O Tote dá menos nas vistas e segue o dono por toda a parte, silencioso e quase ausente, como quem se esconde e foge à vista. Há seis anos que fazem equipa e têm andado por todo o lado, suscitando admiração e apreço, enaltecendo o nome da Escola e alegrando as crianças. A relação binomial excede a encontrada entre o apoderado e artista, lembra a união entre o cavalo e o cavaleiro numa tarde de “ sol e sombra”, porque não se sabe onde acaba um e começa o outro. Ambos têm servido de inspiração e sempre se fazem presentes quando são chamados. Olha o diabo, Passo Doble e Olé!
O outono das otites
A propensão pràs otites é maior nas Estações intermédias e no Outono acontecem com frequência. Otite é um termo técnico que designa as inflamações do ouvido e elas são mais frequentes nos cães de orelhas grandes e tombadas (peludas ou não). O facto dos CPA’s terem orelhas erectas não os isenta do problema e alguns acabam assolados por ele, não havendo cuidado na prevenção, alguns poderão acabar com elas irremediavelmente tombadas. São várias as causas que contribuem para a otite e as mais comuns são: entrada de água no ouvido, infecções bacterianas ou por levedura, alergias, doenças de pele, stress, queda de imunidade, presença de corpos estranhos, infestação parasitária ou tumores. Os principais sintomas são: sensibilidade, secreção com cheiro desagradável, canal auditivo avermelhado, inclinação e meneio da cabeça e ao desconforto que leva ao coçar com a pata. E porque é mais sábio prevenir do que remediar, aconselhamos o tratamento preventivo contra as otites, a conselho e parecer do veterinário assistente.Caderno de ensino: XXXIII. O "atenção"
Comandos em liberdado e detecção de intrusos
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
A folgança dos zés-pereiras e a infelicidade dos seus cães
No Sul do País confunde-se frequentemente os “Zé Pereiras” com os “Cabeçudos” nos desfiles carnavalescos, ainda que ambos sejam parte integrante dessas folias e possam complementar-se. Os “Zé-Pereiras” são grupos de foliões que tocam instrumentos de precursão (tambores, bombos, pífaros, gaitas de foles e concertinas) que geralmente antecedem ou anunciam o início dessas festividades. “Cabeçudos”, como o próprio nome sugere, são carantonhas satíricas e não raramente são caricaturas fiéis de pessoas a ridicularizar. Entre nós, na Acendura Brava, o termo “Zé-Pereira” destina-se àqueles que apenas desfilam com os seus cães ao fim-de-semana, quando vêm à escola e que nos restantes dias os mantêm arredados da sua presença, como se eles não existissem ou fossem pesado fardo. Quando um “Zé Pereira” dos nossos tem muitos cães é alcunhado de “Cabeçudo”, porque tem mais olhos que barriga, não vê a infelicidade que causa e dorme satisfeito sobre o assunto, ainda que viva no limiar da pobreza e possa prejudicar com isso a sua pessoa ou o seu agregado familiar.
Quando um “Cabeçudo” se transforma em criador a situação agrava-se, porque as despesas não dão para os gastos, os cachorros são vendidos abaixo do preço de mercado e a sua sorte poderá não ser a melhor, já que os oportunistas, sabendo que os bons negócios acontecem na compra, irão vendê-los a outrem ou descartá-los-ão, quando desinteressados e considerando o baixo prejuízo. O “Cabeçudo” raramente paga a pronto, vai pagando aos soluços e sempre tem débitos a vencer, corta na barriga das gestantes e pode abusar delas, procura desparasitantes e vacinas mais baratas e tenta despachar os cachorros o mais cedo possível, porque não lhe sobra outro remédio e a situação agrava-se dia após dia. Debaixo deste cenário decrépito e ruinoso, não irá ser capaz de operar melhoramentos nas suas instalações, de dar melhores condições aos cães, de adquirir melhores reprodutores e publicitar eficazmente o seu produto, porque cada ninhada agrava a sua já insustentável economia. Diga-se em abono da verdade, que a existência de intermediários, acima tratados como oportunistas, é benéfica neste caso, porque vendendo os cachorros ao preço de mercado, impedirão o “Cabeçudo” de prejudicar outros criadores, gente apostada na qualidade dos seus cachorros e que tenta ver rentabilizado o seu trabalho, muito embora saiba de antemão que a criação de cães não lhes irá aumentar a riqueza. Nasce-se “Cabeçudo” e dificilmente se morre doutra forma, é isso que a experiência nos tem ensinado, a menos que alguém tome as rédeas do seu destino e movido pelo amor contrarie a sua inclinação suicida.
Mas voltemos aos “Zé-Pereiras”, àqueles que ignoram os seus cães ao longo das semanas e cujo rendimento escolar isso reflecte, condutores de desfile e objecto de zombaria, anunciantes da paródia que os expõe ao ridículo e não poupa os seus cães. Alguma desta gente lembra os macacos que saltam de galho em galho, porque pulam de escola em escola na procura de sucesso, como se a ausência do seu gozo não resultasse da sua exclusiva irresponsabilidade. Mais cedo ou mais tarde, porque o progresso não é visível, o “Zé Pereira” dir-nos-á adeus, rumará para outras paragens (as do seu contentamento) e o cão retornará ao seu chiqueiro, tal qual porco que aguarda alimento e que fica entregue aos seus desígnios, gordo e reluzente (se for esse o caso e nem sempre é). Com o passar dos anos iremos esquecer-nos dele (do condutor), a menos que tenha sido por demais bronco, doutra forma, lembrar-nos-emos somente do infeliz do cão, um companheiro subaproveitado a quem por má sorte não pudemos valer. Temos por hábito e nisto nos conserve a Divina Providência, porque buscamos alteração e apostamos no bem-estar dos cães, denunciar estes comediantes e alertá-los para a precariedade do seu desempenho, que sendo impróprio e insuficiente, relegará os seus fiéis companheiros para indíces de aproveitamento contrários à sua natureza e mais-valias, comprometendo dessa forma a cumplicidade possível e desejável. Os “Zés” serão sempre Zés, independentemente de se chamarem Antónios, Marias, Manueis ou Joaquins.
Depois de muitos anos a trabalhar cães, a ouvir e observar milhares de donos (cerca de 4.000 nos últimos 20 anos), atendendo ao sucesso no adestramento, descobrimos que por detrás do êxito persiste o amor que o sustenta, um sentimento filial e fraternal que não se envergonha, que produz alteração e vai adiante, que depura a ambição, desperta a tolerância e constrói a inevitável relação de paridade. Descobrimos também que o empenho e à habilidade dos condutores se encontram ligados ao seu modo de ser e à sua prestação noutras áreas, resultando como complemento ao seu quadro de afeições, viver social e atributos, porque o estar nos cães acaba por desnudar o equilíbrio, as aspirações e o trajecto dos indivíduos devido ao dualismo das vontades (as dos donos e as dos cães). Um condutor desleixado e mandrião, vulgo calinas e para nós “Zé-Pereira”, terá alguma dificuldade em comportar-se em casa e no emprego de outro modo, já que o cão é doméstico e exige serviço. Infelizmente, ninguém será melhor por ser condutor de cães, mas os mais aptos sem dificuldade abraçarão o adestramento. Havendo excepções, porque o concurso ao adestramento pode ser um escape, resultar de uma veleidade ou de um comportamento marginal, o tratamento dado aos cães não diferirá em muito do dispensado ao agregado familiar (conjugues, pais e filhos), que não sendo de imediato manifesto, não demorará a revelar-se, porque as dificuldades apressam tanto as qualidades quanto as incapacidades. E nisto, os cães levam-nos à leitura correcta dos seus condutores, pelo teor da resistência que oferecem e pelas atitudes tomadas como resposta.
A recuperação de um “Zé-Pereira” é uma tarefa muitas vezes inglória e votada ao fracasso, porque resulta de uma personalidade que adoptou um tipo de carácter que não a contrapõe, o que nos remete para problemas pedagógicos alheios e anteriores ao treino propriamente dito. O facto do adestramento ser uma actividade lúdica e encarado como tal, também não ajuda, porque ele é sustentado por adultos pouco dados a mudanças, cuja plasticidade é menor e a quem as alterações provocam algum desconforto. O mesmo não se passa com os pseudo “Zé-Pereiras”, os jovens que nos são confiados e nos quais alcançamos alteração, mercê da regra que estabelece o método e dos procedimentos que garantem o êxito. Porém, considerando o seu número em relação aos demais, cada vez mais temos menos jovens, fenómeno ligado à novidade de interesses e à actualidade social das famílias, onde cada membro se ocupa super ocupado e distante das actividades dos outros, muitas vezes entregue a si próprio e desterrado para o virtual. Assim como nenhuma escola será digna desse nome se não produzir alteração, também nenhuma subsistirá sem o contributo dos jovens. Conhecedores dos benefícios prestados pelo adestramento, intimamente ligados ao exercício da liderança, à formação de um carácter forte e ao equilíbrio entre a emoção e razão, alguns pais (também eles verdadeiros “Zé-Pereiras”), inscrevem os seus filhos nas escolas caninas, esperando delas aquilo que naturalmente é sua incumbência, porque não tiveram tempo ou “a vida não lhes permitiu”, o que transformará a escola canina num verdadeiro ATL (Actividades de Tempos Livres), sobrecarregará os instrutores e levará ao desinteresse dos instruendos. Apesar de tudo, meia dúzia deles permanecerá entre nós, manterá amizade connosco e ficar-nos-á grata. O nosso êxito junto dos jovens tem sido possível pela participação conjunta dos pais nas actividades que levamos a cabo, acção que incentivamos e que muito nos apraz.
Falta falar da infelicidade dos cães, animais emocionais que por desalento alcançam várias doenças (físicas psicológicas) por força da sua dependência social. Os “Zé-Pereiras”, quiçá por hedonismo e por terem uma cabeça desproporcionada, ainda que possa ter uma aparência normal, tratam os seus cães como lobos, como se eles não precisassem da intervenção humana e não lhes solicitassem ajuda. Estes cães passam a semana praticamente isolados, confinados em pequenas divisões ou varandas, em quintais exíguos ou à molhada com outros cães, viver social impróprio que entrava o seu desenvolvimento físico e cognitivo, que apela aos seus instintos e obsta à parceria. Alguns deles irão desenvolver diferentes taras e a maioria manifestará um profundo desencanto pelo treino, estranhará a liderança e desencantar-se-á pelos exercícios. Contra natura irão envelhecer mais rapidamente, engordarão com mais facilidade, perderão mobilidade, tornar-se-ão silvestres e serão precocemente atingidos por várias doenças. O cativeiro forçado dos animais tem sido responsável pelo surgimento de doenças típicas que atentam contra o seu bem-estar e qualidade de vida. Ainda que algumas raças caninas possam ter doenças típicas da sua raça, todos os cães sofrem misérias quando sujeitos ao isolamento. O que dá gozo ao “Zé-Pereira” é ter um cão e o que mais o maça é ter de cuidar dele! Ele não escova o cão diariamente, raramente o tira do cárcere, atrasa o calendário de vacinação, esquece-se de o desparasitar, dá-lhe rações baratas, deixa-o apanhar otites e, como está sempre com pressa, deixa de olhar para ele, não vá o bicho importuná-lo ou causar-lhe problemas de “consciência”. Libertar os cães do corso carnavalesco é um imperativo e para que isso aconteça é necessário dar combate aos “Zé-Pereiras” que nos aparecem. Eis aqui um dos nossos propósitos.O chacal e os cães de Sulimov
Todos os criadores experimentados, depois de conhecerem afincadamente os seus cães e as raças que produzem, as suas menos valias e virtudes perante novos desafios, porque são criadores e visam o beneficiamento, nalgum momento hão-de sonhar com a hibridação, quer aproveitando as raças já existentes quer recorrendo aos diferentes cães silvestres (selvagens), tentando contrariar algumas lacunas provenientes do eugenismo operado até aqui, fortemente estético e nem sempre vocacionado para a utilidade. Tal foi o caso de Klim Sulimov, um russo a trabalhar para a Aeroflot no aeroporto moscovita de Sheremetyevo, que treina cães para a detecção de explosivos e dos seus componentes. Este canicultor, no intuito de produzir cães de faro superiores, recorreu à hibridação dos seus cães com o chacal (canis mesomelas). Como os híbridos da 1ª geração se revelaram resistentes ao trabalho, ele acabou por beneficiá-los com outros cães, produzindo assim animais extraordinários para a detecção de bombas. Estes cães existem apenas na Rússia e não se prevê quando ultrapassarão as suas fronteiras.
O cão quando cruzado com o lobo, o dingo e o chacal pode dar híbridos férteis, acontecendo o mesmo nos cruzamentos do lobo com o dingo e o chacal. A hibridação do cão com outros canídeos selvagens não se esgota aqui e vai acontecendo um pouco por toda a parte do globo. Nos Estados Unidos proliferam os híbridos de lobo e noutras paragens pode acontecer, sem interferência humana, a hibridação entre lobos e chacais. O desuso de outros canídeos para este efeito encontra-se ligado ao seu escasso número ou à sua anunciada extinção.Outono e pistagem
Caderno de ensino: XXXII. "Ao teu lugar"
O comando “ao teu lugar” é usado para o reiniciar das acções policiais ou de captura. Consiste na recolocação do cão, por ele mesmo, no ponto de partida para os ataques lançados, esperando ordens e mantendo a atenção, quando a revista se torna dispensável e a cessação das ordens uma necessidade. É comummente usado para a fixação do “ninho” quando intentamos que o cão se mantenha no seu local de vigia, garantindo desse modo a protecção e o policiamento do território comum. A instalação do comando só deve acontecer depois do despertar do instinto de presa, para que não se transforme em inibição e venha a comprometer as acções de captura. Tanto na interrupção dos ataques lançados como na colocação do ninho, o cão deverá adoptar a postura de deitado, o que garantirá a certeza da imobilização no primeiro caso e a diminuição da sua silhueta no segundo. Este comando, quando bem utilizado, para além da cessação das ordens, contribuirá para a conservação dos índices de prontidão e alerta inerentes aos cães de guarda, porque ao anunciar as acções funciona como estímulo. Apesar do “ao teu lugar” ser alcançado pela memória afectiva (porque o trabalho é do agrado do cão), ele não dispensa o contributo da memória mecânica ou da mecanicidade das acções, porque o cão fica “em pulgas” e tenderá a diminuir a distância entre si e o intruso. O comando pode também ser instalado para mandar o cão para o seu lugar de pernoita ou descanso.Ronda prático e teórico no Monte do Pastor
Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: António da Cunha/Zorro, António Almeida/Shadow, Bruno/Iris, Célia/Igor, Francisco/Iris, Francisco/Nick, Joana/Flikke, João Moura/Bonnie, Joaquim/Maggie, Luis Leal/Rocky, Liliana/Bolt, Maria Luis/Teka I, Miriam/Índigo, Patrícia/Boneca, Roberto/Turco, Rodrigo/Tarkan, Tiago/Sane, Teresa/Buster e Vitor Hugo/Yoshi. O Paulo Oliveira participou das aulas teóricas e o Rui Coito encantou os cães presentes.sexta-feira, 8 de outubro de 2010
De predador a terapeuta: a grande epopeia do cão
Nenhum animal sofreu tão grandes transformações, melhor se adaptou e desempenhou tantas tarefas com êxito em tão curto espaço de tempo. Passou de silvestre a doméstico, de caçador a guarda de rebanhos, de predador a auxiliar e continua em constante adaptação, graças ao engenho humano na procura de novas parcerias. A partir da 2ª metade do Sec. XX, o cão transitou de predador para terapeuta, abraçou outros serviços e trouxe novas vantagens para a comunidade humana que desde os confins o adoptou.
Depois de ter sido soldado, polícia, artista de circo, atleta de competição, guia de cegos e se ter prestado ao socorro e salvamento de muitos, o que lhe reservará o futuro? Continuará propriedade de alguns ou transformar-se-á num bem colectivo? Será desprezado ou virá a alcançar maior relevo nos diferentes trabalhos da acção social? Será objecto de novas selecções ou permanecerá como até aqui? Ao certo ninguém sabe, porque o destino do cão encontra-se cativo à marcha da humanidade. A antevisão do futuro só será possível pelos indícios do presente e eles apontam claramente para novas e melhores utilizações do cão, mais justas para a sua espécie e de maior valia prós homens.
Acreditamos que o cão do futuro será um cão de paz, um amigo devotado e um companheiro que nunca nos abandonará, valendo-nos de sobremaneira e contribuindo para a inserção daqueles que por si mesmos dificilmente a alcançariam. Estaremos errados? Se estivermos, duma coisa estamos certos: o homem jamais sobreviverá se continuar fratricida, entregue ao seu umbigo e distante das dores alheias. O cão guerreiro virá ser rendido pelo cão solidário, que usará os dentes para nos encaminhar, aliviará o sofrimento de muitos e alcançará o capítulo mais excelente da sua já longa história entre os homens. Queremos daqui agradecer aos que no presente já trabalham pró futuro (criadores, adestradores e proprietários de cães).O que falta aos cães nacionais
Tratemos primeiro do Podengo, cão do tipo primitivo que é ícone do CPC. É notória a diferença existente entre a variedade pequena e as outras (média e grande), considerando o comportamento, o viver social e o tipo de parceria que oferecem. As variedades maiores são mais independentes, instintivas e silvestres, menos prestativas e resistentes ao condicionamento., respondem bem ao condicionamento atrelado e dificilmente atingem a autonomia condicionada (condução em liberdade), ocasião que usam para a fuga, quando os percursos sugeridos ultrapassam a vertente cinegética ou dispensam o contributo da “presa”. Estes cães são maioritariamente evasivos e em muitos aspectos lembram o chacal. A sua capacidade de aprendizagem é baixa, mesmo que se opere o desenvolvimento do seu impulso ao conhecimento, precocemente, pela experiência variada e rica. O carácter intocável ou hermético do Podengo obriga-o à transposição dos obstáculos “`a desfilada”, o que pode colocar em risco a sua integridade. É extraordinariamente resistente e a sua mímica sempre espelhará algum desconforto relativo à disciplina de obediência. Exceptuando-se os casos inerentes à instalação de matilhas, onde guerreiam entre si pela posse da comida ou pela presa, os podengos não apresentam maiores problemas na área da sociabilização, porque não provocam e apenas reagem quando acossados. No entanto, quando soltos entre os demais e diante da presença de outros grupos somáticos, porque correm desalmadamente, podem constituir-se em presas e provocar com isso alguns desaguisados. A sua prestação guardiã é essencialmente vocacionada para o alarme e dificilmente daí evoluirá para outras especialidades, porque é um cão defensivo, de ataques de surtida e com fraca potência de mordedura, que mais facilmente perseguirá outro cão do que enfrentará um intruso. Na caça obedece a leis próprias e a tendências automáticas, já que prefere caçar longe do dono e perseguir presas distantes, factor que tem levado à sua mestiçagem. Num país que se diz na crista da investigação científica, seria bom que um pouco dessa erudição pingasse também sobre a canicultura, dotando o Podengo de maior versatilidade e libertando-o dos entraves milenares, pelo contributo de outros pressupostos selectivos que complementariam a selecção estética existente, nomeadamente na procura de melhor impulso ao conhecimento. Os actuais criadores, que não são muitos, não devem comportar-se como guardas de um tesouro, porque ninguém leva nada para a cova e todos os animais que não se adaptam acabam por desaparecer. A selecção do Podengo, para além da preservação das suas características morfológicas, deverá também recair sobre a análise dos impulsos herdados presentes nos indivíduos destinados à reprodução, o que tornará o Podengo melhor cão de companhia, melhor caçador e concorrente a outros serviços (novas utilidades).
Para não tornar este texto muito extenso e enfadonho, analisaremos em conjunto e por comparação os casos do Castro Laboreiro, Serra da Estrela e Rafeiro Alentejano (Rafeiro do Alentejo). Dos três, o que melhor parceria nos ofereceu foi o Rafeiro do Alentejo, muito embora mandrião, pouco dado a explosões e nada vocacionado para serviços diurnos. A predominância da cor branca, enquanto maioritária, tendo vindo a subverter algumas dessas características, tornando este cão mais activo e solícito durante o dia. A sua docilidade, o seu cuidado com os mais fracos e a protecção que lhes dedica, poderá transformá-lo num terapeuta por excelência, desde que os seus criadores optem por capacitá-lo e ousem sair dos seus muros ou cercados. Este mastim não tem a capacidade de aprendizagem do Cão da Serra d’Aires, mas responde bem aos estímulos pela sua dependência social, sendo o peso ambiental capaz de consertar ou desenvolver o seu potencial genético. Abraça com facilidade a obediência, é resistente à ginástica, demora a farejar, é rápido nas perseguições e capturas (transita directamente do passo para o galope), é franco nos ataques e não se intimida nos contra-ataques. Quando tratamos do Cão da Serra da Estrela (“de Estrela” para os mais eruditos), somos obrigados a considerar as suas duas variedades: a de pêlo curto e a de pêlo comprido, porque subsistem diferenças comportamentais que influem no rendimento destes cães. Os de pêlo curto são mais activos, melhores parceiros, mais disponíveis e bons atletas, engordam menos e conseguem atingir 35 comandos básicos. Os de pêlo comprido intimidam mais, têm melhor presença ostensiva, são também desconfiados e com o passar do tempo tendem à desobediência, insurgindo-se contra as ordens na procura de rumo próprio. Os ataques dos Serras da Estrela não são francos e podem ser letais, porque atacam preferencialmente pela retaguarda e de modo imprevisível, havendo alguns que atacam ao pescoço, quando convidados para acções desse tipo, não gostam de ser contrariados e tendem a atrasar-se no “junto”, ocasião que podem usar para carregar sobre os seus condutores. O Cão da Serra da Estrela é um típico “let him go”, um companheiro com vontade própria que detesta intromissões. Se vier a acontecer a proliferação dos exemplares de pêlo curto, o que seria de todo desejável, o futuro do Serra da Estrela só terá a ganhar com isso, porque essa variedade é mais versátil, melhor aceita a liderança e mantém os indíces atléticos por mais tempo. O cão de eleição do falecido Padre Aníbal Rodrigues, o Cão de Castro Laboreiro, um lupóide amastinado, junta características de ambos os grupos somáticos, para o melhor e para o pior, sendo grande a diversidade individual de comportamentos. A raça vale como cão de guarda, mais pela tenacidade do que pela força de mordedura. Contudo a sua velocidade funcional é baixa, porque normalmente envereda pelo galope cadenciado. O cão de Castro Laboreiro é um excelente atleta, não se nega aos desafios e necessita de mão forte, alcança maior aproveitamento nos automatismos de imobilização do que nos direccionais, ostenta uma marcha desengonçada (rebolada) e pode apresentar algumas dificuldades na sociabilização entre iguais. Se acontecer o acompanhamento dos seus ciclos infantis, para robustecimento da sua experiência directa e maior capacitação, o Castro Laboreiro chegará à excelência visível nos mais afamados lupinos ou lupóides. Apesar de se notarem algumas melhorias, a raça necessita de melhorar a cumplicidade, porque naturalmente surpreende pela carga instintiva. Aproveitando a deixa, já o dissemos e não nos cansamos de repetir: evite cruzar lupinos com molossos, porque esses híbridos podem tornar-se incontroláveis e muito perigosos (ex: CPA + Serra da Estrela).
Em termos prático-laborais, a maior diferença entre o Serra d’Aires e o Cão de Água Português reside na capacidade de aprendizagem, porque o primeiro é um super dotado quando comparado com o segundo. O cão da Serra de Aires pode executar na perfeição toda e qualquer disciplina convencional da cinotecnia, porque é muito curioso, prestável, disponível e veloz, pese no entanto alguma fragilidade a nível do dorso e a fraca potência de mordedura, que pode ser potenciada de modo convencional. Quando convenientemente adestrado, independentemente do seu sexo, pode transformar-se num bom terapeuta, já que como cão de companhia necessita apenas de alguma regra, porque é endiabrado e passa o tempo a observar. É o cão indicado para os jovens e para o desporto canino, pois adora correr e aprende a superar obstáculos com facilidade. Na obediência pode atingir a mestria e possui características inatas para o salvamento. Morfologicamente falando, só precisa de melhorar a sua ossatura e pormenor articular, porque geralmente não aguenta os impactos que causa, queixando-se de sobremaneira. O Cão de Água Português é menos dotado física e cognitivamente, mas menos queixoso e mais sossegado. É um cão familiar por excelência e um terapeuta pouco visto e pouco utilizado, entregue a grupo de apaixonados que pouco tem feito pela sua divulgação (valeu-lhes o Presidente Barack H. Obama). Este cão é um auxiliar por excelência, um cão de paz que abomina a guerra e que aceita a liderança sem maiores delongas, vive para a companhia e dispensa os artificialismos dispensados pelo treino. Afável de trato, dificilmente morderá a alguém, adora transportar objectos e nunca perde o rasto do dono. Ao Cão de Água Português só falta divulgação, ele tem lá tudo e fará muita gente feliz (menos aqueles que vivem para a escaramuça e não dispensam inimigos). O Perdigueiro Português, mestre no passo de andadura, é um caçador inato que se tem vindo a transformar em cão de companhia. Jamais poderá ser considerado um cão de ensino convencional, porque os seus interesses são outros e a caça é a sua especialidade. Trabalhar para além disso obrigará ao trabalho precoce e uma instalação doméstica irrepreensível. Contudo, a excelência no contributo ambiental não evitará a abordagem aos obstáculos pelo faro e não o fará prescindir dele. Pode e tem sido pouco utilizado como cão de pistagem e salvamento, algo estranho que desconsidera a sua excelência, velocidade e prontidão, mas certamente ligado ao pouco empenho dos seus criadores e ao desprezo dos profissionais dedicados a esses serviços. O recurso ao reforço positivo operou e tem operado múltiplas capacidades até aqui desconhecidas ou ditas pouco comuns na raça.
Falta aos criadores dos cães nacionais maior saber e empenho, ousadia para ir adiante e usar os meios próprios para isso, já que a maioria dos seus cães acaba arredada do treino e dos seus benefícios, desprezando assim um dos maiores veículos para o reconhecimento e divulgação do seu trabalho. Valerá a pena esperar pela eleição de um novo presidente dos Estados Unidos e aguardar que escolha um cão doutra raça portuguesa? E já agora, porque não esperar por D. Sebastião (monarca que ao que tudo indica era apreciador de galgos)?O contributo da memória mecânica canina
Se a excelência do condicionamento não dispensa a contribuição da memória afectiva, só através do contributo da memória mecânica chegaremos à associativa, repetindo as acções até que passem a automatismos. Assim é no mundo do adestramento e acontece de acordo com o particular cognitivo canino, respeitando-se os tempos de adaptação, da recapitulação e do aprimoramento. O facto do cão ser um animal de hábitos torna a mecanicidade das acções possível, quer por aproveitamento, transformação ou inibição. A fotografia acima demonstra até que ponto a memória mecânica pode operar, uma vez que o cão se encontra de olhos vendados (privado da visão) e consegue progredir sobre as costas de várias cadeiras, dispostas consecutivamente e de igual espaço entre si. O registo é antigo mas o princípio continua válido, muito embora tal exercício seja por demais abusivo e somente extensível a cães excepcionais, exigência de tempos idos que felizmente (ou infelizmente para alguns) não voltarão.Instinto de presa e sucessão hierárquica
Esse trabalho será mais fácil entre os cães tidos como territoriais ou caçadores, desde que espelhem essas qualidades, muito embora qualquer raça o possa adquirir, porque o potencial individual não se encontra exclusivamente cativo ao grupo a que pertence, mas ao indivíduo e ao seu processo de adopção (instalação doméstica, viver social e treino), o que reforça a importância do contributo ambiental prà capacitação dos cães para este ou outros fins. Quem será mais fácil de induzir ao instinto de presa: uma cadela que sempre viveu com o dono ou outra que se viu subjugada por vários cães? O instinto de presa melhora consideravelmente com o treino e deve ser suscitado logo a partir da idade da cópia (4 meses), através de brinquedos ou acessórios que possibilitem a sua perseguição e captura (há quem comece mais cedo e veja premiado o seu esforço). Se não houver apreço e recompensa por parte do dono, bem depressa o cão mandará bugiar os brinquedos. A aquisição e guarda do espólio (pertences da eleição do cão) garantem a transição da defesa para o ataque e por consequência um superior instinto de presa. O cão absorve lições de vida e arranca para as acções na certeza do sucesso, porque a experiência anterior demonstrou a sua supremacia e sabe que isso é do agrado do dono.O músico e a dança do cão: melodias, arranjos e desarranjos
Vender cachorros não é fácil e sempre somos surpreendidos pelos compradores que nos chegam, fregueses em tudo únicos que nos fazem desejar abandonar a criação. Estamos no Sec. XXI? Esta semana chegou uma senhora à procura de um cachorro, queria um CPA negro para oferecer ao marido, porque ele já havia tido um, a experiência foi feliz e gostava de ter outro. Inquirida sobre as condições que teria para o cachorro, a senhora adiantou que seria para colocar numa quinta lá para os lados de Setúbal, onde vai aos fins-de-semana, tem outros cães e onde recentemente lhe envenenaram alguns. Foi-nos dito que o marido é músico, que pouco tempo pode dedicar ao cachorro e que estava fora de questão conviver com a animal dentro do apartamento (a menos que fosse enjaulado). Convidamos a dita senhora para a condução de um cão da classe e desnudámos algumas das mais-valias que o treino pode oferecer, alertando-a em simultâneo para a responsabilidade e deveres dos proprietários caninos. Parece que a nossa pregação foi ouvida e produziu alteração. Oxalá que sim, a bem do cachorro e para gozo do músico, para que o cão não “dance” e a melodia seja outra!Caderno de ensino: XXXI. O "ronda"
Abu e artilharia de costa, chuva, pão-de-ló e teoria
Este fim-de-semana fez lembrar o feijão-frade, porque há quem diga que ele tem duas caras e o tempo assim aconteceu: Sábado de céu aberto e Domingo de aguaceiros. No Sábado dedicámo-nos à obediência e à guarda e no Domingo debruçamo-nos sobre os temas relativos à criação de cachorros. Três cães mereceram nota de destaque: o Abu, o Rocky e a Teka I, o primeiro porque se mostrou valente e os últimos porque ganharam o apelido de “Artilharia de Costa”, nome que lhes foi atribuído pelas características que patenteiam. As aulas teóricas aconteceram, mais uma vez, na residência da Família Coito que obsequiou todos os presentes com pão-de-ló e com um jantar principesco. Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Alexandra/Abu, António Almeida/Shadow, António da Cunha/Zorro, Carla Ferreira/Dirka, Célia Coito/Igor, Francisco/Iris, Francisco/Nick, Hugo/Lobi, Joana/Flikke, João Moura/Bonnie, Joaquim/Maggie, Luis Leal/Rocky & Teka I, Maria Luis/Teka, Marta/Maggy, Patrícia/Boneca, Paulinha/Teka II, Princesa/Pipo, Roberto/Turco, Rodrigo/Tarkan, Tiago/Sane, Teresa/Buster e Vitor Hugo/Yoshi. O Rui Coito compareceu e encantou.
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