domingo, 19 de setembro de 2010

As aventuras do Zorro

O Zorro é um CPA das nossas fileiras, um exemplar de 72 cm e 50 kg de peso, preto-afogueado, muito dedicado ao dono e valente. É filho do Kaiser e da Xita e irmão de ninhada da Amora do Monte do Pastor. Para além da investidura policial de que tem sido alvo e por causa da excelência desse seu trabalho, ele tem vindo a abraçar o calendário e os objectivos da sociabilização, para que não confunda as pessoas e mal interprete as suas intenções, respeite os outros cães e alcance um comportamento social irrepreensível. Esta semana foi também aproveitada para o sociabilizar com as crianças, trabalho inescusável e que sempre irá necessitar de reavivamento, porque os infantes são traquinas e têm por hábito correr para os cães. E porque importa evitar os possíveis traumas de uns e as aversões dos outros, há que meter mãos à obra, pois não queremos ter cães infanticidas ou dominados pelo eugenismo negativo.

Graças a esta nossa preocupação, o Zorro conheceu a Mariana, uma menina bem disposta, com cerca de um ano de idade, que procurava num jardim os últimos raios de sol deste Verão, na companhia da sua mãe, doutro bebé e da mãe dele. A Mariana encantou-se pelo Zorro e de pronto conviveu com o CPA, recebendo umas valentes lambidelas e a protecção imediata do cão. A menina é luso-japonesa muito bonita, filha da Sr.ª Akiko Nakade e de pai português, nasceu de cabelo castanho e tem os olhos mais doces deste mundo. Desejamos para ela e para a sua família bons ventos, melhor sorte, fortuna, felicidade e sabedoria, além de manifestarmos desde já a nossa gratidão – arigato (palavra japonesa oriunda da portuguesa “obrigado”).

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Implicações do isolamento social canino no adestramento

O tempo em que os homens dividiam o seu quotidiano com os animais já lá vai, as actividades humanas sofreram alteração e os animais viram reduzida a sua participação, pela novidade dos meios para a obtenção da riqueza. Não obstante, os animais domésticos continuam entre nós, ainda que também sujeitos às alterações do nosso dia-a-dia, permanecendo isolados por mais tempo e arredados da nossa companhia, condições que têm vindo a afectar o seu viver social e por inerência as suas prestações. Se o processo de domesticação aconteceu pela supressão da liberdade e culminou com a liberdade condicionada, estratégia sem dúvida violenta, os excessivos enclausuramento e isolamento actuais, têm-se revelado ainda mais arbitrários e agressivos, considerando a dependência do cão relativa ao grupo. A alteração forçada do viver social canino, imposta pelos vários condicionalismos dos seus proprietários, tem vindo a contribuir para o aumento da sua agressividade, para o aparecimento de diferentes estádios letárgicos e para o surgimento de taras de diferente índole – o cão passa cada vez mais tempo sozinho!

Quando se fala em bem-estar animal, devem também ser salvaguardados os aspectos sociais próprios de cada espécie, porque cada uma delas vive e come para sobreviver, usando a energia assimilada para o desempenho que lhe é natural, segundo as suas características, de acordo com os seus interesses e dentro do habitat que lhe peculiar. Quando se trata de cães, não podemos entender esse bem-estar debaixo de uma política exclusiva de “gordos e reluzentes”, porque eles têm outras necessidades imprescindíveis, que sendo-lhe vetadas, contribuirão para uma menor qualidade de vida, obstarão ao seu aprendizado e votá-los-ão ao subaproveitamento. O particular social do cão não pode ser ignorado e o seu sentimento gregário ignorado, porque ele nasceu para o trabalho de equipa e espera dos donos aquilo que o matilha lhe daria. A maior ou menor capacidade de um cão, que é também adquirida, será sempre advinda da qualidade dos seus mestres, porque ele procura aprender e busca o seu lugar dentro do escalonamento social, um lugar que lhe permita sentir-se bem consigo próprio.

Se a proliferação de líderes pode relegar o cão para a base da pirâmide social e condená-lo ao lugar destinado aos mais fracos, submissos e inibidos, o isolamento desconcerta-o e entrega-o aos seus fantasmas, porque o ostracismo forçado, uma vez instituído e aceite, causa-lhe a maior das confusões e entrega-o aos poucos instintos inatos, tornando-o desconfiado, de menor préstimo e resistente ao futuro trabalho de equipa. Assiste-se à troca de alvos nos cães que sempre viveram amatilhados e que nunca usufruiriam do redireccionamento humano, guerreando entre si e desprezando a defesa do território. Nesta situação, apesar da conversão dos dominantes ser mais fácil, mas não isenta de riscos, a recuperação dos submissos revelar-se-á um duro desafio. O cão urbano, aquele que sobrevive diariamente a 10 ou mais horas de isolamento, que sai esporadicamente à rua em curtos intervalos de tempo, ao ser privado da excursão e do ensino por ela facultado, engorda, mostra menor disponibilidade, resiste à liderança e sente-se mais seguro dentro de casa, o que é compreensível. A situação de muitos é ainda agravada por ocasião das férias familiares, já que irão ser desalojados do seu território e arrancados do seu grupo, desterrados para um hotel dito “convidativo” e por certo conveniente.

Se é a componente social canina que possibilita a utilização dos cães, verdade insofismável e por todos reconhecida, a inutilidade dos cães resultará, maioritariamente, do seu desprezo ou desaproveitamento. O isolamento imposto aos cães é um parceiro de cãs nas escolas caninas, porque a ausência da sociabilização que obriga à obediência é um desacato típico da falta de preparo dos donos e do isolamento dos cães. Também não constitui qualquer novidade, que a maioria dos problemas apresentados ao adestramento resulta de questões relativas ao viver social dos cães, causadas pela irresponsabilidade humana, quer por ignorância, desrespeito, intenção ou abuso. Na actualidade não há falta de informação, o que está em défice é a procura de esclarecimento. A lei relativa aos cães perigosos disso dá mostras e sanciona assim o despreparo da liberdade individual de alguns, mais apostados na predação do que na fraternidade universal. E porque a questão é antropológica e o assunto remete-nos para os cães, importa dizer que o sucesso do adestramento assenta sobre o aproveitamento e compreensão do particular social canino, conhecimento prévio que possibilitará o uso da regra sem atropelos e que evitará os transtornos advindos da coerção.

O homem actual precisa de reaprender o convívio com os cães, dar seguimento ao trabalho das muitas gerações passadas, emprestando a esse relacionamento uma permuta mais equitativa e menos lesiva para os animais. Para que isso aconteça é necessário evitar o isolamento canino, atingir a coabitação e proceder à capacitação dos cães. Não basta ter como os sustentar, eles exigem tempo, reclamam pela nossa presença e obrigam a algumas alterações, factores a considerar diante do seu bem-estar social. Antes de adquirir um cão, verifique se tem disponibilidade para isso e se os seus também a têm, porque a infelicidade de uns não traz à felicidade aos outros e o cão é um projecto colectivo e familiar. Não basta gostar, há que honrar! Convém saber com o que contar.

O sincretismo eo improviso na cinecultura actual.

A cinecultura actual é dominada pelo sincretismo cultural abonado pela globalização, o que obriga ao improviso pela extraordinária torrente de informação. A confusão estabelece-se e os métodos abastardam-se, não se antevendo com clareza qual o seu propósito e quem os preconizou, o que obsta à identificação das filosofias de ensino e contribui para o aumento inusitado dos “mestres” mais aceites ou aclamados. Mesmo assim, em abono da liberdade dos homens e a favor da felicidade dos cães, também porque a diferença traz riqueza, obriga à reflexão e esclarece, sempre é melhor seguir por aqui do que enveredar por uma uniformidade medíocre, alheia, isenta de erudição, parca de objectivos e facilmente bitolada, própria do sossego que não produz novidade e não procura ir adiante, tal qual dogmática que a uns desobriga e a outros sobrecarrega, encobrindo dessa forma a universalidade da mensagem que esteve na sua origem.

Entretanto, porque o improviso sistemático aumenta a margem de erro, não está ao alcance de qualquer um, é uma escola sem parâmetros, não garante os resultados e faz da excepção regra, convém que todos os métodos sejam minuciosamente analisados à luz da sua origem, propósitos, actualidade, justeza e mais-valia, garantindo assim a sua absorção, adaptação e continuidade. A transição de um método para outro, deverá pressupor o conhecimento exacto do anterior, as suas virtudes e lacunas e levar à sua reciclagem ou abandono, quando for caso disso, porque nada se sustém sem uma base sólida. Para que isso aconteça, torna-se imperativo, em paralelo com as aulas práticas, adiantar aulas teóricas onde a prática será explicada e melhor apreendida, o que facilitará a apropriação dos conteúdos de ensino e estenderá os conceitos ao pragmatismo. A formação teórica dos condutores, principais agentes de ensino enquanto educadores dos seus cães, é uma tarefa prioritária e não uma opção, porque importa bem servir, diminuir a margem de erro e melhor valer aos cães. Só assim poderemos combater a subjectividade presente na canicultura, evitar a confusão, formar escola e dignificar a prestação canina. A resposta animal é uma acção reflexa e o condicionamento procurado só acontecerá pelo aumento cognitivo dos seus líderes. Quem virá para a escola, somente o cão ou binómio?

Memórias, aptidão e longevidade

Um treinador de cães é essencialmente um formador de memórias, um arquitecto de momentos que contribuirão para a aptidão e felicidade dos cães que adestra, o que implicará directamente na longevidade dos animais ao seu encargo. Também nos homens, há medida que o tempo avança, o que mais sobra são as memórias, principalmente as boas porque são sobreviventes, necessitam de ânimo e resistem ao descalabro. Os cães nasceram para viajar, conhecer novos territórios, são dominados pela curiosidade e adoram momentos de evasão. Por onde tem andado com o seu cão? Sempre no mesmo sítio? Há quanto tempo não sai com ele? Não estamos a defender o antropomorfismo, tão-somente a lembrar que os cães vivem de memórias e importa que elas sejam felizes.

E ainda dizem que gostam deles!

Quando pensar em adoptar um cão, não faça como os demais, que pensam que basta garantir-lhe um lar, mimá-lo e dar-lhe comidinha a horas, tal qual como procedemos com um gato, um rato ou um hamster. A felicidade de um cão encontra-se cativa ao seu particular social e sexual, ao desejo excursionista, às interacções que eles possibilitam e à capacitação fornecida pelo seu quadro experimental. Triste é o cão que é tratado como um cavalo, normalmente arrumado na box e eventualmente montado, quando temos tempo ou nos lembramos dele. O cão nasceu para a parceria e o seu ensino acontece em movimento, nasceu para bater território e necessita de ser alertado para os perigos que o cercam. Apesar de ser um caso raro de adaptação, ele precisa de ser preparado para a novidade, porque não gosta de ser surpreendido e incomoda-se com o desconhecido. À parte disto, há que considerar o seu manancial cognitivo, porque nasce com impulso ao conhecimento e é naturalmente curioso, próprio para aprender e ser ensinado. O gato fixa-se na casa e o hamster brinca sozinho, o cão vive para o dono e os brinquedos são para ambos. Há gente que transforma os cães em animais de zoo ou que estende o circo em sua casa, gente que a si mesma se considera sensível e que acaba por atentar contra o bem-estar canino, geralmente amante de si própria, dita intérprete dos desejos dos bichos e que ignora aquilo que lhes é devido. Debaixo das suas “boas intenções”, castram os cães, vetam-lhe o exercício físico, impedem a sua sociabilização, não operam a sua capacitação, obstam o seu desenvolvimento cognitivo e ainda dizem que gostam deles. O hedonismo humano jamais irá ao encontro das necessidades dos cães, por mais terapêutico que seja o seu uso. O cão não é só serotonina, exige suor, porque obriga à permuta e à descoberta. O melhor cão do mundo para gente que não quer ser incomodada, que está sempre limpo e reluzente, que não reclama para sair, não maça as visitas e não causa contratempos, já há muito tempo que se encontra à venda nas olarias (os chineses também o vendem e mais barato).

A segunda chance

As escolas caninas deverão constituir-se em segunda chance para os condutores nelas inscritos, numa oportunidade para o seu envolvimento, adequação, desenvolvimento, realização e bem-estar, porque o grupo escolar enriquece pela diferença e evolui pelo contributo colectivo. Todos chegam porque precisam de ajuda e ela não deverá ser-lhes negada, porque somos companheiros de jornada irmanados no mesmo propósito. Cada condutor deverá apostar na capacitação dos demais, auxiliar os menos aptos e contribuir para a sua capacitação. Mal vai a escola que cimenta as diferenças e promove a dissensão, que despreza a fraternidade e alimenta o egoísmo. Como não estamos sós, estamos cá para servir e todos já fomos alvo do mesmo apoio. O futuro de uma escola sempre passará pelo seu cariz familiar, pela capacidade individual que leva cada um a considerar o outro como igual.

Ração: Junk food or not

Mas afinal o que é mais indicado para os cães: a ração ou a comida confeccionada? Esta é uma pergunta que sempre volta à tona entre os proprietários e criadores caninos, ainda que uso da ração se encontre generalizado. Para melhor compreendermos o problema, importa ir à origem histórica da ração, que surgiu pela necessidade e que se encontra ligada a Napoleão. Até ao Imperador dos franceses, todos os exércitos continentais sobreviviam pelo assalto e pelo saque das populações invadidas e a partir dele, deu-se início à fabricação de rações. Toda e qualquer ração é comida de substituição, a melhor opção para os alimentos frescos, desde que a sua qualidade se mantenha pelo período estipulado, o que cada vez é mais certo por força dos novos métodos de conservação. Particularmente somos adeptos da comida fresca e por razões operacionais optámos pela ração, porque temos vários cães e não nos sobra outra opção. Se tivéssemos um só cão, optaríamos pela outra solução e bicho agradecer-nos-ia.

Não podemos catalogar a ração de “junk food”, porque isso seria faltar à verdade, já que existem rações de reconhecida qualidade, do agrado dos cães e que saciam cabalmente as suas necessidades nutricionais (também as há más, de fraca qualidade e a preço convidativo). No mundo actual, onde toda a gente trabalha e não tem tempo para cozinhar, dominado pelo concurso do micro-ondas, carente do take away e suavizado pelos bons ofícios da “Bimby”, dificilmente os cães teriam comida pronta e a horas. Para além desta necessidade, que é real, a ração oferece inúmeras vantagens quando comparada com a comida fresca confeccionada, porque está sempre pronta a servir, é prática e de fácil transporte, não sofrendo alteração significativa nas diferentes estações do ano. Mas a maior vantagem da ração tem a ver com a salvaguarda dos cães, porque ela permite regrar o seu impulso ao alimento, contribuindo assim para a diminuição dos riscos de envenenamento, porque o cão recebe o penso da mesma pessoa, come à hora certa, sempre no mesmo local e à altura recomendável, condições óptimas para não aceitar comida alheia, regular o seu apetite, deixar de procurar comida e desinteressar-se por petiscos deixados no solo. Tudo isto vai por água abaixo se o bebedouro do animal não se encontrar à mesma altura do comedouro. A ração não é lixo e tende a evitar a procura dos seus caixotes!

O desalento da Marta e a nossa solução

Apesar da Maggy estar a ir muito bem, a evoluir a olhos vistos e a adorar o treino, a Marta sente-se desconsolada porque a cadela não olha para ela e dispersa-se pelo ambiente circundante, o que deixa a dona com cara de parva e falar pràs paredes. Estamos em crer que o problema terá pouca duração, que será alterado com o tempo e o treino, se o método a aplicar for o correcto. O comportamento da Maggy resulta de razões genéticas e ambientais, factores ligados ao seu grupo somático, sexo e à sua experiência directa (anterior e posterior à adopção). Quando ela foi resgatada da rua, tremia por tudo e por nada, rastejando ao invés de andar. Bem cedo se percebeu que tinha pavor aos tiros, o que alvitrava uma experiência traumática atendendo também ao facto de ser mestiça de podengo. Depois de adoptada foi castrada e acabou por sair à rua de peitoral, já que assim não se esganava, nos curtos passeios ao redor do seu lar adoptivo. Em casa sempre se comportou como uma rainha e pouco a pouco foi-se adaptando nas saídas ao exterior (desde que nada estalasse). A castração não contribuiu para a sua valentia e a condução de peitoral pouca segurança lhe ofereceu. O facto de ser descendente de podendo também não ajudou, porque este cão primitivo apresenta algumas dificuldades na parceria e prefere muitas vezes caçar longe da presença dos donos, mesmo que haja caça à sua beira, característica atávica que tem levado muitos à sua mestiçagem, geralmente gente sem tempo e engenho.

A recuperação da Maggy passará por manobras de estímulo inerentes à sua condição de caçadora, pelo contributo de brinquedos que recriarão os simulacros próprios do seu interesse e nunca pelo abuso da mecanicidade das acções, pedagogia aceite entre os cães territoriais e que os de caça abominam. Este Sábado fabricámos um pássaro com um ouriço de plátano e meia dúzia de penas de pato, a cadela adorou-o e não descansou até o depenar completamente. Há que encontrar brinquedos próprios para a Maggy, os mais tangíveis ao seu interesse, diferentes dos rudes nós de corda ou dos grotescos churros, já que qualquer um deles deverá pressupor o seu completo domínio e já existem brinquedos destes no mercado. Um cão próprio para o ofício cinegético não corre sem lebre à frente e estabiliza-se pela captura, advindo daí a sua segurança e felicidade. Tanto nas aulas quanto nos exercícios de recapitulação doméstica, que deverão ser breves para evitar a saturação, apesar de necessitarem de ser amiúde repetidos, a Marta deverá munir-se de um brinquedo da eleição da sua companheira, que servirá de estímulo e prémio, pressupondo a recompensa que a cadela não dispensa, tornando-lhe dessa forma o treino mais apetecível. No treino de Domingo, enquanto estalavam foguetes ao longe, a Maggy ficou possessa e a dona sem saber o que fazer, valeu-lhes o Rui Coito que agarrando na cadela, a acariciou e levou para junto dos outros cães, com a paciência e a presença de espírito necessárias. Passado pouco tempo, a Maggy ignorou os estrondos e retomou os trabalhos dentro da maior normalidade. Marta: onde estiver o problema aí importa encontrar a solução, porque quando as coisas correm mal, não nos vem bem algum se perdermos a cabeça! Dentro em breve a Maggy estará completamente recuperada, graças às manobras de estímulo empreendidas, ao exemplo dos outros cães e à serenidade da dona.

Pontualidade e métodos: o cronograma dos atrasados

Qualquer actividade ou projecto bem concebido necessita de um cronograma, dificilmente qualquer método subsiste sem a pontualidade. A pontualidade portuguesa é conhecida por chegar sempre atrasada e essa pode ser uma das causas para o nosso atraso na Europa. Quando se deu o malfadado Terramoto de 1775 em Lisboa, toda a Europa se mostrou solidária connosco e cada país adiantou o que julgava ser necessário. Os ingleses, ao contrário de outros, fizeram chegar a Lisboa relógios e ferramentas. As ferramentas ficaram e grande número de relógios foi devolvido à procedência. Ainda recentemente, por ocasião da realização do Campeonato Europeu de Futebol em Portugal, um dos inspectores da UEFA, o escocês Ernie Walker, dizia a este respeito: “ Eu venho da Escócia e quando chego a Portugal ainda tenho que esperar pelos responsáveis oficiais portugueses, 40 minutos para além da hora marcada!”. Na Acendura ainda sobrevivem alguns destes portugueses anti-relógio, gente que queremos recuperar para a hora certa. Razão tinham os antigos militares, que mandavam formar em parada duas horas antes da hora marcada.

Condutores: As estratégias de uns e outros

No célebre abismo entre o querer e o fazer, os condutores optam por diferentes estratégias para o levar de vencida, a maioria pouco ou nada faz e apenas alguns empreendem esforço. Os primeiros pouco evoluem e vivem da contemplação, os segundos sempre espreitam a evolução e nunca se dão por satisfeitos, uns ficam-se pelo conceito e os outros atingem a realização. E nisto os cães… são os menos culpados!

Caderno de ensino: XXVIII. Os círculos pavimentares

Os Círculos Pavimentares são pontos de partida e zonas de travamento que se encontram desenhados no solo. Têm diâmetros que variam entre 50 e 60 cm e possibilitam diferentes sentidos e direcções entre si, de acordo com as ordens dadas ao cão. Servem os objectivos da condução nuclear e são invariavelmente executados pela linguagem gestual. O concurso aos Círculos Pavimentares pressupõe o treino para as evoluções silenciosas, típicas das manobras defensivas e ofensivas. Para além disso, nos meios televisivo e cinematográfico, o treino aturado nestes círculos possibilita ainda as evoluções em cena, tanto para o retorno à marcação como para a evolução dos planos, já que o adestrador se encontra por detrás das câmaras e impedido de falar. O uso mais frequentes destes círculos remete-nos para a rápida execução da linguagem gestual, quer nos automatismos de imobilização quer nos direccionais. Os Círculos Pavimentares que usamos, que outra coisa não são do que círculos direccionais, são geralmente feitos de pedra mármore, de várias cores e contrastantes com a do solo.

Dançar nos píncaros

As actividades deste fim-de-semana aconteceram entre os 380 e os 420 metros de altitude, porque importava procurar temperaturas menos elevadas para o desenvolvimento dos trabalhos e preparar os cães para as altitudes que se avizinham. Todas as disciplinas que ministramos mereceram especial incidência e o aproveitamento excedeu as expectativas. O Francisco Marques retornou e apresentou-se com o CPA Nick, agora mais forte e robusto. Finalmente o Buster despertou e a Maggy de Belém vai de vento em popa. A Patrícia necessita de exercitar os braços e de aumentar a sua concentração, a bem da condução e em prol do grupo. O tema do último número do “Caderno de Ensino” foi exemplificado e o Binómio António Cunha/Zorro fez-se presente, recuperando de alguns atrasos prà sua capacitação.

Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: António Almeida/Shadow, António da Cunha/Zorro, Carla Abreu/Becky, Carla Ferreira/Dirka, Célia/Igor, Francisco/Iris, Francisco Marques/Nick, Hugo/Lobi, Joana/Flikke, João Moura/Bonnie, Joaquim/Maggie, Luis Leal/Rocky, Maria Luis/Tyson, Marta/Maggy, Patrícia/Boneca, Rodrigo/Tarkan, Tiago Sane, Teresa/Buster e Vitor Hugo/Yoshi. A logística ficou ao cargo do Américo Abreu e do Rui Coito.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Correntes e outros grilhões: passar a vida num navio negreiro

No dia em que os homens conseguirem compreender que a verdadeira liberdade está para além das regras que estipulam e que não observam, talvez venham a devolver a liberdade aos animais e a compreender os cães doutra forma, quando despojados do subjectivismo que alimenta o seu gozo individual, efémero e comezinho, que os tem ridicularizado e causado vítimas, advindo do tribalismo intrínseco que tem obstado à felicidade colectiva. A fraternidade continua a ser um ideal universal e o respeito pelos animais esvoaça sobre o coração de muito poucos. Os cães não esperam nenhum messias ou mahdi, não abrangem milagres e perdem-se pela experiência. Porém, continuam a revoltar-se diariamente de muitas formas, à boca calada e de acordo com o fardo de cada um deles, à revelia dos donos e prà além da sua compreensão, através de gritos sufocados que só alguns conseguem ouvir, abafados por detrás de muros que afastam os olhos e sustentam o politicamente correcto. Se a hipocrisia ainda grassa entre os homens, ela toma proporções gigantescas na relação com os cães, escravos dos seus desígnios e pau para toda a obra. E se para eles não houver vida vindoura, a sua redenção terá que acontecer aqui e agora, enquanto é tempo e antes que muitos deles pereçam. Valer aos cães é educar homens e isso jamais será uma tarefa fácil, porque a espécie dominante neste mundo continua em guerra consigo própria, ainda que os cães sempre tenham vindo a suavizar a sua existência, enquanto companheiros, terapeutas, serviçais, escravos e bodes expiatórios.

Ainda hoje e por mais estranho que nos pareça, a vida de muitos cães é comparável ao padecimento dos africanos no tempo dos navios negreiros, porque também se encontram acorrentados e privados da liberdade, dispensados da higiene e sujeitos a dieta imposta, abandonados a si mesmos e rotulados para determinado fim, por tempo indeterminado ou até que a morte lhes bata à porta. Com alguma dificuldade poderemos entender o recurso à corrente, quando esporadicamente, como subsídio pedagógico ou forma de castigo, consoante queiramos aumentar a territorialidade de um cão ou alcançar a sua submissão, muito embora hajam outros meios mais eficazes e menos violentos que preconizamos – os relativos à instituição binomial.

Trabalhar um cão e prendê-lo depois à corrente, é uma violência que não esconde o comodismo dos donos e que atenta contra os objectivos anteriores à prisão, desrespeitando em simultâneo o descanso, a ascensão social e a recompensa do animal, porque a corrente obriga-o à vigilância constante, afasta-o dos donos e não se constitui em prémio. O hábito de acorrentar cães, profundamente enraizado entre nós e a necessitar de proibição urgente, é anterior ao sedentarismo e remonta a hábitos nómadas que se perdem pelos confins dos tempos, continuados aqui pelos famigerados godos do oeste (visigodos) e pelos berberes que em 711 por cá entraram a convite. O pragmatismo germânico e a cultura semita, tanto da Berbéria quanto da Judeia, influencia até hoje o nosso modo de estar com os cães, porque para uns eram serviçais e para outros sinal de maldição, geralmente associados à destruição, à desgraça e à miséria, visões diferentes das encontradas entre os celtas e os alanos. Ainda hoje se pode ver nas armas do município de Alenquer o “cão dos alanos”, um caçador que era ao mesmo tempo um guardião, sem grilhões e imponente. O peso da cultura e a economia de sobrevivência condenaram o cão à corrente, como se houvesse nascido para ela ou dela resultasse o seu lugar.

Se há que acorrentar cães, e não vemos qualquer razão para tal, então que o façamos de modo menos lesivo para os animais. Antes de adiantarmos o modo, queremos manifestar a nossa preferência pelos canis, que segundo a nossa tradição, a da Acendura Brava, deverão ter uma área superior aos 10 m2, obedecer a regras específicas e não se constituírem em habitação permanente, flagelo ou degredo. Para minorar os malefícios causados pela corrente, tanto psicológicos quanto físicos, importa que ela tenha um comprimento de 3 m, seja de elo miúdo, rematada por um mosquetão e suspensa por uma argola num cabo aéreo de aço, numa extensão nunca inferior aos 5 metros, possibilitando em simultâneo a entrada para o habitáculo, o deitar do animal e a procura da sombra. O cabo aéreo evita os desaprumos e as feridas causadas pela prisão junto ao solo, dá maior liberdade de movimentos, sobrecarrega menos o cão e melhor subsidia o policiamento. Só aceitamos a permanência do cão na corrente excepcionalmente, quando o canil se encontra em construção ou por breves períodos, porque não queremos atentar contra o viver social do animal e reclamamos a sua presença ao nosso lado, mais-valia que se agiganta com o passar dos dias e viabiliza a cumplicidade interespécies, segredo para o nosso caminhar conjunto.

Descansaremos no dia em que a corrente for abolida e vier a ser espólio num museu dedicado ao nosso passado etnográfico, quando já ninguém se lembrar dela e ignorar para que serviu. Até lá, continuaremos a esclarecer e a aconselhar, a pregar contra a evocação do navio negreiro fantasma, diariamente reinventado em cada cão acorrentado.

O regresso da família Xantiaga

O nome indicado para a família tem o seu quê de galego, o que de certa forma se coaduna, já que a Alexandra é uma loira das terras altas, das serrarias da Beira. Ficou Xantiaga por causa do Santiago, um mestiço já falecido, muito dócil e com o qual chegou à Acendura. Trocou-se o “X” pelo “S” por questões fonéticas ligadas à pronúncia da condutora, aproveitou-se o “X” de Alexandra e assim nasceu o seu nome escolar: Xantiaga. A Alexandra não gosta de ser tratada pelo seu primeiro nome, que é exactamente o que foi dado à filha de Maomé. Depois de longa ausência (a última vez que a vimos foi antes de dar à luz a filha), ela retornou aos nossos trabalhos e carregou consigo a família. A menina já tem mais de 1 ano de idade e a Lori já tem dois. A Lori é uma CPA lobeira, gerada por nosso conselho, bonita, robusta e atenta, recessiva em negro e de variedade original. Foi conduzida pelo Hugo e ambos estiveram à altura. Dos alunos presentes, somente a Joana Moura conhecia esta família agora retornada, o que se constitui numa alegria para a jovem. O lugar da Alexandra nunca foi preenchido nas nossas fileiras e é com rara emoção que a recebemos de volta, a si e à sua família. Sejam bem vindos!

Are you ready?

A Marta é a nova coqueluche da Escola, todos lhe dedicam a maior atenção e todos lhe manifestam o seu apoio, cuidados facilitados pela disponibilidade desta nova aluna. Gradualmente e contra o tempo, a Marta vai redescobrindo o viver com a natureza e a alegria de não estar só, de caminhar com outros e de dividir com eles os seus anseios e objectivos, trabalhos aliviados pelo amor que nutre pelos animais. Tem vivido experiências únicas, que segundo ela pecam por ter chegado atrasadas, novidades que têm aumentado a sua auto-confiança e contribuído para o bem-estar do grupo. Ela tem emprestado às classes um colorido único e revelado uma vontade louvável. Apesar do Rui Coito e o Américo Abreu serem os seus padrinhos, todos se interessam pela Marta e tudo fazem para que se sinta feliz entre nós. Com isto tudo, a Maggie está mais activa e alegre, adora o treino e brevemente julgar-se-á uma pastora alemã. O binómio tem o seu quê de carinhoso, tem merecido a protecção do grupo e ambas descobriram uma nova família. A Marta, trazida por bons ventos, tem vindo adquirir os indíces de disponibilidade e prontidão que nos caracterizam, surpreendentemente e em tão curto espaço de tempo. Que Deus a conserve entre nós, porque tudo fazemos para que assim continue. Parabéns Marta, o teu lugar é no nosso meio!

Unidade de propósitos e comunhão de vida

Nenhum grupo de trabalho subsiste sem comunhão de vida e ninguém pode andar com um pé dentro e outro fora se quer chegar acompanhado. Os portugueses são tradicionalmente desunidos e independentes, resistem ao colectivo e enveredam por acções individuais, são mais tribais que universalistas e agem segundo a sua génese. A nação resultou duma desavença entre mãe e filho e todos os que por aqui passaram foram congregados à força. Uma das partes mais omissas da nossa história, particularmente ignorada por causa do nosso sentido europeu, também porque a história é escrita pelos vencedores, é a relativa às duas tribos berberes que ocuparam a Península Ibérica: os macemuda e os zenagas, de quem se calhar também herdámos a nossa cegueira individualista, tradicionalmente desunidos e constantemente em guerra uns com os outros. Largando o campo hipotético, uma coisa é certa: os portugueses são naturalmente desapegados, em cada um há uma sentença e só se congregam por imperativos. Quem andou pelos círculos da emigração sabe, por experiência própria, que é mais fácil obter apoio junto dos galegos do que próximo de alguns portugueses, porque o português tendencialmente abraça o estranho e despreza o seu igual, na ânsia de se camuflar e no esforço para ser aceite, o que acaba por denunciar um injustificado complexo de inferioridade, geralmente mais comum nas classes sociais menos favorecidas.

Contrariando essa propensão nacional e combatendo o actual viver quotidiano, isolado, fratricida e desinteressado, a Acendura apresenta-se como um projecto colectivo, de cariz familiar onde todos são bem vindos. A opção pelas aulas colectivas prende-se com esses propósitos, estabelecendo o discipulado, a paridade entre os binómios e a sua mais-valia enquanto agentes de ensino, tomando como ponto de partida a necessidade gregária humana e o viver social dos cães. Ainda que o desempenho cinotécnico seja o nosso objectivo, temos como meta principal, para além do seu apetrechamento, a recuperação dos donos nos aspectos anímico, cognitivo, físico, psicológico e social, mediante a comunhão de vida proposta ao redor dos cães. Por causa disso, nem tudo o que fazemos tem a ver com a canicultura ou com a cinotecnia, vai para além e procura o bem-estar dos homens que se tornaram condutores caninos. A extensão dos nossos horários e a escolha das nossas actividades, para além de aumentarem o quadro experimental dos cães e operarem assim o desenvolvimento do seu impulso ao conhecimento, oferecem ainda momentos raros de comunhão de vida para os seus líderes, através de jogos que propiciam o aparecimento do espírito de corpo e de acções que reforçam a dinâmica do grupo, o que favorece a unidade e o estabelecimento de vínculos afectivos entre os alunos, num espírito idêntico ao encontrado nos camaradas de armas ou nos companheiros de trincheira. Não queremos ninguém só, todos temos um caminhar comum, para além das diferenças e na defesa da fraternidade – os nossos cães só ganharão com isso!

Caderno de ensino XXVII. O lateralizar

O lateralizar é uma figura de obediência sem comando específico, que tanto pode ser solicitada através do comando de “junto” como pelo batimento da mão esquerda do condutor, quer o binómio se desloque para o lado da reunião quer lateralize para o lado esquerdo. A execução perfeita da figura obriga ao lateralizar do cão sem o concurso de qualquer adiantamento ou atraso. A deslocação para o lado do condutor é mais fácil do que a para o lado do cão, devendo começar-se o seu ensino por aí. Para garantir a perfeita lateralização do animal, que nunca deverá adulterar o “junto”, podemos valer-nos de uma vara indicadora ou do concurso da nossa mão esquerda. Só se deve ensinar um cão a lateralizar depois dele ter absorvido os comandos de “à frente” e “atrás”, que funcionarão como subsídios para a obtenção da figura. O lateralizar, uma vez assimilado como automatismo gestual, pode garantir a recolocação silenciosa do cão em cena e respeitar a marcação tanto nos decors quanto no plateau. Exceptuando as necessidades ligadas ao mundo do espectáculo (cinema e televisão), a figura é utilizada nas exibições de obediência ou como meio para reforçar o “junto”. O movimento torna-se mais fácil entre os cães menos angulados e de dorso paralelo à linha do solo.

Actividades de campo

As actividades deste fim-de-semana foram de campo, de índole operacional e sociológica, relativas à prestação dos cães e ao melhor desempenho dos donos, havendo ainda lugar para acções típicas de defesa. Os trabalhos desenvolveram-se entre a Capital e Tocadelos, a concorrência às aulas foi grande e o empenho não se ficou por menos. Foram notadas as ausências da Alexandra Ferreira, Ana Pinto, António da Cunha e Clara, entre outros condutores.

Participaram nos trabalho os seguintes binómios: António Almeida/Shadow, Bruno/Iris II, Carla Abreu/Becky, Carla Ferreira/Dirka, Célia/Igor, Francisco/Iris, Joana/Flikke, João Moura/Bonnie, Liliana/Bolt, Luis Leal/Rocky, Maria Luis/Tyson, Marta/Maggie, Miriam/Índigo, Patrícia/Boneca, Roberto/Turco, Rodrigo/Tarkan, Rui Ribeiro/Babel, Tiago/Sane e Vitor Hugo/Yoshi. O Américo Abreu e o Rui Coito colaboraram no desenvolvimento dos trabalhos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Os cães de caça no adestramento convencional

A elaboração deste pequeno artigo prende-se com a presença de cães de caça nas nossas fileiras, situação que se vem repetindo ao longo dos anos e que merece cuidados especiais da nossa parte, porque adoptámos as aulas colectivas e não desprezamos os benefícios oferecidos pela “troca de condutores”, enquanto manobra de sociabilização e subsídio pedagógico de valor inestimável. Os cães de caça são animais únicos, extremamente sensíveis e duma docilidade extrema, ainda que alguns sejam um pouco distantes e arredados da parceria. Para além disso, eles não aguentam a disciplina rígida e desencantam-se com a mecanicidade das acções, porque colidem com a sua carga instintiva, obstando assim ao prazer inerente à sua aprendizagem. O cão de caça necessita de ser cativado, conduzido pelo coração e com muito açúcar, porque facilmente se isola e envereda pela desconfiança. O ideal para um cão do grupo de caça é ser treinado num centro próprio para as suas características, onde o treino será seguramente mais do seu agrado e de acordo com as suas potencialidades. Mas como o mundo persiste em andar às avessas, a maioria dos cães urbanos é injustificadamente de caça, para incómodo dos donos e martírio dos cães, porque aos primeiros falta tempo e aos segundos a liberdade. A coabitação forçada irá obrigar-nos à sua adaptação, a uma capacitação para além das suas tendências particulares, que deverá acontecer de modo suave, tolerante e sem cronograma predefinido, tal qual um namoro votado à maior das cautelas – o cão de caça necessita de ser conquistado. Doravante, quando lhe couber conduzir um cão deste grupo, seja generoso e delicado, respeite a sensibilidade e a desprotecção do indivíduo que o acompanha, porque ele foi feito para ir adiante e ninguém quer que ele se perca. Conduzir cães de caça é a melhor das terapias para aqueles que pressupõem ser muito carinhosos, porque o adestramento é uma permuta e os cães agem por reflexo. Se todos os condutores iniciassem o adestramento com um cão de caça, certamente seriam melhores líderes e alcançariam resultados superiores.

A ideia, o momento e a foto

Fotografar animais nunca foi fácil e encontrar um especialista nesta arte ainda é mais difícil, porque exige experiência e conhecimento, um envolvimento tangível àquilo que se pretende retratar. Um bom profissional sabe encobrir defeitos, enaltecer virtudes e captar os momentos a perpetuar, geralmente únicos e absorvidos pelo seu instinto, porque um fotógrafo é essencialmente um caçador de imagens. A divisão entre fotógrafos amadores e profissionais não é arbitrária, porque qualquer um bate fotos e apenas alguns sabem o que retratar. Ser um bom fotógrafo de retratos ou paisagens não implica em ser um bom fotógrafo de animais, porque o objecto é outro, obriga à novidade de planos e a outro tipo de enquadramentos. Um bom fotógrafo de cavalos ou cães é geralmente alguém assaz ligado à equitação e à cinotecnia, um indivíduo que sabe o que procura e encontra aquilo que é importante nessas artes. Os fotógrafos das actividades da Acendura, gente imprescindível para a divulgação dos nossos ideais, são maioritariamente elementos neutros e não condutores cinotécnicos, pessoas que acompanham os seus pares no decorrer do adestramento. As fotos por eles produzidas, na sua maioria, reflectem os condicionalismos da sua investidura pedagógica e raramente os momentos inolvidáveis que o treino oferece, segundo as suas expectativas e aquém da mais-valia dos simulacros operados ou da excelência dos exercícios realizados. Em média, aproveitam-se 18 fotografias das 200 que semanalmente nos são enviadas. No intuito de alcançar melhor qualidade e enaltecer o nosso trabalho, adiantamos de seguida algumas sugestões, conselhos que não dispensam o aproveitamento e a capacitação individual de cada um na arte de fotografar, o que é expectável e desejável, porque somos um projecto colectivo que sobrevive pelo concurso do rendimento individual – todos são importantes e todos têm uma missão.

Em abono da verdade, diga-se, quem deveria ser o fotógrafo das actividades seria o adestrador ou aquele que administra as classes, sobrecarga quase impossível atendendo ao bom andamento dos trabalhos. Não sendo isso exequível, coisa há muito verificada, o fotógrafo indigitado deverá inquirir junto do adestrador o que fotografar, trabalhando debaixo do seu parecer e de acordo com o desenvolvimento das classes, contribuindo desse modo para o melhor registo dos trabalhos e para a exaltação do grupo em instrução. A sublimidade de uma foto encontra-se condicionada à ideia e ao momento, a ideia é-lhe prévia e o momento aguardado. Convém não esquecer que estamos a tratar de fotografias de propaganda, sabendo-se de antemão que uma foto pode valer mais do que mil palavras, porque poderá despertar num só momento uma ou mais emoções nos seus destinatários. Cada foto deverá pressupor um convite, precipitar um desafio, buscar apoio ou desaprovo – ninguém lhe deverá ficar indiferente.

As metas e os objectivos de cada aula obedecem ao seu plano e dele irá resultar o tema da semana (a publicar no blog e no site), que indicará também qual o motivo das fotos (ideia), já que elas irão ilustrar e explicar o trabalho que foi desenvolvido. A obtenção de fotos alheias a estes propósitos, como claramente se antevê, irá obrigar a adaptações e por vezes até à alteração dos temas propostos ou desenvolvidos, o que não é fácil e obriga a algum transtorno. Os fotógrafos das nossas actividades, ainda que não tomem conhecimento imediato disso, são repórteres fotográficos, gente que imortalizará cada momento dos nossos procedimentos, dificuldades e vitórias. A ideia para as fotos será desnudada pelo tema do Plano de Aula e ser-lhe-á circunscrita (enquanto uns trabalham os cães, os outros registam para a posteridade o seu esforço). Quando não existe unidade entre o trabalho e a reportagem fotográfica, falta-se à verdade, desconsidera-se o trabalho e dificulta-se o esclarecimento. Para que isso não aconteça, é necessário que o fotógrafo aja em sintonia com o adestrador em exercício, porque ele, melhor do que ninguém, saberá o que publicitar ou divulgar, de acordo com a salvaguarda do grupo e a excelência do seu trabalho.

O momento para as fotos deverá ser procurado quando as metas ou objectivos forem alcançados, podendo também ser encontrado nas distintas etapas que os antecedem. O recurso à fotografia e ao vídeo são subsídios didácticos que nenhuma escola pode dispensar, porque denunciam erros, adiantam soluções e explicam os caminhos para os automatismos (como fazer). Tanto os planos como as perspectivas das fotografias deverão pressupor o fácil entendimento daqueles que não se fizeram presentes e que aguardam em casa a compreensão dos trabalhos, porque a foto é também notícia. Aconselhamos aos nossos fotógrafos um melhor aprofundamento nessa arte e na cinotecnia, para que os seus trabalhos evidenciem o que temos para oferecer, em prol dos binómios, a bem dos condutores e para alegria dos cães. A imagem é o modo mais rápido para transitarmos do nosso pequeno círculo para o mundo de todos nós.