segunda-feira, 20 de abril de 2009

De volta à Escola com a Primavera e muito trabalho

Finalmente voltámos à Escola, depois de tantas excursões ao exterior. No Sábado o tema da aula, tanto teórico como prático, foi o transporte canino. Estiveram presentes os seguintes binómios: Bruno/Pepe, Joana/Flikke, Jorge/Audaz, Maria/Nina, Octávio/Greg, Sofia/Bonna e Nobel, Susana/Pascoalito, Rita/Zara e Zé Gabriel/Master. Subordinados ao tema do dia, foram desenvolvidos exercícios práticos, onde o aproveitamento do Pepe foi extraordinário e o Master não defraudou. As cadelas Nina e Zara mostraram aptidões para a especialidade. As condutoras Alexandra Ferreira e Ana Cristina (Pescadinha) não se fizeram presentes, a primeira por estar doente e a segunda por motivos de formação. À Xana desejamos rápidas melhoras e à Pescadinha os melhores êxitos no mestrado.

Dedicámos o Domingo à prática da Endurance, à explicação pormenorizada de alguns obstáculos da pista táctica. Aproveitámos ainda a ocasião para ensinar novos obstáculos, alertando os condutores para a importância da técnica e para o particular de cada aparelho. Todos os binómios presentes alcançaram os objectivos e a Joana fez uma excelente aula. A condutora da Rosita “esqueceu-se” da Golden em casa e por lapso, fez-se acompanhar pelo seu CPA de dois meses de idade. Do mal o menos, acabou, como já vem sendo hábito, recrutada para fotógrafa de dia, função que desempenha com rara destreza e sentido prático. Estiveram presentes os binómios: Bruno/Pepe, Joana/Flikke, Jorge/Audaz, Paulo/Diva, Pescadinha/Teddy, Rita/Zara, Susana/Pascoalito e Xico/Pongo. Apesar de convidado, o Tiago do Rex não pode comparecer por razões de trabalho. Sentimos a ausência do Jürgen e alegrámo-nos com a visita do Sr. António Moura. Ao contrário de Sábado, o Domingo foi primaveril, ensolarado e próprio para a prática desportiva. Agradecemos ao Bruno os seus dotes de jardineiro, o cuidado que dedica à limpeza da pista. Lembramos que as aulas começam às 10 horas e 30 minutos.

O Rui está em Angola

Neste tempo de crise são as famílias quem mais sofre, sujeitas a mudanças forçadas e a alterações inesperadas. No meio do reboliço, há quem insista em andar à tona de água, resistindo ao afundamento e ao eterno fado da conformação. Tal é o caso do Rui Santos, que para garantir o sustento dos seus, está a trabalhar em Angola. Longe da família e de nós, consulta com alegria o blog da Acendura, congratulando-se com o nosso trabalho e relembrando os amigos que aqui deixou. Certamente regressará mais forte, com outra experiência de vida e com novas expectativas. Nós conhecemos bem o Rui, sabemos que não é homem para se queixar, que foi temperado nas brumas do Oeste, acostumado a trabalhar, desde muito novo, nas encostas de saibro, greda e piçarra, onde o trabalho agrícola é penoso e parece não ter fim. No entanto, queremos dizer-lhe que não está só, que sentimos a sua falta e que apostamos no seu sucesso. Força Rui!

Buba: a recordista

Como é do conhecimento geral, a Buba teve uma ninhada de 10 cachorros. Revelou-se uma mãe excepcional e a sua prole excedeu o peso desejável para os 21 dias, encontrando-se todos cachorros acima desse valor. Agora cabe ao desmame continuar aquilo que o leite materno ofereceu. Parabéns ao seu proprietário, ao Roberto Mariano pelo acompanhamento dispensado. A Buba é bisneta do Warrior d’Acendura Brava, neta do Klint d’Acendura Brava e filha do Bero. Tendencialmente produzirá cachorros robustos e de alto coeficiente de aprendizagem. Esta descendente de Rhein-Moselring bateu um recorde: 117% de aproveitamento do leite materno.

O Pascoalito está de volta

Depois de prolongada ausência, o Pascoalito está de volta. Este lobeiro dominante é um dos poucos descendentes do Flick d’Acendura Brava (neto). Participou nas actividades escolares deste fim-de-semana, liderado pelo seu condutor habitual a Susana. Ninguém diria que tem seis anos de idade, atendendo à sua disponibilidade e performance. Queremos usá-lo o mais rapidamente como reprodutor. O Pascoalito é tio-avô do Jürgen. Mesmo sem ver se ver o LOP, as parecenças são notáveis, nomeadamente na cabeça e no tronco: focinho comprido, grandes orelhas, máscara de lobeiro e morfologia do tronco. Foi com agrado que reencontramos o Virgílio, companheiro de muitas das nossas iniciativas.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

::: Acendura Brava: apresentação e princípios gerais de comportamento e treino :::

O trabalho seguinte desnecessita de prefácio, porque em si mesmo é revelador
e pouco lhe há a acrescentar. Apesar disso, importa agradecer ao autor, não só
pelo presente trabalho, mas também pela dedicação à sua Escola.

Assim, reconheço a justeza dos objectivos, as regras publicitadas, as verdades
manifestas, os propósitos apontados e os benefícios procurados.

O meu muito obrigado ao Dr. Zé Gabriel.
O adestrador em exercício:
JLS.Garrido


Objectivo

O presente texto tem por mero e limitado objectivo dar a conhecer a Escola e, de forma muito sucinta, alguns princípios gerais de comportamento e de treino.

As aulas teóricas são sustentadas em manuais e textos da autoria do responsável pelo adestramento, no qual são desenvolvidos os conteúdos de ensino, de acordo com o estádio de evolução dos binómios, desde as fases iniciais até aos níveis superiores de preparação.

A Acendura Brava

A Acendura Brava é um centro de treino canino que, beneficiando de uma experiência de cerca de 35 anos, se encontra aberto a todas as raças de cães, tendo em vista o respectivo adestramento e, quando esse seja o caso, a sua reeducação, eventualmente em regime de internato. A admissão dos cães pode ser condicionada à apresentação de atestado de robustez ou de outros exames a efectuar por médico-veterinário.

Para além do mero ensino comportamental, o adestramento na Acendura Brava tem em conta as necessidades fundamentais de correcção morfológica dos cães, através do uso de aparelhos (obstáculos correctores) e de exercícios adequados.

Como centro de treino canino a Acendura Brava não se assume como “escola de cães”, mas, sim, como escola de condutores. Nesta conformidade, os condutores constituem o discipulado e é por seu intermédio e com a sua participação activa e permanente que se alcança o adestramento dos cães.

Os condutores integram uma de três classes, designadas pelas letras A, B e C, de acordo com certos critérios de preparação e idade dos cães. A integração na classe A depende, sempre, da prestação de provas de acesso.

A pista de treino da Acendura Brava qualifica-se como “pista táctica”, na medida em que procura representar os obstáculos com que o cão pode deparar na realidade, designadamente em função do fim a que se destina. Como tal, é uma pista em permanentes evolução e mudança. Nessa pista é praticado o ensino elementar, o ensino especial e, em certas condições particulares, o treino de “endurance”.



Seis regras elementares de comportamento na Escola

Os cães entram e saem do recinto da Escola conduzidos à trela.

Os condutores apresentam-se para as lições à hora do respectivo início, devendo tempestivamente comunicar qualquer falta ou atraso.

Os condutores, antes da saída, limpam e arrumam nos devidos lugares o equipamento próprio que permaneça na escola (v.g. bebedouros).

Os binómios não devem entrar na pista sem prévia autorização do adestrador.


Nenhum obstáculo de “endurance” (identificados pelas extremidades vermelhas) pode ser efectuado sem a presença do adestrador e sem a sua prévia autorização.

No “círculo de obediência” e, de um modo geral, no decurso dos exercícios de treino, os condutores devem guardar silêncio entre si e tomar atenção às correcções e indicações do adestrador, ainda que se refiram a outros participantes.



Equipamento básico

Os condutores devem usar vestuário confortável e prático, com especial cuidado quanto ao calçado.

O material de condução elementar é constituído por estrangulador de cabedal e por trela de 1,80 metros, de modelos aprovados pela Escola.

Estrangulador e trela deverão ser marcados pelos donos.

Cada condutor deve possuir um bebedouro para o seu cão, adequado às características deste e também identificado.

Razão de ser do adestramento

O adestramento do cão permite que este adquira comportamentos próprios da sua integração no meio social humano, em resultado de comandos de obediência inseridos, mas tem um objectivo último mais vasto e que respeita a dotar o animal de condições de saúde e bem-estar e das que lhe permitam sobreviver no meio em que está inserido, face às dificuldades que se lhe apresentam.


O método seguido: método da precocidade

Fundado nos ensinamentos de Konrad Lorenz e de Trümler o método da precocidade preconiza o adestramento dos cães a partir dos quatro meses, aproveitando os seus ciclos de crescimento. Assenta sobretudo na ideia da persuasão, contrariando os métodos anteriores fundados na coerção e no ensino a partir da idade adulta (um ano). Relativamente aos animais chegados à Escola em idade mais avançada o método tem necessariamente de ser ajustado em função dos seus carácter e condições físicas.

Disponibilidade física e equilíbrio emocional do condutor

O treino do cão é dirigido pelo adestrador mas executado pelos condutores, salvo em situações especiais. Daí que, por um lado, o ensino vise primeiramente o próprio dono do cão, que tem de aprender o que pode e deve fazer e, por outro, exija do condutor disponibilidade física e uma emotividade equilibrada, que permita adequar os seus comportamentos às circunstâncias do treino.

Perseverança, paciência e rigor

Os novos condutores iniciam um processo de aprendizagem que exige, a um tempo, aquisição de conhecimentos teóricos, destreza de execução e dispêndio físico para que muitos não se encontram preparados. É natural que sintam dificuldade e pode acontecer que experimentem em algum momento a tentação da desistência. Nessas ocasiões, sugere-se que se colha o ânimo necessário para continuar no exemplo dos binómios mais adiantados, que sentiram e venceram iguais dificuldades. A perseverança cedo dará os seus frutos.

Também é natural que algum desânimo se instale quando, não obstante toda a boa vontade, o discípulo cachorro teima no desacerto. Não há que deitar culpas para o cão, que ainda está incipiente ou incerto. A aprendizagem exige tempo e paciência.

Tome-se por certo que as “faltas” do cachorro são sempre “culpa” do condutor e que, por isso, importa determinar os erros cometidos que levaram à inexecução ou à deficiente execução e proceder à sua correcção, com diligência e rigor.


Fidutia et labor

O adestramento exige confiança na capacidade de transformação e de realização. O condutor inseguro transmite imediatamente esse seu estado de espírito ao cão e leva-o, sem querer, ao insucesso. Mas não se confunda confiança com destemor imprevidente. A verdadeira confiança reside na convicção de ser capaz sustentada na segurança de saber fazer. E esta adquire-se com o trabalho, progressivo e insistente, esforçado e profícuo. Daqui o lema que se lê no calcetado do circulo de obediência: Fidutia et labor, confiança e trabalho!..

No adestramento canino só se alcançam os objectivos com trabalho, ainda que o treino tenha como horizonte próximo um grau inferior de condicionamento. Por isso na Acendura Brava não se estabelecem quaisquer limites à permanência dos alunos, dentro dos horários de funcionamento. Pelo contrário, a regra da Escola é a de motivar os condutores à máxima assiduidade e à máxima permanência, a de transformar a Escola no “seu” centro de trabalho. Para além das aulas curriculares, o condutor pode sempre usufruir das instalações da Escola e do apoio do adestrador tendo em vista o aperfeiçoamento e a progressão do binómio.

A confiança refere-se, também, ao próprio ensino. Mas não de forma cega ou gratuita, senão pela compreensão das razões e pela verificação prática. Por esse motivo o ensino teórico faz-se, na Acendura Brava, de forma participada, por meio de leituras explicadas e comentadas e resolução das dúvidas levantadas, com expressão, sempre que possível, em situações reais.

Grupo escolar

O ensino leva à constituição de binómios operativos. Condutor e cão passam a constituir uma “unidade”, distinta e diversa das demais. Todavia, no grupo escolar, os condutores e os seus cães actuam igualmente como agentes de ensino dos restantes participantes, mormente na execução de exercícios de adestramento. Por outro lado, sem prejuízo do espírito competitivo, próprio das pessoas e dos cães e que é saudável e motivador, o grupo escolar assenta em princípios de entreajuda e solidariedade, tendentes à formação de uma colectividade. O espírito colectivo que se deseja tem uma das suas mais interessantes expressões nas apresentações públicas da Escola, à qual concorrem actuais e antigos alunos.



Binómio e liderança


Binómio é o conjunto formado pelo cão e pelo seu condutor, entre os quais deve ser estabelecida e mantida uma relação profunda de amizade e cumplicidade, sem prejuízo da supremacia hierárquica do dono. A perfeita operacionalidade do binómio depende, ainda, da altura relativa dos seus elementos.

O cão só compreende a vida em matilha, nesta transformando o agregado familiar em que é recolhido e no qual procurará o seu lugar relativo. Dependendo do seu temperamento (muito dominante, dominante, submisso, muito submisso, inibido), assim o cão tenderá ou não, mais ou menos intensamente, a procurar um lugar cimeiro ou subordinado. Pretende-se que o cão possua um temperamento forte e voluntarioso mas que em todas as circunstâncias reconheça no seu dono e condutor o chefe da matilha. A liderança pelo condutor é condição necessária, ainda que não suficiente, para o êxito do adestramento.

Liderança não significa violência ou domínio pela força. A violência está arredada do adestramento, tomando-se por tal todo o tipo de agressão física ou psicológica gratuita ou desproporcionada. Mas supõe, sempre, a imposição da vontade do dono, quando operada dentro dos limites das capacidades do cão, não lhe permitindo evasivas ou fugas, ainda que pequenas, ao que é comandado. A admoestação verbal com uso do comando inibitório “não” será, as mais das vezes, remédio para as faltas.

O cão em casa

O adestramento ministrado na Escola tem de ser repetido pelo condutor, no seu ambiente doméstico, relativamente àqueles exercícios que não exijam condições especiais e para os quais tenham absorvido os correspondentes meios técnicos de execução – recapitulação doméstica.

É ao condutor que cumpre assegurar a alimentação e a higiene do cão, o passeio diário, a deslocação ao veterinário, a medição da temperatura e das pulsações, a verificação do estado das fezes, o cumprimento do calendário de vacinação. Nenhuma destas tarefas pode ser confiada a terceiros, a não ser em situações de premência inultrapassável.

A higiene do cão supõe a sua limpeza diária, com uso de equipamento adequado, a desparazitação regular, a utilização de desinfestantes, a alimentação adequada.

O passeio é fundamental para o desenvolvimento muscular, para a correcção de aprumos, para que o cão se torne confiante na presença de situações passíveis de lhe causar temor e para que se aperceba dos perigos que tem de evitar. Mas passeio não é um circuito descontraído em torno do quarteirão ou num jardim próximo, em que ao cachorro se permita cheirar criteriosamente os odores dos que o precederam. Este ritual dos cheiros é necessário, corresponderá a um momento de descontracção e de lazer mas não substitui o andamento à trela, em marcha junto do dono, concentrado na própria progressão, ginasticado, firme e na extensão recomendada. Impõe-se nos passeios a variação dos locais e dos ecossistemas.

Os demais elementos do agregado familiar do condutor são, relativamente ao animal, elementos neutros. Não participam das tarefas fundamentais cometidas ao dono, senão em circunstâncias excepcionais e evitando comandos inibitórios. São, todavia, imprescindíveis para o desenvolvimento psicológico do cão, comportando-se como companheiros de matilha, com quem o cão brinca e sobre quem exerce a sua função protectora. Os elementos neutros deverão acompanhar o condutor durante as aulas, sempre que possível.

Conhecer o cão

O cão é um indivíduo, com características próprias que devem ser conhecidas. Mas participa das que são comuns à raça, que igualmente devem ser apercebidas. A posição das orelhas e da cauda, os sons que emite, as atitudes corporais, devem ser estudadas e compreendidas, de modo a que a simples observação do canídeo permita aperceber um estado de alerta indicativo da aproximação de estranhos, um convite para a brincadeira, uma reacção de temor, a eminência de uma atitude agressiva, um pedido de ajuda, etc. Deve o condutor igualmente possuir algum conhecimento da morfologia do cão e dos seus aspectos funcionais


Viver com cão

Ao cão deve ser conferido um elevado estatuto, o de segundo no comando. É quem caminha ao lado do dono; é o zelador do bem-estar e da segurança do dono e de tudo e todos que a este pertencem. E isto é incompatível com o desprezo pela sua convivência, pelo ostracismo, pela vida entre as quatro paredes do canil. Sem dúvida que um canil se revela necessário em diversas ocasiões, mormente para salvaguarda da integridade do cão, mas não deve constituir uma “gaiola”, a cuja porta o dono se apresenta apenas para entregar comida e pedir trabalho. Viver com o cão, partilhar com este inteiramente o ambiente doméstico, permitir-lhe assento no sofá da sala, deixá-lo enrolar-se, à noite, aos pés da cama, ouvir-lhe o arfar sossegado enquanto se trabalha no escritório é percorrer o caminho certo para a construção de um binómio são. Infelizmente será, também, o “pesadelo” de donas de casa criteriosas…


O cão na Escola

Todas as aulas obedecem a um figurino estabelecido pelo adestrador, tendo em conta a diversidade dos binómios, o seu grau de evolução ou de capacidade e as necessidades específicas de cada um. Trata-se de uma tarefa complexa, raramente apercebida pelos condutores, que supõe um conhecimento particular e completo de todos os binómios, a definição de objectivos e o estabelecimento de metas para cada um. Sejam estes quais forem, porém, todas as aulas alternam períodos de trabalho (geral ou específico) com períodos de descanso dos cães, nos quais lhe é devida compensação pelo trabalho realizado..

O cão trabalhou, efectuou com êxito o que lhe foi determinado ou, pelo menos, evoluiu nos exercícios solicitados. Está cansado, apetece-lhe refrescar-se e anseia pela atenção do dono, pelo afago demonstrativo de agrado. Tem, isto é, direito à compensação, não a uma qualquer compensação, tímida ou distante, mas, sim, à compensação próxima, efusiva, exuberante. Nenhum condutor deve sentir-se inibido ou ridículo por acarinhar o seu cão. Deve, ao invés, mantê-lo junto a si, mostrar-lhe apreço, acariciá-lo. E, nestes momentos, um biscoito ou outra qualquer guloseima pode ser prémio devido.


Durante a permanência na Escola os condutores devem exercer vigilância sobre os cães, mormente nos momentos de repouso ou restauro em que há maior proximidade entre os animais, a fim de se evitarem confrontos indesejáveis. A sociabilização entre os cães e a sua indiferença relativamente a outros animais são imprescindíveis. Cão que ataca outros cães (efeito turquês) é candidato à reeducação e, por isso, desde cedo deve ser condicionado à convivência pacífica mediante manobras de sociabilização. Os ataques são sempre precedidos pela fixação do alvo e, muitas vezes, desacompanhados de sinais sonoros (rosnar), devendo o condutor estar atento aos indícios a fim de os anular. Tendo em vista a habituação dos cães, estes convivem na Escola com diversos animais, designadamente gatos que circulam em liberdade.



O “círculo de obediência”

Na pista de treino está definido, em calcetado, um percurso circular, com cerca de 50 metros de perímetro, a que se chama “círculo de obediência” e onde os condutores praticam muitos dos exercícios de treino. Na gíria escolar ainda hoje se fala em “círculo de 36 metros”, que correspondia à sua anterior extensão, definida para a utilização simultânea de 18 binómios.

A evolução dos binómios assenta nas práticas de cavalaria. A esquadra é composta por seis binómios e a sua evolução pode ser feita em frente de um, dois ou três binómios. Em qualquer situação, sendo a primeira a mais comum, cada binómio deve guardar a distância de um metro relativamente ao que o precede, mantendo sempre a cadência de andamento. A formação está sujeita a certas regras de precedência, mormente em razão das raças, pelagem, idade e sexo dos cães.


Linguagem verbal e gestual

O adestramento supõe a instalação de automatismos através de comandos de imobilização e de direcção. E estes exprimem-se por ordens verbais e por gestos. As ordens verbais podem variar de vocalização, de escola para escola, e tendem a ser progressivamente substituídas pelos comandos gestuais, que, todavia, deverão desde o início acompanhar os verbais. Os gestos, que também podem variar de escola para escola, possuem desenhos próprios, adequados ao movimento que se pretende do cão.

O uso disciplinado dos comandos verbais e gestuais é imprescindível, de modo a não criar confusão e a não esgotar inutilmente a capacidade de memorização do cão. A uma acção corresponde um só comando e o mesmo comando serve para uma só acção. Esta disciplina adquire-se com a prática, mesmo porque os comandos vão sendo gradualmente ensinados ao condutor e inseridos no cão.


Postura, respiração e entoação dos comandos

Conduzir um cão deve proporcionar a quem olha uma imagem de elegância, desenvoltura e entendimento. O condutor caminha erecto, com elasticidade, olhando em frente e respirando naturalmente. As orientações dadas pela trela são quase que apenas sugeridas. E os comandos emitidos, por regra, de forma convidativa, calma, serena, ainda que audível e determinativa. Em tal imagem descobrir-se-á, até (porque não?) um pequeno toque de vaidade.

Postura, respiração e entoação de comandos, assim, definem a qualidade do condutor e condicionam a própria qualidade do cão, sendo, por isso, objecto de cuidado especial no decurso do adestramento.




Condução e mão de condução

O adestramento compreende diversos tipos de condução: à trela, em liberdade, linear (progressão com o cão ao lado do condutor), dinâmica (com alterações do andamento do cão, da marcha para o galope), nuclear (progressão da cão em liberdade, permanecendo o condutor à distância). Nas fases iniciais do adestramento a condução é linear, atrelada e dinâmica. Mais para a frente passa-se para a condução em liberdade (também linear e dinâmica) e, em estádio avançado, para a condução nuclear. A condução linear atrelada começa com o cão do lado esquerdo do condutor (condução natural ou à esquerda), evoluindo depois para o lado inverso (condução à direita).

A trela não serve de “corda” para prender ou reprimir o cão. Constitui um instrumento de ensino pelo qual se transmite o comportamento que dele se deseja. Não funciona como factor de penosidade ou desconforto, senão como meio de ajuda ou de orientação. Com a trela o cão deve sentir-se seguro, protegido, confortável. Ao uso correcto da trela corresponde uma boa “mão de condução”. E esta aprende-se, mais ou menos facilmente de acordo com a maior ou menor sensibilidade do condutor.


“Junto” – a primeira e principal vitória

A primeira e principal vitória do condutor é conseguir o “junto” na condução à esquerda, isto é, conseguir que o seu cão se desloque conduzido à trela, sem pressão para o exterior, para a frente ou para trás, quase encostando o anterior direito à perna esquerda do condutor.

Primeira vitória porque a figura exige dinamismo na marcha, postura erecta e ágil, respiração controlada, resistência física, mão esquerda actuante na trela, comandos verbais no tempo certo, tudo ou quase tudo o que o condutor ainda não possui ou não consegue. O cachorro, por seu lado, parece adivinhar as dificuldades do dono e querer agravá-las, adiantando-se, atrasando-se, parando, “pendurando-se” à esquerda… Ao fim de uns centos de metros revelam-se as sequelas da vida sedentária e o comodismo reivindica o seu lugar. Haverá, então, que fazer apelo ao ânimo e continuar, na certeza de que, em dado momento, quando menos se esperar, o cão “entra” no “junto”, compreendendo e aceitando o que dele se pretende. A partir daí tudo se torna mais leve, prosseguindo mais facilmente a tarefa de “afinação”.

Principal vitória porque o “junto” é o pilar da obediência, dele dependendo a correcção de muitas outras figuras e, em particular, o êxito da futura condução em liberdade.



“Glórias” da Acendura Brava

Desta Escola, ao longo dos seus muitos anos de actividade, saíram formados cães extraordinários, muitos aqui criados, alguns a que terceiros não auguravam futuro promissor e uns tantos que, por razões de conformação, estavam erradamente sentenciados ao abandono e à inércia. Atingiram níveis elevados de preparação, alguns, felizmente ainda vivos, chegaram ao estrelato, participando em séries televisivas e todos constituíram e constituem motivo de orgulho para os seus donos e para o seu adestrador.

Não há razões para que o seu cão não venha também a ser uma das “glórias” da Acendura Brava. A obtenção desse resultado está inteiramente nas suas mãos. Para isso,

fidutia et labor!

JGAR

terça-feira, 14 de abril de 2009

::: O exercício da autoridade no adestramento :::

Não é raro ver-se publicitado o ensino dos cães com menção destacada ao repúdio da violência. E é frequente, da parte dos donos dos instruendos, o receio de que o adestramento comporte desconforto físico para os animais.

Aquela publicitação e este receio têm na sua origem a questão de saber se e como pode ou deve ser exercida a autoridade no adestramento. Uma resposta que satisfaça aos anseios afectivos dos donos poderá indicar, na esteira da referida publicidade, um plano de ensino prenhe de condescendências e de mimos, mas não corresponderá seguramente à realidade do treino, sob pena da sua total ineficácia. Uma outra que apenas se funde na imposição brutal de condutas criará possivelmente submissões, mas sempre no limiar da revolta, à margem da relação empática que cimenta a obediência.

Neste campo, como em muitos outros, a correcção dos procedimentos não se encontra nos extremos e pressupõe que se estabeleçam algumas precisões, sem receio de maus entendimentos. Sem dúvida que não têm hoje cabimento os métodos puramente coercivos, praticados no passado, em que o treino se iniciava na idade adulta em relação a exemplares dominantes. Reconhecida a vantagem e definidos os princípios básicos do método da progressividade, que supõe o treino dos cachorros a partir dos quatro meses e o acompanhamento dos seus ciclos de crescimento, a fórmula do treino reside no aproveitamento evolutivo ou gradual das capacidades dos animais, num ambiente que não lhes seja hostil ou penoso. Mas, ainda assim, a autoridade não pode ser esquecida e é no seu modo de exercício que se colocam dúvidas e surgem equívocos.

O adestramento do cachorro é essencial em diversas perspectivas: a de garantir condições de comportamento “social” no meio humano em que foi inserido; a de o preparar para sobreviver no “habitat” em que se movimenta; a de possibilitar o seu desenvolvimento equilibrado dos pontos de vista físico e psíquico; a de fortalecer o seu temperamento, a de alcançar um determinada utilidade laboral.
Sendo necessário, o adestramento é, em si mesmo, o primeiro factor de violência contra o cão, precisamente porque confronta ou contraria a liberdade natural. Pelo adestramento o cão é forçado a conduzir-se por uma forma adversa às reacções que naturalmente tomaria e, nessa medida, o treino constitui uma violentação da sua liberdade.

Ora esta “violência” do adestramento considerado no seu todo converte-se em outras tantas “violências” quantas as situações concretas do ensino, quantos os casos em que o cão é levado a comportamentos limitativos das suas reacções naturais e espontâneas.

Mas sendo, como se referiu, fundamental para a segurança e para o desenvolvimento harmónico do cachorro, o dono adestrador não deve subalternizar esses objectivos a sentimentos momentâneos de piedade ou semelhantes, desde que, é claro, estejam a ser respeitadas as capacidades do aluno e as boas condições de desenvolvimento do ensino.

A “violência”, tomada no sentido impróprio que se expôs, de contrariedade oposta às reacções naturais de liberdade, não significa nem pressupõe mau trato, mas não exclui o exercício da autoridade pelas formas dissuasoras que lhe pertençam e no caso se justifiquem.

A matilha sobrevive mercê de uma hierarquia rigorosa, pela qual se define o patamar de cada um dos seus elementos. As posições cimeiras não são consensuais, antes conquistadas e mantidas pelo indivíduo mais forte e de perfil mais dominante. O domínio na matilha é alcançado e conservado por imposição, pela força, pela ameaça intimidativa ou, se necessário, pela agressão.

Transposto para o ambiente doméstico da sua família de adopção, o cachorro, ainda que intua a diferenciação de espécies, é levado a considerar-se inserido numa matilha – chamemos-lhe matilha familiar – e, a certo passo do seu desenvolvimento, por força de mecanismos instintivos, a procurar o seu posicionamento relativo, quiçá, por razão do seu temperamento dominante, o estádio mais elevado da chefia suprema.

Mais ou menos francamente, com arrogância ou usando de subterfúgios, o cachorro pode ascender a essa posição, na presença de um dono complacente, despreocupado ou simplesmente ignorante dos processos evolutivos da mentalidade canina. E quando tal suceder, subvertidos os termos, o dono é relegado para uma posição hierárquica inferior, perdendo os atributos de autoridade que lhe deveriam pertencer.

Nesta situação o adestramento canino é impossível. Ainda que não seja condição suficiente, a autoridade hierárquica sobre o cão é condição necessária para o ensino. A que deverão juntar-se - se acaso pudermos conceber que o cão experimenta estados emocionais equivalentes ou próximos dos humanos - a confiança no dono e a afectividade pelo dono.

Seja como for, a subversão da autoridade é impeditiva do adestramento, precisamente porque o cachorro, julgando-se dono do bastão, não aceitará sem rebeldia o condicionamento dos seus comportamentos.

De modo que, como acima se referiu, a “violência” ínsita no adestramento (condicionamento contrário às reacções naturais de liberdade) é necessariamente prosseguida através da autoridade.

Ora é no exercício desta que pode residir – e penso que muitas vezes reside – o equívoco que a questão inicialmente formulada encerra.

O exercício da autoridade em qualquer situação da vida pressupõe o acesso a métodos de conformação, a meios de execução ou cumprimento e a processos de sancionamento, que podem ser mais ou menos extensos e diversos na sua natureza, consoante o ambiente que se considere. Isto é dizer, nomeadamente, que a autoridade não se exercita simplesmente por actos de “imperium”, determinativos, coercivos, senão também, por actos de indução, de dissuasão, enformados, porém, por uma característica especial, a de que, ainda assim, não se reconhece no visado a liberdade de escolha. Seja pela ordem ou comando, seja pela orientação esclarecedora, na base encontra-se sempre a prerrogativa de impor. Por outras palavras e numa súmula, o estabelecimento de certos padrões de conduta mediante o exercício da autoridade pode passar pela dissuasão, pelo acto determinativo e pela sanção.
E assim será tanto no relacionamento humano como no animal. Como acima se referiu, a chefia da matilha é obtida pelo cão dominante e por este assegurada através de actos disciplinadores que poderão ser de aviso (dissuasores ou indutores de certo comportamento) ou de penalização de desvios da conduta requerida, por via da agressão mais ou menos intensa (sanção).

Transposta a dominância do chefe da matilha para o dono adestrador, não encontro diferenças fundamentais quanto ao exercício da autoridade, que deve passar pelo cumprimento da vontade do dono, por via, conforme as situações, de persuasão, ordem e sanção. Diferenças haverá, obviamente, nos meios concretamente utilizados e, ainda, na atribuição de recompensas pelo cumprimento, que eventualmente não se verificará em matilhas naturais.

A persuasão constituirá, decerto, o meio primário de exercício da autoridade, conduzindo o cachorro à prática dos exercícios ou figuras desejadas como que num convite forçado. Parece-me que todo o adestramento inicial com uso da trela se insere neste princípio básico de persuasão, em que o castigo está ausente. O cão, por exemplo, é motivado a caminhar junto ao dono por via dos movimentos da trela determinados pela rotação do pulso e acompanhado por palavras de censura proibitiva (“não”), de convite à correcção (“junto”) ou carinhosas de estímulo (“muito bonito”), no que se traduz, a meu ver, a ideia de persuasão. A repetição de transposição de um obstáculo após um insucesso que atemorize o animal, acompanhado de atitudes de estímulo e entusiasmo, é ainda, parece-me, uma forma de exercer a autoridade de modo persuasivo.

Numa fase em que o animal já tem assimilada a acção pretendida, mediante vocalização ou gesto, a autoridade exerce-se através da ordem pura. Se o cão já conhece o comportamento que dele se requer em situações determinadas, a autoridade manifesta-se sem necessidade de expressão, por razão do condicionamento efectuado.

É neste estádio que se colocam mais problemas no exercício da autoridade, tendo em conta que esta tem por objecto a obediência e que, neste particular, o conceito é absoluto. A obediência supõe o pronto cumprimento da ordem ou a omissão de conduta perante uma situação em que a passividade corresponda a comportamento adquirido. À voz de “aqui” o cão deve imediata e rapidamente dirigir-se para o seu dono, à voz de “alto” imobilizar-se prontamente. À passagem de um cão desconhecido ou perante um gato em corrida provocadora, deve manter-se em absoluta passividade, independentemente da voz ou da presença do dono. De uma iguaria apetitosa encontrada no chão deve afastar-se, mesmo que o dono não esteja ao alcance dos seus sentidos.

O cão que desobedece a uma ordem assimilada confronta a autoridade do dono e justifica a sanção. Sobremaneira quando estiverem em causa pressupostos da sua segurança ou da sua integridade física. Há, todavia, que qualificar rigorosamente a conduta do animal como desobediência, dado que, muitas vezes, a não execução de certa figura resulta da incapacidade do animal ou da deficiência dos comandos ou “ajudas”.

A sanção tem de corresponder, necessariamente, a um desconforto, a uma penosidade, a algo que crie no animal uma relação de natureza negativa com o incumprimento. Poderá ser, por exemplo, o afastamento do dono, em jeito de desprezo, face à desobediência do comando de “aqui”, o que lhe criará ansiedade e desejo de proximidade. Poderá ser a prisão com a trela a um poste, afastado do dono. Mas poderá ir mais longe?

A diferença entre o líder humano e o dominante da matilha animal está na impossibilidade deste de reagir para além das formas de domínio físico absoluto, da agressão física, da mordedura. O dono adestrador terá de assumir, quando imprescindível, reacções de eficácia semelhante mas não necessariamente iguais às que se observam na matilha animal. O cão dominante que afasta da comida o guloso atrevido não excede, na sua conduta agressiva, o necessário para a produção desse resultado. Castiga a impertinência na medida necessária à reposição da obediência quebrada. Não se retrai, nem se excede. Ora é este equilíbrio, esta proporcionalidade, que deve enformar a conduta punitiva e tal supõe, da parte do dono adestrador um afinado sentido de oportunidade, uma imensa serenidade. Mas, mais, porque beneficia dos atributos da inteligência, o repúdio da violência.

Castigo nunca poderá converter-se em sevícia, em mau trato gratuito. E só se compreende na medida em que, simultaneamente, seja preventivo de futuras desobediências. O castigo, para corresponder a estes requisitos de proporcionalidade e de eficácia, tem de ser aplicado no momento oportuno (na presença de uma desobediência verdadeira e própria) e sem descontrole emocional por parte do dono. Estão arredados, assim, todos os castigos exógenos aos objectivos pedagógicos do adestramento, injustificados face à conduta do cão, excessivos em presença das concretas finalidades repressivas ou preventivas ou causadores de sequelas físicas ou psicológicas. Estão, por isso, proibidas, em qualquer circunstância, as agressões corporais por qualquer meio ou modo, com a trela, uma vara ou qualquer outro instrumento, os murros e os pontapés ou outra de natureza semelhante, sempre reveladoras, quando infelizmente acontecem, do desequilíbrio emocional do dono adestrador.

Querendo reunir em parágrafos conclusivos as ideias essenciais que pretendi transmitir e guardei no decurso da minha formação na Acendura Brava, termino referindo que:

1º- O adestramento só é possível se o dono adestrador se situar numa posição de supremacia hierárquica relativamente ao cão e exercer, quanto a este, a sua autoridade.

2ª- O exercício da autoridade, fundado na faculdade de impor, desenvolve-se através de processos de persuasão, de ordens ou comandos puros e do sancionamento da desobediência, mediante sanções cautelosas, proporcionadas, certeiras (oportunas) e despidas de envolvimentos emocionais.

3ª- A sanção deve corresponder a uma conduta que cause no animal, por via do fenómeno da memória afectiva, uma relação desconfortável com a desobediência praticada, de modo a prevenir práticas futuras semelhantes, estando liminarmente arredados os castigos físicos ou corporais, permissivos de sequelas físicas e medos ou traumas inibitórios.

JGAR